sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Jornal " A noite " Edição de 13 de Outubro de 1952

Quando Maria José, filha do famoso cangaceiro "Balisa", fez importantes revelações sobre a entrada do pai no cangaço "lampiônico"






 










Créditos: "Volta Seca". Membro do Grupo Lampião, Cangaço e Nordeste (Facebook)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Homenagem

40 Anos sem Zózimo Lima

Por: Antônio Corrêa Sobrinho


Zózimo Lima
Arquivo da família

Todos os relatos históricos sobre a visita de Lampião, na noite do dia 25 de novembro de 1929, à cidade de Capela, Sergipe, terra a 67 km da capital Aracaju, referem-se a Zózimo Lima, como o encarregado dos Correios e Telégrafos desta cidade e a pessoa que esteve com o famoso e temível cangaceiro Lampião.

Muitos desconhecem, porém, que este mesmo Zózimo Lima, um simples protagonista de um grande momento do Cangaço: a marcante presença, pela vez primeira, do bandoleiro-mor das caatingas nordestinas, à zona da mata sergipana, aos tabuleiros da Capela, exitosa visita, pois lucrativa e conseguida sem maiores esforços, sem derramamento de sangue, numa quase festa, numa quase apoteose - foi um grande homem de letras, escritor e jornalista renomado.

Zózimo Lima, este mesmo homem que esteve efetivamente à mercê do instinto e da razão do grande saqueador, que viu a sua vida sob um fio, e aquele punhal assassino a lhe espreitar, a visitar com o bandoleiro lojas e residências da sua própria cidade-berço, naquela inesquecível noite de novembro de 1929, além de telegrafista concursado, era, sobretudo, um dos notáveis jornalistas sergipanos, com vasta experiência na imprensa paulista, onde foi revisor no “Correio Paulistano”, e repórter e colunista da “Tribuna” de Santos. Em Uberaba, Minas Gerais, foi correspondente do citado diário santista, e escreveu no “Jornal do Comércio” e no “A Lavoura”. Na década de 30 escreveu para o “Diário de Noticias” e “O Imparcial”, de Salvador.

Em Aracaju, foi correspondente da “A Tarde” da Bahia, e cronista do “Correio de Aracaju” e da “Gazeta de Sergipe”, respectivamente, de 1928 a 1974, período em que escreveu mais de 4 mil crônicas, na sua famosa coluna “Variações em Fá Sustenido”. Escreveu Zózimo Lima para a revista da Associação Sergipana de imprensa e para a da Academia Sergipana de Letras, instituições em que foi membro e a ambas presidiu. Zózimo Lima, como servidor dos Correios e Telégrafos, foi seu presidente na década de 1960.

No final de sua brilhante carreira jornalística, em maio de 1971, foi agraciado pela Associação Brasileira de Imprensa, com a “Medalha do Mérito Jornalístico”, conferida a brasileiros e estrangeiros que se distinguem por méritos jornalísticos sobremodo reconhecidos. Zózimo, que continua sendo um dos maiores cronistas de todos os tempos da imprensa sergipana. No próximo dia 19 de janeiro, completa 40 anos do seu falecimento, ele que nascera em 4 de abril de 1899.
Já estava por esquecer que, no dia 29 de novembro de 1929, o "Correio de Aracaju" publicou a reportagem escrita pelo próprio Zózimo, "Lampião em Capela, com o subtítulo - Informações interessantes colhidas pelo correspondente do "Correio" - a atitude digna do intendente Antão Corrêa
- Lampião acha que a vida do cangaço é bem divertida - outras notas. Texto referência quando se quer dizer deste grande acontecimento que foi a ataque de Lampião a Capela, e que Zózimo, com certa frequência em suas muitas crônicas fez registrado aquele momento em que compartilhou experiências com o grande bandoleiro das adustas terras nordestinas.

Ao seu filho remanescente, Zózimo Lima Filho, dedico esta lembrança.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Convite

Para rememorar os 68 anos de morte de beato José Lourenço e remanescentes da comunidade do Caldeirão.



Data: 12/02/2014 (quarta-feira) - Horário: 17h.
Local: Capela do Perpétuo Socorro em Juazeiro do Norte/CE.


Fonte: ONG Beato José Lourenço
Curta a página da ONG no Facebook: Clique Aqui

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Jornal da Tarde (O estado e São Paulo) 31 de Julho de 1973

A História que nos perdoe. Mas por que não se conta de uma vez a verdade sobre o Cangaço?

Por: Claudio Bojunga

Dizer que Padim Ciço, um santo, fez Virgolino Ferreira um bandido é um sacrilégio. Mas o santo fez o bandido virar capitão, sim, embora historiadores do cangaço omitam esse episódio em seus livros. Há outras omissões. Embora os personagens da História ainda estejam dispostos a depor para a História. Por enquanto, porque estão todos muito velhos.

O coronel aposentado Higino José Belarmino, o homem que mais combates travou com Lampião e seu bando, durante a primeira fase do cangaço, até 1928, desistiu de ler qualquer livro, jornal ou revista que trate desse assunto. Tem dois motivos para isso. O primeiro é pessoal: até hoje, segundo ele, ninguém descreveu corretamente a morte dos dois irmãos de Virgulino Ferreira, Antônio e Livino, considerados por todos como mais violentos, ferozes e ousados do que o irmão. Prova é que morreram logo, em combates com o então tenente Higino.


cel. Higino José Belarmino
Foto: Josenildo Tenório

O segundo motivo – e o que mais irrita o coronel – é a sua obsessão pela minúcia. “Já perdi a conta dos doutores (escritores, jornalistas, sociólogos) que vieram aqui falar comigo. E esta é a segunda vez que trazem a maquininha (gravador)”. A maioria dos entrevistadores do coronel conversava horas – até dias – com ele, anotando um dado ou outro, geralmente datas. “Um negócio feito assim só pode sair torto”, diz ele. O coronel está alertando, com muita seriedade, todos os estudiosos do assunto.

A maioria dos livros históricos – que fique claro: a maioria – ou ensaios sobre cangaceirismo parte de premissas discutíveis (alguns até partem de preconceitos) ou escolhem, a esmo, um determinado ângulo do fenômeno. Então temos livros que, sem maiores explicações, rotulam Lampião de “revolucionário”, vestem-no de Robin Hood, tratam as volantes como “forças opressivas” e, no fundo, descrevem o velho lugar comum que leva o leitor a identificar o bandido como mocinho e vice-versa. Se a intenção é politica, esses escritores perdem, nos seus preconceitos, ótimos detalhes que até ajudariam a defesa de suas teses; que, por exemplo, os métodos usados pela polícia na luta, em nada, mas em nada mesmo, se diferenciam dos métodos dos cangaceiros.

Quando o coronel Higino diz que “eu era um boi”, fica claro sua identificação com os inimigos. A volante, enfim, seria um grupo de cangaceiros funcionários públicos. Igualmente ferozes e ingênuos. Outros pontos: não é possível pesquisar o cangaço sem o conhecimento profundo da República Velha, das condições socioeconômicas do Nordeste, na época, da psicologia do seu povo, das complicadíssimas árvores genealógicas, os clãs, os feudos, as pequeninas máfias. Como falar de cangaço sem o entendimento das relações estado-igreja-povo? A função dos beatos, o messianismo, o compadrismo político, tudo isso contribuindo direta e indiretamente para a formação dos bandos sanguinários, na verdade manuseados por uma série de elementos que vão desde o cínico senhor feudal às relações econômicas do Nordeste com o Centro-Sul. Há um exemplo edificante, de um homem que pesquisa o assunto há mais de vinte anos e ainda não escreveu o seu livro: o paulista Antônio Amaury C. Araújo.

O jovem Amaury
(Cortesia do mestre para ilustrar o artigo)

À medida que ele avança no conhecimento do cangaceirismo, mais dados lhe são exigidos. Talvez uma pesquisa dessas, que além de muita cultura e paciência, obriga a gastos inestimáveis de dinheiro, nunca venha a ser feita no Brasil. A solução poderia estar num trabalho de equipe, financiado por uma riquíssima instituição cultural. E alguém teria realmente interesse de esmiuçar tão obsessivamente um período regional da História do Brasil? É fácil concluir que um trabalho assim é impossível, mas não se pode perdoar a desonestidade (ou o despreparo, vá lá) de alguns autores. Como é possível perdoar um “historiador” que, pelo simples fato de venerar o Padre Cícero do Juazeiro, omita da sua “história do cangaço” o episódio da “promoção” de Virgulino Ferreira a “capitão”?

Alguns personagens desta página – todos da primeira fase do cangaço, a mais desconhecida, que vai de 1924 a 1928, quando Virgulino atravessou o rio são Francisco e foi brigar na Bahia – estão dispostos a testemunhar, depor. Ainda podem chegar à minúcia. Mas os historiadores bem intencionados devem se apressar: a média de idade dessa primeira fase está por volta dos oitenta anos.

A arteriosclerose começa a apagar a memória de muitos. A morte natural está bem próxima. E logo agora que se descobre que cangaceirismo está longe de ser um assunto esgotado pela História, como dão a entender os representantes do sensacionalismo escrito, falado, filmado e televisionado.

Créditos para Antônio Correa Sobrinho

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Convite

Lançamento em Aracaju

O jornalista e escritor baiano Renato Luís Bandeira apresenta para os sergipanos o "Dicionário biográfico Cangaceiros e Jagunços". A pesquisa reuniu mais de mil nomes de cangaceiros e contém mais de cem fotografias individualizadas com as respectivas legendas.

Tem 310 (Trezentas e dez) páginas, sendo a parte iconográfica toda em papel couché. O lançamento ocorre na próxima Terça-feira dia 21 de janeiro as 18:00hs na Livraria Escariz do Shopping Jardins .

Maiores informações:  (71) 9162-0304

Foto: divulgação

O lançamento também ocorrerá em Serra Talhada, Recife, João Pessoa, Cajazeiras/PB, Mossoróe Fortaleza. Estaremos divulgando posteriormente os dados para aquisição via email pro resto do país.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

5 de abril de 1930, no “A Tarde”:

O Fogo de Favella - Pery-Pery, em Juazeiro

Transcrito por: Rubens Antônio

O combate de Favella narrado pelo commandante da força que destroçou os bandidos

A emboscada na escuridão da noite - A força responde corajosamente ao fogo - Retiram-se os bandidos sob a pressão da policia. O famigerado bandido que ha tres annos assola os sertões nordestinos, usando uma velha tactica, caiu na caatinga onde a perseguição é praticamente impossivel.

Damos hoje, como materia muito interessante, a “parte do combate” do tenente Odonel ao coronel Terencio Dourado, commandante das forças em operações, sobre o encontro de Favella.
“Tinha Lampeão desapparecido nas proximidades do Estado de Sergipe, na fazenda Riachão, no dia 27 de dezembro do anno passado. Os destacamentos volantes procurando descobrir o esconderijo, cruzavam as caatingas em differentes direcções, empregando o esforço possivel para não deixal-o escapar.

Por ordem do capitão Macêdo, havia eu ido bater nas caatingas de Fonseca, Vacca Branca, Estreito, Lagoinha, Umbuzeiro, Tameberi, Sítio dos Ferreiras, Montanha, Canna Bravinha, Almeida e Borracha, o que fiz sem resultado, visto não ter encontrado vestigio algum dos bandidos. A 23 d’este, estando eu na Fazenda São Gonçalo, onde havia chegado em noite de 22, recebi uma ligação do sargento Bitú, que se achava destacado em Patamuté, avisando-me de que Lampeão havia surgido na Fazenda Boa Sorte. Mandei incontinente pegar a cavalhada, fiz a ligação com Barro Vermelho e marchei para Juá, contornando a serra da Borracha, pelo lado Oeste por ser velha estrada dos bandidos, e ao chegar na Fazendo Olympio, fui informado de que Lampeão com quatorze caibras alli tinha passado todos a cavallo, ás 10 horas da manhã.

Sem perda de tempo viajei na pista, indo perdel-a ao anoitecer na Fazenda Icó, onde elles deixando a estrada se infiltraram na caatinga afim de difficultar a perseguição.

Bastante desorientado por ter perdido a direcção delles, segui para Cacimba da Torre, onde cheguei muito tarde sem noticia alguma, rasão porque alli pernoitei de 23 para 24.No dia seguinte (24) procurando descobrir novamente a pista segui para Salta de Pedra, São José e Paredão onde felizmente elles tinham passado ao amanhecer do dia. Mais animado então por ter encontrado a pista, marchei para Lealdade, Sítio, Caldeirão da Canôa, Caldeirão de Cima e Campos, fazendo n’este ponto pequeno e stacionamento ás 18 horas afim de descançar um pouco a cavalhada, que estava exhasuta e faminta.

Depois de uma hora de descanço proseguiu viagem, forçado a marcha um pouco, depois de ter passado pelas Fazendas Mudubim e Boqueirão, onde Lampeão havia pegado o estafeta e queimado a mala, alcancei ás 24 horas a Fazenda Periperi, que dista da cidade de Joazeiro 15 kilometros, onde fui informado pelo sr. Severiano de Tal, que Lampeão alli tinha chegado ás 18 horas, feito quatro cartas aos srs. cel. Miguel Cerqueira, dr. Adolpho Vianna, cel. Ignacio Macêdo e cel. João Evangelista exigindo dinheiro, e viajado ás 20 horas para a Fazenda Favella de onde mandou buscar um cantil de cachaça e uma corrente de ouro, que por esquecimento tinha deixado.

Immediatamente, mandei deitar a cavalhada no pasto, reuni os destacamento, n’este momento já desfalcado devido terem se atrazado cinco soldados que viajavam á pe, procurei um rapaz para me servir de guia, e aos 15 ou 20 minutos do dia 25 viajei para a Favella que dista de Periperi tres kilometros.

O meu destacamento então composto por dezenove homens commigo, bem escalonado viajava, guardando profundo silencio. Depois de uns trinta minutos de viajem o guia avizou-me de que nós nos aproximavamos de Favella, e tira uma camisa que usava afim de se confundir com a escuridão da noite. Estavamos effectivamente sahindo da referida Fazenda.

O sentinella dos bandidos percebendo a approximação da força faz fogo a curta distancia.
Tinhamos cahido, portanto, na emboscada que elles haviam preparado afim de aguardar o regresso do portador que tinha ido a Joazeiro ou a chegada de qualquer força, exactamente o que aconteceu.
O sargento Adherbal com alguns soldados heroicamente respondem o fogo no flanco esquerdo, emquanto eu procurei desalojar alguns bandidos que estavam no flanco direito, o que não me foi muito difficil visto, n’este interim, ter irrompido forte tiroteio quasi a retaguarda dos bandidos que todavia foi de um effeito extraordinario, não obstante ser um pouco affastado do local.

Era o tenente João Candido que neste momento tão critico, mesmo ignorando a minha presença, como eu a delle, me soccorria, pois os bandidos que brigavam no flanco direito passaram logo para oe squerdo e quasi por cima d emim. No momento em que elles procuravam reunir-se aos demais asseclas, ouvi alguem me chamar, não tendo, entretanto, respondido devido achar-me n’uma posição difficil. Era o bravo e abnegado soldado Israel Martins Benicio quem me chamava por ter de se retirar da lucta com alguns companheiros conduzindo o sargento Adherbal, que se achava gravemente ferido, e não queriam me deixar. Os bandidos já reunidos e entrincheirados n’uma parede de Pedra, no flanco esquerdo continuavam brigando, deixando de quando em quando ouvir gritos e improperios. Passei, então, para o flanco esquerdo onde encontrei brigando, desassombradamente, alguns contractados; entretanto os bandidos percebendo que a acção dos atacantes tomava certa tenacidade fugiram para o Serrote chamado da Favella, terminando assim o combate que talvez não tivesse durado vinte minutos. Tudo ficou envolto em profundo silencio.

Demorei-me um pouco no local, e como não visse pessôa alguma, encaminhei-me para meu acampamento em Periperi, cuja direcção ignorava visto ter luctado em differentes posições.
Viajei com a presumpção de que fosse effectivamente para lá, o que verifiquei momentos depois não ser verdade devido a dois bandidos terem me chamado:

- “Companheiro espere ahí”

Deitei-me e esperei julgando mesmo que fossem soldados, quando ao clarão do relampago divulguei pelos chapeus que não eram soldados fiz fogo.

Travamos ali ligeira escaramuça e elles espavoridos fugiram. Mas orientado por saber a direcção dos bandidos, viajei, alcançando o acampamento ás duas horas da manhã, onde já encontrei feridos gravemente o sargento Adherbal de Medeiros Borges e o contractado José Domingos dos Santos, este com dois tiros e tendo o seu fuzil inutilizado por balas.

Ao chegar, o soldado Israel me disse já ter feito uma ligação para Joazeiro pedindo medicamentos para os feridos e mandando dizer que eu não tinha apparecido até então, julgando-me morto, talvez. Ao amanhecer do dia, após o combate de onde coletaram trasendo-me um lenço perfumado, côr de rosa, dois canecos de flandres e uma lata, systema cantil, deixados pelos bandidos. Terminando devo dizer-vos que o sargento Adherbal portou-se como todo e qualquer militar deve portar-se, isto é, com bravura, sangue frio e dedicação ao lado dos seus companheiros e da ordem. Ainda são dignos de vossa atenção o soldado Israel Benicio, e os contractados Jacintho Porphirio da Cruz, Antonio Francisco de Moraes, José Domingos dos Santos e Francisco Lopes, já pela bravura demonstrada na peleja, já pela abnegação pura que tiveram como o sargento Adherbal. Cidade de Bomfim, 30 de Março de 1930

a) 2° Tenente ODONEL FRANCISCO DA SILVA, commandante do destacamento volante.”
.

Localização das fazendas e área provável de dispersão do combate.
Feridos no combate: 3° sargento Adherbal de Medeiros Borges e soldados
Calixto Eleuterio e José Domingos dos Santos.

29 de março de 1930, no “Boletim Geral Ostensivo da Força Publica do Estado da Bahia”:

EXCLUSÃO POR FALLECIMENTO E PROMOÇÃO POST-MORTEM
Por ter fallecido, na madrugada de hoje, no H/F., em consequencia dos ferimentos recebidos em combate contra o grupo “Lampeão”, seja excluido do 2° Btl. o cabo d’esq. Calixto Eleuterio.
Considerando que o mesmo foi um valente que tinha a noção exacta do seu dever e soube cumpril-o, promovo-o ao posto de 3° sargento post-mortem.
 
12 de abril de 1930, no “Boletim Geral Ostensivo da Força Publica do Estado da Bahia”:

ELOGIO – PROMOÇÃO
Tendo no dia 25 do mes proximo findo o Snr. 2° Tenente Odonel Francisco da Silva, commandando um destacamento volante, dado, no municipio de Joaseiro, na fazenda Favella, um combate contra grupo de bandidos chefiados por Lampeão, verifica-se da parte do combate que o referido official lançou-se no encalço do referido grupo com verdadeira persistencia e tenacidade, como patentemente fica provado pela hora em que se deu o combate, isto é, aos 15 ou 20 minutos daquelle dia, e ainda mais qu soube se conduzir no combate com sangue frio e coragem.
Elogio, portanto, o Snr. 2° Tenente Odonel Francisco da Silva e os soldados Israel Martins Benicio, Jacintho Porphyrio da Cruz, Antonio Francisco de Moraes e Francisco Lopes, que mais se distinguiram no combate.
Promovo ao posto de cabo d’esquadra o soldado Israel Martins Benicio, não só por ser bravo como tambem pelo espirito de iniciativa que revelou.
 
Pescado no essencial Cangaço na Bahia

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Memória do cangaço na vizinhança

Eusébio, o guia
Por: Kiko Monteiro

Francisca Maria de Jesus
FOTO: Kiko Monteiro
Prosseguindo com nossas andanças pelas terras de Adustina, BA conhecemos dona Francisca Maria de Jesus,75 anos. Ela nos contou que certo dia o pai dela, Eusébio José Rodrigues, acompanhado do irmão Inácio e de um cunhado, iam participar de um "batalhão" (nome dado aos mutirões de plantio). Partiram os três em seus cavalos, quando passando pelo lugar chamado Alegres, foram surpreendidos por cangaceiros.

A abordagem foi pacífica. Um deles, provavelmente o chefe, perguntou se poderiam ceder as montarias para o grupo, pois tinham animais, mas sem arreios.

Seu Eusébio que não era doido de negar, disponibilizou os apetrechos dele e ordenou que os outros fizessem o mesmo. O cangaceiro perguntou se Eusébio poderia lhe servir de guia até um povoado que eles não sabiam como chegar, aceitou, mas pediu que liberassem os outros dois. Trato feito.

Montou na garupa do cangaceiro e a primeira parada foi na casa de Martins de Leandro. Chamaram, mas não havia ninguém na propriedade. Ai a calma dos "meninos" terminou. Ordenaram a Eusébio que ele derrubasse a porta à golpes de machado. E mesmo sabendo que ali era propriedade de gente amiga teve que atender, percebeu que a benevolência dos cabras tinha prazo de validade.

Porta abaixo em poucos minutos, os cabras invadiram e fizeram uma pilhagem na casa de Seu Martins.
A caravana seguiu em frente. Parada para almoço, o cangaceiro que parecia ser o chefe manda um dos cabras providenciar o fogo e saiu mata à dentro. Ao voltar encontra Eusébio afastado do grupo encostado numa árvore com semblante triste e o pergunta se estava com medo, mas Eusébio responde que estava era com muita fome, porque os cabras se fartaram e não lhe ofereceram nem um pedaço de carne. O suposto chefe ordena que encham um coité (cabaça) com comida e reclama porque não tinham repartido o almoço com o guia. Um cabra diz:
- Ora! Ele não se serviu porque não quis.
Seu Eusébio finalmente satisfeito e o cangaceiro pergunta se ele tinha algum vicio. Respondeu ele que fumava e prontamente ganhou um cigarro. No entanto, após o primeiro trago deu uma baforada bem no rosto do cangaceiro causando espanto dos demais cabras pela ousadia...
Mas a única advertência que recebeu era de que ele voltasse pra debaixo da árvore onde estava, permanecendo afastado dos grupo, porque iam dar mais um tempo pro descanso, e que tinham feito fumaça e se os macacos lhes botassem emboscada que ele não corresse de pé, mas rastejasse, senão morreria confundido com um deles.
Seguiram até o Baixão de Carrolina que é um povoado mais próximo à sede do município. Foram até uma casa, onde ganharam laranjas. Disseram a Eusébio que ficariam por ali. Antes de dispensa-lo ordenaram-no que recolhesse os animais... Mas que antes retirasse os alforjes dos cavalos e os colocasse nos animais do grupo já que alguns estavam montados à pelo. Eusébio mais uma vez atendeu a contragosto, e agora então, ao perceber que saia no prejuízo, perdendo os arreios novinhos?

Eusébio José Rodrigues
Foto: Arquivo da família/ Cortesia de Salomão Santos

Esse "passeio" durou praticamente o dia inteiro. No final da tarde, diante da sua demora, os amigos e parentes de Eusébio que o aguardavam nas matas para o "batalhão" já choravam sua morte. Segundo o senhor Gervásio, meu vizinho que conheceu Eusébio e me confirmou esta mesma narrativa de sua filha  complementando-a com o episódio do almoço, lembra de outro detalhe, precisamente uma crença: - Os moradores só tinham um pensamento "Recompensa pra quem ajuda cangaceiro é surra ou a morte"... Por isso aflição contagiava até os que confiavam.

Mas com poucas horas seu Eusébio retornava são e salvo para a alegria de todos.
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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Cangaço e imprensa

Padim Ciço e Lampião na revista Careta

Por: Raimundo Gomes
(Fortaleza,CE)

Em maio e agosto de 1926 a revista humorística Careta, publicou várias charges fazendo críticas severas ao Padre Cícero por ter recebido Lampião e seu bando em Juazeiro, em março daquele ano, com o intuito de combater a Coluna Prestes.

Como já mencionei, acredito que Lampião só tenha atendido ao convite, quando viu a assinatura do Padre Cícero, embora a logística, a estratégia militar dessa ideia tenha partido do médico e Deputado Federal Floro Bartolomeu, seu braço armado desde a sedição do Juazeiro em 1914.

Mas como Floro adoeceu e morreu antes de Lampião chegar a Juazeiro, sobrou pro velho padre receber sozinho Lampião e aguentar todas as consequências depois.
Não devemos esquecer, que o Presidente do Brasil, Artur Bernardes, diante de um mal maior representado pela Coluna Prestes, é provável que soubesse do convite de Floro a Lampião para combatê-la. Naquele momento de março de 1926, Lampião estava indiretamente a serviço do Governo Federal???


Daí a charge na edição de 8 de maio à chama-lo de bandido oficial. Sem contar que Lampião ao sair de Juazeiro, estava armado e municiado com o que havia de mais moderno nos almoxarifados do Batalhão Patriótico de Juazeiro. Quando a charge foi feita, fazia apenas dois meses desse acontecimento e a crítica, principalmente a "sulista, "infernizava a vida do velho padre dia e noite.

Basta conferir logo abaixo a edição de 14 de agosto de 1926.
Padre Cícero como suplente, de Floro passa automaticamente a Deputado Federal. Porém desde a visita do rei dos cangaceiros será duramente criticado por todo o País sendo chamado de "ordenança de Lampião".

 A charge de forma exagerada diz que assim como Lampião conduziu o padre à Câmara Federal, facilmente o conduzirá agora ao Senado.


Charge para a edição de 9 de Julho de 1927.
Fazia menos de um mês que Lampião atacara Mossoró, no dia 13 de junho. A charge faz alusão clara aos desentendimentos entre as policias de três estados, Paraíba, Rio Grande Norte e Ceará, que o cercaram no Ceará e sua eliminação era dada como certa, mas no entanto Lampião conseguiu mais uma vez furar o cerco, deixando-os a ver navios.
Os comandantes das volantes da Paraíba e do RN culparam o Major cearense Moisés de Figueiredo, que por sua vez culpou seu subordinado, o tenente Firmo, dizendo que seu ataque fora precipitado, feito antes que se completasse o cerco total aos cangaceiros.
Após esse episódio, o Major Moisés Figueiredo foi duramente acusado de ter recebido dinheiro de Lampião, para deixá-lo escapar,ou de querer agir sozinho, para assim obter para si os louros da vitória sobre o rei do cangaço. No mesmo ano de 1927,o major escreveu um livro, LAMPIÃO NO CEARÁ, onde procurava defender-se de todas as acusações.



Na charge de 15 de setembro de 1928 a revista, cobrava providências, o fim do cangaceiro. Anunciando que Lampião "tornou" à invadir a Bahia.


Lampião entrou na Bahia pela 1ª vez,exatamente no dia 21 de agosto de 1928, acompanhado de apenas cinco dos 75 cangaceiros que atacaram Mossoró em junho de 1927. Eram eles: Ezequiel Ferreira da Silva, seu irmão, apelidado de "Ponto Fino"; Mariano Laurindo granja, "Mariano"; Antonio Juvenal da Silva, "Mergulhão"; Luís Pedro Cordeiro, "Luís Pedro"; e Virgínio Fortunato da Silva, "Moderno", cunhado.

Quando a revista diz que "invadiu novamente" em setembro, comete ledo engano, pois desde que o Rei do Cangaço entrara naquele estado, ele por lá permanecia.

Na edição de 27 de dezembro de 1930 Lampião está ironizando que a revolução, ou golpe de 1930, liderada pelo gaúcho Getúlio Vargas, que havia derrubado todos... menos à Lampião.


Realmente, de início, Vargas que havia assumido o governo provisório do Brasil no dia 1º de novembro daquele ano junto com militares leais destituem o Presidente Washington Luís, impedem que Júlio Prestes, o Presidente eleito, assuma e na sequência, destituem todos os Governadores de estado, nomeando interventores em seus lugares.

Célebres foras da lei

Na Edição de 14 de novembro de 1931. Lampião recebe um conselho do gângster Al Capone, que lhe sugere a organizar o bando e que agir politicamente na capital lhe trará mais dividendos do que suas ações no sertão.



sábado, 4 de janeiro de 2014

História dos Volantes

O Major "Menêis"

Manoel Campos de Menezes, nascido em Chorrochó no ano de 1906, escolheu este distrito para regimentar o seu batalhão de caça aos bandoleiros. Dada sua localização as forças instruídas os fazendeiros para abandonarem suas propriedades e passarem a morar em Chorrochó, tanto para se livrarem dos bandidos e massacres de Lampião e seus cabras, como também para doarem asilo aos cangaceiros. O distrito de Chorrochó ficou incólume dos ataques dos bandidos, mas muitas propriedades foram saqueadas, destruídos massacrados os fazendeiros, o arraial de Várzea da Ema foi incendiado, apesar da eficiência do comando do Major Menezes.

Tinha um orifício de bala na face, recebido em um combate que segundo a literatura foi provocado pelo próprio Lampião. Que nutria um certo "respeito" pelo oficial chegando a apelidar um de seus cães com o nome de "Menêis".

Tornou-se comandante das F.O.N.E. (Forças em Operações no Nordeste) baianas... Mas faleceu muito jovem, acometido de meningite em 1937, ainda comandando a unidade.

Abaixo foto e nota de falecimento publicada na época pela revista da Policial Militar.



Fonte: Chorrochó on line
Créditos para Rubens Antonio