sexta-feira, 31 de maio de 2013

Crônica

Feira de Cabeças

De Aurélio Buarque de Holanda (*)
A Carlos Domingos


Aurélio Buarque de Holanda
IN: http://majellablog.blogspot.com.br/2010/05/mestre-aurelio-na-sua-biblioteca.html

De latas de querosene mãos negras de um soldado retiram cabeças humanas. O espetáculo é de arrepiar. Mas a multidão, inquieta, sôfrega, num delírio paredes-meias com a inconsciência, procura apenas alimento à curiosidade. O indivíduo se anula. Um desejo único, um único pensamento, impulsa o bando autômato. Não há lugar para a reflexão. Naquele meio deve de haver almas sensíveis, espíritos profundamente religiosos, que a ânsia de contemplar a cena macabra leva, entretanto, a esquecer que essas cabeças de gente repousam, deformadas e fétidas, nos degraus da calçada de uma igreja.

Cinco e meia da tarde. Baixa um crepúsculo temporão sobre Santana do Ipanema, e a lua crescente, acompanhada da primeira estrela, surge, como espectador das torrinhas, para testemunhar o episódio: a ruidosa agitação de massas que se comprimem, se espremem, quase se trituram, ofegando, suando, praguejando, para obter localidade cômica, próximo do palco.

Desenrola-se o drama. O trágico de confunde com o grotesco. Quase nos espanta que não haja palmas. Em todo caso, a satisfação da assistência traduz-se por alguns risos mal abafados e comentários algo picantes, em face do grotesco. O trágico, porém não arranca lágrimas. Os lenços são levados ao nariz: nenhum aos olhos. A multidão agita-se, freme, sofre, goza, delira. E as cabeças vão saindo, fétidas, deformadas, das latas de querosene - as urnas funerárias -, onde o álcool e o sal as conservam, e conservam mal. Saem suspensas pelos cabelos, que, de enormes, nem sempre permitem, ao primeiro relance, distinguir bem os sexos. Lampião, Maria Bonita, Enedina, Luiz Pedro, Quinta-Feira, Cajarana, Diferente, Caixa-de-Fósforo, Elétrico, Mergulhão...

Observem à esquerda, a cabeça de Lampião ainda em cima do caminhão.
Fonte: Livro " Iconografia do cangaço " Ricardo Albuquerque.
Adendo Kydelmir Dantas
O escritor Alcino Alves Costa no seu livro: "Lampião Além da Versão - Mentiras e Mistério de Angico" cita os mortos na chacina de Angico, sendo: Lampião, Quinta-Feira, Maria Bonita, Luiz Pedro, Mergulhão, Alecrim, Enedina, Moeda, Elétrico, Colchete e Macela. Segundo vários escritores afirmam que a lista dos mortos na madrugada de 28 de Julho de 1938, na Grota de Angico, no Estado de Sergipe, a mais correta é a do escritor Alcino Alves Costa.

 
A multidão se acotovela pra ver de perto o espetáculo bizarro
 Fonte: Livro "Iconografia do cangaço" Ricardo Albuquerque.
- As cabeças!

- Quero ver as cabeças!
Há uma desnorteante espontaneidade nessas manifestações.
- As cabeças. Não falam de outra coisa. Nada mais interessa. As cabeças.

- Quem é Lampião?

Virgulino ocupa um degrau, ao lado de Maria Bonita. Sempre juntos, os dois.
- Aquela é que é Maria Bonita? Não vejo beleza...
O soldado exibe as cabeças, todas, apresenta-as ao público insaciável, por vezes uma em cada mão. Incrível expressão de indiferença nessa fisionomia parada. Os heróis de tantas sinistras façanhas agora desempenham, sem protesto, o papel de S. João Batista...

Sujeitos mais afastados reclamam:
- Suspende mais! Não estou vendo, não!

- Tire esse chapéu, meu senhor! - grita irritada uma mulher.
O homem atende.
- Agora, sim.
A pálpebra direita de Lampião é levantada, e o olho cego aparece, como elemento de prova. Velhos conhecidos do cangaceiro fitam-lhe na cabeça olhos arregalados, num esforço de comprovação de quem quer ver para crer.
- É ele mesmo. Só acredito porque estou vendo.
Houve-se de vez em quando:
- Mataram Lampião... Parece mentira!
Virgulino Ferreira, o rei do cangaço, o "interventor do sertão", o chefe supremo dos fora-da-lei, o cabra invencível, de corpo fechado, conhecedor de orações fortes, vitorioso em tantos reencontros, -Virgulino Ferreira, o Capitão Lampião, não pode morrer.

E irrompe de várias bocas:
- Parece Mentira!
No entanto é Lampião que se acha ali, ao lado de Maria Bonita, junto de companheiros seus, unidos todos, numa solidariedade que ultrapassou as fronteiras da vida. É Lampião, microcéfalo, barba rala, e semblante quase doce, que parece haver se transformado para uma reconciliação póstuma com as populações que vivo flagelara.

Fragmentos de ramos, caídos pelas estradas, durante a viagem, a caminhão, entre Piranhas e Santana do Ipanema, enfeitam melancolicamente os cabelos de alguns desses atores mudos. Modestas coroas mortuárias oferecidas pela natureza àqueles cuja existência decorreu quase toda em contato com os vegetais - escondendo-se nas moitas, varando caatingas, repousando à sombra dos juazeiros, matando a sede nos frutos rubros dos mandacarus.

Fotógrafos - profissionais e amadores - batem chapas, apressados, do povo, e dos pedaços humanos expostos na feira horrenda. Feira que , por sinal, começou ao terminar a outra, onde havia a carne-de-sol, o requeijão de três mil-reis o quilo, com o leite revendo, a boa manteiga de quatro mil reis, as pinhas doces, abrindo-se de maduras, a dois mil-reis o cento, e as alpercatas sertanejas, de vários tipos e vários preços.

Ao olho frio das codaques interessa menos a multidão viva do que os restos mortais em exposição. E, entre estes, os do casal Lampião e Maria Bonita são os mais insistentemente forçados. Sobretudo o primeiro.

O espetáculo é inédito: cumpre eternizá-lo, em flagrantes expressivos. Um dos repórteres posa espetacularmente para o retratista, segurando pelas l=melenas desgrenhadas os restos de Lampião. Original. Um furo para "A Noite Ilustrada".


Cabeças dos cangaceiros expostas em Santana do Ipanema/AL
Fonte: Livro " Lampião e as Cabeças Cortadas, pg. 204, Antonio Amaury e Luiz Ruben.

Lembro-me então do comentário que ouço desde as primeiras horas deste sábado festivo: - "Agora todo o mundo quer ver Lampião, quer tirar retrato dele, quer pegar na cabeça...Agora..." Há, com efeito, indivíduos que desejam tocar, que quase cheiram a cabeça, como ansiosos de confirmação, por outros sentidos, da realidade oferecida pela vista.

Desce a noite, imperceptível. A afluência é cada vez maior. Pessoas do interior do município e de vários municípios próximos, de Alagoas e Pernambuco, esperavam desde sexta-feira esses momentos de vibração. Os dois hotéis da cidade, literalmente entupidos Cheias as residências particulares - do juiz de direito, do prefeito, do promotor, de amigos dessas autoridades. Para muitos, o meio da rua.

Entre a massa rumorosa e densa não consigo descobrir uma só fisionomia que se contraia de horror, boca donde saía uma expressão, ainda que vaga, de espanto. Nada. Mocinhas franzinas, romanescas, acostumadas talvez a ensopar lenços com as desgraças dos romances cor-de-rosas, assistem à cena com uma calma de cirurgião calejado no ofício. Crianças erguidas nos braços maternos espicham o pescoço  buscando romper a onda de cabeças vivas e deliciar os olhos castos na contemplação das cabeças mortas. E as mães apontam:
- É ali, meu filho. Está vendo?
Alguns trocam impressões;
- Eu pensava que ficasse nervoso. Mas é tolice. Não tem que ver uma porção de máscaras.

- É isso mesmo.
Os últimos foguetes estrugem nos ares. Há discursos. Falam militares, inclusive o chefe da tropa vitoriosa em Angico. Evoca-se a dura vida das caatingas, em rápidas e rudes pinceladas. O deserto. As noites ermas, escuras, que os soldados às vezes iluminam e povoam com as histórias de amor por eles sonhadas - apenas sonhadas... Os passos cautelosos, mal seguros sobre os garranchos, para evitar denunciadores estalidos, quando há perigo iminente. Marchas batidas sob o sol de estio, em meio da caatinga enfezada e resseca, e da outra vegetação, mais escassa, que não raro brota da pedra e forma ilhotas verdes no pardo reinante: o mandacaru, a coroa-de-frade, a macambira, a palma, o rabo-de-bugio, facheiro, com o seu estranho feitio de candelabro. A contínua expectativa de ataque tirando o sono, aguçando os sentidos.

O sino toca a ave-maria. Dilui-se-lhe a voz no sussurro espesso da multidão curiosa, nos acentos fortes do orador, que, terminando, refere a vitória contra Lampião, irrecusavelmente comprovada pelas cabeças ali expostas. Os braços da cruz da igrejinha recortam-se, negros, na claridade tíbia do luar; e na aragem que difunde as últimas vibrações morrediças do sino vem um cheiro mais ativo da decomposição dos restos humanos. Todos vivem agora, como desde o começo do dia, para o prazer do espetáculo. As cabeças!

A noite fecha-se. Em horas assim, seriam menos ferozes os pensamentos de Lampião. O seu olhar se voltaria enternecido para Maria Bonita.

Que será feito dos corpos dissociados dessas cabeças? O rosto de Maria Bonita, esbranquiçado a trechos por lhe haver caído a epiderme, está sinistro. Onde andará o corpo da amada de Lampião? A cara arrepiadora, que mal entrevejo à luz pobre do crescente, não me responde nada.

E Lampião? Sereno, grave, trágico. O olho cego, velado pela pálpebra, fita-me. (1938).


(*) Autor do mais importante dicionário da língua portuguesa publicado no Brasil neste século. Texto do livro esgotado "O chapéu de meu pai, editora Brasília, 1974.
Fonte:
Diário Oficial Estado de Pernambuco
Ano IX - Julho de 1995
Material cedido pelo escritor, poeta e pesquisador do cangaço: Kydelmir Dantas

Pescado no http://blogdomendesemendes.blogspot.com 

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Observação: As fotos  foram inseridas por Ivanildo Silveira para enriquecer ainda mais a excelente matéria.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

João na pisada do Cangaço

O ataque de Lampião ao coronel Petronilo Reis
por João de Sousa Lima

Quando em 1928 Lampião cruzou o Rio São Francisco saindo de Pernambuco pra Bahia, um dos primeiros contatos foi com o coronel Petronilo de Alcântara Reis "Coronel Petro". Petro era o chefe político de Santo Antônio da Glória, cidade hoje submersa pelas barragens do Rio São Francisco.

Vários livros contam que a amizade de Lampião com o coronel foi desfeita por que o coronel traiu Lampião, teriam os dois uma sociedade em terras e aninais.

Quando houve a batalha que morreu Ezequiel, irmão mais novo de Lampião, fato acontecido na Baixa do Boi, em Paulo Afonso, Lampião encontrou em um dos bolsos de um policial morto no combate, um bilhete do coronel endereçado ao comandante da volante e o bilhete falava dos esconderijos dos cangaceiros.
Lampião arquitetou sua vingança incendiando em torno de 18 fazendas do coronel. Começando de Glória, cruzando o Raso da Catarina, Lampião tocava fogo e matava os animais.
 
 Neste mesmo local ficava um curral queimado pelos cangaceiros.

Dessas fazendas a única que permanece de pé é a fazenda Paus Pretos. Antes Paus pretos pertencia a cidade de Curaçá e hoje pertence a Chorrochó. Em Paus Pretos ainda resta os tornos de madeira com marcas escuras do fogo.



 Dois tornos com marcas do fogo

A fazenda é administrada por Paulo Reis, neto do coronel. Nas cheias forma-se um açude com sete quilômetros de extensão, no momento o açude encontra-se seco. Na casa sede da fazenda Lampião prendeu o vaqueiro Agostinho e o fez entrar dentro do curral e pegar na mão um cavalo e o vaqueiro conseguiu depois de muito trabalho.

Sede da fazenda Paus Pretos

João de Sousa e Paulo Reis, neto do coronel Petro.

 Nesse açude os cangaceiros mataram vários animais.

Os cangaceiros tiraram madeiras do curral e tocaram fogo na casa, quando o fogo começou a tomar os compartimentos da residência um papagaio começou a gritar: Olhe o fogo Maria. Maria, Maria, olhe o fogo. Lampião mandou um cangaceiro entrar na casa, atravessar o fogo e salvar o papagaio. O curral foi todo queimado e os animais mortos.

O local onde Lampião assistiu a primeira missa na Bahia.       

Em 1928 quando Lampião atravessou pro estado da Bahia a região que fica dentro do Raso da Catarina foi muito explorada pelos cangaceiros. a primeira missa que os cangaceiros assistiram no estado baiano foi ministrada pelo  Monsenhor Emílio de Moura Ferreira Santos. o padre era o pároco de Santo Antônio da Glória, a antiga Curral  dos Bois.

 Escombros da casa de Júlia de Subaco

O povoado São José, em Chorrochó foi uma das localidades que os cangaceiros também assistiram missa. Mais a primeira que foi celebrada pelo Monsenhor Emílio aconteceu entre a fazenda Paus Pretos, que pertencia ao coronel Petro e a roça Baixa do Boi. A missa foi na casa Júlia de Subaco, na fazenda poço Comprido.


Pescado no Blog do primo João

segunda-feira, 27 de maio de 2013

E o tal do Calibre 28?

Ele existe, porem...


A revista Aventuras na História na edição de Maio teve enorme procura por parte dos cangaceirólogos. Mas seu conteúdo causou descontento aos estudiosos. O autor cometeu alguns erros cronológicos e outros menos relevantes como os de grafia.

No intuito de barrar a disseminação destas informações ( revista tem aceitação acadêmica, já um mero blog não tem) João de Sousa Lima elegeu e publicou em seu blog um artigo apontando vários tópicos. Espie Aqui

Um em especial nos chamou a atenção, o que citava o calibre "28" que segundo o autor era utilizado pelas cangaceiras. Certamente muitos confrades nunca sequer ouviram falar deste. Na duvida dei uma pesquisada e descobri sua existência através do site Belga Little Gun Clique Aqui

Antes de publicar nosso parecer consultei o estimado amigo e especialista em armas de fogo Fábio Carvalho Costa que nos diz o seguinte:

Caro Compadre Kiko, sobre a reportagem da revista Aventuras na História que causou esta celeuma toda, creio que deve ter sido um mero erro de revisão, pois o autor cita 32 e 28, certamente queria dizer 32 e 38.
 

Quanto a ter existido um calibre 28, sim certamente existiu. Pois em termos de calibres para armas curtas, já existiram praticamente todos os diâmetros imagináveis: dos inacreditáveis 2,7 mm de uma minúscula pistola de bolso de colete, até os enormes cartuchos de revólveres e pistolas, com calibres que alcançavam quase meia polegada (12,7mm).
 

Aliás, o primeiro revólver de sucesso comercial (e mecânico)  o Colt Paterson de 1836, tinha uma versão inicial de 5 tiros e... Calibre 0,28 (por volta de 7,12 mm), seguido depois por versões em calibres  0.31 e 0.34. Porém este Colt de 1836 era uma arma de percussão, ou seja, um revolver  que primitivamente (como a maioria da mesma época) era carregado com balas e espoletas em separado (como se fosse uma garrucha de socar), só que usava um tambor de 05 tiros! Uma alavanca, geralmente situada embaixo do cano, era encarregada de ajustar a carga/bucha/projétil dentro das câmaras.

Raro exemplar de revólver americano de percussão, Patente James Warner de 1851. 
(Fonte http://www.littlegun.info/arme%20americaine/a%20a%20images%20armes%20americaine%20gb.htm)

Assim foram os revólveres até a chegada do cartucho de metal (o cartucho de Lefaucheaux um dos primeiros)! Este tipo de arma - revólver de percussão- teve pouquíssimo uso aqui no Brasil (importamos mais armas da Europa, onde se adotou cedo o cartucho de metal). Era mais comum nos EUA, onde foram muito usados na guerra civil norte-americana (1861 a 1865), e depois marcharam na cintura dos pioneiros e cowboys para fazer a conquista do oeste selvagem. Mesmo com a popularização do cartucho de metal (que ficou mais comum nos Estados Unidos com a importação de milhares de revólveres Europeus tipo Lefaucheaux pra uso do Sul Confederado), sendo alguns dos mais famosos e clássicos revólveres americanos calibrados para cartuchos metálicos,  lançados na década de 1870 (como o Colt Peacemaker, SW nº 3, Remington 1875, etc.). 

Os exemplares originais de percussão, ainda foram usados por alguns anos, sendo muitos deles convertidos para os cartuchos modernos de metal, através de “kits” econômicos. Pessoalmente não creio que estas armas, tampouco modelos em cal. 28 devem ter sido usados por cangaceiros (Aliás, quem usaria uma arma de “socar“ em 1920? Tendo pistolas semiautomáticas Parabelllum e FN, e fuzis Mauser nas mãos).
 

Quanto a armas que usaram cartuchos metálicos ao redor do diâmetro .28 (medida neste caso expressa à inglesa em  centésimos de polegadas, equivalendo à europeia ao redor de 7,12 mm, assim destas duas maneiras geralmente se expressam os nomes e medidas de cartuchos), houveram uma meia dúzia de modelos nos fins do sec. XIX e inicio do XX (alguns pouco conhecidos do grande público). Muitas destas eram munições experimentais como as .28 BSA, e a .28 Browning, que não chegaram a linha de produção. 

Estas munições 7mm/.28 via de regra, não obtiveram sucesso comercial sendo esquecidas, eclipsadas por outras mais efetivas, geralmente de maior calibre (embora muitos fuzis tivessem esta medida de calibre, sendo usados alguns até hoje como as .280 Remington, .284 Winchester etc., mas isto já é outra história).

Abraços.
Fábio

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Família Xavier e o "fogo da Ipueira"

Crônicas do combate por Dr. Napoleão Tavares Neves
Por Audizio Xavier

No dia 3 de fevereiro de 1927, na Fazenda Ipueira, hoje distrito de Serrita/PE, no alto Sertão pernambucano, ocorreu um grande combate entre a Família do Cel. Pedro Xavier e Lampião e seu bando. Ipueira, perdida nos confins dos sertões pernambucanos, antecipou-se a Mossoró, rechaçando Lampião.

O ousado ataque ao belo chalé do de Antônio Aristides Xavier de Souza, na Rua da Matriz, centro histórico da culta cidade de Barbalha, Ceará em dois de agosto de 1927, foi o estopim que pôs em brios o governo do Ceará, sendo imperioso o extermínio total dos cangaceiros Marcelinos, que tanto infernizaram as frias noites do Cariri, com frequentes assaltos, sequestros e vítimas fatais.

 


O 2º Grande Encontro da Família Xavier será realizado, em 2013, na região do Cariri, mais precisamente em Barbalha e Juazeiro do Norte/Ce, nos dias 13 e 14 de Julho de 2013. O Evento continua, no dia 15, com uma visita guiada ao Museu do Gonzagão em Exu/Pe, seguindo à Ipueira dos Xavier, onde todos terão a oportunidade de visitar o povoado, bem como o local onde se deu o Fogo de Ipueira, que representou a resistência da família Xavier ao bando de Lampião em defesa da honra, da própria vida e da dignidade humana. 
  

Fonte: Canal do YouTube de Audizio Xavier

terça-feira, 21 de maio de 2013

Amor de Chico Pereira

 Jarda, a esposa menina
 Por Wanessa Campos

“Esconde essa aliança e casa com  outro. Chico já morreu”. Era o que Jardelina Nóbrega ouvia das pessoas aconselhando-a a desistir de se casar com Chico Pereira, que virou cangaceiro. Jarda, como era chamada começou a namorar com Chico aos 12 anos, noivou aos 13, casou aos 14  e ficou viúva aos 17 anos de idade, com três filhos pequenos. O caçula tinha apenas seis meses.


Fonte: www.umolharsobresaojoao.blogspot.com.br

Sua vida daria um filme, como já tentaram fazer. Tudo começou em 1920, na localidade de São Gonçalo,  Sertão da Paraíba, quando Jarda conheceu Chico, então com 20 anos, um pacato comerciante de cal. Filho do coronel João Pereira, pessoa bem relacionada na redondeza. De repente, o coronel viu-se envolvido numa briga na sua mercearia. E nela, foi morto o coronel. Uma morte encomendada por questões políticas. Agonizante, João Pereira pediu aos filhos que não queria vingança como ditava o código de honra da época.

Chico, o filho mais velho conseguiu prender Zé Dias, que matou seu pai e o entregou à polícia achando que assim a justiça seria feita. Mas na semana seguinte, Zé Dias estava solto, para revolta de todos. Chico era insuflado pelo povo a vingar-se e ao mesmo tempo não queria revidar, mas percebia a má vontade da polícia em prender Zé Dias. Tinha receio de ser chamado de frouxo.

Então, o jeito foi fazer justiça com as próprias mãos, como fez Virgolino. A cidade de Souza perdeu a tranquilidade e a briga entre famílias Pereira e Dias ganhava corpo. Chico vingou a morte do pai e tornou-se cangaceiro. Formou um bando e sua vida mudou totalmente e a de sua noiva também. Passou a ser foragido da polícia.

Entretanto, sua preocupação maior era Jarda, sua noiva adolescente. Após uma longa conversa com ela, alertou para o tipo de vida que levava e, se ela quisesse desistir do casamento prometido, ele iria entender. “É com você que quero me casar”, foi a resposta. E como seria esse casamento?

Conseguiram celebrar por meio de procuração, na manhã de  26 de maio de 1925, na igreja de Pombal. Jarda continuou morando com a família e os encontros com o marido eram escondidos. Nasceu o primeiro filho, Raimundo. Depois vieram Dagmar e Francisco. Houve uma menina, mas morreu prematura. Jarda teve uma vida marcada por mortes trágicas: pai, sogro, cunhado e marido.

Chico Pereira comandou vários ataques, inclusive com cangaceiros de Lampião. Passou seis anos nessa vida até encontrar a morte misteriosa numa estrada do Rio Grande do Norte, aos 28 anos de idade, a 24 de agosto de 1928. Uma morte até hoje não esclarecida.


Chico Pereira

Jarda, com três filhos pequenos, pensava o que seria dela. E dos filhos? Futuros cangaceiros? Como iria educar os meninos com salário de professora rural? A solução foi deixar cada um com um parente. Periodicamente viajava a cavalo para ver os filhos. Uma vida sacrificada. Os três irmãos só se encontraram  bem mais tarde.

Certo dia,  recebeu um bilhete anônimo por meio de um cavaleiro desconhecido montado num cavalo branco, quando estava pensativa no alpendre da casa. O bilhete dizia:” Se queres ser feliz, perdoa seus inimigos”. Uma cena quase irreal.  E Jarda tinha muito a quem perdoar. Decidiu queimar todas as cartas, livros de cordel, jornais, tudo que falava de Chico Pereira. Estava queimando seu passado para salvar o futuro dos filhos, escreveu  Francisco no seu livro “Vingança, não”.

Os anos foram passando e a primeira alegria veio com  Raimundo que se formou em engenharia civil no Recife. Depois, foi a vez de Dagmar, que se tornou frade franciscano com o nome de frei Albano. Surpresa maior veio com  Francisco,  ordenado padre em Roma, onde estudou. Com ele, a alegria de Jarda foi maior, pois assistiu sua ordenação, recebeu bênção especial do papa e a comunhão pelo próprio  filho na sua primeira missa. Jarda encontrou a felicidade através do perdão.

Dos três filhos, apenas frei Albano está vivo, no Convento de São Francisco, em Salvador, Bahia. Jarda ficou viúva para sempre e morreu em João Pessoa onde morava e o filho Francisco também*.


Jarda foi uma Maria Bonita.

NOTA – Conheci e convivi com dona Jarda desde menina até a idade adulta, na minha casa e na da minha irmã mais velha, Wanice, casada com  Raimundo com que ela morou durante muito tempo. Dona Jarda, muito alva, cabelos castanhos, bonita e vaidosa que me pedia para comprar batons de cores claras. Falava baixinho, gostava de conversar e contava com naturalidade sua vida com Chico Pereira. Demonstrava serenidade e nem parecia ter um passado sofredor. Os filhos diziam que ninguém conseguiu ver Jarda chorar. Gostava dela.

Pescado no açude de comadre Wanessa www.mulheresdocangaco.com.br

Adendo 
Francisco "O Padre Pereira", filho de Jarda e Chico, faleceu em João Pessoa no dia 22 de janeiro de 2007.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Teje intimado a comparecer

O CEEC - Centro de Estudos Euclydes da Cunha apresenta:


Lançamento do Filme: Feminino Cangaço
Direção: Lucas Viana e Manoel Neto
Local: Sala Walter da Silveira - Barris - Salvador/BA
Data: 06 de junho as 19H:30.


quarta-feira, 15 de maio de 2013

Quem é o cara?

Chegamos a uma conclusão

Amigos que opinaram ou que aguardavam o resultado de nossa investigação. Após realizar uma pesquisa, acho que encontrei a solução para o nome  do cangaceiro, o qual nós queremos identificar, na foto postada,  semana passada.

Após o celebre Benjamin Abrahão realizar as filmagens com o bando de Lampião no ano de 1936, o mesmo fez uma série de reportagens para um grande jornal de circulação no nordeste, no caso o "Diário de Pernambuco "..

Em uma dessas matérias ( vide, logo abaixo), datada de 27 de dezembro de 1936,  o mesmo fez a identificação do " cangaceiro " (inclusive, conviveu com ele), como sendo o "Marreca " que na foto publicada no jornal, posa ao lado do famoso "Jurity"..
 

Uma outra foto dos dois cabras em boa resolução para melhor comparação.



A  matéria completa.



Quanto à cangaceira que aparece na foto, me inclino a achar que se trata da "Inacinha", companheira do famigerado cangaceiro "Gato".


 
 
 Inacinha

Abraço a todos, e respeito quem pensa de forma diferente, portanto estamos disponíveis para o debate se necessário.

Ivanildo Alves  da Silveira
Colecionador do cangaço
Membro do Cariri Cangaço e da SBEC
Natal/RN

Obs.: Na pesquisa desse foto, agradecemos ao amigo Rostand, pelo envio do material.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Conflitos históricos

A Guerra entre Montes e Feitosas

Por: Heitor Feitosa Macêdo

Há muito tempo a historiografia cearense busca explicar o conflito chamado de “Guerra entre Montes e Feitosas”. No entanto, a tradição, apesar de farta, peca por sua imprecisão, por outro lado, os documentos hodiernamente conhecidos, apenas arranham o assunto, eivando de dúvidas qualquer afirmação categórica.

A deflagração dessa “guerra de famílias” deu-se no ano de 1724, não se sabendo o mês e o dia, nem mesmo os motivos (incontestes) que levaram toda a Capitania do Ceará a um embate sangrento e quase interminável. Fato que só aumenta a curiosidade a respeito do assunto.

Tudo isso não seria para menos, porque, talvez, inexista cearense que não descenda de um algum dos personagens envolvidos nessa contenda, pois, como é sabido, houve a participação tanto das elites agrárias quanto das classes mais desfavorecidas.

Desta feita, enquanto não forem desvendados os detalhes dessa intrigante guerra, restará o paciente esforço em buscar pistas nos antigos documentos. Por isso, ao final do presente texto há a publicação de um desses alfarrábios, já conhecidos dos estudiosos, mas apenas por meio da transcrição paleográfica.

O conteúdo trata do trâmite das investigações e do processo judicial promovido pelo Desembargador Antônio Marques Cardoso, que foi o responsável pela “devassa e correição” do sobredito conflito. Havendo no texto esclarecedoras informações que, parcialmente, destrinçam o episódio de 1724.

Assim, as imagens originais desses manuscritos encontram-se dispostas sequencialmente com sua respectiva transcrição.

Página 01

CARTA do desembargador Antonio Marques Cardozo, ao rei [D. João V], dando conta das sindicâncias feitas no Ceará e recomendando a prisão dos culpados das famílias dos Feitosas e dos Montes, apontados como causadores das inquietações surgidas e que causara danos aos moradores.

(página 01 – imagem 400)











Página 02

Juntas as ordens e mais papeis haja visto diso e mais papeis tome ao Cons.ᵒ Lx.a Ocid.al 6 de Dez.o  de 1738

[rubricas]

Senhor

A V. Mag.ᵈᵉ já dey conta, de que tratando executar as diligências, de que se me encarregarảo nesta Capitania do Cearà, se tinhảo feyto algumas prizỏes pellos cabos e mais officiais da Ordenança da mesma Capitania por senảo fazerem por huma Tropa de Soldados pagos com mais homens, que para esse efeyto se despedirảo desta Villa da Fortaleza para a Ribeyra de Jaguaribe gastando por ella quatro mezes nessa diligência, em que sò alguns sequestros se fizerả nos bens dos culpados, que se hiảo prender, de que m.ᵗᵒˢ se acharảo ainda em por não haver quem neles lançasse fazendo logo os pagamentos, a que era causa de os hir arrematando fiados por se achar a Capitania falta de dinheyro, e nela nảo haver por esse respeyto homens ricos, a quem se pudesse obrigar, quando assim se mandasse, e não me ser possível por essa cauza, e pello mais, que tinha para expedir com brevid.ᵉ poder recolher-me a Bahia para onde se me tinha ordenado a fizesse estando pronto, e os officiais das dittas diligências.

Porèm...


(página 02 – imagem 401)

Página 03


...Porèm sem embargo de se hirem fazendo as arremattações fiadas, e algumas para se fazerem os pagam.ᵗᵒˢ nacto hia por respeyto da espera ser mais dilatada, ainda de pres.ᵗᵉˢ m.ᵗᵒˢ desses dittos bens se achảo por arremattar, publicando-se ser a cauza recearem os arremattantes contender com os culpados, de quem sảo os mesmos bens; tanto que me ausentar desta Capitania, e juntamente temerem ser avexadas as pessoas, que nas devassas tem jurado, e as mais que fizeram as dittas prizoẻs.

Assim nestes termos, supposto que me não ache nesta Villa da Fortaleza, em que assisto por hir expedindo as contas das devassas, que tenho tirado, e continuar com outras de huma resistência de armas que houve em uma prizảo; e de uma morte; que de próximo succedeo por respeyto das prizoẻs de huns Vadios, que mandei fazer na Ribeyra de Jaguaribe, [vou] cuidando em se fazerem mais sequestros nos bens de outros criminozos, o que atè o pres.ᵗᵉ se nảo fez por esperar ocaziảo p.ᵃ se prenderem....


(página 03 – imagem 402)

Página 04

...se prenderem, e tambem mais culpados, que depois de se recolher a ditta Tropa tornarảo para a ditta Ribeyra de Jaguaribe, em que, hà poucos dias se prendeo som.ᵗᵉ hum, e dous Vadios, e pellos mais se vay fazendo diligência, no que me nảo hey de descuidar assim pellas razỏes referidas, como por clamarem os moradores, com que se utiliza esta Capitania, nảo ser convenientes deyxarem-se de prender os culpados nestas diligências da família dos Feytozas, e Montes, que tem sido cauza de todas as inquietaçỏes sucedidas, e ficando soltos como quasi todos das dittas famílias occupảo postos da Ordenança poderảo como pretexto, que lhes parecer, machinar alguma sublevaçảo com a minha retirada, de que resulte irreparável dano aos moradores assim nas vidas, como nas fazendas na forma, em que jà por vezes a fizerảo por respeyto das suas particulares dependências; que entre sy tiverả estas duas parcialid.ᵉˢ de Montes, e Feytozas.

E a que posso segurar he que a Cap.ⁿͥᵃ... 


(página 04 – imagem 402)

Página 05

...a Capitania com a falta do castigo, do q̉ nella se tem obrado, carece de se pòr em termos, de que se conheça haver justiça, e neste Cearà tenho evitado por m.ᵗᵃˢ vezes desordens, de que, sem dúvida se podiảo originar varias inquietaçỏes, e ainda as evitey na Ribeyra de Jaguaribe, e Acaracû, segurando com bom termo, e agrado, que havia de proceder com justiça, o que se entendes de outro modo; e como se chegou a ver que aquelle culpado q̉ se não podia prender, nảo livrava os bens, e na mesma forma prezo, m.ᵗᵒ mal lhes tem parecido tal termo, e agrado.

E para se evitarem as inquietaçỏes, que pella experiencia do passado, se pòdem recear, me parece representar, que se mandem privar de quaisquer postos da Ordenança maiores; ou menores todos os parentes das dittas famílias de Montes, e Feytozas, porque estes em qualquer tempo, tem tambem a experiencia mostrado, hảo de tomar vingança de q.ᵐ presumirem culpou aos seos das mesmas famílias, e assim o chegarảo a fazer estes todos, que de pres.ᵗᵉ se achảo culpados...


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...culpados, lembrados das competências; que seos ascendentes entre sy tiverảo no Rio de Sam Fr.ᶜᵒ; donde os dittos vierảo para esta Capitania, e que da devassa, que tirey das sublevaçỏes da ditta Ribr.ᵃ do Jaguaribe, assim consta, e a seu tempo se farà pres.ᵗᵉ.

Mas contudo nảo deyxo de considerar haver dificuld.ᵉˢ nas prisões dos culpados da ditta familia dos Feytosas, que tambem me assegurảo se tem jà recolhido para suas cazas, assim por assistirem em distancias de certo, a tantas Legoas desta Villa da Fortaleza, aonde nả posso introduzir, sem se saber, gente de fora para essa diligência, como por viverem nessas partis quase todos da mesma familia, que nảo serà fácil com poucos moradores por esse respeyto se cheguem a prender os que se procurarem.

E passando para esse effeyto ordem ao Coronel do Sertảo dos Inhamûs, em que tem as suas vivendas, me assegurou nảo saber da p.ᵗᵉ certa em que assistissem; mas que tendo notícia desta, e achando ocasiảo opportuna faria as d.ᵃˢ prizỏes, do que nảo me capacitando pella informaçảo, que se me tinha dado de se acharem os culpados da ditta familia dos Feytozas em suas cazas, lhe repeti outra ordem recomendando-lhe m.ᵗᵒ...


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 ...recomendando-lhe m.ᵗᵒ as mesmas prizões, e juntam.ᵗᵉ lhe remetty varias ordens para outros officiaes da Ordenança dẻsse districto para que elle as distribuísse; e ser assim ajudado da maior p.ᵗᵉ dos moradores, com os quais ao mesmo tempo se procurassem os d.ᵒˢ culpados para se prenderem, e aos mais, que com elles se achassem resistindo na forma, em que se costuma obrar em qualquer semelhante diligência.

E assim succedendo haver bom sucesso nestas prisões farey dos dittos culpados com os mais, que já ficảo seguras, remessa para a Cadeia da Villa de Santo Antônio do Recife de Pern.ᶜᵒ por nảo ser a da Fortaleza desta Cap.nia de sustentar com segurança prezos sem estarem de dia e de noite com sentinellas, e por essa cauza já remetty em 31 de Janr.ᵒ deste pres.ᵗᵉ ano vinte e tres criminozos, e Vadios para a ditta cadeia do Recife de Pern.ᶜᵒ, huns destes culpados em huma devassa de duas sublevaçỏes, que houverảo na Ribr.ᵃ do Acaracû desta Cap.nia  em os annos de mil esettecentos e vinte e quatro, e vinte e nove, e em varias devassas, que tambem tirey de mortes sucedidas na ditta Ribeyra em a qual, e na de Jaguaribe se prenderảo tambem algûs dos dittos Vadios, que...


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...que por ellas andavảo vivendo de gados alheos, que juntavảo, entrando nestes números outros culpados na devassa da Residência do Ouv.ʳ g.l que foy desta Cap.nia Antônio de Loureyro Medeyros e de Jozeph Mendes Machado, e na do [Capitão-Mor] Francisco Duarte de Vasconcellos, e juntam.ᵗᵉ quatro na devassa das sublevaçỏes da ditta Ribeyra do Jaguaribe dous em hủas mortes, e mais inquietaçỏes, e dous dos mais culpados nas mesmas sublevaçỏes.

De todos estes criminozos só dez hảo de remetter para a Cadea da Cid.ᵉ da Bahia com trez Vadios mais, que vảo autuados, e quatro Vadios remetty ao G.ᵒʳ de Perna.ᶜᵒ para que vảo servir na Praça, que lhe parecer por se me mandar nas ordens, que trouxe, os remetesse para as Praças Ultramarinas, a que entendi ficar à disposiçảo dos Governos déllas, e assim dos mesmos lhe fiz remessa por ser essa Praça mais vizinha, recomendando-lhes, os mandasse p.ᵃ p.ᵗᵉ; donde nảo viessem para esta Cap.nia pello Risco, que sem dúvida, corriảo as pessoas que os prenderảo,...


(página 08 – imagem 404)

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...os prenderảo, e por todos fazem o numero de decesette, e seis dos mais criminozos culpados nas diligencias da Ribeyra de Jaguaribe, que com os d.ᵒˢ dezessette fazem o mesmo numero dos d.ᵒʳ vinte e trez, deprequey ao Ouvidor Geral de Pern.ᶜᵒ deyxasse ficar na Cadea do ditto Recife; ate que se me mandasse ordem se os havia de remetter para a Corte, ou para a Cidade da Bahia na forma, em que tenho representado pella impossibilid.ᵉ de suas fazendas nảo poderem suprir a remessa tảo distante; no que e em o mais mandarà V.Mag.ᵈᵉ a q̉ for servido. Fort.ᵃ; e de abril 20 de 1738.

D.ᵒʳ Dez.ᵒʳ ocupado nas dilig.ᵃˢ da Cap.nia do Cearà.      Ant.ᵒ Marques Cardozo


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TRANSCRIÇÃO: Heitor Feitosa Macêdo.

Fonte: www.familiafeitosa.com

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Chamada Geral

Ajudem-me a identificar esses dois cangaceiros

Essa foto, logo abaixo, foi retirada do filme que Benjamim Abrahão fez sobre Lampião e seus cangaceiros, em 1936.

Analise as características físicas e tentem " identificar ", os aludidos  cangaceiros, (um cabra e uma cabrocha) pois, tenho lá minhas dúvidas.....

Comentem !!! Desde já, agradeço aos participantes.


Abraço a  todos
Ivanildo Alves Silveira
Colecionador do cangaço
Membro do Cariri-cangaço e da SBEC
Natal/RN

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Cariri Cangaço Lavras da Mangabeira

Programação Completa



Dia 18 de Maio - Sábado
15:00 h - Chegada da Cavalgada Lêla Ferrer sob o Comando do deputado Heitor Ferrer.

15:20h - Abertura Oficial - Câmara Municipal
- Gustavo Augusto Lima Bisneto
- Manoel Severo
- Heitor Ferrer
- Ângelo Osmiro
- Juarez Leitão
- Paulo Gastão

15:40h
- Apresentação de Video Documentário "Fideralina Augusto Lima" Produção da TV Assembléia, CE.

16:20h - Conferência "Entre Canetas e Bacamartes"
Por: Dimas Macedo
 
17:30h - Apresentações Artísticas
- Grupo Regional Xaxado
- Cordelista José Teles da Silva

19:00h - Galpão das Artes
- Reunião Extraordinária do Conselho Cariri Cangaço.

Dia 19 de Maio - Domingo
 

08:30 h - Recepção pelo prefeito Gustavo Augusto Bisneto no Pátio da Prefeitura.

09:00 h - Visita Técnica à Casa de Dona Fideralina no Centro de Lavras da Mangabeira.

09:30 h - Visita Técnica ao Sítio Tatu - Casa Grande do Clã Augusto (Dona Fideralina) Com Dr. Gustavo Augusto Lima Bisneto e Heitor Ferrer.

Exposição Cariri Cangaço  promovida pelo SEBRAE

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Vídeos

Seminário Brasil, brasis na integra

A Academia Brasileira de Letras promoveu em 26 de maio de 2011 o segundo “Seminário Brasil, brasis”, apresentando o tema “O cangaço e a literatura”.

Sob coordenação geral do Acadêmico e presidente da ABL Marcos Vilaça, e coordenação do Acadêmico e poeta Carlos Nejar, o seminário contou com as presenças de Antonio Campos, Felipe Fortuna, Vera Ferreira, Geraldo Ferraz e Leandro Cardoso Fernandes, como expositores.


Parte 2


Fonte:  Mais UOL




sexta-feira, 3 de maio de 2013

Conflitos Históricos

Assalto à casa do alto Alegre
Por: Heitor Feitosa Macêdo

O Alto Alegre era uma das fazendas pertencentes a Joaquim Solano Alves Feitosa, descendente da mais ilustre cepa do sertão dos Inhamuns, sendo o seu pai, o Coronel Joaquim Alves Feitosa (Coronel Quim),  Comandante Superior do Batalhão da Guarda Nacional, chefe político do partido liberal, e Deputado Provincial no biênio 1868/1869. [1] A fazenda localiza-se entre os municípios cearenses de Aiuaba e Campos Sales, na divisa com o Piauí. Um lugar ermo, como quase todos naquela hinterlândia.


Ruínas da Casa do Alto Alegre.

O titular da casa era um homem abastado, pois descendia da fina flor de sua estirpe. Pela linha paterna era neto do capitão Pedro Alves Feitosa, senhor da fazenda Cococá (Cocá) e de sua esposa Maria Madalena de Castro. [2] Já pela linha materna o garbo era maior, pois sua mãe, Maria Madalena, era neta do Major José do Vale Pedrosa [3], senhor de 64 fazendas [4], e possuidor da maior escravaria [5] de todo o Inhamuns, quiçá também do Ceará.

Joaquim Solano era fruto da endogamia praticada em sua família a mais de século, onde primo casava com primo, às vezes tio com sobrinha, e assim por diante, geração após geração. Dificilmente rompia-se esse hermetismo matrimonial, pois as poucas famílias que se agregaram foram praticamente dissolvidas ao longo das gerações.

Solano não era um patronímico, mas apenas uma homenagem que o pai de Joaquim fizera ao intimorato general Francisco Solano López, presidente vitalício do Paraguai. E, apesar de o Coronel Joaquim Alves Feitosa ser responsável pela arregimentação dos soldados para a Guerra do Paraguai [6], resolveu pôr a alcunha do inimigo de seu país em um de seus filhos [7], mostrando-se ser admirador do general paraguaio.

A principal riqueza naqueles tempos era terra, gado e ouro, e nenhum destes faltava àquela gente que pouca importância dava a agricultura.

Quando da morte da esposa do Coronel Joaquim, fora dividido por ele todo o ouro que pertencia à finada. Diz-se que se puseram várias quartas do precioso metal, até cobrir a enorme superfície de uma mesa. Então, ele ordenou que as filhas fossem as primeiras a retirar o que lhes aprouvesse, depois disso, os filhos rateariam o restante. Talvez por isso a fazenda Barra do Puiú, berço de Joaquim Solano, fosse também conhecida como a “Barra do Ouro”, fama que traria consequências nefandas aos descendentes desta casa.

Por volta de 1925 [8], Antônio do Jerimum (Antônio Soares), promoveu um assalto a Joaquim Solano Alves Feitosa, na Fazenda Alto Alegre. O autor do roubo era oriundo do Pernambuco, mas residia nos Inhamuns, na fazenda Jerimum, pertencente a Leandro da Barra (Leandro Custódio de Oliveira e Castro). Este costumava acoutar em suas propriedades gente que dele se valia, conforme o costume da época. [9]

Muitos dos indivíduos que se homiziavam nos Inhamuns, estigmatizados em suas vidas pregressas, buscavam a proteção dos chefes locais, pois o poder encerrado por estes amalgamava o público e o privado.

Naqueles tempos, nas primeiras décadas da República, a política sustentava-se em exércitos particulares, só ascendendo ao governo através da força, o qual, depois de conquistado, só poderia ser mantido a ferro e fogo. Assim, cada qual que se municiasse de homens suficientes ao seu prestígio político, fato que a pouco convulsionara o Sul do Cariri [10].

Tais práticas reverberaram em todo o Ceará, sobretudo após a sedição de Juazeiro, em 1914. Os irmãos do célebre cangaceiro Antônio Silvino [11] (Vicente, José e Miguel) haviam deixado Pernambuco fugindo das perseguições movidas contra eles, e foram recebidos também pelo coronel Leandro da Barra, que os acolheu sob a condição de abandonarem o cangaço. [12]

Paralelamente a isso, o Coronel Lourenço Alves Feitosa e Castro também dera proteção a um desses pernambucanos, especificamente a Vicente Silvino, do qual se tornou compadre. Contudo, Dr. Floro Bartolomeu terminou aliciando Vicente, e, por questões políticas, peita-o para dar cabo da vida do Coronel Lourenço, no que não obteve sucesso. [13] E essa era a forma pela qual se dava a dinâmica das relações no poder.

Da mesma forma que Vicente Silvino, os indivíduos que acorriam a esses rincões haviam sujado as mãos por questões de honra, ou simplesmente por conta da nômade vida do cangaço. [14] Sendo que Antônio do Jerimum mais se perfilava nesta segunda categoria, e, além disso, há tempo andava furtando animais desbragadamente nos sertões do Ceará.


José Valadão, filho de Francisco Valadão e testemunha do assalto.

O larápio já havia surripiado dois cavalos de Joaquim Solano. Animais, estes, “da sela” de Manel Cariri e Francisco Valadão, vaqueiros e moradores no Alto Alegre. Cabendo a este último desvendar a subtração, quando andava pelas veredas da Cachoeira do Cachorro, localidade lindeira ao Jerimum. Aí encontrando o rastro dos equinos subtraídos, Dourado e Calçadinho, além de pegadas humanas.

O feito criminoso fora atribuído a Antônio do Jerimum, que por tal imputação, iracundo, prometeu voltar para acertar contas com os seus delatores, talvez por julgar um opróbio, ou mesmo para fazer calar a acusação. Sendo que a ameaça foi escrita em uma carta, feita em Juazeiro do Norte, e remetida ao seu destinatário nos Inhamuns, a Joaquim Solano. [15]

Um ou dois anos depois da promessa de vingança [16], Seu Chico da Fazenda Nova (Francisco de Sales Castro) [17] manda um portador avisar a Joaquim Solano sobre a presença dos abigeatários na região, e acrescentou que a súcia compunha-se de vários elementos, que se deslocavam em direção ao Alto Alegre.

De sobreaviso, Joaquim Solano reúne-se com seus moradores, amigos e parentes, dentre os quais estavam: Francisco Valadão, Antônio Valadão, Pedro Valadão, Quinco Pepê, Antônio Ruberto, Calixto (oriundo do Cariri); além de seus filhos, Zé Solano, Deolindo Solano e Senhorsino Solano. Na presença destes Joaquim comunica a ameaça do possível ataque, porém, incautamente não entrega as armas aos circunstantes, deixando todo o material bélico trancafiado no quarto dos arreios.

De repente, no arrebol do entardecer, quando a penumbra esmaecia os últimos fulgores do ocaso, a malta sub-reptícia, composta em silhuetas indistintas, adentra o pátio da fazenda prolatando “boa noite”, sucedendo-se a seguinte perquirição: “quem é o dono da casa”. Quando prontamente o titular do velho solar, no frontispício deste, sentado lateralmente à soleira da porta, juntamente com a esposa e filhos, responde-os: “sou eu”. Dito isto, dispara-se um tiro contra Joaquim Solano, que rapidamente se agacha, evitando ser varado pela bala nivelada na altura de seu tronco.

Em seguida, deslocando-se para o interior da casa, evita que um novo disparo o atinja, sendo que o projétil desta vez esbarrou em uma meia parede, no âmago da residência. Os tiros rebentavam com tal intensidade que as lamparinas, já acesas na boca da noite, ameaçavam apagar, diminuindo suas labaredas ante o vento soprado pelo deslocamento das balas. [18]

Os filhos e a esposa da vítima, nesse ínterim, também se recolhem à guarida do lar, prestes a ser devassado. Os moradores da fazenda vão buscar refúgio na vegetação ao derredor. Mas, antes disso, Antônio Valadão “dá de mão” a um rifle, enquanto Quinco Pepê muniu-se de um fuzil que não soube “manobrar”. Este se posicionou no oitão da casa, adjunto das laranjeiras que flanqueavam a velha construção, e debalde disparou os três tiros que a arma dispunha. Os celerados perceberam o esgotamento precoce da munição pilheriando: “manobrou o rifle seco, cabra do diabo”. [19] Nada mais obstava que a corja violasse o interior daquele solar.

Francisco Valadão, em uma atitude fiel e corajosa, escondeu-se em um dos quartos a fim de socorrer o velho patriarca, pulando uma meia parede para alcançar o corredor, que ia dar no quarto em que se fizera o calabouço do chefe daquela família. Enristando uma faca, o fiel Francisco não obteve êxito, pois fora capturado pelos facínoras, melhormente armados, e ao ser indagado ironicamente sobre a desproporção bélica: “o que está fazendo com esta faca, negro”, logo respondeu: “vim morrer com meu padim”. [20]


Dona, esposa de Joaquim Solano.

Enquanto isso, Dona (Maria da Glória Ferrer Feitosa), a esposa de Joaquim Solano, segurando uma imagem do Senhor Jesus Cristo, apelou para que os malfeitores não fizessem nenhum mal ao seu marido. Mas os invasores escarcavelavam todos os cômodos em busca de algum valor, a ponto de tentarem arrancar à força os brincos das orelhas de Candóia (Cândida Solano Feitosa, “Dodóia”), filha primogênita do casal refém, a qual se despojou das joias antes que suas orelhas fossem rasgadas.

Dona findou entregando aos bandidos um dos dois baús repletos de de ouro e prata que estavam guardados na casa, arrefecendo o animus nocendi daqueles bandoleiros.

Enquanto isso, Antônio Valadão, depois de deflagrar os três parcos tiros, foi até a propriedade vizinha, a Fazenda Salão, pedir auxílio a Antônio “Tragino” (Targino), que enviou rapidamente um emissário à Fazenda Nova, onde residiam os parentes mais próximos de Joaquim Solano. Pela manhã, já de volta ao Alto Alegre, Antônio Valadão, participando dos comentários sobre o ocorrido na noite anterior, foi indagado por Joaquim Solano onde teria dormido, respondendo ter passado a noite perto da casa grande, depois de haver procurado auxílio nas terras limítrofes.

Então, nesse intervalo, Joaquim Solano trouxe as mãos cheias de balas, mas extemporaneamente, como foi admoestado por Antônio Valadão que nessa hora disse: “não seu Joaquim. Foi tarde! O senhor devia ter dado esta mão de bala esta noite”. [21] Acrescentou, segundo a logística sertaneja, rude, mas sábia, que estando o grupo na defensa da casa em maior número, dentre eles, alguns exímios atiradores, como Francisco Valadão, e estando entrincheirados no solar, seria fácil ter desbaratado os cangaceiros que lutavam no “campo da honra” (em campo aberto). [22]

O séquito dos bandoleiros se evadiu depois de subtrair o ouro e de ter seviciado o pater familias de tão distinta morada. Durante a fuga, ao alcançarem a parede do açude, Pedro do Jerimum, filho de Antônio do Jerimum, propôs aos comparsas que voltassem para matar Joaquim Solano, deblaterando: “nois demo uma pancada numa cobra, e deixemo viva”. [23] Todavia, elementos que compunham tal grupo negaram-se a voltar, não dando ouvidos às proféticas palavras do pretenso sicário.

Sem demora, iniciou-se perseguição aos facínoras, liderada por Nonô (Epaminondas Ferreira Ferro), irmão de Dona, esposa da vítima do assalto, e de muito afeito a essa labuta, porque de quando em quando se embrenhava na adusta caatinga à procura de criminosos, com fito de prendê-los, comumente na cadeia de Tauá.



Parede do açude onde os bandidos passaram durante a fuga.

Nessa cidade era chefe político o Coronel Lourenço Alves Feitosa, a quem Epaminondas dispensava bastante atenção, porquanto sempre atendia aos chamados do velho caudilho nas horas de grande necessidade, quando a inteligência não bastava para dirimir os conflitos, sem antes lançar mão da força.

Epaminondas era um homem testado nas ásperas perseguições a cangaceiros, pois fora ele, juntamente com seu irmão Bimbim (Salústio Feitosa Ferro), um dos chefes que havia perseguido Vicente Silvino, pelo fato deste ter intentado matar o Coronel Lourenço a mando de Floro Bartolomeu. [24]

O grupo formado para ir ao encalço dos ladrões demorou seis meses em suas diligências, tempo gasto para capturar o último dos gatunos, os quais iam se dispersando nos sertões como que areia ao vento. Além de Nonô, compunham o mesmo grupo: Pedro de Sousa, cabra cedido pelo coronel Leandro da Barra; Joaquim Caboclo (Tio Onça); João Lopes; “Manel” Antônio e Chiquim de Sousa (filho de Manoel Alves Feitosa Sousa, da Cabeça do Boi).

O primeiro dos cangaceiros a ser pego foi Zuza Gavião, que confessou ter os elementos do bando o escopo de se apearem em Dom Quintino, a fim de participar de uma festa nessa localidade.

Assim, quando Epaminondas chegou ao dito lugar, o tenente João Canário fazia as vezes de delegado, e, ao encontrar Nonô, disse-lhe que tivesse bastante cuidado, pois que Zuza era um homem perigoso, assassino cruel e muito habilidoso, não sendo possível prendê-lo sem ajuda. No entanto, Epaminondas retrucou que Zuza não brigava, pois, sozinho, já o tinha rendido sem ter havido resistência por parte do aprisionado. Ante a resposta o Tenente João Canário remendou suas palavras afirmando que Epaminondas não era só, creditando o feito à metafísica, coisa comum naqueles sertões, em se atribuir forças sobrenaturais a certas orações e amuletos. Forma singela de explicar o imprevisto!

Durante a perseguição, uma renhida batalha foi deflagrada no sopé da Serra das Guerrilhas, em Assaré. Nesse combate os larápios buscavam alcançar o Cariri. Em um altiplano, já em elevada posição, os bandidos atacaram de cima, enquanto seus antagonistas, liderados por Nonô, abriam fogo um pouco mais abaixo.


 Epaminondas Ferreira Ferro.

Nesse momento, Pedro de Sousa, cabra de Leandro da Barra, acostumado a usar um chapéu com dois barbicachos, um na frente e outro atrás; teve um rasgado à bala, a qual tirou um fino de atingi-lo na altura da cabeça. Imediatamente, aos saltos, pôs-se a atirar entoando a mulher rendeira, postergando o encarniçado embate.

O derradeiro dos criminosos a ser pego, foi o Baliza, que se encontrava no Icó, prestes a tomar o trem para Fortaleza. Na ocasião da sua captura, portava um rifle desmontado, mais um dos objetos que havia roubado no assalto à casa de Joaquim Solano.

A captura dos delinquentes contou com o auxílio de outros indivíduos fora da parentela, dentre eles, homens de confiança de Domingos Arrais, delegado que era em São Domingos. Este cedera dois dos seus homens de confiança, os gêmeos Fenelom e Salomão, que aprisionaram Pedro do Jerimum, e antes de o remeterem preso aos auspícios do Estado, na Cadeia Pública de Tauá, deram cabo da vida do cangaceiro brutalmente, enterrando-o na ladeira das Guerrilhas, onde jaz, sob a indicação de uma diminuta cruz. Nesse episódio, um comparsa do Pedro também foi morto pelos mesmos irmãos.

Sobre esse episódio, Gustavo Barroso Barroso diz ter sido cometido pelo destacamento policial de Tauá, acrescentando [25]:

Há menos de dois meses atrás, um grupo de facínoras, tendo à sua frente o terrível bandido Antonio do Gerimun, atacou inopinadamente a residência do Coronel Joaquim Solano.A “heroica” polícia seguiu no encalço dos famigerados, matando dois homens dos que obedeciam ao tal Gerimun. Animados por este sucesso, os novos policiais revestidos com a couraça da “barbaridade” e convencidos dos seus deveres partiram para Arneiroz, de onde trouxeram um indivíduo, que se chamava Asa Branca (por infelicidade tinha nome de pássaro). O “valente” cabo Joaquim Maria foi o chefe da “canoa”, que além de maltratar o criminoso que levava em sua companhia (Asa Branca), manchou de sangue a farda da nossa Polícia. Retirando o bandido da infecta cadeia de Arneiroz, rumaram em direção ao Tauá. Depois duma longa caminhada cheia de trabalhos penosos, porque a cada passo que davam esbofeteavam a pobre vítima, chegaram afinal à Barra do Puiú, onde se arrancharam. Aí, em lugar de minorar, ou melhor, diminuir os seus padecimentos, pelo contrário, os aumentaram. Os “valorosos” soldados que mantém a ordem naquela infeliz região levaram as suas violências ao extremo. Tiraram-lhe os olhos e em seguida obrigaram-no a caminhar. Os nossos “mantenedores” da ordem riam e troçavam diante daquele ato que acabavam de praticar. E para diminuírem os seus padecimentos e o seu crime restava apenas um meio – era assassiná-lo, e foi o que fizeram. Poucos dias depois, os incumbidos de capturar o referido bandoleiro chagavam àquela localidade e depositavam no necrotério os restos mortais da infeliz presa.

No entanto, a vida do restante dos bandidos foi poupada, algo incomum naquela época, pois o líder da captura agia com recursos privados, ao bel-prazer da vindita, fato recorrente na maioria dos sertões, já que a mão do Estado não alcançava tão longe, deixando aos particulares o arbítrio de judiciar divinamente sobre a vida e a morte de seus membros.

Para melhor exemplificar, deu-se que Joaquim Caboclo (Tio Onça), ao escoltar os cangaceiros presos para Tauá foi interceptado por Calixto, apaniguado de Joaquim Solano, que desejava imolar tais presos. Entretanto, Joaquim Caboclo cumpria ordens expressas de Nonô, e não poderia contrariá-lo, logo, o meio mais eficiente que encontrou para obliterar o assassínio daqueles homens reduzidos ao cativeiro, foi fazer mira com seu rifle visando Calisto, que também não cedeu brandamente, pois, de forma recíproca, mirava o cano de sua arma em direção do renitente Joaquim Caboclo.

Entretanto, a contumácia pela manutenção da vida dos delinquentes prevaleceu, sendo três deles remetidos à cadeia de Tauá, o Baliza, o Conrado e o “Manel” Gavião (Zuza Gavião). Cabe salientar que o autor intelectual do assalto, Antônio Soares (Antônio do Jerimum) não participou da execução do crime, apenas seu filho, Pedro, homenzarrão, jovem e com ares de valente. Diz-se que os bandidos resumiam-se a seis membros, no entanto, o nome de um deles permanecia desconhecido da tradição, no que fora complementado por Gustavo Barroso, revelando ser esse sexto bandido o Aza Branca. [26]

Por fim, os objetos foram recambiados em ínfima quantidade, e sempre que os bandidos eram pegos, afirmavam ter entregado as jóias a Pedro Silvino Alencar, régulo na cidade de Araripe, que devolveu pequena parte da quantia subtraída.

Assim, Joaquim Solano deixa o Alto Alegre e vai residir mais adjunto dos seus parentes, desta vez na fazenda Poço do Boi, onde terminou de criar seus 15 filhos.

BIBLIOGRAFIA:

Barroso, Gustavo. Almas de Lama e de Aço: Lampião e outros Cangaceiros, Rio - São Paulo – Fortaleza, Editora ABC, 2012.

Barroso, Gustavo. Terra de Sol, 8ª Ed., Rio - São Paulo - Fortaleza, ABC Editora, 2006.

Chandler, Billy Jaynes. Os Feitosas e o Sertão dos Inhamuns, Forteza, UFC, 1981.

Feitosa, Leonardo. Tratado Genealógico da Família Feitosa, Fortaleza, Imprensa Oficial, 1985.

Freitas, Antônio Gomes de. Revista do Instituto do Ceará, 1972.

Freitas, Antônio Gomes de, Inhamuns: Terra e Homens, Fortaleza, Henriqueta Galeno, 1972.

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NOTAS:

[1] Freitas, Antônio Gomes de, Inhamuns: Terra e Homens, Fortaleza, Henriqueta Galeno, 1972, p. 157.

[2] Feitosa, Leonardo, Tratado Genealógico da Família Feitosa, Fortaleza, Imprensa Oficial, 1985, p. 39.

[3] Feitosa, op. Cit., p. 84.

[4] Chandler, Billy Janes, Os Feitosas e o Sertão dos Inhamuns, Forteza, UFC, 1981, p.158.

[5] Chandler, op. Cit., p. 181.

[6] Feitosa, Leonardo, op. cit., p. 107.

[7] Joaquim Solano foi o primeiro a ostentar tal alcunha, Solano, dentro da família Feitosa, e o único entre os dez irmãos ( Leonardo Feitosa, TGFF, p. 101-102).

[8] Quanto à data deste acontecimento, há uma imprecisão, pois, enquanto Hilário Feitosa (irmão do historiador Pe. Neri Feitosa) diz ter ocorrido em 1924; José Valadão, que presenciou tal assalto, ainda criança, afirma ter ocorrido tal episódio em 1925. Já Gustavo Barroso, diz que o cangaceiro Aza Branca fora morto aproximadamente em maio de 1927 (In Almas de Lama, p. 52).

[9] Leandro da Barra também era Feitosa, filho do homônimo Leandro Custódio de Oliveira e Castro e D. Maria, filha de José de Sousa Rego (Leonardo Feitosa, Tratado Genealógico da Família Feitosa, Fortaleza, Imprensa Oficial, 1985, p. 86 e 98).

[10] Sobre as deposições políticas no Sul do Estado do Ceará, ver Joaryvar Macêdo em “Império do Bacamarte”, Fortaleza, UFC, 1990.

[11] Disse Gustavo Barroso que Antônio Silvino (Manuel Batista de Morais) “é o maior chefe de cangaceiros que tem produzido o sertão do Norte. É um verdadeiro senhor da zona que se estende das fronteiras de Pernambuco aos limites do Ceará...” (Terra de Sol, 8ª Ed., Rio - São Paulo - Fortaleza, ABC Editora, 2006, p. 102).

[12] Freitas, Antônio Gomes de, Revista do Instituto do Ceará, 1972, p. 93.

[13] Freitas, Antônio Gomes de, Revista do Instituto do Ceará, 1972, p. 89.

[14] Segundo Gustavo Barroso, “o termo cangaceiro estende-se a todas as modalidades do criminoso nos sertões...” (Terra de Sol, 8ª Ed., Rio – São Paulo – Fortaleza, ABC, 2006, p. 83).

[15] Sobre a carta, as informações foram dadas por Manoel Feitosa Sousa (Manim), com base nos depoimentos de seu pai, Zezé (José do Vale Pedrosa), filho de um dos protagonistas, Epaminondas Ferreira Ferro.

[16] Manoel Feitosa Sousa (Manim) também afirma, com base na tradição, que o intervalo entre a ameaça e a invasão da fazenda foi de seis anos.

[17] Francisco de Sales Castro pertencia à família Feitosa, sendo filho adotivo do Tenente-Coronel Manoel Martins Chaves e Vale (Seu Martins da Fazenda Nova) e de Dona Maria Madalena de Castro Chaves (Leonardo Feitosa, Tratado Genealógico da Família Feitosa, Fortaleza, 1985, p. 95). A prova da adoção é atestada em uma carta de doação, feita pela viúva de Seu Martins, em benefício de Francisco no ano de 1903.

[18] Mariêta Solano Feitosa, filha de Joaquim Solano, presenciou a ação criminosa, ainda menina, e relatou a violência dos tiros no interior da casa de seu pai, que quase apagavam as lamparinas.

[19] Os termos utilizados pelo entrevistado, José Valadão, para reproduzir a fala dos protagonistas, foram mantidos. O entrevistado também presenciou o assalto. Ademais era filho de Francisco Valadão, o mesmo que encontrou os rastros dos animais furtados.

[20] Essa narração foi colhida no seio da família Feitosa-Solano.

[21] Depoimento de José Valadão.

[22] Ibidem.

[23] Ibidem.

[24] Freitas, Antônio Gomes de, Revista do Instituto do Ceará, 1972, p. 95.

[25] Barroso, Gustavo, Almas de Lama e de Aço: Lampião e outros Cangaceiros, Rio - São Paulo – Fortaleza, Editora ABC, 2012, p. 52-53.

[26] O Baliza, anos depois foi solto, mas acabou por ser assassinado no fronteiriço estado do Piauí. Já o Conrado, depois de liberto, foi ser operário na construção da estrada em cima da Serra Grande (Ibiapaba).

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quarta-feira, 1 de maio de 2013

A pisada do "Rifle de Ouro"

Antônio Silvino e o Rio Grande do Norte
  
Por Jesus de Miúdo

Das quatro vezes que se tem notícias que o primeiro Rei do Cangaço, Antônio Silvino, perscrutou em andanças pelos vales potiguares, em duas delas passou pelas ribeiras d’Acauã, em Acari. Em ambas, não visitou a sede da cidade. Talvez ocorreram até mais, as incursões nesses solos de Poty. Mas, somente quatro estão registradas no livro do escritor Sérgio Augusto de Souza Dantas, cujo título é Antônio Silvino – O Cangaceiro, O Homem, o Mito. É fazendo a prazerosa leitura que podemos saber da fantástica e corajosa resposta que o Coronel Silvino Bezerra mandou para o Governador do Sertão, como o cangaceiro também era conhecido. Pois Antônio Silvino havia mandado o Coronel Manoel Bezerra de Araújo Galvão fazer a coleta na cidade.

O coronel encontrou-se com o senhor Cypriano Pereira e as exigências lhe foram confiadas e levadas ao conhecimento do chefe político de então. O Coronel Silvino Bezerra, não se intimidando com a fama do Capitão do Mato, outro epíteto de Antônio Silvino, mandou dizer-lhe a ordem que saísse da cidade imediatamente.

Cel. Manoel Bezerra de Araújo Galvão

Também no livro descobrimos, quase que boquiabertos, da coragem sem igual de Félix Pereira, delegado e pai do Dr. Félix Bezerra, esse último na época promotor de Acari, que se encontrando sozinho com o cangaceiro e seu bando, tendo apenas a vasta caatinga como testemunha, negou-lhe o mesmo pedido e ainda se identificou como delegado da cidade.

E foi sobre a marcha de Antônio Silvino, depois do episódio com o delegado, que vim hoje aqui para contar, já que não a encontramos no livro.

Vicente de Paula Araújo, conhecido em nosso meio como Vicente Aprígio, ou mesmo Vicente de Benedita; filho de Tereza Pires Galvão, ela filha de Antônio Pires de Albuquerque Galvão (Major Pires) e terceira esposa de Manoel Aprígio de Araújo Galvão; contou-me que por diversas vezes ouviu da boca de sua mãe a singular narrativa de fato acontecido num finalzinho de tarde do mês de novembro de 1914, no lugar chamado Carnaubinha, nesse município de Acari. Dona Tereza contava que estava o Major Pires sentado em seu alpendre, já em roupas de dormir, quando viu um morador da fazenda vizinha se aproximando com alguém desconhecido. O morador atendia pelo nome de Caboclo e, achegando-se mais, foi logo apresentando o companheiro de jornada:
- Major, esse é o Capitão Antõe Silvino.
A princípio o major pareceu sofrer um baque, ouvindo o nome do Rifle de Ouro, outro apelido do cangaceiro, ficando de olhos serrados em Caboclo, sem pestanejar e mudo. Conhecia bem a fama de facínora que o homem apresentado tinha. Estaria descrente, ou já totalmente rendido? Mesmo assim, sentenciou com voz vacilante ao morador:
- Hômi, deixe de brincadeira, Caboclo!
Então, o cangaceiro se apresentou e até brincou com o major que, a essa altura, se mostrava temeroso em demasia e tremendo muito. Garantiu-lhe que a visita era de paz e, talvez depois de algum sinal, num instante a cabroeira saiu de dentro do mato e se juntou no alpendre, fazendo o major acreditar de vez na conversa dos dois homens, contudo se acalmando.

Logo foi servido soberbo café para todos, com ovos, carne seca com farinha e os bolos que havia na casa, mais bolachas e biscoitos, além de leite e queijo de coalho. No entanto, apenas o próprio Antônio Silvino entrou na sala do major e dividiu a mesa com o mesmo, acautelando-se de sentar de frente para a porta, trocar as xícaras com o major e só iniciar a sua refeição após o dono da casa. A chusma de cabras continuou no alpendre, com suas armas reluzentes, ainda segundo Dona Tereza contava ao filho Vicente.
Satisfeita a fome de todos, o major perguntou-lhe se ainda queria alguma coisa. Já escurecendo, Antônio Silvino olhou por uma janela que dava para dentro do curral. Ali divisou um boi manso, de carroça, e pediu apenas o valor do animal. Recebeu assim 50$000 (cinquenta mil réis).

Noite feita, o cangaceiro pediu um guia ao major. Queria alcançar a Paraíba o mais breve possível. O major designou Manoel Inácio, seu vaqueiro de confiança, e combinou que pela Estrada do Bico seria o melhor caminho. Entretanto, quando alcançaram o meio do mato, Antônio Silvino indagou ao vaqueiro guia se havia uma outra estrada, e segredou a Manoel Inácio que sentira “falsidade no abraço daquele homem”, sem dizer, porém, de quem falava.

O guia considerou o pedido e acabou levando o bando por outras veredas e assim, sem saber e sem querer, ajudou-o a desviar-se do grupo comandado pelo delegado Félix Pereira e seu filho, o promotor Félix Bezerra, que lhe esperava no lugar chamado Boqueirão, na fazenda Bico da Arara. Horas mais tarde, chegava à casa do Major Pires o senhor Francisco Elviro, irmão de Dona Tereza, vindo de sua propriedade nas adjacências da Serra do Bico da Arara, dando conta que havia sido parado pelo grupo do promotor e que, por ter sido confundido com cabra de Antônio Silvino, teve armas postas sobre ele. Dizia ter escapado por pouco.


Pág. 302 Iconografia do livro de Sérgio Dantas

Dessa fuga, que se deu pelo começo do mês de novembro de 1914, o bando atravessaria a Paraíba e entraria em Pernambuco. Ali, no dia 27 de novembro do mesmo ano, Antônio Silvino seria alvejado e preso pela polícia. Mas para saber da história com mais propriedade, o bom mesmo é comprar e ler o livro do Dr. Sérgio Dantas. Uma leitura ímpar!

Pesquei em www.acaridomeuamor.nafoto.net