domingo, 31 de março de 2013

Cariri Cangaço

O primeiro a gente nunca esquece

Assista a este documentário da Laser Video resumindo o primeiro evento ocorrido em 2010.

Apresentação: Odilon Camargo



Deu vontade, meu cumpadi ou minha cumadi? A 4ª edição ocorrerá de 17 a 22 de Setembro de 2013. Acompanhe as novidades por aqui ou pelo blog do evento www.cariricangaco.blogspot.com.br

Uma cortesia de Aderbal Nogueira

quarta-feira, 27 de março de 2013

"O Imparcial" - BA, em 22 de Maio de 1935

Liberdade para Alecrim e Bananeira

Transcrito por: Urano Andrade

Matéria de capa
É o que menos se poderia acreditar, mas aconteceu. Quatro ex-cangaceiros que assolavam o sertão, espalhando o terror por toda parte foram soltos e enviados para Ilhéus e Itabuna, para trabalharem (honestamente, já se vê) nos campos do Sul...

Manoel Raymundo Correia, Sebastião Valentim dos Reis, Pedro Vieira da Silva (Alecrim), e Horácio Teixeira Junior (Bananeira)  chegaram já a Ilhéus. Os dois primeiros eram bandoleiros de um Virgilino, bandido de Ituassu, e os dois últimos do celebérrimo
Virgolino Ferreira, o Lampião, condenado a morrer de velho...

Dois desses bandoleiros foram enviados a Itabuna, ficando os outros em Ilhéus sob a vigilância da polícia...

Ora, essa “bôa gente” estava aqui na Penitenciária há cerca de um anno, tendo agora essa liberdade “devido ao bol procedimento que tiveram naquele presidio, e atendendo a outras circinstancias que militam em seu favor...”

Quaes serão estas circunstancias favoráveis aos presos, e como teria sido essa rápida regeneração que durou só um anno, depois de ninguém sabe quantos crimes?

Pedro Vieira da Silva o "Alecrim"

Um criminoso comum pode, por um só crime, levar 30 annos na Penitenciaria; uns bandoleiros que foram o terror do sertão, de cujos crimes, ninguém sabe o numero certo se arrependem assim depressa, no espaço de um anno, e são postos em liberdade, embora vigiada!

Bandoleiros habituados a correr no matto denso trabalhando “vigiados” nas mattas do Sul!...

É curioso, mas parece também perigoso... E ninguém é capaz de atinar com a razão dessa concessão aos bandoleiros.

Pescado no www.blogdomendesemendes.blogspot.com

segunda-feira, 25 de março de 2013

Crônicas de Humberto

A Expedição contra Lampião

Por: Manoel Neto

“A Expedição Contra Lampião”, com esse título Humberto de Campos revive o tema cangaço nas suas crônicas diárias, então publicadas em todo o país por diferentes periódicos que lhe asseguravam muitos leitores e, por consequencia, enorme popularidade, como já afirmamos no capítulo anterior.

Oportuna essa aproximação do autor com o cangaceirismo nordestino, pois era a união da “fome com a vontade de comer”, mormente, naquela quadra, quando despertava curiosidade crescente na opinião pública, cotidianamente informada sobre as andanças dos bandos errantes nos carrascais sertanejos, notadamente de Lampião, informações estas carregadas nas tintas e quase sempre tingidas com muito sangue e descritas com pormenores estarrecedores.

Mais uma vez é a repressão aos cangaceiros, muito embora, o autor se refira explicitamente a Lampião, a quem denomina - “o famoso sanguinário bandido que domina há doze anos os sertões do Nordeste brasileiro [1]”, que ocupa as meditações do cronista. Sobre este texto colhemos evidências que nos levam a acreditar haver sido ele publicado em 1931, isto por que, trabalho do professor Jorge da Matta Villela, intitulado “Operação anti-cangaço: As táticas e estratégias de combate ao banditismo de Virgulino Ferreira, Lampião [2] nos dá ciência que:

“Neste inicio de 1931, segundo CHANDLER [3], o centro de planejamento da campanha contra Lampião havia-se deslocado para a capital federal”. E no centro deste plano estava o Capitão Carlos Chevalier. Ele pretendia utilizar aviões na captura de Lampião e em conjunto com as aeronaves (que na verdade pareciam ser apenas uma) seriam empregues sistemas de radiocomunicação que travariam contato com um contingente de mil homens, dentre os quais 200, por exigência do capitão do ar, cariocas.(Cf. VILELLA, p. 112).


Avião Waco RNF NC 663Y fabricação 1930 um destes seria usado por Chevalier.  
Fonte: Lampião - Entre a espada a Lei. Sérgio Augusto Souza Dantas, Pág. 314.

A informação transcrita acima que Mattar colheu em Chandler nos permite elucidar um dado cronológico importante. Melhor explicando: esclareço de imediato que “A Expedição Contra Lampião”, objeto de nossos comentários neste capítulo reporta-se justamente ao ataque planejado pelo oficial Chevalier contra os salteadores sertanejos. Tendo em conta esse dado, podemos presumir que a crônica foi produzida por Campos em 1931, posto que ele não comentaria em ano posterior notícia notadamente datada. Ao puxarmos o fio de uma meada, sabemos, estamos “cutucando o cão com vara curta”.

Assim é que fomos passar os olhos no indispensável trabalho de Marilourdes Ferraz [4] e lá encontramos o seguinte trecho: “Em 1931, dois episódios marcaram de modo extraordinário a vida do Rei do Cangaço no sertão baiano”. (Cf. FERRAZ, p. 338). Como o primeiro episódio relatado não é relevante para o que tratamos neste artigo passemos ao segundo:

 “[...] Em maio deste mesmo ano, surge o bando no povoado de Várzea da Ema (grifo nosso) para levar a efeito a vingança contra o fazendeiro Petronilo Reis [5]. Agora quase meia centena de homens integravam o grupo, que chegou arrasando, queimando e matando. Essa tarefa devastadora teve a duração de quase quarenta e oito horas, num mês ameno, com o mato muito verde. Quando Lampião deu a ordem de partida, deixava para trás mais um lugar devastado e uma área esturricada pelo fogo” (ob. cit. p. 339).

Cel. Petronilo de Alcântara Reis

Este acontecimento narrado por Ferraz nos obriga a uma digressão, porém necessária. Quando tratamos da primeira crônica de Humberto de Campos, “A Última Proeza de Lampião”, em que o mesmo aborda os acontecimentos transcorridos em Curaçá, nos sertões da Bahia, destacamos as dificuldades para precisar a data da publicação do texto, em razão de inexistir referência na coletânea consultada. Além disso, em outras fontes coligida, como também, auscultando nomes conceituados que averiguaram e continuam averiguando o episódio, os mesmos confirmaram passagens de Lampião na Sede de Curaçá, mas desconheciam o incidente narrado por Campos, pelos menos naqueles moldes e extensão. Fato de tal monta como aquele textualizado por Campos não teria sido perpetrado por lá.

Marilourdes Ferraz
Ocorre, contudo, que a narrativa constante do “Canto do Acauã” ao mencionar Várzea da Ema e a violência do ataque, bem como, o número de cangaceiros participantes, nos obrigou a considerar que naquele ano o pequeno povoado – Várzea da Ema - onde nascera o famoso guerrilheiro Pedrão, conselheirista que lutou em Canudos, integrava o território de Curaçá, havendo, por consequencia, a possibilidade clara de Campos haver citado este município, em razão das informações que coligiu para redigir o seu escrito. Cabe neste momento uma observação que devemos ter em conta quando o tema é cangaço e que também se encaixa aqui como uma luva, observação esta proveniente de Luiz Rubem Bonfim [6], qual seja:

“Não existia na época um jornalismo investigativo sobre a presença de Lampião na Bahia, as matérias publicadas nem sempre eram assinadas pelos jornalistas, os periódicos da capital não focavam apenas notícias, mas também opiniões, comentários e editoriais. As informações sobre Lampião e seu bando na Bahia, eram obtidas através das agências de notícias, da abordagem de viajantes na estação ferroviária da Calçada em Salvador, no trecho ferroviário Salvador a Juazeiro, na Secretaria de Segurança Pública no bairro da Piedade, moradores do sertão se dirigiam às redações em Salvador, também eram enviados do interior telegramas e cartas assinadas” (grifo nosso).
(BONFIM, ob. cit., p. 15).

Que outras fontes estariam disponíveis para o ilustre autor de “Notas de Um Diarista”, cujo interesse pelo cangaço era eventual? Escrevia em cima da perna, diariamente, fazendo uso do seu enorme talento e inegável erudição, não havendo tempo para pesquisas mais acuradas, detalhes. Sofria de grave enfermidade que lhe roubava a visão gradativamente, escrevendo com enorme dificuldade para por “o pão na mesa”, como salientou inúmeras vezes. Leve-se em conta igualmente quer a notícia em si, já rendia “panos para manga”. Daí nossa especulação sobre a possibilidade de que o lugar exato do corrido, considerando os indícios, venha mesmo a ser o então distrito de Várzea da Ema, hoje pertencente à Chorrochó, sendo que naquela época ambos estavam inseridos em território de Curaçá. Estaríamos certos?

 Capitão Carlos Saldanha
da Gama e Chevalier.

Voltemos agora ao capitão Chevalier e sua iniciativa na ótica do “moço de Miritiba”. Dizendo está noticiada “há dias a organização de uma coluna militar, de mil e poucos homens, para dar combate ao bandoleiro Lampião, o famoso e sanguinário bandido que domina há doze anos os sertões do Nordeste brasileiro” (Cf. CAMPOS, Notas de um Diarista, p. 31), Humberto vai adiante detalhando informes sobre a empreitada em curso, não sem uma fina ponta de ironia e certa estranheza diante da complexa estrutura logística que se ajuíza organizar para combater cangaceiros nos terrenos áridos e espinhosos da caatinga. Mencionando a chefia da empreitada dá asas ao seu raciocínio:

“Comandada pelo Capitão Chevalier essas forças levam canhões, metralhadoras, aviões, automóveis, o material bélico indispensável, em suma, para mim, batalha com tropas regulares. E é assim constituído, armado, municiado, apetrechado, que o pequeno exército vai entrar pelas terras adustas do Brasil nordestino, entre toques de corneta, rufos de tambores e a trepidação bárbara dos motores, na terra e no céu. Para justificar esse aparato bélico, informa-se que a quadrilha chefiada pelo salteador se compõe de 150 homens. E há nisso um evidente exagero. “O cangaço profissional para ser exercido com eficiência, prescinde de grandes grupos, que lhe comprometeriam a mobilidade” (CAMPOS, p. 31).

Cabe-nos de imediato melhor apresentar o Capitão Carlos Saldanha da Gama e Chevalier, este o seu nome completo. De antemão podemos assegurar que naqueles idos era o citado oficial figura conhecida. Participara das conspirações que resultou na sublevação vitoriosa denominada Revolução de 1930, havendo, porém, poucos anos antes, em 1921, integrado a turma:

“[...] de Observadores Aéreos ao lado do Capitão Newton Braga, dos Tenentes Eduardo Gomes, Ivo Borges, Amílcar Velloso Pederneiras, Gervásio Duncan de Lima Rodrigues, Ajalmar Vieira Mascarenhas, Sylvino Elvidio Bezerra Cavalcante, Plínio Paes Barreto”

Na mesma década e, antes, no final dos anos 20, historiografou a insurreição militar acontecida em 1922, na fortificação militar de Copacabana, movimento popularizado como “os 18 do Forte” [7]. Em 1931 alcança generosos espaços na mídia ao apresentar seu plano para capturar Lampião. Não se pode dizer, contudo, que tenha sido o primeiro, talvez, sim, o mais ambicioso. Se corrermos os olhos nos jornais baianos publicados quando Lampião ganhara fama nacional e suas façanhas repercutiam com freqüência quase diária na imprensa, veremos que muitos foram àqueles, notórios ou anônimos, que “tiravam do bolso do colete” planos mirabolantes para capturar o antigo tropeiro de Vila Bela. O professor Jorge Vilella, autor já citado neste texto, observa que:
“Entre os anos de 1922 e 1938 os governos das capitais nordestinas, seus jornais e uma parcela de seus cidadãos tiveram uma preocupação em mente: como dar cabo daquele que era, já desde o primeiro dos seus 16 anos como chefe de cangaço, o maior de todos os cangaceiros” (VILELLA, ob. cit.)
Urgindo cumprir este desiderato, algumas iniciativas oficiais foram espantosamente encaminhadas, apesar das pouquíssimas chances de lograrem êxito. Refiro-me no caso a iniciativa do Capitão João Miguel, que agindo de forma insensata, autoritária e cruel, resolveu evacuar as populações rurais e confiná-las nos cidades-sedes dos municípios indexados no seu plano, como maneira de desmontar o apoio voluntário e involuntário que os coiteiros asseguravam aos bandidos. Famílias inteiras foram obrigadas a deixar seus lares e pertences, suas roças, afazeres e criações para em muito pouco tempo transformarem-se em pedintes, em párias, a perambular por praças e demais logradouros públicos das cidades, inteiramente despreparadas para receber e cuidar daquele excedente populacional. Em decorrência desta sandice, pais de família perderam-se no álcool e na violência, meninas se prostituíram, sem contar o sofrimento atroz de velhos e crianças. Este caos se estabeleceu em 1932 quando os sertões nordestinos padeciam uma das mais inclementes estiagens do século, fenômeno que por si só era um flagelo, batizada então de “seca de João Miguel [8]“.

O então 1º Tenente Felipe Borges de Castro num documento datado de 1939 [9], portanto, depois do trucidamento de Lampião e parte do seu bando na Grota do Angico, também apresentou sua solução para erradicar o cangaço. Na sua proposta Castro reconhece que a ação nefasta da Polícia que frequentemente usa de “medidas violentas” contra supostos colaboradores dos cangaceiros, pessoas em alguns casos, vítimas de informações infundadas oriundas de informantes dos policiais, é extremamente prejudicial à campanha repressora. Feita esta constatação o militar sugere a criação de “uma colônia correcional agrícola num dos pontos mais frequentados pelos bandoleiros” [10]. A esta providência somar-se-iam duas outras iniciativas: “a criação de uma Delegacia Especial em zona atingida pelo banditismo [11]” e a “difusão na zona do banditismo da doutrina de Deus e catequeses por um sacerdote católico”. Na avaliação do já citado Mattar Vilella,

Tenente Felipe Borges de Castro
“o projeto utópico do Tenente Castro é um plano de separação e arresto, a criação de um amplo espaço carcerário e didático no interior do qual todos os implicados no problema do banditismo, mesmo sem prova criminal, pudessem ficar fechados mantendo sua influência negativa separada do mundo [12]“.

Sempre atento e perspicaz o Cego Véio [13] mostrava-se escrupulosamente cuidadoso e discreto em relação aos seus colaboradores, avaliando corretamente a importância dos mesmos para o perfeito funcionamento da  intricada rede de apoio que cuidadosamente montara, como alerta Maria Cristina da Matta Machado:

“Lampião era muito discreto, comportamento importante para quem vive ameaçado de ter inimigos, até mesmo nas suas fileiras. Jamais falava com todos os seus camaradas de luta os assuntos ligados à segurança moral e física dos seus coiteiros” (MATTA MACHADO, 1969, p. 68) [14]

Notas e referencias
[1] A área territorial em que o cangaço se fez mais assíduo integra os Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, e Sergipe. Procedente, entretanto, é a observação de Luiz Rubem Bonfim, no seu livro “LAMPIÃO, Conquista a Bahia”, quando o mesmo destaca que o vocábulo Nordeste era usual para referência a Bahia. Quanto aos demais Estados nordestinos eram registrados como “estados do Norte”, embora, não pareça ser o caso no texto comentado.
[2] VILLELA, Jorge Mattar. Artigo publicado na Revista de Ciências Humanas, de Florianópolis, Santa Catarina, no número 25, à página 112, em abril de 1999:
[3] CHANDLER, 1981apud Mattar, 1999, p. 112. Ob.cit.
[4] FERRAZ, Marilourdes. O Canto do Acauã. Das memórias do Cel. Manoel Flor (Coronel Manoel Flor). Comunigraf Editora. 3ª edição. Recife, 2011. 661 p. Il:.
[5] Senhor de muitos cabedais, grande proprietário de terras e criador de gado e principal liderança de Santo Antonio da Glória, hoje município de Gloria, situada próximo a divisa de Pernambuco e Alagoas.
[6] BONFIM, Luiz Rubem F De A. Lampião Conquista a Bahia. Impressão Graf Tech. Paulo Afonso, 2011. 422 p. Il:.
[7] Chevalier publicou os seguintes títulos “Memórias de um revoltoso ou Legalista”, de 1927 ; “Os 18 do Forte”, de 1930 e “Os 18 do Forte – Siqueira Campos”, obras hoje somente encontráveis em sebos e com alfarrabistas.
[8] O Capitão João Miguel integrava os quadros do exército Brasileiro e sendo comissionado na Polícia Militar com o fito de participar da luta contra o banditismo na Bahia, durante o governo do Interventor Juraci Magalhães, ocasião em que  o posto de Comandante das Forças em Operação Contra o Cangaço na Bahia. Era especialista em comunicações. Sobre a seca de 1932 e outras estiagens nos sertões nordestinos sugerimos a leitura do livro “Vida e morte no sertão: história das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX”,  do historiador paulista Marco Antonio Villa.
[9] Novo Plano Para Extinção do Banditismo. Felipe Borges de Castro galgou a posição de Coronel e escreveu um importante trabalho para a compreensão da política de repressão ao cangaço na região, o livro “A Derrocada do Cangaço na Nordeste”, reeditado recentemente pela Assembleia Legislativa da Bahia.
[10] Apud. VILELLA, Jorge |Mattar. Ob. cit.
[11] Idem
[12] VILELLA Jorge matar. Passim. Sugerimos a leitura entre outros de Lampião na Bahia, de Oleone Coelho Fontes, onde o autor relata outras iniciativas de particulares sequiosos de notoriedade ou portadores de uma coragem suicida, que se ofereciam para capturar Lampião por meios de estratagemas os mais diversos e inusitados.
[13] Porr esta alcunha muitos oficiais, soldados, rastejadores e contratados das volantes se referiam a lampião, em razão do seu olho afetado por acidente que causou-lhe a peda parcial da visão.
[14]MACHADO MATA, Cristina da. As Táticas de Guerra dos Cangaceiros. Laemmert, rio de Janeiro, 1969,223 p.
Longa seria a lista e certamente assunto para muitas laudas a história da repressão ao banditismo nos sertões do Nordeste, notoriamente no período em que o cangaço experimentou modificações expressivas no seu modus operandi, atingindo um nível de sofisticação profissional adredemente estruturada pela astúcia militar e estratégica de Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião. Para combatê-lo e aos seus subgrupos, sob diferentes comandos, fizeram-se necessárias articulações políticas entre os estados atingidos [15]. Considerável dispêndio de recursos públicos, reciclagem das forças policiais regulares e das suas formas de combate, como também,  a incorporação de contratados eventuais, geralmente moradores das caatingas, afeitos ao terreno e conhecedores dos socavões por onde transitavam os bandoleiros, em verdade, guias sem os quais soldados e oficiais encontrariam enormes dificuldades de locomoção e orientação. Muitos deles tornaram-se rastejadores, isto é, indivíduos que divisavam em meio ao ambiente hostil e ilegível aos olhos leigos, as marcas deixadas pelos bandos marginais.

Ao comentar os preparatórios do capitão Chevalier, Humberto de Campos evidencia está mais familiarizado com as táticas e estratégias de luta dos adornados combatentes das caatingas. De chofre, sem maiores rodeios, chama a atenção do público leitor para o inédito conjunto de homens, armas e apetrechos a ser empregado na Campanha, afirmando que para justificar tão onerosa e complexa operação, os seus planejadores, à frente o oficial irredento de 1930, ancoravam-se na perspectiva de bater-se com uma quadrilha composta por 150 homens. Então Campos pondera explicitando conhecimento de causa:

E há nisso, evidente exagero. O cangaço profissional, para ser exercido com eficiência, prescinde de grandes grupos, que lhe comprometeriam a finalidade. A sua tática reside na mobilização rápida, na facilidade da dispersão no momento do perigo, e esta não é possível se os cangaceiros dispusessem de contingentes consideráveis. Antônio Silvino [16] jamais admitiu mais de uma dúzia de cabras, e Lampião nunca reuniu mais de 40, e isso mesmo para entrar em Juazeiro, temendo uma surpresa de Padre Cícero [17]. É sabido, mesmo, que o seu processo consiste em reduzir os seus contingentes à medida que é perseguido, de modo a desorientar os perseguidores, eclipsando-se na caatinga (CAMPOS, pp. 31, 32).

A citação conscientemente longa se impôs em decorrência da relevância de algumas observações nela contidas, que ratificam nossa percepção de que o articulista àquela altura já conhecia maiores detalhes sobre o modo de guerrear de Lampião e seus seguidores, observações estas que grifamos no trecho citado.

Interessante é que Campos já se refere ao “cangaço profissional”, num tempo em que a vida bandoleira no Nordeste ainda era analisada sob outros prismas.

Vale ressaltar igualmente que em Mossoró, para citar das mais infelizes sortidas de Lampião contra uma localidade, os sitiantes somavam mais de 150 homens, muito embora fosse um somatório de bandos que atuavam dispersos e independentes, inclusive nos seus comandos. Portanto, época houve, antes de ingressar na Bahia em 1928, que os agrupamentos eram mais numerosos, ao revés do mencionado no texto.


Civis e militares contra Lampiao em Mossoró, junho de 1927.

Independente das ponderações expressas fica, entretanto, o reconhecimento de que “o jovem oficial revolucionário vai prestar, todavia, um relevantíssimo serviço a sua terra, com essa expedição” (CAMPOS, p. 32). Mas, cauteloso e reflexivo adverte o capitão Chevalier: “Para combater cangaceiros, faz-se mister mais a habilidade individual do que a bravura, e mais perfídia vulpina do que, propriamente, arte militar”.(ibid. p. 32). Ou seja, o expedicionário teria que usar de “perfídia vulpina”, ou melhor, usar a sagacidade, a esperteza, a mobilidade da raposa, animal que integra a fauna catingueira, prevendo adiante

 “[...] que vamos assistir a um duelo entre a artimanha de um bandoleiro e a intrepidez de um verdadeiro soldado, ou, mais caracteristicamente, um encontro entre um cavaleiro que maneja um florete e um bárbaro que avança contra ele sustentando com a s duas mãos a sua formidável tangapema (grifo nosso) de maçaranduba” (CAMPOS, passim).

O contraponto entre civilização e barbárie que neste extrato fica delineada no confronto entre “o cavaleiro que maneja o florete” e o bárbaro munido de tangapema – mesmo que tacape, borduna, armas de guerra indígenas – representado pelos homens do cangaço, foi usado reiteradamente por Euclides da Cunha designando os camponeses sublevados em Canudos, tratamento reincidente em outros autores quando historiaram as insurreições do Contestado [18] e Pau-de-Colher, levantes rurais, nos quais milhares de seres humanos foram sacrificados com requintes de crueldade pelas armas “civilizatórias” do Exército e das forças policiais dos estados beligerantes.

Não nos esqueçamos das volantes e suas arbitrariedades e violências, quando soldados representando os Governos, estadual e federal, comportavam-se de forma truculenta. Lamentável por tudo a referência aos índios brasileiros, vítimas de agressões e dizimados durante séculos pelos colonizadores, latifundiários e autoridades dos mais diversos calibres e procedências. Afrancesada e recolhida ao conforto das cidades, especialmente as litorâneas, a intelectualidade brasileira ou a maior parte dela costumava “chamar de feio tudo que não era espelho”, parafraseando Caetano Veloso, e Humberto de Campos não era exceção, carregando sobre o seus ombros o pesado fardo do “espírito da época”. Volta-se posteriormente para aquilo que considera ultrajante para o país e sem rebuços, direto e incisivo opina:
“”A impunidade de Lampião constitui, sem dúvida, uma vergonha para a nação brasileira, e reclamava, de há muito, a intervenção do Exército, isto é, de forças da União, para acabar com o escândalo da sua sobrevivência. Mas não reclamava, talvez, a honra de uma expedição tão vultosa, como essa que lhe está destinada”. (grifo nosso). (CAMPOS, ob. cit. p. 33).
Retoma a tese de uma intervenção federal como resolução adequada pata enfrentar a  resistência obstinada e ardilosa dos cangaceiros, sem perder de vista, contudo, o juízo sobre o exagero das forças e equipamentos mobilizados para a tarefa, considerando que talvez “o Diabo não seja tão feio com se pinta”.

Logo mais vai descer ao terreno das especulações ao tomar como exemplo episódio ocorrido com o rei de Túnis, que tendo sua cidade arrasada pelas tropas de Luiz XIV, Rei de França, teria afirmado aquele monarca que pela metade dos gastos dispendidos pelo Rei Sol para por abaixo “o velho porto africano”, ele próprio executaria a tarefa pela metade do valor gasto, o que pouparia vidas e recursos. Logo volta a realidade dos fatos e escreve:

“Amando a agitação e o perigo, o Capitão Chevalier não aceitaria, sem dúvida, uma proposta de Lampião, no sentido de lhe darem a metade das despesas da Expedição mediante o seu desaparecimento do cenário nordestino. [...] O que o seduz é aventura e não o resultado feliz”. (Idem).

Desavisado pressupõe ser o Capitão sediado no litoral a recusar proposta do seu “colega” de patente, o comandante das tropas catingueiras, que tinha para si planos mais ambiciosos, sonhava ser o “Governador do Sertão”, conforme já propusera em um dos seus famosos bilhetes, este encaminhado ao Sr. Júlio de Melo, mandatário de Pernambuco, no mês dezembro de 1926, no qual redigiu a debochada proposta de uma divisão territorial e de poder. Seria ele Lampião, responsável pela região sertaneja do território pernambucano, cabendo a Júlio Melo, governar o litoral. Provocativo garatujou textualmente:
“Faço-lhe esta devido a uma proposta que desejo fazer ao senhor pra evitar guerra no sertão e acabar de vez com as brigas... Se o senhor estiver de acordo, devemos dividir os nossos territórios. Eu que sou Capitão Virgulino Ferreira Lampião, Governador do sertão, fico governando esta zona de cá, por inteiro, até as pontas dos trilhos em Rio Branco. E o senhor, do seu lado, governa do Rio Branco até a pancada do mar no Recife. Isso mesmo. Fica cada um no que é seu. Pois então é o que convém. Assim ficamos os dois em paz, nem o senhor manda os seus macacos me emboscar, nem eu com os meninos atravessamos a extrema, cada um governando o que é seu sem haver questão. Faço esta por amor à Paz que eu tenho e para que não se diga que sou bandido, que não mereço. Aguardo resposta e confio sempre [19]


Como se vê avaliava mal o acadêmico. Àquela altura, em meados dos anos vinte não houvera Lampião cruzado o Rio São Francisco rumo a Bahia. Não intentara contra a cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, fato ocorrido somente no dia 13 de junho de 1927, mas já se convertera em figura carimbada nos sertões, caminhando rapidamente para se tornar história e mito, memória e imaginário.

A seriedade do assunto tratado não toldava, contudo, o fino humor de Humberto de Campos. Finaliza sua crônica de forma imaginativa e jocosa: “Eu tenho receio, entretanto, que o excesso de pares comprometa o sucesso da contradança, e que ouçamos, daqui do litoral, marcação do celerado sertanejo:- “Dames à droite!.... Chevalier à gauche!...” E que, como consequencia, a quadrilha continue...” (CAMPOS, ibid. pp. 34,35).

Evocando as quadrilhas tão animadas e comuns nas festas sertanejas de junho, Campos fez-se profeta e acertou no alvo: muita água ainda rolaria debaixo da ponte. Mas isso fica para o próximo capítulo!

[15] Foram celebrados vários convênios de cooperação entre os Estados molestados pelo cangaço, dentre os quais destacamos aquele acordado em 1927, entre os dias 28 e 30 de dezembro, cujo principal intuito era coibir com mais veemência a ação dos coiteiros.
[16] Antônio Silvino. Nascido Manoel Baptista de Morais, em Ingazeira, Estado de Pernambuco, faleceu na Paraíba em 1944., Precedeu Lampião e foi o mais afamado e temido bandido do seu tempo, ganhando o apelido de “Rifle de Ouro”.
[17] Lampião visitou Juazeiro do Norte em março de 1926. Lá recebeu a patente de Capitão, armas, munição e fardamento pra organizar um Batalhão Patriótico, com o fito de combater a Coluna Prestes. Sobre quem o convidou há controvérsias, que ainda suscitam debates e dissenções entre os pesquisadores e estudiosos.
[18]  A revolta do Contestado eclodiu em 1912, na região sul do Brasil, em área confluente dos Estados de Santa Catarina e Paraná. Apesar da forte conotação religiosa do movimento, outros interesses sócio-econômicos foram decisivos para a sublevação.
[19] Consulta realizada ao site  http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/. Acesso em 20/02/2013.

Manoel Neto
Centro de Estudos Euclides da Cunha
UNEB - Salvador - BA

Pescado no Cariri Cangaço

sexta-feira, 22 de março de 2013

Mascotes

"Os cães" em Angico

 Por:  José Sabino Bassetti

No ano de 2011, no evento que comemorava os "100 anos" de nascimento de Maria Bonita, na cidade de Paulo Afonso BA, evento promovido pelo nosso amigo e grande pesquisador, o escritor João de Sousa Lima, eu, e o Carlos  Megale, aproveitamos para fazer o lançamento do livro, "Lampião. Sua morte passada a limpo", que escrevemos em parceria. Alguns participantes do evento, insistiram em perguntar por que "os cachorros treinados" que estavam em Angico, não deram o alarme alertando assim os cangaceiros da chegada da volante que então se aproximava.

De fato, diversos bandos de cangaceiros possuíam cachorros, mas é preciso que se diga que em Angico só havia um cão, o "Guarani", que era de Lampião e que não era treinado coisa nenhuma, aliás, cangaceiro nunca teve cães treinados, adestrados ou seja lá o que for.


 O cão Guarani à direita

Ângelo Roque chegou a dizer em depoimento que os cães dos cangaceiros só não falavam porque Deus não permitia, mas, isso era mania de vários cabras sobreviventes tentarem engrandecer as coisas do cangaço, e não economizavam para aumentar e engrandecer tudo que se relacionava com o cangaço. E Ângelo Roque, também conhecido como "Labareda" usou e abusou do direito de não dizer a verdade,  caprichou em dizer coisas que ele jamais presenciou, e lugares que nunca esteve durante todo o tempo que esteve no cangaço.

De acordo com o ex cangaceiro Candeeiro, os cães que acompanhavam os cangaceiros, igualmente a qualquer cão, tinham naturalmente a percepção muito mais apuradas que o homem, mas nada de adestrados ou coisa parecida. Talvez o cão de nome Guarani, que durante o combate foi morto pelo soldado Santo em Angico, devido o friozinho que fazia naquela madrugada, tenha dormido junto a algum cangaceiro e não tenha notado a aproximação dos soldados. Guarani poderia também ter acompanhado os quatro cabras que pouco antes haviam deixado o coito e ido buscar o leite na fazenda Logradouro de Júlio Félix,  e ao ouvir os tiros, tenha retornado para junto do dono como é costume desse tipo de animal. Mas a verdade, é que hoje é muito difícil saber o que realmente tenha ocorrido com esse cão antes dele ser morto.

Alguns daqueles que nos fizeram tal pergunta, deixavam transparecer que pelo fato "dos cães" não terem dado o alarme, teria havido alguma "maracutáia" entre coiteiros, cangaceiros e policiais, ou seja, os cangaceiros teriam sido envenenados, ou então teria havido uma trama entre a polícia e coiteiros para Lampião sair com vida naquela ocasião. Parece mentira, mas depois de tanto tempo, depois de tanta informação, tanta pesquisa, ainda tem gente que acredita que Lampião não tenha morrido em Angico, que tenha sido envenenado, ou então tenha morrido de maneira completamente diferente e talvez em outro local e claro, e em outra data. É de lascar!

Os cangaceiros sempre tiveram cães que os acompanhavam, e por inúmeras vezes as volantes atacaram os cangaceiros de surpresa, mas, não se tem conhecimento que sequer uma única vez, qualquer cão tenha dado o alarme avisando os cabras da aproximação do inimigo, salvando assim qualquer grupo de cangaceiros. Em fevereiro de 1938, na fazenda Grande, (e não Grade com já disseram) situada na região de Inhapi AL, parte da volante do tenente João Bezerra chefiada pelo cabo Juvêncio, eliminou os cangaceiros Serra Branca, Ameaça e Eleonora.


 Corisco ladeado por "Seu Colega" 
e a cadela "Jardineira".

Nessa ocasião, os soldados foram alertados da aproximação do pequeno grupo de cangaceiros, pelo cão que pertencia aos cabras que caminhavam em direção a uma cacimba onde coincidentemente estavam os soldados. Quando os soldados viram o cão que estava com uma coleira, logo desconfiaram que pudesse pertencer a cangaceiros, desconfiaram e acertaram em cheio, tomaram posição e quando os cabras apareceram foram alvejados pela pequena volante.


É evidente, que os cangaceiros como a maioria das pessoas, possuíam cães por gostar desse tipo de animal,  por gostar de sua companhia, e não pela utilidade de guardiões que eles poderiam ter para o bando.

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Sabino Bassetti é paulista da cidade de Salto. Está no encalço de Lampião desde os tempos da brilhantina e é um dos responsáveis por uma das melhores pesquisas de toda literatura cangaceira,  cuja capa está aí ao lado. Um livro que você precisa ter ou ao menos ler. Tem 192 paginas, custa R$ 40,00 (Quarenta reais) com frete incluso para todo o Brasil. E você pode adquiri-lo através do email franpelima@bol.com.br ou pelos tels. (83) 9911 8286 (TIM) - (83) 8706 2819 (OI).

quarta-feira, 20 de março de 2013

O badogue mais rápido do Sertão

Empresa baiana homenageia Lampião em game tipicamente nordestino

Por Carol Prado

 Foto: Divulgação

Foi-se o tempo em que os joguinhos eletrônicos eram terrenos exclusivos de guerreiros medievais, robôs intergaláticos e outros personagens bem distantes da realidade de carne e osso. Sem negar suas origens, a empresa baiana de tecnologia Soterotech decidiu levar figuras típicas do hiperrealista sertão nordestino ao mundo dos bits. Um cangaceiro, um calango e um carcará dão o tom do jogo “Cangaceiro de Badogue”, apresentado neste sábado (16/03) e domingo (17/03) durante o Gamepólitan, evento que transformou o Centro de Convenções da Bahia em um verdadeiro parque de diversões digitais.

 Fotos: Carol Prado / Bahia Notícias

O game narra a história de Lino, um destemido personagem inspirado no histórico Lampião, que, depois de ver sua amada raptada por um maléfico carcará, luta contra todos os obstáculos para recuperá-la, sempre acompanhado de seu poderoso badogue. “A ideia surgiu em 2009, antes mesmo do nascimento da empresa, em um grupo de jogadores. Hoje, todos os produtos que a gente desenvolve têm traços dessa cultura regional, que é muito rica e pouco explorada”, explicou Diego de Potapczuk, um dos diretores da Soterotech. Segundo ele, o software desenvolvido para tablets e smartphones ainda está em fase de testes e deve chegar ao mercado no segundo semestre deste ano, quando poderá ser baixado, no mundo todo, através da Apple Store e Google Play, lojas de aplicativos da Apple e Android, respectivamente. “Queremos fazer um lançamento global e levar a cultura nordestina pro mundo inteiro através do game”, almejou, em entrevista ao Bahia Notícias.

As expectativas da empresa são boas, principalmente depois do sucesso de Lino no Centro de Convenções. O administrador de empresas, Vítor Carneiro, por exemplo, acompanhava o filho gamer e não tirava os olhos das aventuras do cangaceiro. “Isso é ótimo para tirar um pouco a criançada da linha de jogos japoneses e reforçar nossa cultura regional”, opinou.



Com seu Cangaceiro de Badogue, a Soterotech representa apenas uma das várias experiências do promissor mercado baiano da criação gráfica. De acordo com Ricardo Silva, organizador do Gamepólitan, é notável o crescimento do número de desenvolvedores independentes de jogos no estado. “Ainda temos pouquíssimas empresas de tecnologia consolidadas, mas os criadores estão se empenhando na criação de grupos independentes para colocar em prática seus projetos. O governo também tem dado um apoio muito grande a esse mercado, até para possibilitar a exportação dos jogos brasileiros para o mundo todo através de meios online”, afirmou. Muitos dos profissionais do entretenimento digital estão na Saga, única escola de artes, jogos e animação da Bahia, que recebe, em média, 1,5 mil alunos interessados em ingressar no setor por ano. “O mercado está crescendo, de fato, e a tendência é melhorar cada vez mais.

A própria realização de eventos como o Gamepólitan já ajuda bastante porque promove o encontro dos desenvolvedores e possibilita a parceria com empresas”, elogiou Oswaldo Peixoto, gerente geral da empresa.



Por tudo isso, pequenos empreendedores em potencial, como João Pedro Bittencourt, só têm o que comemorar. O menino de 11 anos passa cerca de três horas por dia em frente ao PC, mas com uma boa desculpa para livrar-se da bronca dos pais: “Quero jogar bastante para me tornar um criador de jogos no futuro”, esquivou-se.

Pescado em Bahia Noticias

terça-feira, 19 de março de 2013

Noticia ruim chega ligeiro

A repercussão dos ataques do cangaceiro Sinhô Pereira à Paraíba e se Lampião esteve em terras potiguares em "1922"
 
Por: Rostand Medeiros
 
Decreto nº. 160, de 7 de janeiro de 1922

No dia 25 de dezembro de 1921, na pequena vila de Luís Gomes, o cabo Francisco Rodrigues Martins e o soldado Luis Antonio de Oliveira, foram assassinados por um grupo de cangaceiros quando realizavam uma diligência policial. Nesta época, o jornal natalense A Republica era extremamente econômico no seu noticiário quando o assunto era a ação de cangaceiros em terras potiguares e não publica uma só linha detalhando este episódio.

Vamos ter conhecimento deste fato já na edição de 20 de janeiro de 1922, onde está estampada a publicação do Decreto nº. 160, de 7 de janeiro de 1922, que informa terem as viúvas dos policiais mortos recebido “uma pensão correspondente à metade da etapa que os mesmo ganhavam, considerando que os militares foram assassinados por cangaceiros”.

De qual bando pertenciam estes bandidos? Quantos eram? Quem era o chefe? Infelizmente não sabemos, mas sabemos que o ataque aconteceu. Podemos deduzir que a não vinculação da notícia pelo principal jornal potiguar da época teria mais a ver com um desejo de evitar o pânico entre a população rural potiguar?

E este medo tinha fundamento?

Conforme descreve o então governador potiguar Antônio José de Mello e Souza, na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1921, parece que sim!

Devido a forte de seca dos anos de 1918 a 1920, aliado a uma acentuada baixa de produção do algodão e dos baixos valores alcançados por esta matéria-prima no mercado internacional, o Rio Grande do Norte se encontrava em uma precária situação financeira. Esta situação gerava reflexos principalmente nas ações de segurança e ordem pública, onde o governo mantinha a força pública com um efetivo bem abaixo de suas necessidades e material obsoleto para o combate ao banditismo.

A era de 22 começa com muita chuva e cangaceiro

Neste ínterim, a vida passou a sorrir de uma forma mais alegre para o sertanejo potiguar, pois tinha início uma promissora estação chuvosa, sendo noticiadas fortes chuvas em todo Estado (A Republica ed. 29/02/1922).

Por outro lado, o meio político estava agitado, pois a dia 1 de março ocorria em todo país a eleição para Presidência da República, onde Arthur Bernardes disputava com Nilo Peçanha, em um sufrágio muito pouco democrático, quem governaria o país pelos próximos quatro anos. É informado que o futuro presidente já assumiria a partir do dia 15 do mesmo mês de março (Mensagem, RN 1922, pág. 4).

Em meio a todo positivo noticiário sobre as chuvas e as eleições presidenciais, um dia é publicado uma pequena nota que mostrava que nem tudo corria as mil maravilhas no sertão paraibano, próximo a fronteira potiguar e a fonte da pequena nota era uma importante liderança política e empresarial potiguar.
 
Informe de Simplício Cascudo sobre ataque de cangaceiros 
na Paraíba e publicado em Natal

O coronel Francisco Cascudo, pai do folclorista Câmara Cascudo, apresentou a redação de A República um telegrama remetido no dia 3 de março, emitido pelo seu parente Simplício Cascudo, então residente na cidade paraibana de Sousa, dando conta que um grande grupo de cangaceiros estava percorrendo as zonas rurais das cidades de Pombal, Brejo do Cruz, Catolé do Rocha e São Bento, na Paraíba e propriedades na área próxima a Vila de Alexandria, já no Rio Grande do Norte (mas sem trazer maiores detalhes). Informava Simplício Cascudo que as propriedades São Braz, Santa Umbellina e Brejo das Freiras foram “visitadas” pelos cangaceiros, sendo assaltados as pessoas de “José Olympio, filho de Antonio Fernandes, Adolpho Maia, Valdevino Lobo, proprietário da estância Dois Riachos, e Mestre Ignácio”. Informa o missivista que a cidade de São Bento estava “arrasada” com os acontecimentos, tendo os saques nas propriedades próximas sidos superiores a 200 contos de réis. Comentava que no dia 2 os cangaceiros se encontravam no lugar “Catolé”, próximo a Cajazeiras, estando a cidade receosa de ser atacada. Simplício Cascudo finalizava a nota informando que até o momento as garantias solicitadas ao governador da Paraíba, Sólon de Lucena, ainda não estavam presentes (A Republica ed. 07/03/1922).

Ora, diante de notícia fornecida por pessoa tão grada da sociedade potiguar, os grandes produtores rurais do Rio Grande do Norte, principalmente aqueles que tinham seus bens mais próximos à fronteira paraibana, ficam extremamente apreensivos com o que poderia ocorrer.

Logo seus piores pesadelos pareciam se concretizar…


Nota sobre o ataque a Jericó, Paraíba
 
Telegramas vindos da vila paraibana de Jericó, retransmitidos por postos telegráficos potiguares, fazem chegar a Natal a informação que em 5 de março de 1922, o celebre chefe cangaceiro Sinhô Pereira, com a ajuda do cangaceiro Liberato Alencar, acompanhados de um bando com um número estimado (pelos jornais da época) de 35 a 60 cangaceiros, ataca com sucesso toda aquela região. Desde a zona oeste do Rio Grande do Norte, até o Seridó, a notícia correu célere. Uma das notas de um dos jornais potiguares que noticiaram o fato assim apresentou a questão informando que “Notícia ruim chega ligeiro!”. Na antiga Jericó eles cometeram atrocidades e causaram inúmeros prejuízos aos moradores da localidade. Os cangaceiros foram finalmente rechaçados por um grupo de corajosos habitantes do lugar, destacando-se o nome de Antônio Felipe, João Bento, soldado João Ferreira e João Belarmino.

Pânico entre a elite rural Potiguar

Os acontecimentos são publicados em grandes manchetes na edição de 8 de março de A República. A partir de então o pânico se generaliza de uma forma contundente entre os políticos e os fazendeiros que tinham interesses na fronteira do rio Grande do Norte com a Paraíba.

Em Natal começam a chover na mesa do governador Mello e Souza telegramas solicitando urgentemente o envio de efetivos da força pública potiguar para a defesa das cidades e vilas localizadas em praticamente toda a fronteira com a Paraíba. Os aflitos telegramas vinham desde a cidade de Luís Gomes, quase na divisa com o Ceará, à Nova Cruz, próximo ao litoral, todos informando existirem boatos de ataques eminentes e simultâneos de cangaceiros.

Nas amareladas folhas do velho jornal A Republica, existente na hemeroteca do Instituto Histórico do Estado do Rio Grande do Norte e no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte, é tal a quantidade de telegramas enviados ao governo, que aqueles que não possuem um maior conhecimento da história do cangaço nesta época, ao ler as alarmantes missivas reproduzidas, parece que a ação dos cangaceiros havia crescido numa proporção assustadora e o número de bandos havia aumentado por dez.


No geral as mensagens seguem quase um mesmo padrão. Comentam sobre a existência de “informações”, ou “boatos”, transmitidos por pessoas “vindas da Paraíba” da “existência de grupos de cangaceiros nas proximidades” e a possível “eminência de um ataque”.

Os Jornais repercutem a situação
 
A imprensa dos dois Estados tratava a situação de modo alarmante e exagerado.

Possível combate próximo a cidade de potiguar de Santa Cruz. 
Jamais foi confirmado

Na edição de 12 de março do jornal paraibano “A União”, existe a informação que havia ocorrido um violento combate nas proximidades da cidade potiguar de Santa Cruz, no qual teriam morrido 6 cangaceiros. Já o natalense A República chega a comentar na sua edição de 21 de março que, “se abstivera de divulgar as movimentações da tropa, por um princípio das táticas militares; Não fornecer indicações ao inimigo”. Como fosse o caso dos cangaceiros terem condição de ler jornais continuamente no meio da caatinga!


 
Esta mesma edição de A República informa que em Caicó houve pânico com a notícia da aproximação de cangaceiros na fronteira desta cidade com a Paraíba, ficando a situação mais calma por haver deslocamento de forte contingente policial em direção à localidade de Jardim de Piranhas. Outro jornal natalense denominado A Notícia, informa que até mesmo ocorreu “fuzilamento de oficiais de nossa Força Pública e rapto de crianças”.

Até as repartições dos Correios e Telégrafos entraram na ideia de pânico generalizado. Houve o caso de um telegrafista enviar pedidos de ajuda ao Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro.


Os cangaceiros atrapalharam a coleta de materiais 
da cidade de Martins para a exposição do centenário

Até jornais do Rio de Janeiro noticiaram aqueles acontecimentos aparentemente através de notícias recebidas de informes telegráficos e um destes informes mostra uma interessante situação; no primeiro semestre de 1922 estava acontecendo em todo o Brasil os preparativos para as grandes festas do centenário da nossa independência e no Rio Grande do Norte estes preparativos estavam a toda. Cabia a cada estado brasileiro organizar e enviar para a Capital Federal, na época o Rio de Janeiro, uma coleção de produtos naturais típicos. No Rio Grande do Norte o responsável por tal trabalho era o Dr. João Vicente, que a época destes alarmes estava no município serrano de Martins. Na edição do periódico carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922, foi noticiado que o Dr. João “não podia trabalhar devido a ação dos cangaceiros e que o pessoal da serra estava pronto a reagir”.

Mas houve ataque?

Mesmo com todo exagero, o governador Antônio José de Mello e Souza, juntamente com o então chefe de polícia Sebastião Fernandes não perdem tempo na reação e tratam o assunto como uma verdadeira “situação de guerra”.

O chefe de polícia potiguar a época da crise

Convocam por decreto emergencial 100 praças para a força pública, promovem 2 sargentos a oficiais, despacham um grupo de policiais para seguir de navio até a cidade de Areia Branca, para depois seguirem a cavalo para fronteira. Com a ajuda do então IFOCS – Instituto Federal de Obras Contra as Secas (futuro DNOCS) mais de 100 militares serão enviados de caminhão ao interior. São feitas solicitações aos serviços de correios e telégrafos para a isenção de taxas para que os oficiais pudessem emitir telegramas da “frente de batalha”.

 
Na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1922, o governador Mello e Souza informa que recebeu que durante esta “crise”, mais de 100 despachos telegráficos vindos do interior. O próprio governador, tido como homem calmo e comedido, chegou ao ponto de reclamar que “até a cortesia sertaneja havia sido deixada de lado” naquelas solicitações de ajuda.

Apesar do estado limitado desta fotografia, ela mostra oficiais da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, se preparando para seguir para o sertão e combater os cangaceiros que desejavam invadir o estado em 1922.

Foram enviados policiais em tal quantidade que em Natal o efetivo policial foi classificado como “mínimo”, apenas para o essencial para a proteção do quartel da força pública e do presídio (Mensagem, RN, 1922, páginas 31 a 35).

Seja por conta das ações policiais praticadas pelos governos da Paraíba e da ação preventiva da polícia potiguar, ou por terem conseguido o que desejavam, o bando de Sinhô Pereira toma novamente o rumo do Ceará. Com a saída dos cangaceiros, pouco a pouco a situação volta a se normalizar. No dia 29 de março chega a Natal o Chefe de Polícia da Paraíba, Demócrito de Almeida, que vinha agradecer a ação da polícia potiguar e, juntamente com Mello e Souza e Sebastião Fernandes, acertarem as bases para ações de patrulhamento da fronteira (A Republica, pág. 1, Ed. 01/04/1922).

Nas edições do jornal “A Republica” e na própria Mensagem ao Legislativo de 1922, podem-se ler as respostas às críticas feitas a ação do governador Mello e Souza na proteção das fronteiras. Estas críticas comentavam principalmente sobre os gastos excessivos realizados pelo executivo estadual no deslocamento de tropas, em meio a grave crise financeira vivida pelo Tesouro do Estado.

Existem insinuações que a mobilização serviu para uma grande intimidação da classe política que se encontrava na oposição, devido a proximidade da eleição federal, além de mostrar quem estava no poder e quem mandava na Força Pública.

Mas enfim, os cangaceiros de Sinhô Pereira estiveram, ou não estiveram no Rio Grande do Norte em 1922?

Consta na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1922, que o governador Mello e Souza informou que estes cangaceiros ao seguirem em direção ao vizinho Ceará, teriam então realizado a única e verdadeiramente comprovada penetração em território potiguar. Foi quando realizaram um pequeno saque em Luís Gomes e passando nas imediações da Vila de Alexandria, sem, contudo esta localidade ser efetivamente atacada (Mensagem, RN, 1922, pág. 34).

Jornal carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922

Conforme podemos ver na reprodução da nota publicada na edição do periódico carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922, parece que estes cangaceiros estiveram no Rio Grande do Norte, mas não existem registros de saques em Patu, Alexandria e que a nossa polícia perseguiu a horda de meliantes até o Ceará.

Uma quase conclusão…

Ao observamos estes episódios, é de se perguntar de onde vinha tamanho receio, ou medo, que as classes produtoras rurais potiguares tinham em relação aos cangaceiros? Até mesmo porque a marcante invasão do bando de Lampião ao Rio Grande do Norte só iria ocorrer cinco anos depois de todo a aquele pânico de 1922.

  Sinhô Pereira
 
É certo que os produtores rurais estavam saindo de uma seca pesada e uma ação de cangaceiros em nada ajudaria a nossa já combalida economia rural. Mas não havia registro de grandes ações destes bandidos no Rio Grande do Norte desde a prisão do celebre Antônio Silvino em 1914.

No meu entendimento toda aquela movimentação foi na verdade uma combinação de receio das elites rurais com a chegada dos cangaceiros, acompanhado de exagerados equívocos de informações, tudo isso transmitido para a capital potiguar através de uma bem organizada linha de comunicação telegráfica, que encheu a mesa do governador de pedidos de ajuda contra bandidos que simplesmente não apareceram.

Tudo isso associado a uma tradicional posição destas mesmas elites rurais potiguares; a de não terem uma associação muito estreita com cangaceiros, fossem eles potiguares, ou principalmente de outros estados.

Os donos do poder do sertão potiguar, como até hoje acontece, jamais deixaram de ter uma parceria estreita com hordas de sanguinários pistoleiros, de gente execrável que mata exclusivamente por dinheiro. Que a soldo dos poderosos resolviam (e ainda resolvem) certos tipos de problemas. Mas a figura do cangaceiro, talvez pelo seu aspecto único de possuir determinado nível de autonomia em meio a estas elites, jamais teve dos coronéis do sertão potiguar muita guarida.

E onde entra Lampião nesta História?

Ao realizar esta simples pesquisa, me veio o seguinte questionamento; e então o grande cangaceiro Lampião esteve no Rio Grande do Norte antes do ataque de Mossoró? Teria o Rei do Cangaço pisado solo potiguar antes de 1927? Teria ele atacado uma fazenda nos limites do nosso estado com a Paraíba e passado perto da Vila de Alexandria?

Sei que Lampião entrou no bando de Sinhô Pereira em 1921, mas daí a afirmar que ele e seus irmãos Antônio e Levino participaram destas ações, é complicado. Tem gente por aí que conhece muito mais desta história do que eu e pode responder.

Notícia do Diário de Pernambuco, edição de 17 de março de 1922, mostrando a presença de Sinhô Pereira e seus cangaceiros na Fazenda Feijão, Belmonte, Pernambuco. Logo ele deixaria o cangaço

Mas sei que nos primeiros dias de junho de 1922, no sítio Feijão, zona rural do município pernambucano de Belmonte, próximo a fronteira do Ceará, Sinhô Pereira informou aos membros do seu bando, que em breve iria entregar o comando a Lampião, então o seu melhor cangaceiro. Apesar de ter menos de 27 anos de idade, Sinhô alegou problemas de saúde para a sua decisão e que seguia um apelo do mítico Padre Cícero Romão Batista, da cidade de Juazeiro, Ceará, que havia lhe pedido para deixar esta vida bandida e ir embora para fora do Nordeste. A incursão de Sinhô Pereira e outros cangaceiros pelo interior da Paraíba teria tão somente o ensejo de arrecadar numerário para este chefe bandoleiro sair do sertão e só voltar em 1971, já idoso.
 
Virgulino Ferreira em foto da época
 
Vinte e dois dias depois de receber a notícia que a passagem de comando está próxima, Lampião efetivamente já é chefe de grupo. Neste momento começa a imprimir sua horrenda marca pelo Nordeste e vai se tornar o maior cangaceiro do Brasil.

Mas esta é outra história….

Pescado no Tok de História

HQ clássica

Tio Patinhas "um Cangaceiro milionário"

Nós já publicamos as aventuras de Zé Carioca, Pateta e Mickey contra cangaceiros Clique Aqui. Ontem o confrade João de Sousa Lima desencavou outra pérola da Disney com influencia na história e cultura tupiniquim.

Capa feita por Jorge Kato para o Almanaque 28, lançado em novembro de 1967.
Nunca foi republicado. Imagem colhida no Blog Chutinosaco.

Interessado? Dica: Pesquisei e descobri que há um exemplar a venda no site de compras "Toda Oferta" por R$ 15,00  Clique Aqui

Poreeeeeeeeeeeeem: O nosso colaborador Geziel Moura que teve acesso ao conteudo da revista, alerta que as estórias nada tem de cangaço, só a capa retrata tal movimento.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Documentário

Cangaço, Sangue e Glória - Conflitos e Contradições

Documentário que resgata a história do fenômeno cangaço e do mito Lampião. Depoimentos de pesquisadores e pessoas que participaram desse período tão importante para história do Nordeste e do Brasil.

Autores: Hermes Pena, Amilton Leandro e Diana Vasconcelos.



Pescado na página do YouTube de k060879h

segunda-feira, 11 de março de 2013

Documentário

"O poder político de Fideralina Augusto Lima e seus Descendentes"

Produzido pela TV Assembleia do Ceará conta a história de uma cearense guerreira, diferente das outras mulheres do seu tempo. Este documentário foi apresentado pela primeira vez no Plenário 13 de Maio da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará para convidados.

Na ocasião, o presidente da Casa, deputado Roberto Cláudio (PSB), registrou sua gratidão a todos os envolvidos na construção do documentário, em especial à equipe do núcleo de documentários da emissora, coordenada por Ângela Gurgel, lembrando que a ideia para a produção surgiu de uma provocação de Melquíades Pinto Paiva, trineto de Fideralina.

"Fideralina nasceu no município de Lavras da Mangabeira e foi tida como um verdadeiro coronel do sertão", explicou Melquíades.

Inicio


Parte 2

Parte Final


Pescado no canal do YouTube da TV Assembleia Ceará

A saga de Dona Fideralina será um dos destaques do...

 
 

quinta-feira, 7 de março de 2013

João localizou "O último matador de Cangaceiros"

Gérson Pionório: Vive em Paulo Afonso
Por João de Sousa Lima

No dia 28 de julho completará 75 anos da morte de Lampião, as pessoas envolvidas diretamente na história do cangaço e que ainda se encontram vivas estão beirando os 100 anos de idade. É muito difícil encontrar remanescentes daquela época em se tratando de cangaceiros ou os que lutaram em nome da ordem pública como soldados efetivos ou contratados. Encontramos só três cangaceiros vivos e soldados da volante em torno de doze. Coiteiros e pessoas que conheceram alguns cangaceiros ainda existem uma grande quantidade.

O Cabo tem história pra contar
Em Paulo Afonso vive Gérson Pionório Freire, filho de João Miguel Freire e Isabel Pionório Freire. O pai de Gérson nasceu nas barrancas do Riacho do Navio e sua mãe em Chorrochó, Bahia. Gérson nasceu no dia 20 de janeiro de 1916, em Curaçá, Bahia. Ele é um dos poucos militares viventes que matou cangaceiros.

O Primeiro contato de Gérson com os cangaceiros foi quando Lampião passou com seu grupo na fazenda Guarani, em Curaçá. A fazenda pertencia ao pai de Gérson, o senhor João Miguel. No momento estavam o pai, a mãe, Gérson, Abdias, Ulisses e Elza.

Os cangaceiros solicitaram dinheiro, ouro, sal e animais. O ouro estava em um cupinzeiro que existia em uma das paredes e os cangaceiros não encontraram. Pegaram cinco contos de réis que estavam no bolso de João Miguel, um cavalo, um burro e sete jegues. Lampião olhou pra Gérson e disse:
- Menino venha cá, pise aqui esse sal!
Gérson pisou o sal e entregou a Lampião. O cangaceiro começou a colocar o sal com uma colherinha de chá em um pequeno cumbuco de coco que o orifício de entrada era apertado e o sal caia fora do recipiente em sua maior parte. Gérson pegou um livro, arrancou uma página, fez um funil e colocou o sal no cumbuco. Lampião observando a inteligência do rapaz falou:
- É morrendo e aprendendo!
Desde esse episódio do primeiro encontro de Lampião, alguns anos se passaram e Gérson resolveu ser policial, sendo apadrinhado do capitão Menezes. No dia 04 de maio de 1936, na cidade de Jeremoabo, Gérson e seus irmãos Abdias e Ulisses entraram na volante de Antônio Inácio como contratado. Gérson passou a ser efetivo da polícia no dia 10 de outubro de 1940.


Gérson  destacou como soldado nas cidades de Canindé- SE, e em diversas cidades baianas como: Jeremoabo, Canudos (foi delegado), Pilão Arcado, Sento Sé, Remanso, Sobradinho, Casa Nova, Senhor do Bonfim, Juazeiro, Napele, Tucano, Calda de Cipó, Urucé, Itabuna, Canavieiras, Camacã, Jacareci (foi delegado), Euclides da Cunha (foi comandante), e Cocorobó (foi delegado). Ele passou pelas volantes de Pedro Aprígio, Aníbal Vicente, Zé Rufino e Odilon Flor.

Quando serviu com Odilon Flor, participou do combate onde foram mortos os cangaceiros Pé-de-Peba, Chofreu e Mariquinha. O combate aconteceu no Riacho do Negro, em Sergipe.

A volante de Odilon Flor seguiu os rastros dos cangaceiros e próximo a cidade de Coité (hoje Paripiranga) chegaram na casa de um coiteiro. Os policiais cercaram a casa, no curral tinha uma janela e avistaram umas perneiras, roupas e garrafas de bebidas. Os policiais entraram na residência e perguntaram a mulher sobre os cangaceiros. O marido da mulher foi chegando e os soldados deram voz de prisão. Odilon Flor ordenou: 
 - Gérson vá mais Luiz pra trás da roça e mate esse coiteiro!
O coiteiro pra não morrer prometeu entregar os cangaceiros. A volante seguiu com o coiteiro nos rastros dos cangaceiros indo encontrá-los às onze horas da noite. O combate noturno travado entre 15 policiais e 08 cangaceiros foi ferrenho. Odilon Flor foi baleado nas nádegas, os cangaceiros tiveram uma baixa de 03 componentes do grupo. Os policiais cortaram as cabeças e ainda à noite as colocaram em um carro de boi e levaram até Paripiranga. Na cidade, a população pôde ver as cabeças de Pé-de-Peba, Chofreu e Mariquinha. Gérson passou a receber o soldo de sargento depois da morte dos cangaceiros.


Conduzindo a musa

Quando Zé Rufino matou Corisco e baleou Dadá, Gérson e seu irmão Abdias Pionório foram buscar Dadá em Paripiranga e a trouxeram pra Jeremoabo. Dormiram em Sítio do Quinto, revezando os dois irmãos a guarda da cangaceira baleada.

A convivência de Gérson e Zé Rufino foi marcada por discussões. Acusa que Zé Rufino descontava do soldo dos soldados pra pagar o que eles consumiam dos sertanejos, mas na verdade ficava com este dinheiro.

O volante participou também da prisão do matador Peixoto, assassino que aterrorizou várias cidades baianas. O bandido Peixoto matou um rapaz em Santo Antônio da Glória e foi preso depois de uma longa perseguição. Peixoto fugiu da cadeia de Glória e foi se esconder em Sergipe, na cidade de Simão Dias, sob a proteção do fazendeiro "Dorinha".

Gérson, João Ribeiro, Gervásio Grande e mais alguns soldados foram a Simão Dias e prenderam Peixoto e o levaram para Paripiranga. De lá foram levar o preso pra Salvador. No trajeto, quando passavam na cidade de Boquim, centro sul de Sergipe um juiz de Direito se aproximou dos policiais e do detento e pediu aos soldados que soltassem o preso que ele era um "coitadinho".

Seu Gérson e João de Sousa Lima

João Ribeiro pegou um mamão e jogou no juiz. O mamão espatifou-se nos peitos do juiz sujando sua roupa de linho branco. O preso foi entregue em Salvador.

Gérson trabalhou um bom período para a família do político Nilo Coelho, vive há muito tempo em Paulo Afonso e é sargento reformado da polícia baiana. Lúcido, conta suas histórias e fala com saudades do tempo em que andava nas caatingas em perseguição aos cangaceiros.


 Guarda junto aos documentos algumas orações e um crucifixo que ele tem desde que entrou na polícia e acredita que só não morreu nos tiroteios por força dessas orações.


Paulo Afonso, Bahia, 07 de março de 2013.

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João de Sousa Lima
Historiador e Escritor; Membro da ALPA- Academia de Letras de Paulo Afonso; Sócio do GECC - Grupo de estudos do cangaço do Ceará

Tem mais no: www.joaodesousalima.com