sábado, 30 de julho de 2011

FAZENDA ABÓBORA

Um importante local para História do Cangaço e do Nordeste.

Por Rostand Medeiros

Desde que comecei a ler temas relacionados ao ciclo do cangaço, a sua figura maior, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e a história do Nordeste no início do século XX, um local em especial me chamava atenção pelas repetidas referências existentes em inúmeros livros. Comento sobre uma antiga propriedade denominada Abóbora, localizada na zona rural do município de Serra Talhada, próximo a fronteira com a Paraíba e não muito distante das cidades pernambucanas de Santa Cruz da Baixa Verde e Triunfo.



 As luzes de Triunfo.

Vamos conhecer um pouco de sua história e da visita que realizei a este local.

Uma Rica Propriedade

Quem segue pela sinuosa rodovia estadual PE-365, que liga as cidades de Serra Talhada a Triunfo, antes de subir em direção a povoação de Jatiúca e as sedes dos municípios de Santa Cruz da Baixa Verde e Triunfo, percebe que está em um vale cercado de altas serras, que dão uma beleza singular a região. Atrás de uma destas elevações se encontra a Fazenda Abóbora.

Até hoje esta fazenda chama atenção pelas suas dimensões. Segundo relatos na região, suas terras fazem parte das áreas territoriais de três municípios pernambucanos. Aparentemente no passado a área era muito maior. Ali eram criados grandes quantidades de cabeças de gado, havia vastas plantações de algodão, engenho de rapadura e se produziam muitas outras coisas que geravam recursos. No lugar existem dois riachos, denominados Abóbora e da Lage, que abastecem de forma positiva a gleba. [1]

Com tais dimensões, circulação de riquezas, no passado o lugar era ponto de parada de muitos que faziam negócios na região e transportavam mercadorias em lombo de animais, os antigos almocreves. No lugar estes transportadores do passado eram recebidos pelo “coroné” Marçal Florentino Diniz, que junto com irmão Manoel, dividiam o mando na propriedade.

Informações apontam que Virgulino Ferreira da Silva, quando ainda trabalhava como almocreve, realizou junto com seu pai e os irmãos vários transportes de mercadorias entre as regiões de Vila Bela (sua cidade natal, atual Serra Talhada) e Triunfo.[2]


Sentado vemos Marcolino Diniz e seus "cabras".

Certamente em alguma ocasião, o jovem almocreve teve a oportunidade de conhecer a fazenda do “coroné” Marçal e de seu irmão Manoel. Além destes o almocreve da família Ferreira conheceu o impetuoso filho do fazendeiro Marçal, Marcolino Pereira Diniz.[3]

Uma ótima Relação

Chefe de bando inteligente e perspicaz, Lampião buscava antes do confronto, o apoio e as parcerias com os antigos proprietários rurais e assim agiu junto aos donos da Fazenda Abóbora.


Lampa

Após assumir a chefia efetiva de seu bando, depois da partida do seu antigo chefe, o mítico cangaceiro Sinhô Pereira, Lampião frequentou em várias ocasiões as terras da Abóbora, onde o respeito do chefe e dos seus cangaceiros pelo lugar estava em primeiro lugar.

Rodrigues de Carvalho, autor do livro “Serrote Preto” (1974), informa nas páginas 252 a 254 que ocorreu uma intensa e positiva relação de amizade entre Lampião e a família Diniz principalmente com o “jovem e pretensioso doutor” Marcolino Diniz, que chegou há cursar durante algum tempo a Faculdade de Direito em Recife, mas não concluiu.[4]

Esta relação ambígua de amizade entre estes ricos membros da elite agrária da região e o facínora Lampião foi posta a prova em duas ocasiões.


Antiga Cadeia Pública de Triunfo, 
em breve um novo centro cultural.


A primeira no dia 30 de dezembro de 1923, quando Marcolino Diniz é preso pelo assassinato do juiz de Direito Ulisses Wanderley em um clube de Triunfo. Marçal solicita apoio de Lampião para tirar Marcolino da cadeia, se necessário a força. Juntos vão acompanhados de um grupo que gira em torno de 80 a 100 cangaceiros armados. Não Houve reação dos carcereiros.

A segunda ocorreu no mês de março do ano seguinte. Após o episódio do ferimento do pé de Lampião na Lagoa Vieira e o posterior ataque policial na Serra das Panelas, onde o ferimento de Lampião voltou a abrir e quase gangrenar, é a família Diniz que parte em socorro do cangaceiro. Marçal e Marcolino cederam apoio logístico para a sua proteção, transporte, medicamentos e plena recuperação com o acompanhamento dos médicos José Lúcio Cordeiro de Lima, de Triunfo e Severino Diniz, da cidade paraibana de Princesa. Sem este decisivo apoio, certamente seria o fim do “Rei do Cangaço”.[5]


Lagoa Vieira
Foto - Alex Gomes.

Foi igualmente na propriedade Abóbora que Lampião conheceu Sabino Gomes de Gois, também conhecido como “Sabino das Abóboras”.[6]

Frederico Pernambucano de Mello, autor do livro “Guerreiros do Sol-Violência e banditismo no Nordeste do Brasil” (2004), nas páginas 243 a 246, informa que Sabino efetivamente nasceu na Fazenda Abóbora, sendo filho da união não oficial entre Marçal e uma cozinheira da propriedade. Consta que ele trabalhou primeiramente como tangedor de gado, o que certamente lhe valeu um bom conhecimento geográfico da região.


 Sabino

Valente, Sabino foi designado comissário (uma espécie de representante da lei) na região da propriedade Abóbora, certamente com a anuência e apoio do pai. Organizava bailes e em um destes envolveu-se em um conflito, tendo de seguir para o município paraibano de Princesa. [7]

Depois, entre 1921 e 1922, acompanhou seu meio irmão Marcolino para Cajazeiras, no extremo oeste da Paraíba. Marcolino Diniz desfrutava nesta cidade de muito prestígio. Era presidente de clube social, dono de casa comercial, de jornal e tinha franca convivência com a elite local. Sabino por sua vez era guarda costas de Marcolino e andava ostensivamente armado. Nesta época Sabino passou a realizar nas horas vagas, com um pequeno grupo de homens, pilhagens nas propriedades da região.




Outros Episódios do Ciclo do Cangaço na Fazenda Abóbora


Pelos muitos autores que se debruçaram sobre o tema cangaço e pelos relatos da região está mais que provado a franca convivência entre os membros da família Diniz e os cangaceiros no seu verdadeiro feudo na Abóbora.

Mas no meio desta história, onde estava o aparato de segurança do estado?

Segundo informações colhidas pelo autor deste artigo, que esteve na região em várias ocasiões, a polícia frequentava a Fazenda Abóbora, mas o poder dos Diniz era tal, que os homens da lei tinham que avisar com antecedência que iriam lá.

Daí, no caso de cangaceiros estarem acoitados na grande gleba, estes eram informados por Marçal, Marcolino ou alguém de confiança, e seguiam tranquilamente para coitos nas Serras Comprida, da Pintada, ou da Bernarda, ou nas propriedades denominadas Xiquexique, Pau Branco, Areias do pelo Sinal e outras.

Essa verdadeira promiscuidade praticamente só vai ter um fim diante da extrema repercussão do ataque dos cangaceiros a cidade de Sousa, na Paraíba. Ocorrido na noite de 27 de julho de 1924, o fato logo ganha destaque nas páginas de vários jornais e assusta as autoridades nas capitais da Paraíba e de Pernambuco. Em pouco tempo os líderes sertanejos são instados a negarem a proteção dada aos bandos de cangaceiros. [8]


 Theophanes Ferraz Torres

Tanto assim que três dias após o assalto a Sousa, ao meio dia, uma força volante sob o comando do major Theophanes Ferraz Torres, trava um combate contra um grupo de cangaceiros comandados por Sabino, que foge sem dar prosseguimento à luta. Certamente Sabino tentava chegar ao seu conhecido “lar” e teve esta desagradável surpresa. [9]

Ao longo do mês de agosto de 1924 vários combates serão travados na região. Tiroteios nos lugares Areias do Pelo Sinal, Serra do Pau Ferrado, Tataíra e outros vão marcar a história de luta contra os cangaceiros. Não havia propriedade que não pudesse ser adentrada e varejada pela polícia.

Mas não seria o fim da presença de cangaceiros no local.


 "Diário de Pernambuco", 4 de agosto de 1926.

Em uma pequena nota existente na página quatro do jornal “Diário de Pernambuco”, edição de quarta feira, 4 de agosto de 1926, encontramos a informação que por volta das três horas da tarde do dia 30 de julho, na área da Fazenda Abóbora, foram mortos pela polícia pernambucana e paisanos, depois de demorado tiroteio, os cangaceiros Juriti e Vicente da Penha.

Juriti era erroneamente apontado pelo jornal como sendo o comandante de um ataque ocorrido no dia 7 daquele mesmo mês, a uma casa comercial em Triunfo. No caso o comandante da ação foi Sabino.

O “Coito” do Coronel José Pereira

Com o declínio da ação de cangaceiros na região de Triunfo, discretamente a Fazenda Abóbora deixa de ser local de combates, mas não deixaria de servir como um ótimo esconderijo.

Em 1930, eclodiu um grave conflito armado na vizinha Paraíba, mais precisamente no município de Princesa.

Entre as origens deste sério problema, estavam as divergências entre o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e os coronéis monopolizadores da economia e política do interior do estado.


 João Pessoa

João Pessoa discordava da forma como este grupo político, que o elegera, conduzia a política paraibana. Entre estes poderosos era valorizado o grande latifúndio de terras do interior, possuidores de grandes riquezas baseadas no cultivo de algodão e na pecuária.


 Casarão de onde José Pereira comandava suas forças no conflito de Princesa.

Estes fazendeiros, como vimos no exemplo de Marçal Diniz, atuavam através de uma estrutura política arcaica, que se valia entre outras coisas do mandonismo, da utilização de grupos de jagunços armados, da conivência com cangaceiros e outras ações as quais o novo governo não concordava.

Um dos pontos mais fortes da discórdia era cobrança de taxas de exportação do algodão. Os ditos coronéis paraibanos exportavam a produção desta malvácia pelo porto do Recife, causando perdas tributárias para o estado da Paraíba. O governador estabelece diversos postos de fiscalização nas fronteiras do Estado. Por esse motivo os coronéis do interior passaram a apelidar João Pessoa de “João Cancela”.


 José Pereira (em destaque) e seu estado maior 
durante a chamada Guerra de Princesa.


O fazendeiro e líder político José Pereira Lima, mais conhecido como “Coronel Zé Pereira”, da cidade de Princesa, era o mais poderoso entre todas as lideranças do latifúndio na sua região. Para muitos ele é descrito como verdadeiro imperador do oeste da Paraíba, na área da fronteira com o estado de Pernambuco. Zé Pereira contava com o apoio dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, respectivamente Estácio de Albuquerque Coimbra e Juvenal Lamartine de Faria.

Diante do impasse com o governador João Pessoa, Pereira declarou Princesa “Território Livre”, separando-o do estado da Paraíba, tornando-o absolutamente autônomo.


 Combatentes durante o conflito
Fonte - http://rotamogiana.blogspot.com

A reação do governo estadual foi pesada e uma verdadeira guerra começou. Princesa se tornou uma fortaleza inexpugnável, resistindo palmo a palmo ao assédio das milícias leais ao governador João Pessoa. O exército particular do Coronel José Pereira era estimado em mais de 1.800 combatentes, onde diversos lutadores eram egressos das hostes do cangaço e muitos eram desertores da própria polícia paraibana.


Combatentes da Guerra de Princesa
Fonte - http://rotamogiana.blogspot.com

A força do governador João Pessoa possuía cerca de 890 homens, organizados em colunas volantes. Essas colunas eram chefiadas pelo coronel comandante da Polícia Militar da Paraíba, Elísio Sobreira, pelo Delegado Geral do Estado, o Dr. Severino Procópio e José Américo de Almeida (Secretário de Interior e Justiça).

Marçal Florentino Diniz e Marcolino, ligados por parentesco com José Pereira, se juntam a luta na região. Houve muitos episódios sangrentos na conhecida Guerra ou Sedição de Princesa.


 João Pessoa assassinado.  
Estopim da Revolução de 30

Após a morte do governador João Pessoa, ocorrida em Recife, houve a consequente eclosão da Revolução de 30 e o conflito em Princesa acabou. Durante os quatro meses e vinte e oito dias que durou sua resistência, Princesa não foi conquistada pela polícia paraibana. Após a eclosão da Revolução, as tropas do Exército Brasileiro, de forma tranquila, ocuparam a cidade.

Para muitos pesquisadores José Pereira Lima organizou de tal maneira a defesa dos seus domínios, que provocou baixas estrondosas à força pública paraibana.

Diante da derrota, José Pereira e muitos dos que lutaram com ele fugiram da região. A família Diniz se retraiu diante do novo sistema governamental imposto e a fortuna de Marçal e Marcolino ficou seriamente comprometida.

O tempo dos caudilhos do sertão estava chegando ao fim, pelo menos naquele formato utilizado por Marçal Diniz e José Pereira.

José Pereira deixa Princesa no dia 5 de outubro de 1930 e fica escondido em propriedades de pessoas amigas, em diversas localidades existentes em outros estados. Segundo o Sr. Antônio Antas, depois de percorrer vários locais, segundo lhe informou o próprio Marcolino Diniz, José Pereira passou muito tempo escondido na Fazenda Abóbora, até que em 1934 o novo regime lhe concedeu anistia e ele decidiu permanecer em território pernambucano.


 Antônio Antas, conviveu quando jovem com Marcolino Diniz, seu parente. 
Um grande amigo e memória viva da história de sua região.

Mas segundo o Sr. Antônio Antas, a situação na Fazenda Abóbora não foi fácil. Um ano depois da anistia, por ordens de Agamenon Magalhães, então Interventor Federal em Pernambuco, a polícia estadual cerca a Fazenda Abóbora. José Pereira escapa, volta a Princesa e recebe garantias dos líderes estaduais paraibanos.

Visitando a Fazenda Abóbora

Em recente ocasião estive na cidade de Triunfo, onde mantive contato com Lucivaldo Ferreira e André Vasconcelos. Há tempos que mantemos parcerias entre o nosso blog “Tok de História” e o ótimo blog que eles comandam, chamado “Boom! Triunfo”.


A principal igreja católica de Triunfo 
e a névoa da época de inverno na serra.

Tive oportunidade de travar contato com ambos, onde pude entregar-lhes meu último livro “João Rufino-Um Visionário de Fé” e conversar muito sobre cangaço. Os dois são verdadeiramente apaixonados por Triunfo, sua história, sua cultura e lutam para que isso seja divulgado entre os mais jovens.

Lucivaldo é professor de artes da Escola Nova Geração Triunfense, atua como produtor cultural independente. Ele concilia o trabalho de Regente da Filarmônica Isaias Lima, com o de cantor, compositor, arranjador, vocalista da Banda Templários e participante da Orquestra Maestro Madureira.

 O autor deste artigo e André Vasconcelos.

Já André é bacharel em hotelaria, já foi secretário de cultura de sua cidade, é funcionário do SESC-Serviço Social do Comércio, trabalhando no belo hotel que esta entidade mantem na cidade serrana e é um grande pesquisador do tema cangaço. Acredito que tudo que diz respeito ao cangaço em Triunfo e região, se ele não souber, chega perto.

Com extrema boa vontade, ambos se colocaram a disposição para apresentar as características e fatos históricos de Triunfo, de uma forma tranquila e aberta.

Nas nossas andanças me chamou a atenção como às pessoas na região são extremamente tranquilas e comunicativas, sempre buscando ajudar. Percebi que na busca de informações, é difícil alguém que não tenha algum fato em sua história familiar, relacionado a episódios relativos ao cangaço.


 Na busca da Fazenda Abóbora, com a Serra Grande ao fundo. 
Mais de 900 metros de altitude.

Em um dos dias em que lá estive, busquei alugar uma moto 125 e fui com André desbravar os difíceis, longos e enlameados caminhos até a Fazenda Abóbora. Devido às chuvas, o trajeto foi bem complicado e quase caímos em algumas ocasiões. Mas o legal foi que André não perdeu a animação.

Durante o trajeto foi bonito ver a distância a famosa Serra Talhada. Neste caso não era a cidade, mas a elevação com mais de 800 metros de altitude que nomeia o lugar.


 A Serra Talhada.

A sede da Fazenda Abóbora fica praticamente escondida pelos contrafortes da chamada Serra Grande e seus mais de 900 metros de altitude. Já a passagem dos Riachos Abóbora e da Lage foi uma verdadeira aventura, pois ambos estavam com água corrente e, devido a ser final da tarde, não dava para ver a profundidade. Mas o negócio era encarar e seguir em frente. Graças a Deus deu certo.

Percebe-se com clareza no trajeto o quanto a região ainda é isolada. Existem serras cercando todos os quadrantes da propriedade, o que de certa maneira deixa a área bastante intocada. Tudo é muito bonito em termos naturais e paisagísticos.


Aspecto da região.

Em meio a tantas situações interessantes, em um ponto mais alto, avistamos a casa grande da fazenda Abóbora. À primeira vista, à distância, confesso que fiquei até um pouco decepcionado. Achei que era “história demais, para casa de menos”. Mas não era bem assim.


 Sede da Fazenda Abóbora.

Devido à distância e as condições da estrada, chegamos praticamente à noite. Era estranho tentar imprimir velocidade na 125, em meio a uma estrada terrível, desconhecida, cheia de curvas, altos e baixos e o medo de não conseguir as fotos devido a falta de iluminação natural. Ainda bem que André foi um passageiro bem tranquilo na moto. Mas deu certo.

Na casa os proprietários não se encontravam, mas os moradores foram extremamente solícitos em nos receber e abriram as portas do local.


 Oratório de São Sebastião.

O interessante é que a residência está mantida praticamente na sua forma original. Com exceção do pequeno pátio, do murinho, portal e escadarias localizados na parte frontal, eles afirmaram que o resto da casa é todo original e a intenção dos donos é mantê-la como está. Ao redor existem muitas antigas casas de moradores, a grande maioria desocupadas, mostrando que a quantidade de trabalhadores que havia no local já foi bem maior.


A antiga e preservada cozinha.

Fizemos muitas fotos, mas por questão de respeito aos proprietários, apresentamos apenas o interessante oratório com a figura de São Benedito e a original cozinha com seu fogão a lenha.

Os caseiros do local informaram que vivem há anos no lugar e tiveram oportunidade de ouvir através dos moradores mais velhos, a maioria já falecidos, inúmeras histórias sobre a passagem de Lampião pela casa . Ele nós garantiram que era a primeira vez que conheciam pessoas que vinha à casa da Fazenda Abóbora em razão do tema cangaço.
A nossa visita foi rápida, mas valeu e muito.
Mas uma vez agradeço ao André Vasconcelos pelo apoio.


Bibliografia e depoimentos

[1] Relatos transmitidos em entrevista gravada junto ao Sr. Antônio Antas, da cidade paraibana de Manaíra, em dezembro de 2008. O Sr. Antônio, parente de Marcolino Diniz, conviveu com o filho de Maçal quando este estava idoso e vivendo na Comunidade de Patos do Irerê. Vale ressaltar que é relativamente pequena a distancia da sede da Fazenda Abóbora para a cidade de Manaíra.

[2] Relato transmitido ao autor em entrevista gravada junto ao Sr. Antônio Ramos Moura, em agosto de 2006, em Santa Cruz da Baixa Verde.

[3] Para Frederico Pernambucano de Mello, autor do livro “Guerreiros do Sol-Violência e banditismo no Nordeste do Brasil” (2004), na página 244, afirma que Maçal Diniz conheceu Lampião e seus irmãos quando os mesmo já eram membros do bando de Sinhô Pereira, cangaceiro que igualmente recebeu proteção e apoio deste fazendeiro em 1919.

[4] Entrevista gravada com Antônio Antas, dezembro 2008.

[5] Sobre o combate de Lampião na Lagoa Vieira Clique aqui


[6] Segundo Frederico Pernambucano de Mello, Sabino também era conhecido como Sabino Gomes de Melo, Sabino Barbosa de Melo, ou ainda com os denominativos Gore, Gório ou Goa. Ver “Guerreiros do Sol-Violência e banditismo no Nordeste do Brasil” (2004), pág. 243.

[7] Rodrigues de Carvalho (pág. 164) afirma que Sabino nasceu na Paraíba, no lugar denominado Pedra do Fumo, então município de Misericórdia, atual Itaporanga. Pela lei estadual nº 3152, de 30 e março de 1964, o antigo distrito de Pedra de Fumo foi desmembrado do município de Itaporanga e elevado à categoria de município com a denominação de Pedra Branca, localizado a cerca de 20 quilômetros de Itaporanga. Pelo que escutamos durante nossas visitas a região, acreditamos que a versão do autor de “Guerreiros do Sol” é mais correta.

[8] Sobre o ataque a Sousa ver o livro “Vingança, Não”, de Francisco Pereira Nóbrega.

[9] Sobre este combate ver “Pernambuco no tempo do Cangaço – Theophanes Ferraz Torres, um bravo militar (2 volumes)”, de Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho, págs. 379 e 380.
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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Já ouviram falar da cangaceira Anésia Cauaçu?

Romance de Domingos Ailton é destaque no Dia do Escritor pelo jornal A Tarde 

Por Wilson Novaes


 Capa do romance escrito pelo jequieense Domingos Ailton

Na edição de segunda-feira (25), Dia do Escritor, o Caderno 2 do Jornal A Tarde (Caderno de Cultura) escolheu dentre os escritores baianos, o jequieense, Domingos Ailton, para homenagear na data, com destaque de capa sob o título “Cangaceira inspira romance histórico – Vida de Anésia Cauaçu é contada por Domingos Ailton”. Na página central e na página 3 do citado Caderno, a reportagem assinada pelo jornalista Juscelino Souza, da Sucursal de A Tarde de Vitória da Conquista, se reporta a produção e ao processo de criação literária do escritor jequieense, a influência do estilo amadiano no seu trabalho ficcional e como Domingos Ailton escreveu Anésia Cauaçu, um romance histórico baseado em relatos orais, jornais da época em que viveu a cangaceira, pesquisas científicas, livros sobre Jequié e dissertações sobre o banditismo e o coronelismo na região.

O romance, que pode ser adaptado para uma minissérie na televisão, revela que Anésia Cauaçu foi uma mulher que esteve à frente do seu tempo. Além de anteceder Maria Bonita no Cangaço, ela liderava um bando, foi a primeira mulher no sertão de Jequié a montar de frente e usar calças compridas para facilitar os combates, lutava capoeira, tinha uma pontaria invejável e fazia uma reza que a fazia em muitos momentos envultar (desmaterilizar) e virava uma rocha ou toco de árvore”, conta o escritor Domingos Ailton.

Para compor os personagens, Domingos Ailton ouviu relatos que chegaram a conhecer personagens do romance, como a centenária Alvina Ferreira, que conviveu com Anésia Cauaçu e morreu aos 112 anos, ou Braulino Antônio de Souza, que morreu anos 96 anos. A reportagem mostra também fotos de Domingos Ailton nas proximidades da Pedra do Curral e do Morrinho da Matança, cenários onde ocorreram os fatos reais das brigas entre cangaceiros e os jagunços e a polícia, locais também que estão na obra ficcional do escritor jequieense.

Abaixo, reprodução da reportagem publicada no A Tarde - assinada por Juscelino Souza. Clique para ampliar.




Missa na Grota do Angico celebra 73 anos da morte de Lampião

Texto e imagens de Valeria Lima (Divulgação Assessoria Semarh/SE)



Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião, era o cangaceiro mais temido e respeitado pelo povo nordestino. Para celebrar os 73 anos de sua morte, uma missa foi celebrada no Grota do Angico, localizada entre os municípios de Poço Redondo e Canindé do São Francisco, local da chacina ocorrida em 1938, episódio apontado por historiadores como o marco do fim do cangaço no Nordeste brasileiro.



O extermínio do bando comandado por Lampião e Maria Bonita foi relembrado durante a 14ª Missa do Cangaço nesta quinta-feira, 28, familiares do casal de cangaceiros, representantes do governo do Estado e de organizações da sociedade civil acompanharam a missa celebrada pelos padres Fabiano Rodrigues e Murilo Moraes.



Após a celebração religiosa, houve a visita à sede administrativa do Monumento Natural Grota do Angico, construída pelo governo sergipano. O coordenador da Unidade de Conservação do Angico, Jefferson Simanas, destacou a importância da unidade para manter a preservação da caatinga, como também desenvolver atividades de pesquisa científica, educação ambiental, ecoturismo e visitação pública.

"Sacos plásticos foram distribuídos para os visitantes durante o percurso da trilha ecológica até a chegada ao memorial do cangaço visando a preservação do ambiente".


Para a filha de Lampião e Maria Bonita, Expedita Ferreira Nunes, o aniversário da morte dos seus pais é algo inesquecível, que levará para toda eternidade. “Fico muito feliz em ver todo esse pessoal prestando essa homenagem. Para mim, é um sinal de muito orgulho”, afirmou.

“A nossa pretensão é deixar viva a memória histórica do cangaço que é um motivo importante para nós, como também que as tenham consciência e busquem mais sobre a história do cangaço”, destacou a neta de Lampião, Vera Ferreira.

Outra figura que foi homenagear Lampião foi Inácio José do Nascimento, de 72 anos. filho de Zé de Julião o cangaceiro "Cajazeira". “A data de hoje traz a recordação de meu pai que fazia parte do bando de Lampião. Sinto muito orgulho de compartilhar minha alegria com todos que estão aqui presentes”, revelou emocionado.

Pesquei no Aqui Acontece

Adendo
Duas imagens para compor vossos arquivos sobre a Grota.

 A trilha até Angico vista por satélite 
Clique para ampliar 


Altimetria 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Primeiro no Raso... depois nas profundezas de Canudos.

Um Vídeo de Aderbal Nogueira

Amigos rastejadores do Lampião Aceso, em 1999 eu e um grupo de amigos que faziam parte da revista Nordeste off Road, captaneada por Jorge Ferraz e Dário Castro Alves, juntamente com o montanhista Rosier Alexandre e o "Monossilábico" Paulo Gastão, estivemos no Raso da Catarina. Na ocasião fomos guiados pelo amigo Elso e pelo amigo Jean, ambos do IBAMA.

Visitamos a tribo dos índios Pankararés e uma nascente de água no meio do Raso, onde Lampião e seu bando se refrescavam.

Em um outro trecho do vídeo tem a viagem que fizemos com a SBEC em 2004, onde o nosso amigo Múcio Procópio nos deu uma aula de campo extraordinária. Na ocasião comemoramos também o Centenário de Paulo Gastão, (muito embora ele negue), a viagem foi uma brincadeira só.



Agora mais uma vez estaremos em um grupo de dez amigos visitando e pesquisando naquele solo milenar, dessa vez na companhia de outros bons amigos como, Valentin Antunes, Alfredo Bonessi, Sandro Caldas, Pedro Luiz, Afrânio Marmita, onde seremos guiados por João de Sousa e teremos mais uma vez o privilégio de ter como professor o mestre Múcio Procópio.


Um abraço a todos!
Aderbal Nogueira
Fotaleza,CE.

OBS: Estaremos também em Piranhas, AL na companhia do nosso amigo e eterno guardião da grota de Angico, Jairo Oliveira.

Foi há 73 anos, exatamente numa Quinta-feira...

O fim da história
Gilberto Gil

Não creio que o tempo venha comprovar
Nem negar que a História possa se acabar
Basta ver que um povo derruba um czar
Derruba de novo quem pôs no lugar.

É como se o livro dos tempos pudesse
Ser lido trás pra frente, frente pra trás
Vem a História, escreve um capítulo
Cujo título pode ser "Nunca Mais".

Vem o tempo e elege outra história, que escreve
Outra parte, que se chama "Nunca É Demais"
"Nunca Mais", "Nunca É Demais", "Nunca Mais"
"Nunca É Demais", e assim por diante, tanto faz.
 
Indiferente se o livro é lido
De trás pra frente ou lido de frente pra trás
Quantos muros ergam como o de Berlim
Por mais que perdurem sempre terão fim.

E assim por diante nunca vai parar
Seja neste mundo, ou em qualquer lugar.

Por isso é que um cangaceiro
Será sempre anjo e capeta, bandido e herói
Deu-se notícia do fim do cangaço
E a notícia foi o estardalhaço que foi.
 
Passaram-se os anos, eis que um plebiscito
Ressuscita o mito que não se destrói
Oi, Lampião sim, Lampião não, Lampião talvez
Lampião faz bem, Lampião dói
Sempre o pirão de farinha da História
E a farinha e o moinho do tempo que mói.

Tantos cangaceiros como Lampião
Por mais que se matem, sempre voltarão
E assim por diante, nunca vai parar
Inferno de Dante, Céu de Jeová.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A Violência do Cangaço de Jesuíno Brilhante (1871-79) e a Violência do Século XXI.

Por: Epitácio de Andrade Filho.
                                    
“O único animal que ataca seus pares de forma premeditada é o homem, e por isso, carregamos o ‘título’ de o mais violento do reino animal”.

Foto: Julio Schiara
A violência humana é um fenômeno caracterizado pela manifestação do comportamento agressivo, que está relecionado à persistência de impulsos psicológicos primitivos, voltados para os mecanismos mentais destinados à preservação da espécie humana.
                            
Anthony Asblaster, em verbete no “Dicionário do Pensamento Social do Século XX”, reporta-se ao dilema conceitual acerca da violência, afirmando que não há conclusões absolutas, nem incontroversas sobre o tema.  Segundo o Dicionário de Antônio Houaiss, violência é a “ação ou efeito de violentar, de empregar força física (contra alguém ou algo) ou intimidação moral contra (alguém); ato violento, crueldade, força”. No aspecto jurídico, o mesmo dicionário define o termo como o “constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém, para obrigá-lo a submeter-se à vontade de outrem; coação”.
                            
Por outro lado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) define violência como “a imposição de um grau significativo de dor e sofrimento evitáveis”. Porém, alguns cientistas sociais afirmam que o conceito é muito mais amplo e ambíguo do que essa mera constatação de que a violência é a imposição de dor, a agressão cometida por uma pessoa contra outra; mesmo porque a dor é um conceito muito difícil de ser definido.
                            
No cenário da literatura internacional, do final do século XIX para início do século XX, é o escritor russo Fiodor Dostoievsky, em “Crime e Castigo” e o austro-húngaro Franz Kafka, em “O Processo”, quem ficcionam a temática da violência; o neurologista Sigmund Freud começa a desvendar alguns segredos da mente humana com a formulação das teses sobre o inconsciente, consolidadas num campo teórico-conceitual, chamado Psicanálise, que suplantará as teses eugênicas de Cesare Lombroso, constituídas na sua antropologia criminal, no tocante às explicações sobre a agressividade humana.

Dostoiévski

Kafka
Freud

No Brasil, neste mesmo período, estabeleceu-se uma importante polêmica de correntes de pensamento, envolvendo os chamados “alienistas”, precursores da psiquiatria moderna, quando de um lado estava Raimundo Nina Rodrigues, defensor de teses racistas, que afirmavam a inferioridade das raças não-brancas, baseando-se no pensamento lombrosiano; e do outro lado, estava Juliano Moreira, o primeiro psiquiatra negro do Brasil, que defendia a humanização dos tratamentos aos doentes mentais, com base nas primeiras formulações sobre a determinação social do processo saúde-doença mental e nas teses psicanalíticas, chegando a acolher no Hospital Nacional de Alienados do Rio de Janeiro, o líder negro da Revolta da Chibata João Cândido Felisberto, em 1910, e depois resgatou para seu acervo museológico o crânio do cangaceiro Jesuíno Brilhante, morto numa emboscada fatal comandada pelo arquiinimigo Preto Limão, em dezembro de 1879.  
Nina Rodrigues

Juliano Moreira

A guerra, a fome, a tortura, os assassinatos e o preconceito são algumas das variadas manifestações da violência humana. Na comunidade internacional de direitos humanos, a violência é compreendida como todas as violações dos direitos à cidadania (vida, propriedade, liberdade de ir e vir, de consciência e de culto); aos direitos políticos (direito a votar e a ser votado, ter participação política); aos direitos sociais (habitação, saúde, educação, segurança); aos direitos econômicos (emprego e salário) e culturais (direito de manter e manifestar sua própria cultura). As formas de violência, tipificadas como violação da lei penal, como assassinato, seqüestros, roubos e outros tipos de crime contra a pessoa ou contra o patrimônio, formam um conjunto que se convencionou chamar de violência urbana, porque se manifesta principalmente no espaço das grandes cidades. Não é possível deixar de lado, no entanto, as diferentes formas de violência existentes no campo.
                   
O fenômeno do cangaço é uma das principais expressões históricas da violência rural. Este fenômeno social é conceituado pela Professora Lúcia Souza, mestre em Geografia pela Universidade Federal da Paraíba, onde desenvolveu a dissertação intitulada “Lugares de Memória: Jesuíno Brilhante e os Testemunhos do Cangaço nos Sertões do Oeste do Rio Grande do Norte e Fronteira Paraibana”, como sendo um fenômeno geohistórico que aconteceu na área delimitada pelo semi-árido nordestino, a partir de meados do segundo império, com o conflito dos Brilhantes com os Limões, passando pela sanha de Antônio Silvino e Lampião, dentre outros chefes cangaceiros, até a morte de Corisco em 1940, cuja violência dos homicídios e pilhagens praticadas pelos seus bandos de guerreiros nômades da caatinga ocorria em paralelo ao Estado imperial, e depois republicano.


Estado -paralelo de Jesuíno Brilhante
                             
Na fundamentação teórica de Antônio Gramsci, onde se discorre a relação do Estado com a Sociedade, encontram-se elementos conceituais acerca do chamado “Estado-paralelo”, onde o fenômeno do cangaço pode ser teoricamente, inserido. A ausência do Estado foi, portanto, determinante para que a violência do cangaço de Jesuíno Brilhante, relacionada com os conflitos familiares do Sertão Nordestino, mas precisamente, com o segmento étnico representado pela Família Limão, tivesse se estabelecido por quase uma década, dando-se conformação histórica a um verdadeiro “Estado-paralelo”, que foi classificado como “Cangaço por vingança, por justiça”.
                                                      

Antonio Gramsci

No episódio do “Saque a Cadeia de Pombal” (1874), a mais segura do Sertão, onde Jesuíno Brilhante resgatou seu irmão Lucas, preso após ser surrado em Conceição da Miséria, na zona rural do município paraibano do Catolé do Rocha, a ação do cangaceiro ocorreu no sentido de reparar a situação de injustiça promovida pelos dominantes do poder político do estado imperial.
                                
Por outro lado, os seus principais algozes, “os Limões”, estabeleciam alianças estratégicas com estes setores dominantes, após terem se libertado do maior flagelo da humanidade, a escravidão. Com a condição de ex-escravos, o clã dos Limões foi chamado de “negros” para ser mantido numa condição de inferioridade social.
                                 

Já no episódio que ficou conhecido como “O Fogo de Imperatriz” (1876), a ação cangaceira do bando de Jesuíno Brilhante tinha a intenção de resgatar uma moça depositada na casa de um próspero senhor da cidade de Imperatriz, hoje Martins. Era comum, na época, a inicial sexual dos filhos de fazendeiros se dar pela sevicia das filhas dos moradores. Jesuíno, determinando o casamento da moça seviciada com o filho do patrão agressor, inseria outra família na divisão da terra.
                                 
 Patriarca do clã dos Limões   
Reprodução: Emanoel Amaral

O saque aos comboios da seca de 1877 marca a principal estratégia de marketing do cangaço de Jesuíno Brilhante. Distribuindo os gêneros aos flagelados, até mesmo pelo fato de não ter onde armazená-los, espalha sua fama de justiceiro, ao mesmo tempo em que combate os Limões, que controlavam o comércio incipiente da região. O marketing do cangaço de Jesuíno difere, totalmente, de Lampião, que era espalhar o terror. Na época do cangaço ainda não existia os programas dos meios de comunicação que espetacularizam a violência.
                                  
O resgate histórico destas modalidades da violência do cangaço de Jesuíno Brilhante se faz necessário para a compreensão dos determinantes do fenômeno, que se apresenta no século XXI com outras facetas, mas gerando o mesmo sofrimento na população. A epidemia de violência que ora é vivenciada, só será possível ser superada, com educação, saúde, cultura... Do contrário, a humanidade seguirá o caminho inverso do processo civilizatório: o regresso à barbárie.   
                          
 
*Conferência elaborada para apresentação na abertura do evento: ‘’Cangaço e Negritude’’, realizado em Currais Novos/RN, no dia 08 de julho de 2011.

**Médico Psiquiatra e Pesquisador Social.


terça-feira, 26 de julho de 2011

Lampeão em Simão Dias, SE.

Por: José de Carvalho Déda*

Do seu livro Simão Dias, fragmentos de sua história, 2ª Edição 2008. Capitulo XVIII "Bandidos e cangaceiros": págs 138,141.

A não ser por fatos isolados, Simão dias não conhecia façanhas de valentões e cangaceiros, senão pela leitura de livretos com historietas populares em versos, vendidos nas feiras, cuja s ações e façanhas tinham por cenários os longínquos sertões do Ceará, Paraíba e Pernambuco, onde se celebrizaram Antônio Silvino, Lampião e outros.

A cidade e seu município viviam na mais completa tranquilidade, sem noticias de bandidos. No ano de 1928, surgiu no nordeste baiano, o famigerado bando de Lampião, assaltando fazendas e povoações, matando , roubando, violentando mulheres, e impedindo o desenvolvimento da produção em todos os setores.

Um sistema de espionagem, desconhecido, inteligente e impressionante, surgiu de um momento para o outro em toda região. Era o chamado “Coiteirismo”, enchendo de pavor as populações rurais.  As fazendas, roças, sítios, foram abandonados pelos indefesos camponeses.
As correrias do temível bando iam, cada dia mais se a aproximando de Simão Dias. A população da cidade, de índole pacifica, desconhecendo lutas dessa ordem vivia sobressaltada, mas de algum modo confiada no destacamento policial, preventivamente reforçado.


O desassossego cresceu quando o destacamento foi recolhido, mobilizando em face revolução desencadeada no país, na madrugada de 3 de Outubro de 1930.

Desguarnecida, Simão Dias seria presa fácil para Lampião e seus sequazes. Na manhã do dia 17 de outubro de 1930, a cidade foi sacudida por um telegrama recebido pelo Cel. Felisberto Prata, alto comerciante da praça, comunicando a tentativa de assalto  a  cidade de Capela, pelo bando, e a partida do mesmo em direção deste município.

Começou o êxodo, a princípio ordenado, apenas para os que dispunham de transportes motorizados; logo mais, com a chegada de noticias do assalto à Vila de Pinhão, distante quatro léguas, estabelecendo-se verdadeiro pânico. As famílias desordenadamente partiam para os matos, com suas improvisadas trouxas.
Cerca das 15 horas, os bandidos se aproximavam da cidade. As vitimas começavam a chegar, infundindo maior terror.

Às 16 horas, foi improvisada uma resistência. O Dr. Marcos Ferreira; ex aluno da escola militar, Antônio Carmelo e o autor deste trabalho, chefiavam o movimento, constituindo o seu “Estado Maior”.

A mobilização foi rápida sem atropelos. Os mais diversos tipos de armas, obsoletas em sua grande maioria, apareceram num instante: revolveres de diversas marcas, pistolas, garruchas, espingardas de caça dos mais variados feitios e calibres, velhos trabucos, bacamartes de festejos juninos etc.

Uma notável disciplina, entre os voluntários, enchia de entusiasmo e confiança os três homens do Estado Maior. Reunindo este, consertando os planos para a defesa da cidade, eis que chega o primeiro ultimato de Lampião. Era portador da mal escrita mensagem, o agricultor Fausto José da Conceição, conhecido por Fausto "Dodô", homem morigerado, que trazia no semblante a aflição por ter deixado um seu filho menor, o jovem João Conceição Neto, prisioneiro, como refém dos bandidos. Simão Dias deveria cotizar-se e mandar o dinheiro exigido, sob pena de ser assaltada imediatamente.

A intimação, ao invés de desanimar os locais encorajou-os para a luta, que seria desigual dada a inexperiência dos defensores.

Uma segunda intimação vinha de mais perto, da “Ladeira de pedras”, onde o bando se encontrava, olhando para a cidade.

Esta nova intimação levou os defensores a ocupar seus lugares. As platibandas das casas residenciais, ou comerciais, as esquinas, os becos, os montes de pedras ou material de construção, tudo servia de trincheira aos da resistência. Em dado momento o silencio foi quebrado. Ouviu-se um tiro, que pareceu ter sido disparado lá para os lados da “Ladeira de pedras”, onde se encontravam os bandidos.

Nisso o corajoso Manuel Oliveira, vulgarmente conhecido por Manuel dos motores, que chefiava um pequeno grupo, foi levado a uma temeridade providencial.  À frente dos seus rapazes, tomou a ofensiva, marchando direto para o lugar onde os bandidos e achavam.

Precipitadamente, o grupo fez fogo ante de atingir distancia para o alcance de suas armas. Foi o estopim. De todos os pontos da cidade, dos telhados, das esquinas, de todos os lados, enfim, partiam tiros e tiros num “pipoquear” formidável dos mais diversos tipos de armas, disparadas a esmo. Verdadeiro desperdício de munição. Mas esta imprudência levou o bando assaltante a acautelar-se. Lampião não contava com coiteiros que lhe expusessem a verdadeira situação da resistência, e não quis atrever-se a entranhar-se nas estreitas ruas, perigoso labirinto que desconhecia.

Houve a retirada para o interior, a tudo levando de roldão, num requinte de perversidade. Ao passar pelo sitio “Olhos D água”, o bando infrene espantou famílias ali escondidas, que correram de volta.

A meia-noite em ponto, o lúgubre silêncio da cidade escura foi quebrado por um disparo partido de um mata-burro, na estrada de rodagem, que servia de linha avançada dos defensores.

Atordoadas, as famílias fugitivas não compreenderam a senha que se pedia da trincheira, avançando precipitadamente de encontro à mesma. Uma infeliz senhora, em adiantado estado de gravidez, foi fulminada por uma bala que partira da resistência, num evidente erro de fato.

Também o disparo casal de uma arma conduzida por um dos rapazes de Manoel dos motores fulminou outra mulher.

Com a retirada dos bandidos para o interior, mesmo assim a intranquilidade permaneceu, pois conforme se sabia, a retaguarda do “Capitão” era sempre coberta pelo seu lugar-tenente, o temível  Corisco a frente de bando menor, mas igualmente destro e perverso.

Corisco, porem não viria pois que fora também obrigado a acautelar-se, com  a experiência de seu ataque ao sitio de Porfírio Chagas, no povoado Caraíba. Porfírio, setuagenário valente, sozinho em sua residência, com um rifle “papo amarelo” recebeu o grupo de Corisco à bala, com bastante animo para resistir.

Fugiram os assaltantes. Deixaram marcas de sangue nas estradas.

Os bandoleiros, anos a fio mantiveram a intranquilidade em todo o município, obstando o desenvolvimento da produção. O comercio de Simão Dias sofreu as desastrosas consequencias do “ciclo lampiônico”.

Com a vitoria da revolução de 1930, nomeado Interventor Federal em Sergipe o bravo militar revolucionário Augusto Maynard Gomes, todas as s garantias foram dadas às populações, até o completo extermínio do cangaceirismo na região.


 A matéria foi uma sugestão do amigo Tarciso.

Adendo: 

Algumas biografias recentes ainda atribuem a esta cidade do centro Sul sergipano sua antiga denominação Anápolis.

O jornalista José de Carvalho Déda (1898-1968), também conhecido como Zeca Déda, exerceu advocacia como provisionado por mais de quatro décadas foi vereador, prefeito e representou o povo por três legislaturas consecutivas na Assembléia Legislativa estadual (1947-1950; 1951- 1954; 1955-1958). Escreveu o Regimento Interno da Casa e participou de vários congressos parlamentares, sempre com a apresentação de teses. Foi o autor do projeto que resultou a emancipação política do município de Poço Verde. fundou e dirigiu o jornal ´A Semana´, no município de Simão Dias, do ano de 1946 até a sua morte. Foi também diretor e um dos redatores do Correio de Aracaju, um dos mais antigos jornais da capital sergipana. Além disso, marcou época atuando no rádio ao lado do ex-governador Seixas Dória nos programas ‘Resenha Política' e ‘Problemas em Debates'.  avô do governador de Sergipe Marcelo Déda.  


Pesquei em:  Infonet

Memorial do poder Judiciário de Sergipe convida




MAIORES INFORMAÇÕES
memorial@tjse.jus.br (79) 3213 0219 / 3213 0771

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Lampião em Sergipe

 É o mais novo e esperado livro de Alcino Alves Costa


 Eis a capa do mais novo rebento do "decano de Poço Redondo"  

Uma pesquisa que trata dos últimos anos de reinado de Virgulino Ferreira em terras sergipanas, onde ele passou seus últimos dias de vida, no total de quase dez anos.

Para aqueles que achavam ser o cangaço um tema esgotado, exaurido de novidades, apresento-lhes "Lampião em Sergipe". E assim comprovamos que, na História, os fatos não se esgotam, pois cada trabalho trás uma ótica diferente e perquire as inquietações individuais do pesquisador, que nos provoca deduções antes não pensadas.

Neste trabalho que ora apresento e recomendo, o leitor se deparará com um espetáculo das vidas humanas.

Por ser o autor um investigador instintivo, tendo como esteio uma natureza erudita e o compromisso com a história, Alcino nos propõe uma imersão nos fatos, na poeira do tempo em que o famigerado Lampião palmilhava o sertão sergipano.

No encalço das "alpercatas ferradas", o pesquisador tornou-se um andarilho no tempo e no espaço, pois segue o rastro dos cangaceiros malfeitores que não só assolavam o sertão como um todo, mas, particularmente, o Estado de Sergipe, donde "reinaram" absolutos por quase uma década, se levadas em conta suas idas e vindas.

O lançamento oficial será em Aracaju no fim de agosto. A data ainda não está definida, mas divulgaremos com antecedência, pelo fato de Alcino encontrar-se em processo de recuperação de uma cirurgia.

Também será lançado na ocasião do Cariri Cangaço - no nosso Ceará em setembro.

O livro custará R$ 45,00 reais, mais despesa do Correio.

Contatos para aquisição:  
alcino.alvess@gmail.com / (79) 8852-7661
julianaischiara@hotmail.com / (88) 9927-3499


Abraço a todos! 

Juliana Schiara
Pesquisadora, Sócia da SBEC.
Quixadá, CE

quinta-feira, 21 de julho de 2011

DVD Festival de músicas do Cangaço (Parte Final)

O evento ocorreu em 1º de maio de 2010 em Serra Talhada, PE. Foi mais uma realização da Fundação Cultural Cabras de Lampião que o transformou em DVD. E agora também disponível no YouTube em faixas avulsas para apreciação dos nossos rastejadores.
 

Créditos: Camillelles


Tavinho Limma - São Virgolino
   


Herbert Lucena - Herói, Vilão ou Libertário (Prêmio de melhor intérprete do festival)



Léo Godoy - Lampião Amou



Tico de Som - O Bando



Erivan Gomes - Culpado Ou Inocente



Blackout & Suspeito - Rei do Cangaço 



Ivânia Catarina - Cangaço (Primeira colocada no festival)



Ropiário Júnior - Coração de Cangaço
  


Edson Vianna - Cangaceiro 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

 Morre o irmão da cangaceira Lídia.

Foto: Tatiana Souza. Revista Viver Bahia

José Luis Pereira  o "Sinhôzinho", 93 anos, último irmão da cangaceira Lídia, que foi companheira de Zé Baiano. Sinhôzinho residia no povoado Salgadinho, Paulo Afonso, Bahia. Distrito este que fora um dos maiores coitos de Lampião na Bahia.

Informação do pesquisador João de Sousa Lima.

Um clássico cearense reeditado

Abelardo Montenegro tem a obra Fanáticos e Cangaceiros relançada agora à tarde, no Instituto do Ceará.

Por Domitila Andrade - O Povo Online de 19/07/2011 - Caderno: Vida e Arte

 
 O livro é originalmente de 1971. Pesquisador profícuo, Abelardo Montenegro 
costumava gabar-se como um dos homens que mais amou o Ceará. 
Foto: Igor de Melo

Convite ripado no Blog do Instituto do Ceará
O homem foi toda a vida das letras, das que lia e das que escrevia. Tanto que não casou para dedicar-se em plenitude à sua maior paixão: os livros. O advogado Abelardo Montenegro foi um dos mais profícuos escritores cearenses, tendo publicado 42 obras, e um ano após seu falecimento, em 2010, aos 98 anos, ainda ter seis títulos inéditos. Fanáticos e Cangaceiros, que será relançado amanhã (20), às 15h30min, no Instituto do Ceará, é originalmente de 1971.

A segunda paixão do escritor não se dissocia da primeira. Ao contrário: a complementa. Abelardo, que gostava de ser chamado de intérprete do Ceará, dedicou boa parte de sua vida a escrever sobre os meandros da cultura e do povo cearense. Exemplo disso é Fanáticos e Cangaceiros, que trata de religiosidade, seca e vida sertaneja.

A nova edição se dá porque a primeira, feita com recursos próprios, a primeira foi apenas de 300 exemplares, que foram distribuídos para bibliotecas e estudiosos.

Esta edição traz, além dos três capítulos originais, um prefácio assinado por Gildácio Sá que fala um pouco da história do escritor. Apesar de não ter casado, Abelardo, aos 50 anos, adotou como sua uma família cuja mãe, dona Clara, lhe prestava serviços domésticos. Os filhos e netos de Clara são hoje seus herdeiros. Gildácio, casado com uma dessas netas, conviveu com o escritor por 30 anos e dedicou-se a digitalizar toda sua obra, que também estará exposta hoje.

“Fanáticos e Cangaceiros começou a ser feito por Abelardo ainda no final da década de 1930, o que deu a ele oportunidade de conversar com pessoas que participaram in loco das histórias contadas por ele no livro”, fala Gildácio. Mais de 100 livros e 42 entrevistas compunham a base da obra.

Dividido em três partes, o livro conta a história da vida, do sofrimento e peregrinação do beato Antônio Conselheiro; do fanatismo religioso, das santas missões, das festas religiosas, do misticismo cearense, desde o padre Ibiapina até o padre Cícero - com quem Abelardo conviveu por duas semanas, hospedado em sua casa; e, por fim, da fome, seca e injustiça social que permeava a vida sertaneja e contextualiza o cangaço.

Esta edição, que Gildácio define como “de extrema importância para a história do Ceará” passou por modificações, em relação a primeira, feitas pelo próprio escritor. “Nós atualizamos algumas coisas, revisamos datas e dados, revemos recortes de jornal”, Gildácio explica o trabalho em conjunto feito pouco antes do falecimento do escritor.

Gildácio conta que Aberlado, avesso à entrevistas por sua natureza humilde e modesta, gabava-se apenas de ser o homem que mais amou o Ceará. “Ele dizia: ‘Pode haver alguém que empate esse amor, mas não tem ninguém que passe, não”. E completa: “Fanáticos e Cangaceiros guarda nas entrelinhas a prova do intenso amor de Abelardo ao Ceará”.

Entenda a notícia

Nascido em Crateús, Abelardo Fernando Montenegro morreu aos 98 anos, em 26 de abril de 2010, deixando uma obra que transitou por áreas como a Ciência Política, Economia, Sociologia e Psicologia Social, em quase 50 livros, a grande maioria dedicada ao Ceará.

SERVIÇO
O quê: relançamento do livro Fanáticos e Cangaceiros, de Abelardo Montenegro
Quando: Hoje (20), às 15h30min
Onde: Instituto do Ceará (rua Barão do Rio Branco, 1594 - Centro)
Outras info.: (85) 3226 1408

Valor: R$ 30,00
424 Páginas
Expressão Gráfica

Açude:  O POVO online

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*Créditos do artigo para o sempre atencioso coroné Ângelo Osmiro Barreto
Fortaleza-CE