quinta-feira, 30 de junho de 2011

O julgamento simulado de Lampião "em versão compacta"

Mais um feito de Aderbal Nogueira para a posteridade.

Um tribunal fictício com profissionais de direito reais, envolvidos num processo histórico. Evento organizado por Anildomá Willans presidente da Fundação Cultural Cabras de Lampião no Sítio Passagem das pedras, terras que pertenceram à Dona Jacosa, avó de Lampião no dia 13 de Abril de 2000, 65 anos após sua morte.

Eis o elenco
Assis Timóteo: Juiz
Luiz Lorena (In memoriam): Promotor
Franklin Machado: Advogado
Antonio Amaury: Assistente de defesa

Uma encenação, mas de valor jurídico.



ADENDO 
Processos contra cangaceiro Lampião encontram-se guardados no Memorial do Poder Judiciário de Alagoas. Reportagem da TV Tribuna com apresentação de Fernanda Lins e participação de Jairo Luiz.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Homenagem ao soldado Adrião

Por Paulo Britto



O texto, abaixo, está contida no livro “Como Dei Cabo de Lampião” de autoria do, há época, Capitão João Bezerra da Silva, intitulada como “Homenagem Póstuma do Autor”, logo no início da 1ª Edição do livro, em 1940 e mantida nas duas outras edições.

O soldado Adrião Pedro de Souza, componente da volante do Aspirante Francisco Ferreira de Melo, veio a ser morto, infelizmente, logo no início do combate de Angico. Com a subdivisão da tropa comandada pelo Tenente João Bezerra, para a execução do cerco ao acampamento de Lampião, o grupo liderado pelo Aspirante Ferreira, foi quem primeiro teve contato com os cangaceiros, ao ponto de se verem forçados a dar início a ofensiva. Cessado o combate, constatou-se a morte do soldado Adrião, ferimento no braço do soldado Guilherme Francisco da Silva e ferimento transfixiante na mão e na coxa, com a bala se alojando no quadril do comandante da volante. Em seu livro, o comandante faz o seguinte comentário: “Sofrendo então muitas dores, baleado como estava na perna e na mão, perdendo muito sangue, cansado e sem dormir há mais de 24 horas, via-me em dificuldades para resolver vários problemas que necessitavam ser resolvidos com a máxima urgência.

Foi um momento de agonia aquele! Estávamos num local de difícil acesso à margem do rio São Francisco. Tudo se apresentava com inumeráveis dificuldades. Teríamos de remover enormes obstáculos para nos transportar carregando um soldado morto e outro ferido, e ainda, para maior desgraça, eu não podia andar, tendo de ser carregado pelos meus valentes companheiros. Troquei ideias com o aspirante Ferreira de Melo, assentando que o soldado morto de qualquer maneira não ficaria ali. Mesmo que isto nos custasse os maiores sacrifícios, ele seria transportado para receber as honras da sua dignidade de combatente viril tombado heroicamente na defesa da ordem jurídica, no cumprimento sagrado do dever militar.” Daí, segue-se uma série de procedimentos e de ações paralelas, em decorrência da dimensão do feito e euforia por parte de todo o contingente humano das mais diferentes áreas, sem se negligenciar os procedimentos devidos ao bravo militar morto, conforme citações abaixo:

BOLETIM DO II BATALHÃO, Nº 175, DE 30 DE JULHO DE 1938, III ITEM:
“EXCLUSÃO POR FALECIMENTO – Excluo do estado efetivo deste Btl. e 4ª Companhia, por falecimento, o soldado nº 665, Adrião Pedro de Souza, por ter quando em combate junto às forças volantes que extinguiram o celebre rei do cangaço o famigerado “Lampeão”, e mais dez comparsas, sido atingido pelas balas mortais dos facínoras bandoleiros, deixando gravado nos corações de todos os seus companheiros o inédito exemplo de heroísmo, de amor ao trabalho, perdendo a vida pela paz do sertão e engrandecimento de sua corporação, que tão sobejamente deixou gravada a sua recordação. “
DO DIÁRIO OFICIAL Nº 7.443, de 04 de Agosto de 1938:
 “I - ATO DO INTERVENTOR FEDERAL – O interventor federal do Estado, por atos de ontem, promoveu, por ato de bravura e na forma regulamentar, ao posto de 3º sargento o soldado do Regimento Policial Militar Adrião Pedro de Souza, morto na manhã do 28 de julho próximo findo, em combate contra o banditismo; ...”.
CONTINUAÇÃO DO BOLETIM REGIMENTAL Nº 179, DE 12 DE AGOSTO DE 1938
“Não se enganou, portanto, o Exmº. Sr. Interventor Osman Loureiro, nem tão pouco este comando. A perseguição se iniciou de forma tenaz e vigorosa, e não tardou a raiar a manhã do 28 de julho, onde um punhado de 45 bravos comandados pelos Capitão João Bezerra da Silva, 1º Tenente Francisco Ferreira de Melo e Aspirante a oficial Aniceto Rodrigues dos Santos, numa arrancada de heróis, atacaram de surpresa, na fazenda “Angicos”, município de Porto da Folha, no Estado de Sergipe, o grupo do famigerado “Lampeão”, composto de nada menos de 58 bandidos e com eles numa luta tremenda conseguiram abater onze sicários, inclusive o REI DO CANGAÇO, pondo os demais em debandada, sem que tivessem tempo, os restantes, de conduzir do campo de luta os seus apetrechos e material de guerra que abandonaram.
Infelizmente, não há vitoria sem luto e este luto é deveras lamentável, por que na refrega perdemos um bravo, o soldado Adrião Pedro de Souza, que, por isso, foi promovido, por áto de bravura e na forma regulamentar, ao posto de terceiro sargento; - para ele imorredouras saudades e um minuto de silencio, em sua memoria, pelos belos exemplos que nos legou e que servirão de lição aos que aqui militam e aos que nos sucederem. O Capitão Bezerra, comandante geral da tropa recebeu um ferimento, assim como o soldado Guilherme Francisco da Silva, e por pouco, aquele não ficou no campo da luta, estando ambos sob os cuidados médicos...
 Congratulando-me convosco e, muito especialmente com louvor, com os que tomaram parte na encarniçada luta acima relatada, mando que, nos livros do assentamentos de cada um, se façam constar os elogios a que fizeram jus, ao mesmo tempo que os concito a prosseguirem, com fé, na luta ingente de libertar, quanto antes, o sertão de Alagoas da horda remanescente de bandidos que ainda o infesta, convictos de que dias melhores nos esperam e de que a história Militar da Polícia de Alagoas será enriquecida com mais esse serviço à Sociedade Alagoana e, consequentemente, ao Brasil.
Camaradas! Para a frente, por que a vitória é nossa. Salve Alagoas!
Salve a Pátria redimida! SALVE!”


O Coronel Francisco Ferreira de Melo se refere ao combate e ao soldado em entrevista ao Dr. Estácio de Lima, da seguinte forma: “ – A luta foi difícil Coronel?

"Não tanto, para quem estivesse habituado às guerrilhas sertanejas. Enfrentamos o adversário sem que ele nos esperasse. Levamos a vantagem da surpresa. E para tantos e tão importantes cangaceiros abatidos, onze ao todo, lastimamos a perda de meu excelente soldado ADRIÃO ou ADRIANO PEDRO DE SOUZA. Também foi baleado o nosso digno Comandante e mais um praça, que teve o braço partido”.


O soldado Adrião Pedro de Souza teve a sua morte reconhecida por bravura, pela sociedade civil, seus pares, instituição a qual pertencia e autoridades, no ambiente devido e apropriado. O palco do combate nos ermos das caatingas, que serviu de jazigo para os cangaceiros, não seria o local apropriado para o antagónico, justamente para aquele que dedicou sua vida a combater os que ali ficaram. Os registros na literatura e, sobejamente nos meios de comunicação já registraram na história os nomes dos que ali combateram, não existindo nenhum demérito, por não haver a materialidade do seu nome exposto no referido local.

O Coronel João Bezerra, reconhecendo a necessidade de haver um marco, a altura dos que ali combateram (volantes e cangaceiros) e ali ficaram (cangaceiros), teve a iniciativa de mandar confeccionar na oficina da Rede Ferroviária de Piranhas, um cruzeiro (foto abaixo) composto de onze cruzes, com os respectivos nomes, que Estácio de Lima registra em seu livro, como “Mausoléu modesto das onze cruzes”. 


  O homem que está segurando o chapéu, é Cel. João Bezerra. 
O que está em cima da pedra, é o Sr. Manoel Pereira, chefe da estação de trem de Piranhas. 
E ao centro o ferreiro da estação, que ajudou na construção da cruz.


Em Angico, o imponente cruzeiro foi colocado em 30/10/1961, afixado em uma grande pedra. Na placa de bronze, no centro deste cruzeiro, tem a seguinte inscrição:

  
“Aqui jaz o Rei do Cangaço Capitão Lampeão com dez companheiros.
Combate em 28-7-1938. Lembrança do Capitão Bezerra. 
Colocação da Cruz em 30-10-1961".


 A cruz por inteiro. Hoje exposta em Aracaju no Memorial de Sergipe, 
numa sala dedicada ao Cangaço, mantida por Vera Ferreira.  

OBS. Estas duas imagens não compoem a matéria original, é um adendo do blog para enriquece-la. O registro fotográfico da aludida peça foi consentido por Vera Ferreira para Ivanildo Silveira.

À materialidade - o registro histórico dos fatos. Aos nossos corações a lembrança e o agradecimento indelével por aqueles que se sacrificaram em defesa do bem.
Abraço a todos, Paulo Britto!


Matéria pescada no sítio do Coroné Severo www.cariricangaco.com

domingo, 26 de junho de 2011

Paulo Medeiros Gastão

UM CANGACEIRO ACADÊMICO VESTIDO DE NORDESTINIDADE
Coluna Perfil da revista Nordeste21, edição de Maio 2011.



Paulo Medeiros Gastão é uma dessas personalidades cujos pensar e fazer estão impregnados de nordestinidade. Tem um olhar poético todo voltado para a estética do povo e da terra do Nordeste brasileiro. Sua mente está em constante movimento, criando e maturando ideias para tornar cada vez maior e mais bela a nação nordestina. Nascido no dia 14 de novembro de 1938, na cidade de Triunfo da Baixa Verde, PE, região serrana das mais bonitas do Nordeste, na fronteira com o estado da Paraíba, Paulo Gastão é, em outras palavras, um homem vestido da sabedoria genuinamente sertaneja e nordestina. Homem de invulgar espírito empreendedor, desde cedo demonstrou especial atenção e zelo às coisas da história e cultura do Nordeste.
Ainda nos tempos de estudante destacou- se como um dos mais aplicados e inteligentes alunos, até encontrar uma de suas mais ardentes paixões: A história do Cangaço.

Paulo Gastão, com dedicação extrema e paciência beneditina, própria de pesquisadores da melhor estirpe, adentra a largueza do mundo habitado pelas personagens do cangaço, desvenda os mistérios do fenômeno do cangaceirismo no Nordeste e se notabiliza como um dos mais ativos e determinados pesquisadores do Brasil sobre essa seara onde os eventos tempestuosos são protagonizados por homens e mulheres rudes. Ao enveredar pela temática do Cangaço, inexoravelmente, Gastão acabou deparando- se e se apaixonando por outras temáticas intrinsecamente interligadas, por exemplo: o messianismo, beatos e coronelismo etc.

Daí, mergulhado nesse caudalosorio, Gastão nadou a curtas braçadas na investigação de vidas extraordinárias como as de Antônio Conselheiro, Delmiro Gouveia e o Beato Zé Lourenço, tornando- se também um profundo pesquisador sobre Canudos, Pau de Colher e Caldeirão da Santa Cruz. Detentor de uma cultura vasta e plural, intelectual de bom calibre, Paulo Gastão foi o idealizador e primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC, entidade que reúne pesquisadores de todo o território nacional e que tem sua sede na cidade potiguar de Mossoró.

Também foi membro fundador da Fundação Vingt- un Rosado, de reconhecido trabalho em prol da perpetuação da memória e cultura nordestina, bem como da Academia Mossoroense de Letras. É sócio do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), ex- professor da Universidade Regional do Rio Grande do Norte e da Escola de Agricultura de Mossoró (RN). Paulo Gastão, respeitado e admirado por quantos têm o prazer de conhecê- lo, ouvir suas conferências e sábias intervenções, tem participado, com assiduidade, fóruns acadêmicos e populares em todo o Brasil, de seminários, congressos e encontros sobre cinema e cangaço, sobre o Nordeste e seu universo. Entre os livros por ele escritos destacam- se “Viagem a Triunfo da Baixa Verde” – 2a edição (1995); e “Contribuição a uma bibliografia
do cangaço” – 1845/1996
(1996).

"Homem de invulgar espírito empreendedor, desde cedo demonstrou especial atenção e zelo às coisas da história e cultura do Nordeste"

sábado, 25 de junho de 2011

O ESQUECIDO FILME DE GLAUBER ROCHA SOBRE LAMPIÃO


Por Rostand Medeiros



Na década de 1950 do século passado, quando a televisão ainda não possuía a atual massificação, a verdadeira “janela para o mundo” que os brasileiros vislumbravam naquela época estavam nas salas dos cinemas. Além dos açucarados musicais de Hollywood, a plateia nacional assistia as produções das empresas cinematográficas brasileiras Vera Cruz (São Paulo) e Atlântida (Rio de Janeiro).

Apesar de algumas tentativas de se trabalhar com temas brasileiros mais sérios, principalmente a Companhia Atlântida parte para as comédias de costume, de forte apelo popular, conhecidas como Chanchadas, que utilizava como atores figuras conhecidas dos programas de rádio.

Nesta mesma época aportava nas salas de cinemas das grandes cidades brasileiras, filmes da corrente artística do Neorrealismo desenvolvido na Itália. Totalmente diferentes dos musicais americanos e das Chanchadas da Atlântida, os filmes do Neorrealismo italiano buscavam representar de forma objetiva a realidade social e econômica daquele país europeu no período do pós-guerra. Havia nestas películas um forte comprometimento político, onde muitas vezes os temas representavam pessoas menos favorecidas, vivendo em ambientes onde predominava uma grande injustiça social, sem perspectivas futuras e muitas frustrações na busca por dias melhores.

Para muitos dos novos diretores de cinema no Brasil, esta forma desenvolvida pelos cineastas italianos mostrou novas perspectivas de desenvolver sua arte, realizando um cinema que mostrasse a realidade do verdadeiro Brasil, com mais substância e desenvolvido a baixo custo.

Tem início uma nova etapa na história do cinema brasileiro, que ficará conhecido como Cinema Novo. Não havia mais espaço para películas suntuosas e nenhum espaço para os devaneios das Chanchadas. Filmes como Rio 40 graus, e Rio, Zona Norte, ambos de Nelson Pereira dos Santos, mostrando a dura realidade das favelas cariocas, estouram no cenário nacional.


O Cineasta de Vitória da Conquista

Em meio a estas mudanças um jovem baiano de Vitória da Conquista, chamado Glauber de Andrade Rocha, vem fazer parte deste novo movimento do cinema tupiniquim. Conhecido pela frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, não se discute a importância deste cineasta dentro do Cinema Novo, principalmente no tocante a sua genialidade.

Na filmografia de Glauber Rocha, duas de suas principais obras tinham contextos ligados a temática do cangaço e foram consagrados pela crítica internacional. Estou falando das películas Deus e o diabo na terra do sol (1964) e Dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969).




Mas como pessoa que assistiu a estes clássicos e outras obras de Glauber Rocha, estranhava o fato deste cineasta não ter trabalhado através de sua arte a figura maior deste movimento de banditismo, Virgulino Ferreira da Silva. Nunca compreendi o fato deste diretor não haver retratado aspectos da vida de Lampião, coisa que poderia ter realizado através de um documentário.

Recentemente, quando realizava uma pesquisa sobre os cinemas potiguares da década de 1970 nos velhos jornais potiguares na hemeroteca do nosso Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, me deparei com uma interessante notícia afirmando que Glauber Rocha teria dado início a um projeto para filmar a vida de Lampião.

A Conquista do Sertão Por Lampião

Na página 4, da edição de sexta feira, dia 24 de novembro de 1972, no extinto jornal “A República” encontro a manchete que apresento na fotografia abaixo. Este material, uma reprodução da revista portuguesa “Vida Mundial”, iniciava afirmando que Lampião “já havia sido tema de vários filmes nacionais”, iria novamente invadir as telas com seus “cabras, seus tiros e suas artimanhas” e a direção seria de Glauber Rocha.

Aos jornalistas Glauber comentou que desejava dar ao “seu” Lampião uma visão “mais original”. Afirmou aos jornalistas portugueses que em “um ou dois anos” a película estaria pronta e já tinha até mesmo um título; A Conquista do Sertão Por Lampião.


Para Glauber havia uma dificuldade em conhecer, em decifrar, a figura de Lampião. Comentou que ainda não tinha feito filme, pois “não conheço muito bem o caráter de Lampião; li muitos livros sobre ele, mas é um personagem controvertido, e ainda não tenho nenhuma ideia sobre ele, e também não quero criar uma visão romântica”.

Glauber sentia a mesma dificuldade que muitas pessoas têm ao tentar compreender a figura de Virgulino Ferreira da Silva, quando lêem livros sobre a sua vida.


Revista portuguesa Vida Mundial

Outra dificuldade para a realização da obra naquele momento era saber quem seria o ator que iria representar Lampião. Disse que tinha dificuldades em eleger este ator, pois não conseguia concluir pelas fotos existentes nos livros, se Virgulino “era baixo ou alto”.

Mas o diretor baiano tinha a ideia clara da linguagem cinematográfica a ser utilizada nas filmagens sobre a vida de Lampião. Para Glauber “Quanto ao problema da linguagem, penso sempre ao nível do plano e nunca ao nível do argumento. Não parto do roteiro para fazer os meus filmes, mas, sim, dos personagens. Se não consigo resolver uma personagem em função de um plano, corto o personagem e não repito o plano. Isto não é uma posição estética, mas cinematográfica, porque, para mim, o cinema é o próprio estilo”.

Com Faulkner na Mão, os Atores a Vontade e Muito Amor pelo Nordeste

Para a reportagem de “Vida Mundial”, reproduzida pelo jornal potiguar, o diretor de cinema brasileiro revelou seu forte entusiasmo pelo escritor americano William Faulkner (1897 – 1962). Afirmou que na hora das filmagens estava sempre a mão com um exemplar de O Som e a Fúria, Absalão! Absalão!, Os Invencidos, Luz em Agosto e outros. O fato de Glauber ter estes clássicos do escritor americano era uma fonte de inspiração, pois para ele havia o desejo de filmar como se “estivesse escrevendo uma novela, um monólogo direto, no estilo de Faulkner”. Glauber declarou que este era o escritor que mais admirava.

Para as filmagens de A Conquista do Sertão Por Lampião, Glauber afirmou que teria uma atitude liberal para com os atores, deixando a improvisação seguir a vontade. Tinha até uma palavra de ordem para aqueles que iria dirigir; “inventa teu próprio personagem”, contanto que desse tudo certo, senão ele como diretor faria algum tipo de intervenção. Mas afirmou que quando tudo corria bem no desenvolvimento do filme, “deixo os atores improvisarem com liberdade”.

Glauber comentou na reportagem seu orgulho pelas raízes nordestinas e do entusiasmo de ser “natural desta região e estou muito ligado a ela”.

Mostrando como as filmagens e as repercussões de Deus e o diabo na terra do sol e Dragão da maldade contra o santo guerreiro tiveram em sua importante carreira, finalizou a entrevista comentando que desejava fazer “unicamente filmes de cangaceiros”. Mas completou dizendo “embora não queira, porque pode parecer uma repetição”.

Neste último trimestre de 1972 o cineasta baiano estava oficialmente exilado em Cuba, onde permaneceu até dezembro daquele ano. Segundo a biografia de Glauber, existente no site da Fundação Tempo Glauber Clique Aqui, durante o ano de 1972, ele conclui junto com Marcos Medeiros o filme História do Brasil.

Nesta época manteve encontros com exilados e lideranças da esquerda brasileira como Vladimir Palmeira, José Dirceu, Fernando Gabeira, Miguel Arraes e outros. Neste período ele viajou com destino a Roma e Paris para comprar cerca de dois mil livros para a realização de pesquisas. Creio que foi nesta ocasião em que circulou pela Europa, que ele concedeu a entrevista para a revista portuguesa “Vida Mundial” de 28 de outubro de 1972, reproduzida nas páginas do jornal natalense.

O Que Foi Feito de A Conquista do Sertão Por Lampião

Quem pesquisar a filmografia de Glauber Rocha não vai encontrar nada referente a película "A Conquista do Sertão Por Lampião", pois Glauber não a realizou.

Para o Professor Mauricio Cardoso, do Departamento de História da USP-Universidade de São Paulo, autor do artigo Glauber Rocha e a tentação do exílio (1972-1976), publicado no livro L’exil brésilien en France-Histoire et imaginaire – O exílio dos brasileiros na França-História e imaginário, SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos; ROLLAND, Denis (Organizadores), Paris, Editora L´Harmattan, 2008, pp. 327-339, de todos os diretores do Cinema Novo, Glauber foi efetivamente o mais ativo e reconhecido no exterior.


Em 1969, no Festival de Cannes, o filme O Dragão da maldade contra o santo guerreiro recebeu o prêmio de melhor direção e foi a consagração do cineasta baiano na Europa.

Com o sucesso dos seus filmes Glauber circulava pelos grandes festivais de cinema, dava entrevistas em revistas especializadas, sendo elogiado por consagrados mestres europeus como o italiano Roberto Rossellini, o espanhol Luis Buñuel e o francês Jean-Luc Godard.

Entre 1969 e 1970, através dos muitos contatos internacionais conseguidos, o cineasta baiano roteirizou e dirigiu Der leone have sept cabeças e Cabezas cortadas. O Professor Cardoso aponta que estes filmes sofreram fortes críticas da mídia especializada e dos produtores europeus.

Aparentemente houve uma decepção pelos rumos da obra do cineasta, ocasionando um desinteresse pelo seu trabalho. Glauber, de maior diretor de cinema do Terceiro Mundo, deixou quase que repentinamente de ser assunto de debate cinematográfico.

Cardoso afirma que após estes episódios Glauber não conseguia novos financiamentos para os seus projetos, apesar do seu esforço ininterrupto para emplacar inúmeros trabalhos. As dificuldades em realizar seus projetos, o crescente desinteresse da crítica europeia pelos seus filmes realizados no exterior provocou uma espécie de asfixia econômica e social do cineasta.

O projeto A Conquista do Sertão Por Lampião seria uma retomada dos filmes com cenários no Nordeste do Brasil, agora tendo como personagem principal a figura do famoso Lampião. Já a reportagem para a revista portuguesa “Vida Mundial”, poderia ser uma mensagem para os produtores europeus, informando que o diretor Glauber Rocha voltava suas energias para novamente filmar na mesma área que o consagrou, mas agora tendo como personagem principal o mais representativo chefe do movimento cangaceiro.

Mas não deu certo.

O Que se Perdeu

No arquivo da Fundação Tempo Glauber, entidade criada pela família Rocha para manter seu acervo de 22 filmes e quase 80 mil documentos, com sede na Rua Sorocaba, nº 190, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, existem documentos que incontestavelmente apontam que Glauber Rocha tinha o desejo de realizar um trabalho envolvendo a vida de Virgulino Ferreira da Silva. Em meio a 223 roteiros de filmes e projetos de livros, a maioria dos quais inéditos, se encontram anotações com a distribuição de atores para o projeto de um filme intitulado “LAMPIÃO”. Afora isso existe dossiers de projetos futuros, onde surgem novamente títulos como “LAMPIÃO”, “O CANGACEIRO LAMPIÃO” e “O PRÍNCIPE DO INFERNO”.

Talvez uma pesquisa mais apurada no acervo de Glauber Rocha possa apontar o que se perdeu pelo fato de não ter ocorrido esta filmagem. Certamente devem estar guardados apontamentos deste precioso trabalho que ajudariam a ter uma ideia de como Glauber Rocha pensava Lampião e o cangaço.

Certamente seria algo marcante.

Reunir em uma película cinematográfica a controversa história da figura maior do cangaço, tendo como diretor o vulcão criativo que era Glauber Rocha, que iria desenvolver esta obra como se “estivesse escrevendo uma novela, um monólogo direto, no estilo de Faulkner” e dando a grandes atores da dramaturgia brasileira da época a total liberdade de criar seus personagens como eles quisessem.
Em agosto de 1981 é internado em Portugal com complicações pulmonares. Em estado de extrema gravidade é trazido de volta ao Brasil na noite do dia 20, sem acompanhamento médico. Chega ao Rio de Janeiro no dia 21 e recebe soro ainda na enfermaria do Aeroporto do Galeão. Depois é levado para a Clínica Bambina, em Botafogo, onde falece às 4 horas da manhã do dia 22 de agosto.


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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Programa Fantástico de 23 de Maio de 1982

Angico, 44 anos depois.

Após o final da primeira exibição da minissérie Lampião e Maria Bonita os repórteres Paulo Markun e Johnson Gouvê, acompanhados de Dona Expedita, Vera Ferreira e Sila resolveram visitar a fazenda...

Participação de Manoel Felix e Adília. 



Parte 2 


Fonte : johnsonbg = YouTube
Lucas da Feira, História de Resistência.

Para o amigo Matheus, que nos comunicou a necessidade de maiores informações sobre este ilustre desconhecido da história Feirense nas escolas.

Reportagem sobre Lucas, produzida pela TV Olhos D`Agua, da Universidade Estadual de Feira de Santana.



Pescado no açude de Edson Borges: Farinha do Saco

terça-feira, 21 de junho de 2011

Resenha de Rostand Medeiros

“Lampião e o cangaço na Paraíba”. Um novo livro sobre as ações dos guerreiros encourados


“Lampião e o Cangaço na Paraíba”, de autoria do pesquisador João Bezerra da Nóbrega.
Apesar do título, o livro não trata apenas sobre as andanças de Virgulino Ferreira da Silva, o famigerado
Lampião, pelo chão do estado conhecido por ser primeiramente iluminado pelos raios do sol.

Ele possui inúmeras informações sobre diversos aspectos ligados a este movimento de banditismo rural.
Segundo o amigo Narciso o livro trás um interessante e inédito estudo sobre o cangaceiro Jurema, cujo nome real era Inácio de Loiola Medeiros da Nóbrega, com o qual o autor, coronel da reserva da Polícia militar da Paraíba, ainda possui um grau de parentesco.

Em suas páginas temos também a experiência de João Bezerra da Nóbrega, em 35 anos de serviço policial, os feitos das volantes Paraibanas, e uma visão pessoal sobre o poder constituído desse estado. Descrevendo ainda vários nomes de cangaceiros e volantes oriundos da Paraíba. Em estilo forte e profundo, este trabalho narra as ações criminosas de Virgulino e seu bando, além de outros asseclas que infestaram o sertão nordestino.

O livro é uma edição da Ideia Editora, de João Pessoa, possui 345 páginas e tem lançamento previsto para o dia 7 de julho de 2011, uma quinta feira, na Fundação Casa de José Américo, na Praia do Cabo Branco, João Pessoa, as seis e meia da noite.



Quem desejar adquirir antecipadamente o livro custará R$ 38,00 com o frete incluso. Contactar diretamente o amigo Narciso Dias através do e-mail – narciso_dias@hotmail.com – Ou pelos fones (83) 8832 7456 / (83) 9614 0042.

Convite

Cangaço e Negritude: Jesuíno Brilhante e os Limões

PROGRAMAÇÃO

 
 
Sexta-feira – Dia 08 DE JULHO DE 2011 – Currais Novos/RN
9 horas- Escola Estadual Capitão Mor Galvão
Abertura com composição da mesa de autoridades

Dupla conferência:
“A Violência do Cangaço de Jesuíno Brilhante
(1871-1879) e a Violência do Século XXI.”

Conferencistas: Epitácio Andrade (Médico Psiquiatra/RN) e Adriano Marcos Araújo de Souza
(Médico Psiquiatra - Coordenador Estadual de Saúde Mental/RN).
Provocadores: Kydelmir Dantas, Múcio Procópio (SBEC), Edivaldo Brilhante (Coremas/PB), Suzana Brilhante (Natal/RN), Ivanor Veloso, Mirna Chaves (Hospital Psiquiátrico Dr. João Machado – Natal/RN), Gilberto Jales (SEARA) e Klívia Saraiva (COEPIR).
Secretária: Graça Nunes (Fundação Cultural de Currais Novos).
Objetivo: Esboço de um plano de ação preventiva a violência no Rio Grande do Norte.


ENCONTRO GASTRONÔMICO DA NEGRITUDE
Atividades: Participação de Chefs - cangaceiros
História da Culinária Afro-brasileira – Geraldo Barboza
A invenção da Maxixada – Epitácio Andrade
Abelhas Cangaceiras não Produzem Mel – Aderban Medeiros
Interação da Culinária Negra e Indígena – Aucides Sales

17 horas – Prefeitura de Currais Novos
 
Lançamento de Livro: “A SAGA DOS LIMÕES – Negritude no Enfrentamento ao Cangaceiro Jesuíno Brilhante”, de Epitácio de Andrade
Anfitrião: Prefeito Geraldo Gomes
Apresentadores: Gil Holanda (Parahyba) e Lúcia Souza (Parahyba).
Convidados especiais: Isaura Rosado (Fundação José Augusto – Natal/RN),  


Manoel Severo (Cariri Cangaço) e Família Limão.
 
Intervenção Cultural: 

Sábado – DIA 09 DE JULHO DE 2011
 
Evento: CIRCUITO TURÍSTICO CANGACEIRO
Atividades: 8:00 h – Concentração na Prefeitura de Currais Novos
8:15 h – Visita ao Túmulo de Chico Pereira – Currais Novos
9:00 h – Visita a Casa de Cultura de Acari/RN.
11:00 h – Comendo Caviar com Jesuíno Brilhante em Caicó.
Chef: Sandro Brilhante.
Saudação a Miguel Câmara Rocha (Roteiros de Patu) por Willy Saldanha.
14:00 h - Encontro com o Povo de São José em Brejo do Cruz/PB, sob a liderança do Poeta João Dorico. “Um minuto de silêncio pela memória de Mário Saraiva”.


CATOLÉ “Praça de Guerra”

15:30 h – Visita ao Teatro Alicio Barreto, no Centro Cultural “Geraldo Vandré”, em Catolé do Rocha/PB.
Anfitrião: Prof. Josivan Alves Lima
16:00 h – Lançamento de Livro
“A SAGA DOS LIMÕES – Negritude no Enfrentamento ao Cangaceiro Jesuíno Brilhante”, de Epitácio de Andrade Filho.
Local: Instituto Cultural “Casa do Béradêro”
Apresentadores: Rômulo Gondim (Russas/CE) e Gil Hollanda (Parahyba).
Convidados especiais: Ernani Vieira de Vasconcelos Filho (Parahyba) e Chico Cesar (Parahyba).

“PATU CANGAÇO – JUNCO LIVRE”
 
Domingo - Dia 10 de Julho

8:00 h – Café da manhã na Casa de Pedra com Jesuíno Brilhante e a Família Limão, em Patu
9:00 h – Messias Targino/RN

Local: Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Messias Targino/RN.
Lançamento de livro: “A SAGA DOS LIMÕES – Negritude no Enfrentamento ao Cangaceiro Jesuíno Brilhante”
Apresentadores: Raimundo Canuto e Pola Pinto.
Convidados Especiais: Otoni Tomaz de Almeida e
Escritor Edimar Teixeira Diniz.
Lançamento da Pedra Fundamental do Memorial de Chica Brejeira (1884-2003) – “Matriarca da Negritude Potiguar”.
Local: Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Messias Targino/RN.
Curadora: Prefeita Shirley Targino.

14 horas – Patu/RN
Local: Campus Universitário de Patu/RN.

Apresentações orais 

Anfitriões: Profs. Aluísio Dutra e Profa. Fátima Dutra
 

 Facilitador: Júlio Cesar Ischiara (Quixadá-CE)
Expositores:
- Geraldo Barboza: “Estratégias de sobrevivência da Negritude no Sertão Nordestino durante o Cangaço de Jesuíno Brilhante”.
 

- Rostand Medeiros: “Mapeamento Exploratório Transdisciplinar do Ecossistema da Serra do Patu”.
- Lúcia Souza: “Lugares de Memória: Jesuíno Brilhante e os Testemunhos do Cangaço nos Sertões do Oeste do Rio Grande do Norte e Fronteira Paraibana” (Dissertação de Mestrado).

Lançamento de Livro:
“A SAGA DOS LIMÕES – Negritude no Enfrentamento ao Cangaceiro Jesuíno Brilhante”, de Epitácio de Andrade Filho.
Apresentadores:
Ricardo Veriano e Gil Holanda.
Convidados especiais: Prof. João Ismar de Moura, Lourival Izídio de Lima e Maria Celi Suassuna. 


domingo, 19 de junho de 2011

O dinheiro na éra "lampiônica"

No tempo da Monarquia portuguesa a moeda se chamava "Réis" e era dividida em corôas.

Um conto de Reis significava 1.000 Réis.



É muito difícil fazer a conversão, porque tudo depende da época, além do mais a moeda foi pendendo muita desvalorização, até a implantação da república em Portugal, que a moeda Reis foi substituida por Escudo, que era dividido em centavos. Em 1910, um Escudo valia 1 conto de Reis (1.000 Reis).

O Escudo já não existe porque foi substituído pelo EURO, mas a conversão, hoje, é:

1 Euro = 200 Escudos

Sendo assim, atualmente, seriam 200 contos de Reis que é o equivalente a 1 Euro.

NOTA: Verificar a época que se refere. Apartir de 1942- 1000 réis (1 conto de réis) = Cr$ 1 (cruzeiro).
1967- Cr$ 1000 = NCr$ 1 (cruzeiro novo)

1970- NCr$ 1000 = Cr$ 1,00 (cruzeiro).

1986- Cr$ 1000 = Cz$ 1,00 (cruzado).

1989- Cz$ 1.000 = NCz$ 1,00 (cruzado novo).

1990- NCz$ 1,00 = Cr$ 1,00 (cruzeiro)

1993- Cr$ 1000 = CR$ 1,00 (cruzeiro real)

1994- CR$ 2 750,00 = 1 URV

1994- 1 URV= R$ 1,00 (um real).

Fonte: Yahoo respostas

Segundo a revista Mundo Estranho a recompensa de 50 contos réis oferecida pelo governo da Bahia daria nos dias de hoje R$ 113.000 (Cento e treze mil reais).

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Entrevista com Aderbal Nogueira

Programa Questão de Ordem da TV Assembléia, CE. com apresentação de Renato Abreu. O pesquisador e documentarista cearense bate um papo sobre o Cangaço no seu Estado e divulgando o seu mais novo documentário "O Último Apito".

Resgate de fotografias "2"

O C.S.I Bahia tem um novo agente especial que está revirando os baús e pastas das antigas redações de jornais daquele Estado. Vocês já o conhecem é o Rubens Antonio. Que nos traz mais uma canja do material que está sendo escaneado e postado nas comunidades do Orkut Lampião, Grande Rei do Cangaço e Cangaço, Discussão Técnica.

 Uma bela cabrocha

Essa é SEBASTIANA, que viveu com o cangaceiro Moita Brava, após o mesmo, ter sido traído por Lili. Assim aparece no "A Tarde" de 7 de dezembro de 1938.

 O ex cangaceiro Bezouro

 Flagrante das entregas, Novembro de 1938.

Chegam de Jeremoabo os cangaceiros entregues... alguns já em trajes civis... outros ainda "cangaceirados"... nesta foto ordem aleatória encontra-se: Zé Sereno, Creança, Balão, Jurity, Novo Tempo, Pernambucano, Laranjeira, Candeeiro, Ponto Fino, Quina-quina, Marinheiro, Cacheado, Beija-Flor, Devoção, Borboleta, Chá Preto, Penedinho, Cuidado, Azulão.


 jornal "Estado da Bahia", de 08 de novembro de 1938

Quando Corisco se foi...

Sargento Senna e Zé Rufino , após o sepultamento, prestam homenagem a Corisco tirando suas coberturas...


Zé de Rufina ou Zé Rufino à direita... Pelo que percebi, nas fotos, nessa carreira do cangaço, quando ele já estava mais avançado perto de 1940, usava chapéu, não quepe. Quepe... parece que só usava em fotos mais "oficiais", ao lado de superior(es)... e o chapéu ficava para o trabalho de volante em campo.

Mas o que me impressionou e comoveu, de verdade, nesta foto, é o ponto do inimigo-bandido que pode ser também respeitado. Inclusive, conforme depoimento do próprio Zé Rufino, quando um soldado ofendeu a já derrubada Dadá, recebeu a devida bronca e foi afastado as proximidades da mesma.
É uma sepultura providenciada pelos próprios militares, logo após a morte do já então ex-cangaceiro, apenas um foragido. Observe-se o arranjo floral e a cruz...

Pena que os médicos de Salvador estragaram esse evento, impondo aos militares a inumação do cangaceiro e a sua decaptação.. além da retirada de um braço.

Zé Rufino, aspirante, 1938


Dadá ferida


Dadá, na chegada a Salvador.



Abraços 
Rubens Antonio 

quinta-feira, 16 de junho de 2011

De beradero pra beradero

O Secretário Estadual de Cultura da Paraíba Chico Cesar recebeu o pesquisador social Epitácio Andrade, que intencionava, naquele momento, convidá-lo para o lançamento de seu livro: “A Saga dos Limões – Negritude no Enfrentamento ao Cangaceiro Jesuíno Brilhante”, que ocorrerá em Catolé do Rocha, no alto sertão paraibano, no próximo dia 09 de julho.

A intenção do pesquisador Epitácio Andrade, de repente, foi contaminada por uma enxurrada de idéias e perspectivas de realizações culturais motivadas pela acolhida e cordialidade do musicista catoleense. De um simples convite para um lançamento de um livro, surgiu a possibilidade de se estabelecer um amplo debate sobre a desmitificação do fenômeno do cangaço.


Chico Cesar, Rômulo Gondim e Epitácio

Testemunhado pelo ex-secretário adjunto de educação do município de João Pessoa, Professor José Rômulo Gondim de Oliveira, o encontro do Secretário de Estado com o pesquisador da nordestinidade apontou para discussões sobre questões históricas como a resistência da negritude ao recrutamento forçado para a Guerra do Paraguai, a participação dos negros na Revolta dos Quebra-quilos e o enfrentamento ao cangaço no sertão setentrional.

A temática abordada no livro de Epitácio Andrade foi discutida com o assessor de cultura popular Erasmo Rafael, ex-secretário de cultura de Boqueirão e Alcantil, cidades paraibanas que ficaram conflagradas à Revolta dos Quebra-quilos (1874-75), única resistência popular brasileira à escorchante carga tributária.


Epitácio e Erasmo Rafael.

Ao final do encontro, o médico psiquiatra Epitácio Andrade, que é conterrâneo de Chico Cesar e foi seu contemporâneo na Universidade Federal da Paraíba, lembrou que o lançamento do livro estava previsto para o Teatro Alicio Barreto, que foi um apologista do Cangaceiro Jesuíno Brilhante, porém, posteriormente, passou a refletir: “O lançamento de seu livro sobre um resgate da negritude sertaneja poderia ser na casa do Beradero, pertencente a um cangaceiro do bem”.

De beradero pra beradero...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Aristéia nas ondas do Rádio

Aristéia aos 98 aninhos toda prosa, intima do microfone
Após três dias de estrelato e assedio no 21º Cine Ceará a ex cangaceira Aristéia volta pra casa. Mas Aracaju estava no caminho e acompanhada pelo nosso primo João de Sousa, seu filho e nora desceram do avião pra muntar na "Jabiraca encarnada do João".

Fui recepcionar a comitiva pois antes de tomarem o rumo de Delmiro Golveia, AL. tinhamos um plano de rota que já vinha se estendendo por mais de três meses - parece que agora ia... mas inda não foi desta vez... Alguém gritou - Valha-me que o capitão Herculano tá aqui nesse vôo!, o boeing foi parado por uma blitz em pleno ar, todo mundo teve que descer pra revista, alívio, não era o cangaceiro de Brogodó era só o sósia dele "João das Menina" e enfim toda  essa confusão atrasou a chegada e a nossa partida.


 Domingos Montagner e João de Sousa "peste pá paricerem"

Bom, mesmo assim me juntei a caravana e para que uma das duas ultimas cangaceiras viventes não cruzasse as avenidas da capital Sergipana despercebida, contactei nosso amigo e pesquisador Clenaldo Santos para agendarmos em cima da hora uma entrevista no seu programa Linha sertaneja transmitido pela Rádio Aperipê AM uma emissora estatal de alcance em todo Estado e além fronteiras.

Se a participação de nossa musa Neli já foi estouro de audiência que dirá uma ex cangaceira.

E não deu outra, portas abertas e tapete vermelho para Aristéia e João de Sousa alem da participação especial do nosso confrade Dr Archimedes Marques Delegado de polícia e manternedor do sitio O cangaço em foco. que foi intimado a comparecer aos estudios para conhecer pessoalmente a personagem e para nos conhecermos pessoalmente.


 Rudiado pela dupla de comunicadores, João que já foi aracajuano, cumprimenta os sergipanos e faz um breve relato de suas andanças e publicações. 
Não, o rapaz a esquerda não é o "Seu Madruga" é o radialista Tuca.

 Dr Archimedes Marques e sua esposa Sra Elane Marques.

Aristeia que por razões de cansaço  bateu o pé na porta de emissora - Eu quero é ir simbora, quase destruiu as esperanças dos locutores.

Mas foi convencida pelo filho Pedro e em poucos minutos lá estava ela, desfilando pelos corredores e atraindo a curiosidade dos funcionários.

O bate papo durou uma hora e meia. E pra quem não era muito de falar... Aristéia surpreendeu a própria família, riu dos elogios feitos pelo radialista Tuca, fez rir, e resumiu sua participação de 6 meses no subgrupo de Virginio.

 Dr Archimedes teve chancela para falar de suas pesquisas e impressões sobre o  movimento e pretensões de butá no papel.

  Aristéia concedeu entrevista para Malu, jornalista da agência sergipana de notícias.

 A foto oficial.


Para saber sobre Aristéia CLIQUE AQUI e conheça um blog que leva o seu nome.  

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Chamada Geral:

Todos a Mossoró!!!
 
Local: Auditório Amâncio Ramalho – Auditório da Reitoria

PROGRAMAÇÃO

Dia 13/06/11 – Segunda-feira.

19h15min
Local: Auditório Amâncio Ramalho - UFERSA
Solenidade de abertura

20:00h
Conferência de abertura
A arte comanda o cangaço
Conferencista: Emanoel Cândido do Amaral- Natal/RN
Coordenação: Emanuel Pereira Braz
21h15min
Atividade cultural

Dia 14/06/11 – Terça-feira

08:00h as 11:00h
Oficina de artesanato

19h15min
Mesa-redonda
A representação do cangaço no Cinema, Teatro e na Música
Debatedores
Raimundo Nonato Santos – Mossoró/RN
José Umberto Dias – Salvador/BA
Múcio Robério Procópio de Araújo – Natal/RN
Moderador
Marcilio Lima Falcão
 
Dia 15/06/11 – Quarta-feira

08:00h as 11:00
Oficina de artesanato

19h30min
Mesa Redonda –
Indumentárias e adereços dos cangaceiros
Debatedores
José Paulo Ferreira de Moura – Recife/PE
Wescley Rodrigues Dutra - Cajazeiras/PB
Antônio Kydelmir Dantas de Oliveira – Mossoró/RN
Moderadora
Aryana Lima Costa

Dia 16/06/2011 – Quinta-feira
08:00h as 11:00h
Oficina de artesanato

15:00h as 17h30min
Assembléia Geral da SBEC
Local: Auditório da FAFIC/UERN

19h30min
Mesa-redonda
A representação do cangaço na literatura.
Debatedores
Raimundo Leontino Leite Godim Filho - Mossoró/RN
Karlla Christine Araújo Souza – Mossoró/RN
Rubervânio Cruz Lima – Paulo Afonso/BA
Moderador
Lindercy Francisco Tomé de Souza Lins


Metodologia
A Estrutura do evento contará com:

01 conferência de abertura – versando sobre a questão do conhecimento histórico em relação ao cangaço e toda uma produção artística que constrói a representação do cangaceiro.
03 mesas-redondas – com três participantes cada;
03 oficinas - oferecidas pela Associação Mossoroense de Artesãos
Atividades culturais – os participantes do evento serão recepcionados com apresentação de artistas.
Exposição de obras e feira de artesanato: produtos relacionados a temática serão expostos durante todo o evento.
Público estimado: 300 pessoas.

Datas Importantes

25/05 a 09/06/2011: período de inscrições no evento e oficinas
Taxas de inscrição:
Evento: R$ 15,00
Oficinas: R$ 10,00
13 de junho das 07:00h às 11:00 e 14:00 às 19:00: credenciamento
13 a 16 de junho: Evento

Informações e inscrições:
Museu Municipal Lauro da Escóssia
Fone: (84) 3315-4778
Horário: 07h00 as 11h00 e 14h00 as 17:00

A vida nem sempre bela de Maria Bonita

No ano de seu centenário, pesquisador lança segunda edição de biografia da pioneira do cangaço

Por Ronaldo Pelli

Maria Gomes de Oliveira foi uma mulher polêmica. De temperamento forte, foi pioneira no seu métier. Isso lhe trouxe fama e uma série de histórias controversas, além de um apelido que assustava as pessoas: Maria Bonita.

Neste ano, a mulher de Lampião teria completado cem anos, se viva, no dia da mulher, 8 de março. Aproveitando a data, João de Sousa Lima, pesquisador do cangaço, já organizou um evento sobre a primeira mulher a ser cangaceira, e agora lança a segunda edição de seu “A trajetória guerreira de Maria Bonita, a rainha do cangaço”.


João, que tem outros livros sobre o assunto, diz que o livro “narra a vida de Maria Bonita, desde seu nascimento até a morte na Grota do Angico”. Segundo o escritor, a obra passa “por histórias acontecidas na infância, no casamento atribulado com o sapateiro José Miguel, ‘o Zé de Nenê’, os bailes na juventude e a apresentação pelo um tio ao Rei do cangaço”.

O pesquisador afirma que Maria Bonita entrou no cangaço com 18 anos, “no finalzinho de 29” e morreu menos de nove anos depois, em 28 de julho de 1938, junto com Lampião e mais nove cangaceiros na Grota do Angico, em Poço Redondo, Sergipe.

Durante esse período, ela, junto com o grupo de cangaceiros, é associada a situações escabrosas, como assassinatos e torturas cheias de crueldade. Por outro lado, há muita gente que a considera um ícone. João tenta fugir da polêmica ao explicar que o mais importante é recontar a história, independentemente dos julgamentos: “Maria Bonita e por consequência a história do cangaço tem que ser passada pelo contexto histórico acontecido no Nordeste brasileiro.”

Leia abaixo uma entrevista com o autor:

Revista de História: Como Maria Bonita conheceu Lampião?
João de Sousa Lima: Ela conheceu Lampião em 1929. Foi apresentada pelo tio Odilon Café e estava separada do antigo marido havia 15 dias. Com o cangaceiro, teve quatro filhos: dois abortos, a Expedita e o Ananias, o qual morreu no ano passado tentando provar esta paternidade - o resultado do DNA corre em segredo de justiça.

Capa na nova edição.
RHBN: Heroína ou bandida? É possível responder a essa questão?
JSL: Maria Bonita se tornou um nome mais conhecido por ser a mulher do comandante supremo do cangaço. Maria Bonita, e por consequência a história do cangaço, tem que ser passada pelo contexto histórico acontecido no Nordeste brasileiro. A questão de bandido ou herói tem dividido opiniões, porém o mais importante é o registro dos fatos acontecidos, não podemos julgar a história de um povo, de uma raça, de uma comunidade. Toda a história desde a criação é repleta de momentos sangrentos, de guerras e de lutas. Precisamos levar para as gerações vindouras esses fatos, sem nada alterar ou modificar como fazem os historiadores irresponsáveis. A polícia, que era quem devia proteger a população, o sertanejo, foi muito pior que os homens e mulheres que viviam à margem da lei. A polícia matou mais, estuprou mais, roubou mais. Muitos desses crimes foram creditados aos cangaceiros. É importante que escritores e estudiosos do tema saibam manter a imparcialidade na hora de retratar os casos e deixem que a história e o tempo decidam essas questões polêmicas e que não cabem no olhar individual de algum analista.

RHBN: Por que a rainha do cangaço se transformou em uma espécie de ícone do movimento feminista brasileiro?
JSL: Ela não se tornou símbolo do feminismo brasileiro, ela se tornou sinônimo de mulher corajosa, decidida, que rompeu parâmetros de uma época para seguir um grupo comandado por um homem que vivia à margem da lei. Pode ter se tornado exemplo para algumas outras mulheres, porém não foi intencional, ela foi para o cangaço apenas por ter se apaixonado por Lampião.

RHBN: Você poderia descrever, em poucas palavras, a personalidade de Maria Bonita?
JSL: Maria Bonita era uma mulher corajosa, decidida, acima de tudo apaixonada pelo homem que ela decidiu seguir. Foi menina, criança, amiga, companheira e mãe. Tomou banho de chuva, se molhou em biqueiras e barreiros, fez bonecas de pano e de milho, correu, caiu levantou, amou, sofreu, sorriu, chorou, colheu flores, sentiu o calor causticante do sertão, divisou o verde em certos momentos, foi amada, ferida, feliz e sofrida, foi mulher sertaneja, de brio, forte, serena, severa, amamentou, partiu, voltou, tombou crivada de balas, uma mulher comum, porém com uma história diferenciada de todas as outras de sua época e de seu convívio.


Açude: Revista de História da Biblioteca Nacional

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O ATAQUE DE LAMPIÃO A BELMONTE

Por Rostand Medeiros

Como já foi bastante comentado, devido a sérias perseguições contra a família de Virgulino Ferreira da Silva, seguido do assassinato do seu pai pela ação desastrosa de um grupo de policiais alagoanos no lugar Matinha de Água Branca, em 9 de junho de 1920, fez com que ele e seus irmãos Antônio e Livino, se transformem definitivamente em cangaceiros.


Uma das primeiras imagens de Lampião e seu grupo, 
ele está sentado sendo o 2º da esq. para a dir.

Os irmãos Ferreiras se juntam ao bando conhecido como Porcinos e depois, em agosto de 1920, passaram a servir sob as ordens do chefe cangaceiro Sebastião Pereira, o conhecido Sinhô Pereira. Em meio às ações junto com Sinhô, Virgulino recebe a alcunha de Lampião.

A ligação de amizade entre Sinhô e Lampião vai ocasionar em outubro de 1922, a morte de um importante comerciante chamado Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz, da cidade de Belmonte (atual São José do Belmonte), no sertão pernambucano. Este caso, um dos mais emblemáticos do período em que parte do Nordeste foi flagelado pela figura do temido cangaceiro Lampião, teve uma grande repercussão.


 A cidade de Belmonte, atual São José do Belmonte, no mapa de Pernambuco

Muito já foi comentado sobre este caso, mas no Arquivo Público do Estado de Pernambuco, nas suas amareladas páginas dos antigos jornais, foi possível encontrar novas informações.

Uma interessante carta

No domingo, 11 de março de 1923, foi publicada no jornal recifense “A Província”, uma grande carta vinda da cidade de Belmonte, cujo autor se intitulou “Um Assignante”. Neste volumoso documento ele narra pormenorizadamente o conflito ocorrido na sua cidade em outubro do ano anterior, que culminou na morte do comerciante Gonzaga.



Sinhô Pereira sobreviveu para contar sua história


Em maio de 1922, segundo o autor da missiva publicada no periódico, se encontrava em Belmonte a volante da polícia de Pernambuco, comandada pelo tenente Cardim. Esta volante estava a caça do grupo de cangaceiros de Sinhô Pereira e tinham informações que estes se encontravam no lugar “Olho D’água”, uma serra próximo a fronteira do Ceará e da Paraíba.

Para alcançar seu objetivo o tenente Cardim solicitou apoio de uma volante da polícia cearense, que teria em torno de sessenta membros, cujo autor da carta não declina o nome do comandante, mas afirma que este era “um antigo cangaceiro”.

Consta que Cardim desejava realizar um cerco contando com o apoio dos cearenses. Mas o comandante desta volante não participou da ação policial e, pior, saiu a praticar toda sorte de atrocidades contra a população, principalmente terríveis surras. Este fato assustou toda a comunidade e alertou o bando de Sinhô Pereira que desapareceu na caatinga. A carta afirmava que Cardim se encontrou com seu colega cearense, dispensou seu apoio, mas antes passou uma ríspida descompostura no seu comandante pela ação dos seus soldados.

Evidentemente insatisfeito com a reprimenda, com a frustrada ação policial no estado vizinho ao Ceará, onde a sua marca principal era a tortura em larga escala na busca de informações, o tenente cearense buscava alguma compensação. Consta que o militar recebeu uma informação sobre um possível coiteiro e parente de Sinhô Pereira e, para não “perder a viagem” no caminho de volta para casa, fez uma “visitinha” a esta pessoa e sua família. A propriedade era conhecida como Cristóvão, pertencia a Crispim Pereira de Araújo, conhecido como Ioiô Maroto, um homem pacato e que vivia longe de complicações, apesar de ser membro da família de Sinhô Pereira.[1]



 
 Documentação mostrando Crispim Pereira, proprietário das terras denominadas "Cristóvão"

Segundo a tradição oral da região comenta, e que conseguimos apurar em nossa visita a Belmonte em 2008, o mínimo que posso dizer em relação à visita da volante cearense ao pobre do Ioiô Maroto foi que “o cacete comeu” e sobrou para sua já vetusta mulher e suas filhas. Consta que um policial negro, conhecido como “Uberaba”, teria praticado contra as mulheres “toda sorte de misérias e imoralidades, entre a risadaria de todos, inclusive do tenente que achava em tudo muito espirito”.[2]

Depois do ocorrido, segundo a versão publicada no jornal de 1923, consta que Ioiô Maroto soube que o oficial da polícia cearense esteve na cidade de Belmonte, onde se arranchou na casa de seu compadre e amigo, o comerciante Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz. Foi informado ao fazendeiro ultrajado que Gonzaga declinou ao perverso tenente que Ioiô Maroto era parente de Sinhô Pereira.


 Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz. 

O autor da carta publicada no jornal, por razões óbvias, não declinou o nome do militar, mas se sabe que ele era o tenente Peregrino de Albuquerque Montenegro.[3]

Versões

Em seu livro “O Canto do Acauã” (2011, pág. 157), a pesquisadora Marilourdes Ferraz dá outra versão para o caso. Ela afirma que o tenente Montenegro recebeu uma carta, onde havia uma denúncia contra Ioiô Maroto, informando ser ele um coiteiro de cangaceiros. Segundo a autora de “O Canto do Acauã”, afirma que a dita carta foi falsamente atribuída ao comerciante de Belmonte. Gonzaga, por saber de qual família vinha Maroto, correu a afirmar ao fazendeiro que não tinha culpa neste caso.


 A ilustre visita do Bispo D. AUGUSTO ÁLVARO DA SILVA a paróquia de Belmonte em 1912. Da esquerda para a direita sentados: Frei Lucas, D. Augusto Álvaro da Silva e Padre Sizenando de Sá Barreto. De pé: Coronel José de Carvalho e Sá Moraes, Capitão Tertuliano Donato de Moura, Manoel de Medeiros Filho, Dr. Isídio Moreira, Coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, Dr. Felisberto dos Santos Pereira, Capitão Miguel Lopes Gomes Ferraz, Capitão João Lopes Gomes Ferraz, Major Manoel da Mota e Silva, Tenente Augusto Nunes da Silva e o Major Joaquim Leonel Pires de Alencar. Crianças: Antônio Brandão de Alencar, Luiz Alencar de Carvalho (Luzinho), Otacílio Gomes Ferraz e Napoleão Gomes Ferraz. Fonte - Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

A autora de “As Táticas de Guerra dos Cangaceiros”, Maria Christina Russi da Matta Machado (1969, pág. 73), não afirma que Ioiô Maroto e Gonzaga eram amigos e nem compadres, mas que os dois tinham uma desavença antiga. A autora aponta, sem detalhar nada, que o problema entre os dois “foi coisa sem importância” e que Ioiô Maroto não imaginava que Gonzaga aguardasse a oportunidade de “liquidar as contas”, lhe denunciando a volante cearense que lhe desonrou em sua própria casa.

Já João Gomes de Lira, autor de “Memórias de um Soldado de Volante” (1990, págs. 77 e 78) tem outra versão. Segundo este antigo membro de volantes que perseguiu cangaceiros, Ioiô Maroto residia em um lugar chamado “Queimada Grande” e durante a surra aplicada pelos militares cearenses, soube da boca do próprio tenente Montenegro, que a pessoa que lhe havia denunciado foi o comerciante Gonzaga.

Mas é a própria Marilourdes Ferraz que aponta duas ocorrências, que mostram uma possível solução deste pequeno mistério.

A primeira razão teria ocorrido em maio de 1922, quando foi saqueada por Sinhô Pereira e seu bando, composto inclusive de Lampião e seus irmãos, uma carga de tecidos de Gonzaga, que era transportada para Rio Branco, atual Arcoverde. Parte da carga foi distribuída entre os bandidos e o resto eles atearam fogo.



Crispim Pereira de Araújo, o "Ioiô Maroto" com seus filhos ou netos.
Acervo de Ivanildo Silveira

A outra razão seria o fato que depois desta ocorrência, Gonzaga começou a atender as exigências dos cangaceiros que viviam pela região. O comerciante para se ver livre desta corja de malfeitores entregava mercadorias e dinheiro. Entretanto, em uma ocasião em que estava ausente consta que sua esposa, a Senhora Martina, tratou muito rispidamente o portador da mensagem dos bandoleiros. Diante dos episódios ocorridos, a autora afirma que Gonzaga contratou homens para a sua proteção, de sua família, de seus negócios e de suas propriedades.[4]

A notícia da desatenção da esposa de Gonzaga e do fato dele contratar homens para sua proteção chegou aos chefes dos cangaceiros causando insatisfação. Estes guardavam muito rancor de quem não lhes atendia seus pedidos e de quem tomava estas atitudes de defesa.

Sabendo destes fatos narrados em “O Canto do Acauã” e lendo o teor do material publicado no jornal recifense “A Província”, em 11 de março de 1923, ao cruzarmos as informações, podemos facilmente deduzir que Gonzaga, tendo homens armados para lhe proteger e com o comandante da volante cearense arranchado em sua casa, se sentiu seguro para relatar ao tenente Montenegro os problemas que acontecia consigo e a ligação de parentesco entre Ioiô Maroto e Sinhô Pereira.


Jornal do Commercio, 21 de outubro de 1922

Depois do fracasso da atuação de sua volante em Pernambuco, da reprimenda do tenente Cardim, não é difícil imaginar que o tenente Montenegro deduziu que fazer uma visita ao parente de Sinhô Pereira poderia lhe trazer alguma vantagem. [5]

Evidente que isso é apenas uma dedução e nada impede que a triste sina de muitas pessoas de “botarem lenha na fogueira”, possa ter desencadeado tudo que ocorreu depois.

Lampião chefe de bando

No meio de toda esta história, enquanto Ioiô Maroto tentava curar suas feridas e Gonzaga se preocupava com seu futuro, em 4 de junho de 1922, no sítio Feijão, zona rural do município pernambucano de Belmonte, próximo a fronteira do Ceará, Sinhô Pereira informou ao seu bando que em breve vai entregar o comando a Lampião.

Apesar de ter menos de 27 anos de idade, Sinhô alegou problemas de saúde e seguia um apelo do mítico Padre Cícero Romão Batista, da cidade de Juazeiro, Ceará, que havia lhe pedido para deixar esta vida e ir embora para o sul do país.[6]

Vinte e dois dias depois de receber a notícia que a passagem de comando está próximo, Lampião efetivamente já é chefe de grupo, onde começa a imprimir sua horrenda marca pelo Nordeste e vai se tornar o maior cangaceiro do Brasil.

Na edição de 29 de junho de 1922, do jornal “Diário de Alagoas”, afirma que “Cangaceiros, em numeroso bando assaltaram a cidade de Água Branca, penetrando na residência da Baronesa”.


 Casarão da Baronesa atacada e roubada por Lampião e seu bando

Esta era a octogenária Joana de Siqueira Torres, viúva do Barão do Império Joaquim Antônio de Siqueira Torres. Os cangaceiros chegaram de madrugada entraram pelos fundos do casarão e roubaram o que puderam. Apesar de ocorrer uma inútil resistência das pessoas do lugar, eles escaparam ilesos.

No dia 1 de julhos este periódico alagoano informa através de “viajantes vindos do sertão”, que os esforços da polícia para prender os assaltantes foram nulos.[7]

Lampião segue para Pernambuco, feliz pelo resultado do saque. Em uma tarde, junto com seus companheiros de rapinagem, dançam xaxado e cantam a mítica melodia “Mulher Rendeira”, embaixo de uma quixabeira no centro do povoado de Nazaré. O fato foi presenciado por Manuel de Souza Ferraz, o conhecido Manuel Flor e como policial se transformaria em um dos maiores perseguidores de Lampião.[8]


Manoel Flor 

Finalmente, no dia 22 de agosto de 1922, Sinhô Pereira parte da fazenda Caraúbas, perto do lugar Bom Nome, em Pernambuco, para Goiás.[9]

Mas antes de partir, Pereira pediu a Lampião que fosse a Belmonte resolver a desfeita sofrida por seu parente Ioiô Maroto. Lampião certamente possuía uma dívida de gratidão com Sinhô Pereira, por tudo que ele havia lhe ensinado em meios as andanças pelas caatingas e jamais iria lhe negar esta solicitação. Além do mais, ele sabia que Gonzaga tinha dinheiro e isto era o que realmente lhe interessava.

Gonzaga não acreditou no vaqueiro

Marilourdes Ferraz informa que Ioiô Maroto agiu de forma dissimulada e buscou a paz com seu amigo e compadre, que diante desta atitude decidiu dispensar seus guarda costas.[10]


A cidade de Belmonte atualmente

A carta do misterioso “Um Assignante”, publicada no domingo, 11 de março de 1923, dá um informação que se aproxima da versão de “O Canto do Acauã”. Consta que diante da surra em Ioiô Maroto, o comerciante Gonzaga começou a se desfazer de seus negócios em Belmonte, seguindo com a família para a cidade pernambucana de Bom Conselho. Então, segundo o jornal “A Província”, o próprio Ioiô Maroto teria escrito uma carta a Gonzaga, afirmando que não iria lhe fazer retaliações, que “era seu compadre e amigo”, que a amizade voltaria a ser o que era. “Um Assignante” afirma que Ioiô pediu então, certamente como prova de boa vontade, para Gonzaga dispensar os seis rapazes armados que ficavam em sua casa.


A casa de Gonzaga em foto de 2008.
Fonte: Alex Gomes

O jornal afirma que às dez da noite do dia 19 de agosto de 1922, um vaqueiro de Gonzaga conhecido como “Manoel Pilet”, foi a sua casa e afirmou ter visto muitos cangaceiros na propriedade “Cristóvão” de Ioiô Maroto, mas Gonzaga não acreditou. O vaqueiro chegou a se oferecer para fazer companhia e proteger o patrão em sua casa na cidade de Belmonte, mas Gonzaga recusou.

Sua sorte estava selada.[11]

O Fogo de Belmonte

No livro “Serrote Preto”, de Rodrigues de Carvalho (1961. Págs, 157 a 161), o autor comenta que certa noite, provavelmente um ou dois dias antes da manhã de 20 de outubro, Lampião e seu bando chegou a propriedade de Ioiô Maroto pronto para resolver a questão. Rodrigues de Carvalho afirma que o parente de Sinhô Pereira não queria mais a vingança e que seguiu com Lampião praticamente obrigado.[12]

Já a carta publicada no jornal “A Província” comenta que nesta época a cidade de Belmonte era guarnecida pelo sargento José Alencar de Carvalho Pires e mais 10 praças. Havia uma ordem que, no caso de serem ouvidos disparos, os comandados do sargento Alencar deveriam ir para o pequeno aquartelamento policial para serem tomadas as medidas de defesa[13].

Depois de uma noite de muita chuva, que facilitou o ataque dos cangaceiros, as quatro da manhã do dia 20 de outubro de 1922, uma sexta feira, foram ouvidos tiros espaçados e depois a fuzilaria aumentou. Nesta manhã o sargento Alencar se achava adoentado na casa do seu sogro, o coronel João Lopes, irmão de Gonzaga. Mesmo assim Alencar saiu a rua e disparou contra os cangaceiros “cerca de 40 tiros” e foi para o pequeno quartel para dar ordens ao seu pessoal. Mas no lugar, ao invés dos 10 militares só estavam os praças Manoel Rodrigues de Carvalho, José Francisco e José Oliveira.

A cidade entrou em polvorosa. Pessoas buscavam refúgio em baixo dos poucos móveis existentes, muitos correram para o mato, deixando tudo para trás e saindo apenas com os familiares e a roupa do corpo.

Jornal recifense “A Província”, 11 de março de 1923

Em pouco tempo chegaram para defender a urbe os soldados Severino Eleutério da Silva e Heleno Tavares de Freitas. Este último foi logo alvejado e morto.[14]

Após isso o sargento Alencar distribuiu a munição e saiu a rua acompanhado dos soldados Manoel Rodrigues de Carvalho e José Oliveira. Ele deixou um soldado na casa do coronel João Lopes e outro na casa do escrivão Manoel Medeiros. O militar posicionado na casa do escrivão tinha ordens de abrir fogo contra o prédio do açougue, onde estava alojado um grande número de cangaceiros, pois o sargento Alencar iria atacar o açougue pela retaguarda. A fuzilaria era cerrada e desigual, pois a cidade era defendida, segundo afirma o jornal, por apenas 6 militares, uns poucos civis, contra 65 cangaceiros.[15]

Os militares que estavam no quartel, mesmo cercados, mataram Antônio Pereira da Silva, conhecido vulgarmente como “Antônio da Cachoeira” e primo de Ioiô Maroto e Sinhô Pereira.[16]


Outras notícias sobre o ataque

Pessoas da localidade participavam da defesa. Entre estes estava Manuel Gomes de Sá, conhecido como Manuel Justino, seu filho João Gomes de Sá, que foi ferido. Um cangaceiro alcunhado “Baliza”, vendo este cidadão em apuros pulou o muro e sua casa disposto a matá-lo. A ajuda veio de Dona Luzia Gomes, esposa de João Gomes, que municiou o rifle e animou o esposo para a luta. João Gomes matou “Baliza” com um tiro no peito. Outro que pegou em armas foi o cidadão Luís Mariano, que junto com outros disparava contra a corja de bandidos de dentro do curral de Tertuliano Donato.[17]

Consta que o sargento Alencar expulsou os cangaceiros do açougue e de uma janela deste estabelecimento comercial, gritava palavras de apoio a Gonzaga e mandava bala contra os cangaceiros. O sargento imaginava que Gonzaga estava resistindo dentro de sua casa. Mas aí, segundo está textualmente descrito no jornal, o próprio Lampião gritou “-Eu levo daqui um comboio de fazenda; eu vou ficar rico!…”. Deixando entender que a situação do comerciante não era das melhores.

Alencar percebeu que a única maneira de expulsar os cangaceiros seria atacar pela retaguarda da casa de Gonzaga. Mesmo com poucos homens e a munição acabando, ele seguiu para o local e abriu fogo contra a “cabroeira”.


 Antiga Rua do Comércio. No primeiro plano a famosa loja "A Rosa do Monte" do Coronel Gonzaga Ferraz e mais adiante a sua famosa residência, adquirida tempos mais tarde
pelo Sr. João de Pádua.
Fonte - Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

De dentro da casa eram ouvidos gritos de euforia e de pavor. Dona Martina, a mulher de Gonzaga, suas filhas e outras mulheres que estavam no interior gritavam pedindo proteção aos céus. Foi-me narrado quando estive em Belmonte que um cangaceiro chamado José Tertuliano, conhecido como Zé Terto, e possuindo o vulgo de “Cajueiro”, protegeu as mulheres da família de Gonzaga da sanha de seus companheiros, empurrando-as para dentro de uma dispensa.

Ainda dentro da casa os cangaceiros gritavam de euforia, parecendo que haviam alcançado a vitória desejada. Mas para o sargento Alencar e parte do seu valoroso destacamento, o que importava era entrar na residência e expulsar aquela corja para longe de sua cidade. A tática deu certo. Era perto das oito da manhã e depois de um fogo intenso o bando de Lampião saiu de Belmonte cantando a “Mulher Rendeira”.[18]

Provavelmente ao entrar na casa do comerciante, o sargento Alencar entendeu o porquê dos cangaceiros e Ioiô Maroto irem embora cantando.

Saldo do ataque

Gonzaga Ferraz jazia morto na sala existente logo na entrada. Estava envolto em panos, onde certamente os atacantes iriam atear fogo no falecido e consequentemente na casa.[19]

Ele teria tentado se defender da turba que buscava invadir o local pela porta dos fundos. Havia chegado a atirar com o que tinha, mas diante da desvantagem empreendeu fuga indo para o grande sótão que até hoje existe na casa. Ao tentar se esconder, ou buscar fuga utilizando uma janela, ele despencou na sala e teria morrido da queda, ou então sido chacinado pelos cangaceiros.


Sótão da casa de Gonzaga.
Fonte-Solón Almeida Netto

O certo foi que Ioiô Maroto, mesmo ferido levemente, alcançou sua pretendida vingança. Já Lampião e seus homens roubaram o que puderam do comerciante. Para o “Rei do Cangaço” o produto do butim que mais lhe chamou atenção foi a aliança de Gonzaga.

O saldo para o povo de Belmonte, além da morte de Gonzaga e do soldado Heleno Tavares de Freitas, foi a morte de um civil que “A Província” chama apenas como “um velhinho” e que se achava na porta de sua casa quando foi alvejado. Já o jornal “Diário de Pernambuco”, transcrevendo um telegrama enviado pelo delegado Manuel Guedes ao então Chefe de Polícia, Desembargador Silva Rêgo, dá conta que o civil morto se chamava Joaquim Gomes de Lyra. [20]

Entre defensores de Belmonte feridos, além do citado João Gomes de Sá, o próprio sargento Alencar estava com um ferimento leve, em decorrência de ter tido sua arma destroçada por um balaço dos cangaceiros. O jornal “A Província” de 1923 dá conta que depois de encerrado o tiroteio, cinco pessoas da cidade vieram “participar da defesa”, ajudando a transportar o “corpo” do sargento Alencar. Como este não estava morto, provavelmente desfalecido devido ao seu ferimento de natureza leve, se levantou e passou a maior descompostura naqueles que só ajudavam “carregando os defuntos”.[21]

Corredor da casa. Por aqui passaram os cangaceiros.
Fonte: Solón Almeida Netto

Além de “Antônio da Cachoeira” e “Baliza”, os cangaceiros aparentemente tiveram um terceiro homem mortalmente alvejado pelos defensores da cidade. As fontes apontam que poderia ser um antigo membro do grupo de Sinhô Pereira, de alcunha “Pilão”, ou um cangaceiro conhecido como “Berdo”.[22]

Já as fontes apontam sempre de forma controversa, que o número de feridos entre os atacantes chegou a até cinco homens e os nomes variam. A unanimidade é o nome do paraibano Cícero Costa, que seria uma espécie de enfermeiro do grupo e em menos de dois anos seria morto no tiroteio da Serra das Panelas.

Consequências

A notícia do ataque a Belmonte teve forte repercussão na imprensa pernambucana. Uma semana depois do ocorrido, o periódico recifense “Jornal do Commercio” fazia uma severa crítica ao então governador pernambucano, Sérgio Teixeira Lins de Barros Loreto pela falta de segurança no sertão. O jornal traz estampada uma carta da viúva de Gonzaga, datada do dia da morte do seu marido, pormenorizando os fatos e responsabilizando Ioiô Maroto.


 Casa de Gonzaga.
Fonte - Solón Almeida Netto.

O Desembargador Silva Rêgo, Chefe de Polícia de Pernambuco, divulgou na imprensa que havia recebido informes de seus colegas da Paraíba, Alagoas e do Ceará. Estas autoridades transmitiam as tradicionais solidariedades, criticavam a ação dos cangaceiros e se colocavam a disposição. Mas de prático só o telegrama do Dr. Demócrito de Almeida, da Paraíba, afirmando ter informações vindas do bacharel Severino Procópio, que se encontrava na cidade de Conceição, dando conta que os cangaceiros estavam acoitados no velho esconderijo de Sinhô Pereira, na Serra do Olho D’água.


 Família do Coronel Luiz Gonzaga. Foto tirada no Porto da Madeira, Recife, onde passaram a residir logo depois do ocorrido em Belmonte. Sua esposa é a senhora vestida do preto, de luto pelo falecimento de Gonzaga. Fonte - Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

Dias depois, o “Diário de Pernambuco”, de 1 de novembro, reproduz na página 4 uma nota do jornal oficial do governo paraibano, “A União”, informando que o bando havia sido visto na Serra do Catolé, ainda em território pernambucano, mas próximo a fronteira paraibana. Estariam nesta serra 50 bandidos e o bacharel Severino Procópio, junto com o tenente Manuel Benício e uma força paraibana, estavam a postos para atacar os cangaceiros. Mas o bacharel solicitava reforços de Pernambuco, para assim alcançarem um número de 150 policiais, pois devido às condições geográficas da região, só um número grande de homens para desalojar os cangaceiros do alto das serras. Mas aparentemente nada foi feito.[23]

Na sequência a família de Gonzaga vendeu tudo que tinha na região, partiu primeiramente para Recife e depois para o sul do país.[24]

 Pesquisando sobre cangaço no sertão de Pernambuco

Não é novidade que a pesquisa em jornais antigos, associada à pesquisa em livros, artigos em revista, internet e, obviamente, a uma pesquisa de campo junto aos descendentes dos que presenciaram os fatos, se não traz nenhuma grande informação bombástica, mostra que é sempre possível conseguir novos detalhes e informações sobre o cangaço que, como me disse em certa ocasião um respeitado autor do tema do cangaço “-São fontes de informações pequenas, mas que sempre dá para saciar a todos”.

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[1] Sobre a posse da propriedade de Ioiô Maroto, ver “Relação dos Proprietarios dos Estabelecimentos Ruraes Recenseados no Estado de Pernambuco”. DIRECTORIA GERAL DE ESTATÍSTICAS, Pág. 34, 1925, onde o “Cristóvão” é sua única propriedade listada no município de Belmonte.

[2] Sobre esta visita, foram realizadas entrevistas com pessoas da comunidade, que trazem apenas lembranças transmitidas pelos seus antepassados. Em minha opinião as fontes escritas foram mais proveitosas.

[3] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. A carta do misterioso “Um Assignante”, publicada em “A Província” quase um ano após os fatos, corrobora a tradição oral da região em muitas informações.

[4] Na “Relação dos Proprietarios dos Estabelecimentos Ruraes Recenseados no Estado de Pernambuco”. DIRECTORIA GERAL DE ESTATÍSTICAS, Pág. 33, 1925, são listadas as propriedades “Varzeota” e “Contendas” como pertencentes a “Luiz Gonzaga Torres Ferraz”, ao invés de “Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz”, onde acreditamos que ocorreu um erro de datilografia na feitura deste documento.

[5] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco e “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 154, 2011.

[6] Ver “A Cabeça do Rei”, ARAÚJO, I. Págs. 144 e 145, 2007.

[7] Para muitos esta seria a primeira grande proeza de Lampião e seu bando, tendo o fato sido noticiado com destaque nas edições de 5 e 7 de julho de 1922, no respeitado periódico “Diário de Pernambuco”.

[8] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 154, 2011. A competente autora, mesmo ligada por laços de parentesco ao comerciante Gonzaga, no nosso entendimento busca apontar de forma aproximada do que destaca a tradição oral da região em relação aos acontecimentos.

[9] Ver “A Cabeça do Rei”, ARAÚJO, I. Pág. 146, 2007.

[10] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 157, 2011.

[11] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[12] Em seu livro Carvalho tem um posicionamento extremamente crítico contra Gonzaga e um tanto complacente em relação a Crispim Pereira. Não se pode negar que este autor viveu na região na época dos fatos, mas sua versão literária é diametralmente contrária em relação à figura de Gonzaga, tanto quando comparamos com os antigos jornais, como na tradição oral da região.

[13] O jornal “A Província” afirma que o sargento Alencar só tinha cinco anos que havia se incorporado a polícia pernambucana.

[14] No centro da cidade de São José do Belmonte existe Rua Sd. Heleno, em honra a este militar.

[15] Os jornais de época apontam apenas seis soldados defendendo a cidade e três civis, outros autores dizem que foram 8 os militares e quatro civis. Em relação ao número de cangaceiros que atacaram Belmonte, os autores que se debruçaram sobre o assunto apontam um mínimo de 30 e um máximo de 70. Rodrigues de Carvalho afirma que eram 70 homens comandados por Lampião. Ver “Serrote Preto”, Rodrigues C. Pág. 158, 1961. Já João Gomes de Lira afirma que eram “trinta e tantos ou quarenta cangaceiros”. Nesta obra o autor informa que foram denunciados pelo Promotor Público de Olinda 33 pessoas pelo ataque a Belmonte e o assassinato de Gonzaga. Mas o autor aponta que faltaram vários nomes de cangaceiros participantes, como os irmãos de Lampião e Lavandeira. Ver “Memórias de um Soldado de Volante”, LIRA, J. G. Pág. 78, 1990.

[16] Ver “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 55, 1987.

[17] Ver “Memórias de um Soldado de Volante”, LIRA, J. G. Pág. 79, 1990 e “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 54, 1987. Já Bismarck Martins de Oliveira, em “Cangaceiros do Nordeste”, pág. 208, 2002, informa que “Baliza” seria o primeiro cangaceiro a andar com Lampião a ter esta alcunha. Que era pernambucano, havia membro do bando de Sinhô Pereira e se chamava Gabriel Lima. Já Erico de Almeida, em “Lampeão, sua história”, pág. 27, 1926, diz que o nome de “Baliza” era José Dedé. Este foi o primeiro livro a dar destaque ao ataque a Belmonte.

[18] Entre as várias fontes pesquisadas existe uma grande disparidade sobre a duração do ataque, que variam de uma a até quase quatro horas de combate.

[19] Ver “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 55, 1987. Em 2008 quando visitei a região e esta casa, ela se mantinha bem conservada e original em muitos aspectos, graças aos esforços de suas atuais proprietárias, professoras da rede pública de ensino.

[20] Em “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 54, 1987, afirma este civil chamado Cicero Januário, seria um padeiro e também um espião de Lampião. Mas apenas este autor dá esta informação.

[21] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[22] Em relação a esta questão, o periódico recifense “Jornal do Commercio”, edição de 8 de novembro de 1922, na sua página 3, dá conta que desde o dia 3 de outubro de 1922 estava preso na cadeia de Belmonte um cangaceiro conhecido como “Bêrdo”. O mesmo, depois de atacar a propriedade denominada “Três Passagens”, onde teria assassinado o proprietário e sua esposa, sofreu forte de populares e estava ferido no peito. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[23] Ver na Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, o “Diário de Pernambuco”, edições de 21 e 28 de outubro e 1 de novembro de 1922, sempre nas páginas 4.

[24] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Págs. 159 e 161, 2011.

Rostand Medeiros é pesquisador na área de História, com artigos publicados nos jornais Tribuna do Norte, Novo Jornal e na revista cultural Preá. Autor do livro "João Rufino-Um Visionário de Fé" (2011), Coautor do livro Os Cavaleiros dos Céus - A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete (2009). Consultor do SEBRAE no projeto “Território Sertão do Apodi – Nas Pegadas de Lampião”. Membro do IGRN (Instituto de Genealogia do RN) e SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço). Técnico em Turismo, atua há mais de 15 anos na área. Fundador da SEPARN – Sociedade para Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental do Rio Grande do Norte, entidade que atuou em parceria com o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis na preservação do patrimônio espeleológico do RN. 

Contatos: rostandmedeiros@gmail.com / (84) 9904 3153 / 3231 0222.

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