terça-feira, 31 de agosto de 2010

"Hoje só se salva quem avôa"

As batalhas entre Clementino Quelé e Lampião em 1924 em Santa Cruz da Baixa Verde - PE.

Por: Rostand Medeiros (*)

Em um dia de agosto de 2006, uma sexta feira, na cidade pernambucana de Santa Cruz da Baixa Verde, em Pernambuco, na companhia do escritor e pesquisador Sérgio Dantas, tivemos a oportunidade de conhecer um homem, nascido em 1912, que pela sua lucidez e saúde, foi como encontrar um verdadeiro tesouro da história oral do cangaço.

Clementino José Furtado, o Clementino Quelé.
Seu nome era Antônio Ramos Moura, sua residência uma casa ampla no sitio Conceição e o assunto foi os dois ataques perpetrados por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e seus cangaceiros, contra a casa do seu antigo parceiro, Clementino José Furtado, o Clementino Quelé, que após estes embates se tornou um dos mais esforçados perseguidores do “Rei do cangaço”.
Antônio Ramos Moura, então com doze anos, foi testemunha destes episódios e detalhou vários aspectos de sua vida na época e rememorou inúmeros fatos.

 A Santa Cruz

O atual município de Santa Cruz da Baixa Verde está localizado na região do Sertão do Alto Pajeú, na fronteira com a Paraíba. Fica distante 455 quilômetros de Recife, possui um agradável clima serrano e a cidade se caracteriza por concentrar na atualidade a maior quantidade de engenhos de rapadura de Pernambuco. Já as origens do local são oriundas do antigo “sítio Brocotó” e a atual denominação tem origem na ação de um missionário nordestino que possui uma história extraordinária.

Nascido em 5 de agosto de 1806, na Vila de Sobral, Ceará, José Antônio Pereira Ibiapina teve uma origem confortável. Mas devido a participação do seu pai Francisco Miguel Pereira na insurgência conhecida como Confederação do Equador, este foi fuzilado em 1825, e o irmão Alexandre seguiu preso para a ilha de Fernando de Noronha, onde morreu pouco tempo depois. Ibiapina teve que assumir e manter financeiramente a família.

Algum tempo depois ingressou no Curso de Direito do Recife, concluindo em 1832. No ano seguinte exerce o cargo de professor substituto de Direito Natural na Faculdade de Olinda. Depois foi eleito Deputado Geral e nomeado, em dezembro, Juiz de Direito da Comarca de Campo Maior, no Ceará. Concluídos os trabalhos legislativos, em 1837, Ibiapina voltou para o Recife e resolve exercer a advocacia. No entanto, ele passa a trabalhar efetivamente na profissão no estado da Paraíba. Em 1840 volta ao Recife e continua sua luta junto aos tribunais.

A partir de 1850 Ibiapina resolve abandonar seus trabalhos forenses e inicia um período dedicado à meditação e exercícios de piedade. Após três anos de meditação e reflexão, Ibiapina decide-se pelo sacerdócio. Nesse sentido, em 12 de julho de 1853, aos 47 anos de idade, ele se torna o Padre Ibiapina. Logo após sua ordenação, o Bispo Dom João da Purificação o nomeia Vigário Geral e Provedor do Bispado, além de professor de Eloquência do Seminário de Olinda.

Mas contrariando seus superiores, opta pela vida missionária. Padre Ibiapina começou então seu trabalho missionário pelo interior do Nordeste. Em diversas vilas construiu casas de caridade, destinadas a moças pobres. Em cada lugar ele pregava, orientava, promovia reconciliações, construía açudes, igrejas, cemitérios, cacimbas e cruzeiros. Um destes cruzeiros foi erguido no sítio Brocotó e ficou conhecido como Santa Cruz, sendo esta a denominação na época do cangaço.

Com o passar do tempo, pelo fato da pequena urbe está no alto da Serra da Baixa Verde, o lugar passou a denominar-se Santa Cruz da Baixa Verde e pertencia administrativamente à bela cidade serrana de Triunfo.

Careta

O pai do nosso entrevistado chamava-se Miguel Moura, tinha uma pequena bodega, além de trabalhar como tropeiro, ou almocreve. Tinha uma tropa de animais e fazia a linha entre as cidades de Triunfo, Serra Talhada e Arcoverde, na época denominada Rio Branco, trazendo e levando cereais. Antônio Ramos comentou que seu pai viajava para vários locais, transportando rapaduras. Inclusive o Rio Grande do Norte foi um dos seus destinos, onde esteve em Mossoró para comprar sal e também em Caicó.


O autor e o memorioso Antônio Ramos Moura.
Para nosso entrevistado Clementino Quelé, era chefe de sua família, tinha como irmãos Pedro, Quintino, Antônio, José e Manuel (nezinho), todos considerados homens dispostos, valentes e que “gostavam da espingarda”. Antônio Ramos comenta que na sua infância tinha um enorme respeito por aquele homem. Pouco falou com ele, mas obteve muitas informações sobre Quelé através de seu sogro Joaquim de Fonte, sobrinho do chefe da família Furtado.

Clementino é descrito como um homem forte, de tez acentuadamente branca, que realmente ficava com a pele vermelha quando tinha raiva e esta teria sido a razão de Lampião apelidá-lo pejorativamente como “Tamanduá Vermelho”.

           
Janeiro de 2009, praça principal da atual Santa Cruz da Baixa Verde, com a estátua do Padre Ibiapina em destaque e a fachada da igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Já para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do Sol”, 2004, págs. 220 a 225), Quelé era natural da ribeira do Navio, onde seguiu jovem para Alagoas, afastando-se de Pernambuco por questões de disputa familiar. No retorno a sua família vem para Triunfo, no sítio Santa Luzia. O antigo membro de volante João Gomes de Lira (in “Lampião-Memórias de um soldado de volante”, 1990, págs. 123 e 124) comenta ser a Santa Luzia a morada do bravo pernambucano.

Já Rodrigues de Carvalho (in “Serrote Preto – Lampião e seus sequazes”, 1974, págsAntônio Ramos, na época das grandes “brigadas” de Quelé contra Lampião, ele morava no sítio Conceição.

Independente desta questão consta para nosso entrevistado que Quelé e seus irmãos eram analfabetos “-De tudo”. Do tipo que “-Não assinavam nem o A” e nem faziam “Garrancho” do nome. Dizia Quelé ao tio de Antônio Ramos que ele era “careta”, outra denominação para seu analfabetismo. Pois quando olhava para qualquer texto escrito, franzia a testa, mostrava o rosto carregado, com uma careta, por não saber ler.
Mas se Quelé e seus irmãos não sabiam ler, sabiam atirar e muito bem.

De Homem da Lei a Cangaceiro

Para Mello (op. cit.), o bravo Quelé alcançou o posto de subdelegado do seu lugar e impunha a ordem, mas igualmente angariava inimigos. O autor informa que em uma diligência Quelé matou dois ladrões de cavalo, respondeu processo e foi destituído do cargo. Em seu lugar assumiu seu irmão Pedro José Furtado, ou Pedro Quelé.

Em 1922, para livrar o valente chefe da família Furtado do processo, o líder político Aprígio Higino D’Assunção solicita deste e de seus irmãos votos na próxima campanha eleitoral em Triunfo. Diante da recusa de Quelé em apoiá-lo, Aprígio ordena que uma força policial com um oficial e quatorze praças saíssem à caça do valente.

Na tranquilidade do alpendre de sua casa, o sertanejo Antônio Ramos contou que um dia, certo morador do lugar chamado Tomé Guerra, antigo amigo de Quelé, arranjou uma encrenca com o mesmo e entendeu de matá-lo. Tomé chamou outro morador do lugar, também “chegado na espingarda”, de nome Cícero Fonseca. Estes, juntos com um grupo de policiais, colocaram uma tocaia contra Clementino ás cinco da manhã, “-Para pegá-lo com as mãos”.
 


O senhor de paletó claro nas duas fotos é o major Aprígio Higino D’Assunção, 
que por três ocasiões foi prefeito em Triunfo e dono de cartório. 
Para Frederico Pernambucano de Mello ele foi o pivô que levou Clementino Quelé 
a entrar no cangaço. 
Fotos reproduzidas a partir do livro “Triumpho, a corte do sertão”,
de Diana Rodrigues Lopes, págs. 234 e 373.

Quelé ao perceber o ardil, pulou desviando dos tiros e respondeu ao fogo, atingindo certeiramente a cabeça de Cícero Fonseca, tendo o mesmo caído mortalmente ferido em um barreiro. Os outros membros da emboscada “botaram” em Quelé, que conseguiu fugir para sua casa. Clementino teria escapado através de um local onde havia um curral que pertencia a um cidadão conhecido como Sebastião Pedreiro e por uma área onde existia certa quantidade de cactos do tipo palma, utilizados como comida para o gado.

Mello (op. cit.) aponta que um “certo Tomé de Souza Guerra”, do sítio Santana e outros homens engrossaram a força policial que perseguia Quelé. Mas Cícero Fonseca era um companheiro de Quelé, onde os dois bebiam na bodega de Sebastião Pedreiro, quando a polícia cercou o lugar e deu voz de prisão. Na versão do respeitado pesquisador, que conseguiu suas informações através do relato de Miguel Feitosa, o antigo cangaceiro Medalha, o pobre Cícero ao colocar o pé para fora da bodega foi crivado de balas.

Vendo que a força policial e os paisanos não vinham para prendê-lo, mas para exterminá-lo, Quelé solicita aos gritos o apoio de amigos das proximidades, estes atenderam ao chamado e a balaceira foi grande. Diante da resistência inesperada a força policial e os paisanos batem em retirada.

Independente de qual a versão correta, todos são unânimes em afirmar que a partir deste confronto os perseguidores passam a “apertar” Quelé, sendo esta a verdadeira razão para ele e seus irmãos entrarem no cangaço junto a Lampião.

A Briga de Quelé com o Cangaceiro Meia Noite

O comerciante e almocreve Miguel Moura nutria uma boa relação com Clementino, a quem chamava de “primo”. Este comentou com seu filho que a razão de sua saída do bando de Lampião foi uma briga com o valente cangaceiro “Meia Noite”.
Este era alagoano, do lugar Olho D’água, atual Olho D’água do Casado, próximo a cidade de Piranhas. Seu nome verdadeiro era Antônio Augusto Correia e pelo fato de possuir a pele negra, recebeu a famosa alcunha. Para o genitor de Antônio Ramos, o negro Meia Noite foi o mais valente de todos os homens que andaram com Lampião, do tipo de gente que “-Dava medo só de olhar”.

Segundo Mello (op. cit.), a razão da briga entre Quelé e Meia Noite foram dois irmãos cangaceiros chamados José e Terto Barbosa. Este último havia assassinado no Ceará o irmão de um chefe cangaceiro, tendo se refugiado com seu mano na serra do Catolé, a cerca de 30 quilômetros da cidade pernambucana de Belmonte, próximo às fronteiras do Ceará e da Paraíba.

 
A região montanhosa de Santa Cruz da Baixa Verde. 
À esquerda vemos a estrada que liga esta a cidade ao vizinho município de Manaíra, 
já na Paraíba. À direita a paisagem a partir da PE-365, que liga Triunfo a Serra Talhada.

Em uma ocasião que os cangaceiros de Lampião e Quelé se encontravam na fazenda Abóbora, pertencente ao tradicional coiteiro Marçal Diniz, chegou uma mensagem de José e Terto para seus tios Neco e Chico Barbosa, igualmente cangaceiros do bando de Lampião. O que os dois sobrinhos solicitavam aos tios era uma maneira de salvarem a pele.

Neco e Chico sabendo que o chefe cangaceiro cearense, conhecido como “Casa Velha”, cujo irmão foi morto por Terto, era amigo de Lampião, acharam por bem pedir a Clementino Quelé que recebesse os dois sobrinhos. O chefe dos Furtados se sobressaía cada vez mais no cangaço junto com seus irmãos e não pôs obstáculo à entrada dos dois rapazes no seu grupo.

Quando Meia Noite soube da história se colocou totalmente contrário, pois foi amigo do homem morto por Terto Barbosa e disse que se ele viesse para o bando iria atirar nele.
O resumo da ópera foi que após Quelé tomar conhecimento da alteração de Meia Noite se coloca ao lado de Terto. Corajosamente disfere uma saraivada de impropérios contra Lampião, Meia-Noite e os outros cangaceiros. Segundo Mello (op. cit), Clementino teria dito textualmente “-Que juntassem tudo que ele brigava do mesmo jeito”.

O chefe dos Furtados percebeu que após este fato, ficar ao lado de Lampião e seu bando seria o mesmo que praticar um suicídio, pois o mais famoso cangaceiro do Brasil era conhecido pelo seu rancor.
Já nosso informante Antônio Ramos transmitiu uma versão diferenciada. Na ocasião destes episódios o chefe dos Furtados estava junto com Lampião e seu bando em um esconderijo próximo a povoação de Patos, já na Paraíba, onde o problema ocorreu no momento em os tios de Terto trouxeram uma carta dos sobrinhos para Quelé e lhe contaram o problema. Quelé então teria solicitado que alguém lesse a dita mensagem em voz alta. Nisto o cangaceiro Meia Noite ouviu sobre o conteúdo da missiva e desconfiou que Quelé fosse colocar aqueles indivíduos como integrantes do bando.

Segundo o entrevistado, Meia Noite conhecia os “Barbosas”, contra quem já havia brigado, era inimigo dos mesmos, principalmente de Terto. O negro alagoano ficou cismado que Quelé, ao colocar aquela turma de valentes no bando, seria um meio para Terto, dos “Barbosas da Serra do Catolé”, dar fim a sua vida.

Quelé ao saber do fato negou. Disse a Meia Noite que “-Gostava de homem valente”, que os “Barbosas” eram pessoas que ele tinha “-Para onde botar”. Meia Noite comentou que sendo Terto seu inimigo, se por acaso ele trouxesse os “Barbosas” para perto do bando, “-Sabia que ia ser uma desgraça, que nóis briguemo e ficou para quando nóis se encontrar, a bala cortar”. Antônio Ramos narrou que Quelé ponderou, afirmando que “-Quando o homem é valente, que pede uma proteção, eu gosto de amparar”.

A discursão entre estes guerreiros foi gradativamente aumentando de tom, crescendo na ferocidade, até que os dois valentes partiram para a luta corporal. Lampião chamou seus homens rapidamente dizendo “-Acode, acode, se não estes homens se matam” e conseguiram apartar a briga.
Para o entrevistado Lampião disse a Quelé “-Que deixasse o negro Meia Noite com ele, pois parecia que ele tinha saído do inferno” e pediu a Clementino e seus irmãos para irem para o sítio Conceição.

Vista da serra do Catolé, em Belmonte, Pernambuco.
Antônio Ramos relata que depois da discursão, Quelé aparentemente não se satisfez com o posicionamento de Lampião e reclamou. No entendimento do chefe dos Furtados, Lampião “-Teria dado mais valor a um negro do que a ele”. Sentindo-se rebaixado no seu racismo tardio, Quelé abandonou a vida do cangaço e ficou marcado por Virgulino.

Outra informação ouvida por Antônio Ramos dá conta que no momento em que Clementino Quelé e seus parentes saíram da região dos Patos e do bando de Lampião, um dos seus parentes, filho de certa “Luzia Lalau” e um tal de Ricardo, pessoas de Santa Cruz, ficaram no bando de Lampião.

Os tiroteios de Lampião contra Quelé

Seja através de uma, ou de outra versão, o certo é que tempos depois desta desavença no seio do bando, o chefe Lampião, apoiado pelo fazendeiro Marcolino Diniz, filho do coronel Marçal, vem para Santa Cruz com o objetivo de matar Clementino e seus irmãos. Este encontro ocorreu no dia 5 de janeiro de 1924, um sábado.

Antônio Ramos informa que era um “-Meninote de doze anos”, que a sua casa antiga era próxima a sua atual morada e seu pai possuía uma bodega pequena, mas bem surtida.
Era ainda de madrugada, quase amanhecendo, quando o jovem Antônio Ramos acordou com o barulho de muitas vozes de homens no oitão da sua casa. Era um grupo numeroso de cangaceiros. O garoto notou que todos vinham alegres, animados, equipados, armados e com muita munição. Muitos deles estavam embalados por aguardente e segundo suas próprias palavras, os cangaceiros pareciam estar “-Com fogo saindo pelas orelhas”.

Eles pediram tudo que seu pai tivesse de comida no estabelecimento, além de mais cachaça. Este prontamente passou a servir o bando, especialmente Lampião. Os homens armados não fizeram nada com seu pai ou sua família nesta ocasião.

Antônio assistiu Lampião comendo uma rapadura com queijo e comentando alegremente com a rapaziada sobre a futura luta. Ele se apresentava animado, doido para brigar. Neste momento pronunciou uma frase que Antônio Ramos jamais esqueceu.
“-Da família de Quelé, hoje só se salva quem avoa”.
O Rei do cangaço ainda afirmou que “
- Hoje eu vou beber o sangue de todo mundo”.
Nesta ocasião, durante o nosso encontro, o nonagenário entrevistado alterou-se, ficando visivelmente emocionado. Ele recordou que se tremeu todo, no momento que escutou estas frases do famoso bandoleiro. Comentou veementemente que viu Lampião falar exatamente da forma anteriormente descrita e narrou este fato agarrando fortemente o braço do autor, tal a emoção.

 Segundo informações coletadas em Santa Cruz da Baixa Verde, esta casa reformada teria sido a fortaleza de Clementino Quelé. Entretanto este dado ficou inconclusiva devido a divergências em relações a outras informações que foram apuradas na região.

Ele descreveu Lampião como sendo moreno, alto, rosto comprido, cego de um olho, não usava óculos naquele dia e que mesmo assim enxergava bem. Pouco tempo depois o bando saiu da bodega.
A desproporção da luta que se avizinhava era enorme, pois Quelé tinha junto com ele apenas outros cinco companheiros para lhe ajudar. Para Antônio Ramos os cangaceiros seriam em torno de “-Uns cinquenta homens”. Já Carvalho (op. cit.) afirma que seriam quarenta e cinco.

O pesquisador Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho (in “Pernambuco no tempo do Cangaço-Volume I”, 2002, págs. 328 a 330) reproduz o “Boletim Geral nº 05”, emitido pela polícia pernambucana no dia 7 de janeiro de 1924, onde consta que o número de cangaceiros era de sessenta homens.

Mas para os familiares de Antônio Ramos, naquele momento o que importava era buscar de alguma maneira se proteger dentro de casa diante do que iria acontecer e em pouco tempo “-A bala comeu”. Ele e seus familiares ficaram escutando o tiroteio, mas não lembra a duração, só comentou que “-Demorou muito”.
Falou que “-Quando deu fé”, chegou a sua casa um rapaz da família de Quelé com cerca de 16 anos, dizendo que estava dentro de um partido de mandioca quando os cabras chegaram e comentou que “-A bala tava cortando tudo”. Narrou que o rapazinho tinha escutado os gritos dos cangaceiros prometerem: “-Derrubar a casa” e o pessoal da casa avisando aos gritos para os atacantes que 
“- Se derrubar e entrar um, nóis mata na faca”.
A testemunha da batalha de 5 de janeiro de 1924 afirmou que este rapaz avisou que iria a Triunfo buscar uma volante. Nesta cidade o delegado era o tenente Malta e havia uma volante comandada pelo sargento Higino José Belarmino.

O jovem disse que seguiria através de um caminho alternativo, evitando a vereda que levava normalmente para esta cidade, pois com certeza os cangaceiros deviam ter “-Botado uma emboscada aculá na frente”. O jovem deixou a casa de Ramos, seguindo em direção a serra dos Nogueiras, saindo no lugar chamado Gameleira e de lá para Triunfo.


Edição do jornal recifense “A Notícia”, de 14 de janeiro de 1924, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, informando erroneamente sobre a ação da polícia, durante o segundo ataque de Lampião contra Quelé.

Entretanto, para nosso entrevistado, a polícia ficou “insonando”. No seu linguajar típico, onde Antônio Ramos utilizava expressões difíceis de serem ouvidas atualmente no sertão nordestino, ele quis dizer que os homens da lei ficaram enrolando e só foram chegar a Santa Cruz por volta das 11 horas da manhã.
Esta volante levou várias horas para percorrer os seis quilômetros entre as duas localidades. Provavelmente para os policiais, a ocorrência em Santa Cruz era um problema entre bandidos e quanto mais deles se matassem entre si, melhor. Mas diante da resistência feroz realizada por Clementino e seus companheiros, a polícia se deslocou para evitar a pecha de conivência e covardia.

Apesar da evidente falta de vontade dos policiais de irem a lutar, ficamos imaginando o conflito dentro da própria volante, entre aqueles que queria ir e dos que não queriam, pois certamente nem todos eram covardes e honravam a farda que vestiam.

Enquanto isso a família de Quelé, literalmente “comia chumbo” e o tiroteio não dava mostras de diminuir. A casa sofria diante da quantidade de tiros, em mais de seis horas de batalha ininterruptas. Antônio Ramos e seus familiares, até por razões bastante óbvias, não viram nada da refrega, apenas escutaram assustados a troca de disparos.

Nosso entrevistado comentou que nesta época morava na sua casa um primo chamado Augusto e foi este quem primeiro ouviu um tiro de fuzil. Esta arma possuía um som característico e bem diferente dos rifles Winchester, de calibre 44, ainda bastante utilizados pelos cangaceiros e pelo pessoal de Quelé. O som lhe chamou a atenção e mostrava que a polícia estava chegando, vindo pelo caminho que seguia para a pequena Santa Cruz, que nessa época era um simples arruado “-Com no máximo quatro casas”.

Aparentemente a Força Policial começou a atirar com seus fuzis muito antes de chegar ao local do confronto, esperando que assim os cangaceiros debandassem. Mas segundo o nosso informante, foi nesse momento que o tiroteio ficou ainda mais forte, “-Com a fumaça cobrindo tudo” e as balas “-Zunindo por riba de casa”, o que deixou os membros da sua família extremamente assustados. Podemos deduzir através de suas informações que, de alguma maneira, a sua casa ficou entre o fogo cruzado.


O aposentado coronel Higino José Belarmino, 
em foto de Josenildo Tenório, de 1973. 
Reprodução feita a partir da página 50 do livro “Lampião, o cangaceiro e o outro”,
de Fernando Portela e Claudio Bojunga, edição 1982.

Segundo Ferraz (op. cit.), no “Boletim Geral nº 05” encontramos a informação que o tiroteio morreu o irmão Pedro Quelé e Alexandre Cruz, ficando ferido Deposiano Alves Feitosa. Antônio Ramos narra que seu pai considerava Pedro Quelé como um homem valente. Na região ficou conhecido o fato que quando acabou a sua munição, este pediu garantias para sair, mas ao colocar a cabeça para fora da janela, foi impiedosamente morto.

Depois de toda uma batalha tenaz onde não tivera êxito, Virgulino Ferreira da Silva não refreou sua vontade de acabar com o atrevido Clementino Quelé.

Ferraz (op. cit.) mostra que no “Boletim Geral nº 07”, da polícia pernambucana, emitido no dia 9 de janeiro de 1924, reproduz um bilhete do tenente Malta informando “Acha-se grupo de Lampião proximidade de Santa Cruz”. O militar ainda comentou na missiva que contava com “89 praças” para defender Triunfo e região.

Mesmo com esta força nas proximidades, seis dias depois, no dia 11 de janeiro, uma sexta-feira, Lampião e seus homens voltaram para aplicar uma segunda dose de chumbo em Quelé e seus companheiros.
Antônio Ramos recordou muito bem que em relação a este combate, percebeu que o sol já vinha saindo quando o tiroteio teve início e novamente a história se repetiu. De um lado os cangaceiros sedentos de sangue e do outro um pequeno grupo de homens se defendendo como podiam.

Segundo Lira (op. cit.), Lampião despejava todo tipo de impropérios e palavrões conhecidos contra o destemido Quelé e seu pessoal. Mas os sitiados respondiam, cantavam e assim irritavam o chefe dos cangaceiros.

Mesmo com uma força policial numerosa em Triunfo, novamente os agentes de segurança do Estado levaram outras seis longas horas para chegarem a Santa Cruz, repetindo-se o que ocorreu no domingo anterior. De toda maneira Clementino só conseguiu se safar pela chegada do destacamento policial baseado em Triunfo.
Para Antônio Ramos, consta que Quelé tinha um parente de nome José, apelidado “José Caixa de Fósforo”, que parece ter estado nos dois tiroteios.

Apesar do antigo cangaceiro de Lampião sair vivo nestes combates, a família Furtado foi praticamente exterminada. Segundo Mello (op. cit.), tanto neste, como em combates futuros, morreram três irmãos, dois genros e um sobrinho. Além destes seis parentes, segundo o pesquisador, mais cinco amigos do valente Quelé pagaram com a vida e inúmeros outras pessoas ligadas a Clementino ficaram feridos.

Casa antiga da região de Santa Cruz da Baixa Verde.
Em relação aos confrontos de janeiro de 1924, Antônio Ramos contou que uma das casas que foi palco dos dramas ainda existia e que na época era considerado um sítio afastado da então vila. Tentamos localizar o local. Chegamos a fotografar uma residência antiga, mas reformada. Entretanto houve divergências com outros informantes, que comentaram ter sido as casas da família de Quelé derrubadas há muito tempo.
Independente da residência correta onde aconteceram os tiroteios, fomos informados por pessoas da região, nascidas anos após os episódios, que seus parentes mais velhos narrarvam que quando estes seguiam para capinar nas proximidades das antigas vivendas, a coisa mais comum era encontrar capsulas deflagrada de rifles e fuzis.

O Vingador do Sertão

Depois dos tiroteios, Quelé ficou meio perdido pela região, sendo protegido por Higino Berlarmino. Para Antônio Ramos, foi o coronel José Pereira, o chefe político da vizinha cidade paraibana de Princesa, que deu o apoio decisivo para Quelé se tornar um implacável caçador de Lampião.

Após o grande assalto ocorrido na cidade de Sousa, em 27 de julho de 1924, Pereira exigiu que seu parente Marcolino Diniz não desse mais apoio a Lampião e o expulsasse da região dos Patos. Por indicação de alguém que Antônio Ramos não recorda, foi sugerido ao “dono” de Princesa o nome de Quelé, para que este servisse no comando de uma volante em perseguição a Lampião. A solicitação foi feita ao então governador paraibano João Suassuna e Clementino Furtado passa a ser conhecido como o Sargento Quelé.
Sua volante, a famosa “Coluna Pente Fino”, ficou marcada na história do cangaço pela selvageria como combatia os cangaceiros e infligia o terror aos coiteiros. Muitos parentes fizeram parte do grupo. Se não faltam relatos de valentia do seu pessoal, infelizmente não faltam informações que inúmeros inocentes sofreram nas mãos dos homens de Quelé, além de inúmeros atos de pura rapinagem.

De toda maneira o “investimento” do governo da Paraíba em Quelé não foi em vão. Três anos e meio depois dos combates em Santa Cruz, no dia 14 de junho de 1927, ele e seus homens eram a primeira força policial a adentrar em Mossoró, após a fracassada tentativa de Lampião para conquistar a maior cidade do interior potiguar. Nesta ocasião consta que no currículo de combates de Quelé contra o Rei do cangaço, estavam listados vinte e um tiroteios.

Para Antônio Ramos, mesmo com toda coragem e capacidade para caçar cangaceiros, foi o analfabetismo de Quelé que deixou que ele permanecesse nas fileiras da polícia da Paraíba apenas com a graduação de sargento.

Uma antiga cruz, ou cruzeiro em Santa Cruz da baixa Verde, 
marca o local onde tombou uma vítima de “morte matada”.

Quelé morreu já idoso na Paraíba, no lugar chamado Prata, próximo a cidade de Monteiro. Segundo Antônio Ramos, ele sempre vinha visitar o sítio Conceição e a pequena Santa Cruz.
A história de Clementino Quelé e sua vingança contra Lampião se tornariam quase uma lenda no imaginário das futuras gerações dos sertanejos do Nordeste. Aparentemente um destes que se encantou com as lutas de Quelé foi Luiz Gonzaga, o “Rei do baião”. Em parceria com José Marcolino, o sanfoneiro de Exu compôs a música “No Piancó”, onde em um trecho diz;
“Lá viveu o Clementino / Que brigou com Lampião.”
Não posso garantir que o Clementino descrito na música do grande artista pernambucano, seja o mesmo homem que perseguiu implacavelmente Lampião.
Mas houve outro?

A morte do pai de Antônio Ramos

Um dia, em 1926, segundo o entrevistado, o terrível chefe bandoleiro Sabino, acompanhados dos cangaceiros Juriti, Ricardo e outros, vieram de um lugar próximo chamado Lagoa do Almeida, da família dos Marianos e seguiram para a casa do senhor Manuel da Cruz. Este era um fazendeiro, tendo sido comentado aos cangaceiros ser um homem que possuía muito dinheiro Como este não foi encontrado, os cangaceiros continuaram seguindo em direção a pequena povoação de Santa Cruz.

No caminho passaram adiante da casa de Miguel Moura. Como um dos cangaceiros era afilhado de batismo da mãe do entrevistado, por força do parentesco, pediu a Sabino, Juriti e Ricardo, que fossem na casa do sítio Conceição, ver se “arranjavam alguma coisa” com sua madrinha, que ele ficaria de fora.

Sabino fotografado montado em 1927, na cidade cearense de Limoeiro do Norte, 
logo após o fracassado ataque a Mossoró.

A chegarem ao pequeno comércio, Sabino e os outros entram e passam a torturar Miguel Moura a ponta do punhal, para o mesmo dar conta do dinheiro que conseguia com o transporte nos burros. Na casa do pai do entrevistado se encontrava uma empregada da vizinha Isabel Correia, conhecida como Zabê e esta senhora foi a vivenda do entrevistado para moer milho. Os cangaceiros quiseram lhe arrebatar uma aliança, mas ela conseguiu tirar a joia do dedo e colocou-a na boca. Os cangaceiros exigiram o objeto de valor e a mesma recusou-se a entregar. Os bandidos passam a ação, tentando forçar a mulher a entregar a aliança e começa uma luta. A empregada lutou tão bravamente que teria quebrado o nariz do seu atacante. O próprio Sabino mandou soltá-la, tendo dito que “-Esta é uma desgraça que nem o diabo pode”. A mulher foi embora correndo com a aliança.

Na casa da vizinha Zabê, que possuía certa quantidade de ouro, eles chegaram e arrastaram o que puderam, mandando inclusive a mulher tirar os brincos ou “-Cortariam com o pedaço da orelha”. O marido da mesma, Manuel Correia, foi chegando a casa e os cangaceiros o renderam com pistolas, que colocaram no pescoço do mesmo.

Para o pai do entrevistado a sorte não foi tão boa. Disseram que ele era rico, mas Miguel Moura comentou que gastava muito na propriedade. Daí Sabino ordenou que em oito dias ele conseguisse um conto de réis, sob pena de morrer.

O pai do entrevistado sofria do coração e diante de toda a tensão provocada pelas ameaças, veio a ter um ataque cardíaco. Sem assistência médica, que era muito difícil na época, morreu nove dias depois da “visita” dos cangaceiros.

Depois destes fatos, o nosso entrevistado e a família foram para Triunfo, onde perderam a roça e tiveram muitos prejuízos. Seguiram depois ao Juazeiro, para uma entrevista com o Padre Cícero, que os aconselhou a não voltar logo para casa.

Este fato foi testemunhado pela irmã de Antônio Ramos, criança a época, que se encontrava brincando defronte a casa no momento da passagem dos cangaceiros, tendo ela visto e escutado tudo.
Se para alguns, Sabino é apontado como “revolucionário”, para Antônio Ramos, ele é tão somente um arrogante bandido, cruel ladrão e frio assassino.

Início da extensa reportagem divulgada no jornal recifense “A Província”, 
edição do dia 10 de julho de 1926, dando conta do ataque de Sabino a Triunfo.

No dia 7 de julho de 1926, Sabino e seu grupo foram a Triunfo para assaltar a cidade. O bando fez muita bagunça, atacando a loja de tecidos de Antônio de Campos, o maior comerciante da cidade. Os cangaceiros levaram até um machado para furar o cofre, mas não conseguiram, passando a tocar fogo n estabelecimento.
Segundo Ramos, na ocasião se encontravam na cidade dois soldados, de nome José Sabiá e José Piauí, que foram atacados pelo bando. O inusitado foi que Sabiá morreu com apenas um tiro e o Piauí, mesmo levando sete tiros, escapou com vida.

Para Lira (op. cit. pág.401) Sabino e seus homens entraram na cidade serrana quando se encontravam apenas quatro militares para protegê-la e corrobora a afirmação de Antônio Ramos quando escreve que “o soldado que foi morto tinha o apelido de Sabiá”.

A última vez que Antônio Ramos viu Lampião e seu bando

Depois que o nosso informante e sua família voltaram à antiga casa do sítio Conceição, eles procuraram seguir a vida. Mesmo diante da situação, o jovem Antônio Ramos não deixou de estudar. Em um dia de 1927, estava ele por volta das onze da manhã em uma escola nas proximidades de Triunfo, junto com um professor nascido na cidade de Floresta, quando chegou um grupo de cavalarianos armados e equipados. A princípio o mestre pensou que fossem policiais, mas o entrevistado comentou com segurança que “-Aquele ali é Lampião, eu conheço”. Segundo ele eram em torno de “130 cangaceiros”, todos equipados, com chapéu de couro quebrado, cheio de medalhas, fuzis, cada um levando dois bornais e cartucheiras. Antônio Ramos ficou se perguntando como eles lutavam com tanto equipamento.

Entre os cangaceiros, nosso entrevistado conhecia um deles. Chamava-se Isaías Vieira, e era de um lugar conhecido como Xique-Xique. Havia sido ladrão de bodes, que após ser preso apanhou muito e havia entrado no cangaço por vingança.

Nesta ocasião todos os cangaceiros estavam a cavalo, pegando animais descansados e deixando os que estavam viajando. Comentou que apenas às seis da noite, uma volante da polícia de Alagoas passou na região seguindo o bando. Este grupo era comandado por um militar conhecido como “tenente Arlindo”. A ocasião desta visita foi próximo ao mesmo período em que ocorreu o ataque a Mossoró.
A bibliografia mostra o quanto aparentemente nosso informante estava certo, mesmo com algumas pequenas alterações.

O Pesquisador José Alves Sobrinho, da cidade de Serra Talhada, em Pernambuco (in “Lampião e Zé Saturnino-16 anos de luta”, 2006, pág. 112), comenta que na mesma época que Lampião seguia para Mossoró, passou na zona rural de Vila Bela, a antiga denominação do município de Serra Talhada, na fazenda Barreiras, de propriedade de Martins Venâncio Nogueira, conhecido como Martins da Barreira. Segundo o autor, o proprietário da fazenda Barreira conversou longamente com Lampião naquele dia e afirmou que junto ao chefe estavam “118 cangaceiros”.

Segundo Lira (op. cit pág. 379.) comenta que em fins do mês abril de 1927, este grande grupo de cangaceiros estava sendo realmente sendo seguido por uma força volante comandada pelo militar Arlindo Rocha, que salvo engano seria da polícia pernambucana e possuía a patente de sargento.
Antônio Ramos informou que nunca leu um livro sobre cangaço, que conta por que sabe e viu. Os fatos envolvendo Lampião e o cangaço era informação corrente na região. Tudo era narrado de boca em boca, nas feiras, nas ruas.

Detalhes sobre a intriga dos Ferreiras com os Saturninos de Vila Bela, a história do chocalho, as brigadas e tudo mais que levou Lampião a entrar no cangaço, era muito repetido.
Apenas em uma ocasião Antônio Ramos viu uma revista com a foto das cabeças cortadas em Piranhas, Alagoas, após o ataque que deu cabo de Lampião e acha que era ele mesmo.

Antônio Ramos Moura.

*Rostand Medeiros é Pesquisador - rostandmedeiros@gmail.com

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

SBEC irá realizar encontro nacional em Cajazeiras/PB


Cajazeiras recebeu na segunda-feira (dia 16) comitiva representativa da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC encabeçada por seu presidente, Prof. Dr. Lemuel Rodrigues. Sediada na cidade de Mossoró (RN), a instituição tem como centro de suas atenções a temática do Cangaço, abrigando ainda discussão e reflexão acerca dos processos culturais e sócio-históricos nos limites do Nordeste Brasileiro. Seus associados, dispersos no Brasil e no exterior, somam considerável numero onde se alinham pesquisadores e interessados na temática do cangaço.

No período da manhã do ultimo dia 16, a comitiva se reuniu com o diretor do Centro de Formação de Professores, Prof. Dr. Cesário Almeida, quando foram traçadas as linhas gerais da parceria entre as duas instituições. Na parte da tarde foram discutidos os aspectos acadêmicos do evento desta feita em reunião com professores do curso de História do campus de Cajazeiras, Prof. Dr. Rodrigo Ceballos, Profª Viviane Ceballos e Prof. Isamarc Lobo

Também envolvidas nesta empreitada a Universidade Estadual do Rio Grande do Norte – UERN e a Associação Nacional de História (ANPUH) através de sua seccional rio grandense. Espera-se a confirmação da ANPUH-PB. A escolha de Cajazeiras para sediar o segundo encontro nacional da entidade, previsto para 2011, se deve, na palavras do seu atual presidente, “...a localização estratégica da cidade, próxima do Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte...” assim como a condição de “...cidade universitária” que Cajazeiras ostenta.

O primeiro encontro nacional da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço ocorreu em Brasília.

Pesquei no Opinio
Um Túmulo para Durvinha! 

A ex cangaceira "Durvinha" nasceu no dia 08/12/1915 e faleceu no dia 28/06/2008, em consequência de hipertensão intracraniana e AVC hemorrágico. Foi enterrada na cidade de Belo Horizonte.

Atendendo sugestão de Neli, filha de Durvinha, no dia 03 de maio do ano fluente, tivemos a ousadia de escrever uma carta, ao Prefeito de Belo Horizonte, nos seguintes termos:



Natal, 03 de maio de 2010
 Excelentíssimo Senhor Prefeito Dr. Márcio Lacerda,
Levo ao conhecimento de Vossa Excelência, que a famosa cangaceira JOVINA MARIA DA CONCEIÇÃO SOUTO, conhecida nacionalmente por “DURVINHA”, a qual morou, por muitos anos na cidade de Belo Horizonte, com seu companheiro, também cangaceiro “MORENO” (ainda vivo c/ 100 anos, sofrendo de graves problemas de saúde e, passando dificuldades financeiras) encontra-se sepultada no Cemitério da Consolação, Quadra 03, sepultura 547 da Prefeitura de Belo Horizonte/MG.
A filha do casal de cangaceiros, Sra. NELI MARIA DA CONCEIÇÃO, (Fone: 031-34342186), a qual é funcionária dessa Prefeitura, há muitos anos, sendo lotada na área de saúde da UPA Norte, deseja construir “UM TÚMULO” para sua querida mãe” DURVINHA “, mas não tem condições financeiras para tal desiderato, uma vez que ganha pouco.
Considerando que DURVINHA, foi uma cangaceira de expressão nacional, a exemplo de “DADÁ”, mulher do cangaceiro Corisco, a qual foi agraciada, ainda em vida, com o título de cidadã de Salvador/BA, além da concessão de uma pequena aposentadoria, através de projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal daquela cidade;
Considerando que os familiares de DURVINHA, não possuem condições financeiras de arcarem com as despesas para a construção de um TÚMULO, sem se privarem de suas necessidades básicas;
Considerando que a cangaceira DURVINHA tem seu nome marcado na história do cangaço nacional, como uma personagem, querida e amada por todos os pesquisadores/historiadores e admiradores da cultura cangaceirística;
Considerando o senso de justiça de Vossa Excelência, bem como, o ato de misericórdia que lhe é invocado, em nome dos familiares da cangaceira DURVINHA, em nome dos pesquisadores /estudiosos do cangaço, vimos solicitar os préstimos dessa prefeitura de Belo Horizonte/MG, no sentido de custear as despesas com a construção de um túmulo para a cangaceira DURVINHA, a fim de preservar a memória dessa famosa personagem da cultura cangaceira em nosso país.
Caso, o túmulo não possa ser feito no Cemitério da Consolação onde o corpo está enterrado, a família não se incomoda, que seja feito em outro local.
Desde já, agradecemos, antecipadamente, o deferimento do pleito, acima solicitado. Maiores informações sobre o assunto em tela poderão ser colhidas com a Sra. NELI (filha de Durvinha), nos telefones, acima citados.
Atenciosamente,
IVANILDO ALVES DA SILVEIRA
Promotor de Justiça/Natal-RN
Colecionador/Estudioso do cangaço
Membro da Soc. Bras. de Est. do cangaço.

No dia 25/05/2010, recebemos o seguinte recado da Neli:

Querido amigo estou aqui transbordando de felicidade, pois acabei de ser informada que e sepultura da mãe-DURVINHA foi aprovada e que o senhor Luiz Gustavo Gois vai nos procurar para nos informar, ai você fale da inauguração e dos agradecimentos. Obrigada mais uma vez de coração pela força .
Abraço da amiga Neli.

 
Durvinha e Neli.

É isso!
Um abraço a todos, e, esperamos que o "TÚMULO DE DURVINHA" seja construído, o mais rápido possível, para preservar a memória dessa grande mulher cangaceira. Agradecemos a todos, que direta ou indiretamente contribuiram para essa realização.

Ivanildo Alves Silveira
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC
Natal/RN
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Reverendo

O Lampião Aceso fica muito satisfeito e com a certeza de que juntamente com vossa comunidade virtual ter prestado o apoio solicitando aos nossos seguidores e leitores a assinatura deste abaixo assinado através de um artigo na ocasião em que fomos acionados por comadre Neli.

Mas convenhamos: Que pelo vosso empenho... esse mérito é todo seu visse? Confrade véi, como autoridade e principalmente como um dos mais gentis companheiros que a rede de cangaceirólogos nos proporcionou. O título deste artigo bem que poderia ser este: "MAIS UMA CAUSA VENCIDA"  pelo Dr Ivanildo Silveira um dos maiores defensores da memória do cangaço!


Parabéns meu amigo!
Att. Kiko Monteiro

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O julgamento de Lampião 

Por: Gerivaldo Alves Neiva

Divagações entre o real e a utopia

charge" de Carlos Latuff
Bezouro, Moderno, Ezequiel,
Candeeiro, Seca Preta, Labareda, Azulão!

Arvoredo, Quina-Quina, Bananeira, Sabonete,
Catingueira, Limoeiro, Lamparina, Mergulhão, Corisco!

Volta Seca, Jararaca, Cajarana, Viriato,
Gitirana, Moita-Brava, Meia-Noite, Zabelê!

Quando degolaram minha cabeça
passei mais de dois minutos
vendo o meu corpo tremendo

E não sabia o que fazer
Morrer, viver, morrer, viver!

(Sangue de Bairro, de Chico Science)


Virgulino Ferreira da Silva, pelo povo também conhecido como “Lampião”, foi preso em flagrante pela “volante” do Tenente Bezerra e apresentado a este Juízo na forma da ilustração de autoria do cartunista @CarlosLatuff.

Esta é uma decisão, portanto, que navega entre o virtual e o real, o passado e o presente, entre o possível e o impossível, permeada de utopia, sonho e esperança... O que se verá, por fim, é a evidência da contradição, não insolúvel, entre o Direito e a Justiça. Quem viver, verá.

Inicialmente, registro que não costumo me dirigir aos acusados por “alcunhas”, “vulgos” ou apelidos. Aqui, todos tem nome, pois ter um nome significa, no mínimo, o começo para ser cidadão e detentor de garantias fundamentais previstas na Constituição brasileira. Neste caso, no entanto, abro uma exceção para me dirigir ao acusado Virgulino Ferreira da Silva apenas como “Lampião”, pois creio que assim o fazendo não lhe falto com o devido respeito. Ao contrário, faço valer, ao tratá-lo como “Lampião”, a mesma reverência que lhe dedica o povo pobre e excluído do sertão brasileiro.

Em seguida, devo observar que a responsabilidade de julgar “Lampião” é tamanha e me assombra. De outro lado, não aceito como “divino” o papel de julgar. Deixemos Deus com seus problemas. Julgar homens é tarefa de homens. Da mesma forma, tenho comigo que realizar a Justiça é tarefa do homem na história. Assim sendo, passo a julgar “Lampião” como tarefa essencialmente humana e com o sentido de que, ao julgar, o Juiz também pode contribuir com a realização da Justiça ou, na pior das hipóteses, ao menos não impedir que o povo realize sua história com Justiça.

Pois bem, consta dos autos que “Lampião” teria sido preso em flagrante sob acusação de formação de quadrilha para a prática de inúmeros crimes contra a vida, contra o patrimônio e contra os costumes. Consta ainda dos autos os depoimentos dos condutores – membros da “volante” do Tenente Bezerra - e a representação da autoridade policial pela decretação da prisão preventiva do acusado, sob argumento da “garantia da ordem pública.”

Ao estrito exame das provas apresentadas, por conseguinte, e do que dispõe a lei, parece pacífica a necessidade da segregação preventiva do acusado para garantia da ordem pública, visto que restou provado, em face dos depoimentos colhidos, que o acusado, de fato, representa grave perigo à harmonia e paz social.

Isto é o que se depreende do que se apurou até então e do que consta dos autos. Imperativo, por fim, que se decrete a prisão preventiva do acusado, segregando-o do meio social.
Antes de concluir a decisão com a terminologia própria, o tal “expeça-se o mandado de prisão, publique-se, intime-se, cumpra-se...”, recosto a cabeça na cadeira, ajeito o corpo, fecho os olhos e ponho-me a pensar quantas vezes já decidi dessa maneira, quantas vezes já decretei prisões preventivas por motivo de garantia da ordem pública...

De súbito, enquanto pensava, eis que “Lampião”, o próprio, saltitando feito uma guariba, pula da gravura do Carlos Latuff e invade minha mente. É virtual, mas é como se fosse também real e humano na minha frente. “Parabellum” em uma mão e o punhal de prata, cabo cravejado de brilhantes, em outra. Não tenho medo e nem me assusto. Ele também não diz nada e agora apenas me olha e circula em torno de mim. Somos pessoas e ao mesmo tempo ideias e pensamentos. 

O texto final da minha decisão judicial, por exemplo, fazendo referência à garantia da “ordem pública”, é como se fosse também algo concreto nesta cena, como um pássaro rondando minha cabeça. De repente, com um tiro certeiro de “Parabellum”, “Lampião” esfacela esta forma de pensar, que me ronda feito um pássaro, como se matando este meu “senso comum teórico dos juristas”, conforme denuncia Warat. Em seguida, ainda atônito e sem mais pensamentos para me agarrar, sinto uma profunda punhalada no coração, mas não sinto dor alguma. Não sangro sangue, mas vejo jorrando do meu peito todos os meus medos de pensar criticamente o mundo em que vivo, as relações sociais e, sobretudo, o Direito.

O que faço? Não tenho mais o “senso comum teórico dos juristas” e também não tenho mais freios no meu modo de pensar criticamente o mundo e o Direito. “Lampião” acabou com eles com um tiro de “parabellum” e uma punhalada com punhal de prata. Agora, sem minhas “defesas”, que imaginava poderosas, sou como um morto... Estou morto.

Na verdade, estou morto e renascido livre ao mesmo tempo. Vejo, de um lado, meu corpo morto e meu pensar antigo e, de outro lado, sinto-me renascido em outro corpo e outro pensar. Morri para nascer de novo. Agora, nascido de novo, posso pensar diferente; posso pensar um novo Direito e, por fim, posso pensar que a Justiça é possível e que pode ser construída pelo homem novo. Está certo Gilberto Gil. É preciso “morrer para germinar.” “Lampião” me matou para que eu pudesse viver e ver. Viva “Lampião”!

E vivendo depois da morte, vejo, agora, com “Lampião” ao meu lado, que aquele antigo modo de pensar, na verdade, foi o fruto do ensino jurídico que incute verdades e dogmas na mente de acadêmicos de Direito, que se tornam advogados, que se tornam juízes, que se tornam desembargadores, que se tornam ministros de tribunais e se imaginam sábios porque aprenderam a reduzir o Direito à lei e a Justiça à vontade da classe que representam. Este é o Direito limitado aos “autos” do processo e à tarefa de manter excluídos da dignidade os pobres e miseráveis; o Direito da manutenção da falsa “ordem” burguesa; o Direito alheio à vida, à pobreza, à miséria e à fome.

Posso ver agora, com “Lampião” ao meu lado, que aquele modo antigo de pensar aprisiona e mutila os fatos nos “autos” do processo. Assim, “autos” não tem vida, não estão no mundo, não tem contradições sociais e transformam homens em “delinquentes”, “meliantes” e “bandidos”. Reduz, pois, todas as contradições do mundo e da vida em uma tolice: “o que não está no processo não está no mundo.”

Agora posso ver, com “Lampião” ao meu lado, depois de ter morrido para viver, ver e violar dogmas, que “o mundo está no processo”. É, pois, no processo que está a desigualdade social, a concentração de renda, séculos de latifúndio, a acumulação da riqueza nacional nas mãos de uns poucos, preconceitos, discriminações e exclusão social. Tudo isso é e está no processo. Isto é o processo.

Vejo, por fim, compartilhando esta última visão com “Lampião”, que os autos que me apresentaram não tem mundo e nem vida. Não tem sua vida, “Lampião”. Não tem sua história. Não tem seu passado. Não tem sua família. Não tem seus pais e irmãos sendo expulsos da terra que cultivavam. Não tem sua dor e sua revolta. Não tem sua sede e fome de justiça. Não tem sua desesperança na justiça. Não tem sua vida, repito. Não tem nada e de nada servem esses autos. Não servem para um julgamento. Servem para justificar uma farsa, acalentar os hipócritas e fazer da mentira a verdade.

Esses “autos” que me apresentaram, “Lampião”, não tem índios escravizados e mortos pelo colonizador; negros desterrados e escravizados nesta terra; posseiros expulsos de suas terras e mortos pelo latifúndio; operários explorados, desempregados e desesperados; crianças dormindo ao relento; os sem-teto, os sem-terra, os excluídos da dignidade. Esses autos não estão no mundo, é um faz-de-conta, uma ilusão...

O que faço agora? Estou morto de um lado, mas vivo de outro. Não sei mais o que é virtual e o que é real. Sei que deliro, mas não posso deixar morrer este novo eu. Preciso fazer com que permaneça vivo em mim o que renasceu e deixar morto o que morreu. Não quero ser mais o que era antes de morrer. Quero ser apenas o que renasci.

Luto comigo mesmo e permaneço vivo. Estou vivo, escuto e vejo, agora, mais uma vez, tiros de “parabellum” e golpes de punhal, como se saídos do nada e bailando no ar, furando e cortando em pedaços os “autos” do processo. Agora, não existem mais os “autos” do processo. Papéis picados tremulam no ar. Voam descompassados como borboletas... Preciso manter a lucidez, mas agora é tarde. A loucura tomou conta de mim e me levou com as borboletas para as “lagoas encantadas” do sertão brasileiro. Agora sou pura utopia, sonho e liberdade. Converso com “mães-d’água” à beira da “lagoa” e todas as coisas agora fazem parte de tudo. Nada mais é sem as outras coisas. Somos todos partes de um todo...

Neste devaneio em que me encontro, não sei mais o que é o real, o que é verdade, o que é passado ou presente ou se estou morto ou vivo; não sei mais - ou sei? - o que é e para que serve o Direito. Delirando assim, não posso mais julgar. Estou impedido de julgar. Não posso mais julgar Lampião. Eu não sou mais real, sou sonho apenas. “Lampião”, também, não é mais real. É uma lenda, um mito. “Lampião” agora povoa o imaginário dos pobres do sertão. “Lampião” não pode ser mais julgado por um juiz apenas. Só a história e o povo podem julgá-lo agora.

Esperem! “Lampião” me foi apresentado preso e eu preciso decidir sobre o flagrante. Preciso voltar... As borboletas me trazem de volta da “lagoa encantada” em que me encantei. Sou novamente real neste mundo virtual. Aqui estou e preciso falar. Assim, enquanto a história não vem, mas inevitavelmente virá um dia, não posso deixar “Lampião” encarcerado. A cadeia não serve aos valentes e aos destemidos; a cadeia não serve aos que, como Marighella, nunca tiveram tempo para ter medo; a cadeia não serve aos que não tem Senhor e aos que amam a liberdade. Homens verdadeiros não morrem presos.

Portanto, “Lampião”, a liberdade é tua sina. Vá. Talvez Maria te espere ainda. Talvez teu bando te espere ainda. Talvez Corisco não precise te vingar. Talvez teu corpo não trema por mais de dois minutos depois que degolarem tua cabeça. Vá. É melhor, na verdade, que morra em combate com a “volante” do Tenente Bezerra do que apodrecer e morrer vivo na prisão. Os valentes morrem lutando e escrevem a história. Vá. É a história, somente ela, que tem a autoridade para lhe julgar.
Por fim, agora concluo minha decisão inacabada: “expeça-se o Alvará de Soltura e entregue-se o acusado, Virgulino Ferreira da Silva, “Lampião”, ao seu próprio destino.” Dato e assino: Gerivaldo Alves Neiva, Juiz de Direito.

Depois disso, as borboletas me levaram de volta ao mundo da paz, da harmonia e da solidariedade, onde somos todos iguais e irmãos; de volta às “lagoas encantadas” do sertão brasileiro e aos braços das “mães d’água”.

Com viram, ouviram e imaginaram, este julgamento é um devaneio. Mistura de imaginação, passado e presente, sonho, utopia e, sobretudo, esperança inquebrantável na Justiça.

Uma noite fria e chuvosa, agosto, 2010.

Gerivaldo Alves Neiva
Juiz de Direito


Agradecemos a gentileza e colaboração do autor que nos enviou o artigo por email. Convido os nossos rastejadores para em seguida mudarem o curso para  www.gerivaldoneiva.blogspot.com

Att Kiko Monteiro 

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Deu na Folha Sertaneja

II CARIRI CANGAÇO ESTUDA CORONÉIS, BEATOS E CANGACEIROS

Por Antônio Galdino/ Folha Sertaneja - Paulo Afonso - BA



 Lemuel Rodrigues, presidente da SBEC
O Cariri Cangaço vem se firmando como o maior evento histórico-cultural sobre o cangaço e agora também beatos e coronéis, cujas histórias se entrelaçam, já realizado no Brasil.

A extensa programação do II Cariri Cangaço em 2010, reuniu quase uma centena de pesquisadores, escritores, poetas, compositores, jornalistas, cineastas que se embrenharam, incansavelmente em longas incursões pela caatinga seca e sem água para ver lugares, casarões centenários, cemitérios, mobiliário da época e pessoas que não se cansavam de repetir histórias que marcaram aquele lugar, seja pela passagem belicosa ou amiga dos cangaceiros, pela firme presença dos coronéis, donos da vida e da morte ou de beatos que apaziguavam os espíritos dos sertanejos daquelas terras cearenses.

Seguindo esses rastros de homens e mulheres que fizeram a história desse pedaço do Ceará, os pauloafonsinos Antônio Galdino, João de Sousa Lima, Rubinho Lima, Luiz Ruben, Gilmar Teixeira e a filha Eloíse, se juntaram a tantos outros estudiosos, para aprender mais um pouco sobre o que aconteceu por ali.

A centenária Fazenda Pe. Cícero tem histórias...
Em cada lugar, uma descoberta, um apanhado de informações, que resultarão em estudos mais aprofundados, depois compilados em revistas, jornais, livros, vídeos e imortalizados também em milhares de fotografias, provas indeléveis de que ali, na simplicidade daquela região árida, quase improdutiva, a vida e a morte marcaram forte presença.

Não se promove um evento desse porte sem grandes apoios, do poder público, de instituições acadêmicas, de empresários que possuem uma visão do futuro a partir de um olhar no passado. Foi assim com o projeto vitorioso chamado Cariri Cangaço, que está apenas no seu segundo ano e já provocou um saudável agito nos municípios de Crato, Juazeiro, Missão Velha, Barbalha e Aurora, fincados todos no sul do Ceará.

Pesquisadores atentos às histórias do cangaço, dos beatos, dos coronéis
Foi o que se viu em cada momento deste evento. Depois de um dia intenso de viagens por caminhos estreitos no meio da caatinga, de bons pedaços de chão percorridos a pé, visitas a cemitérios, fazendas, igrejas, engenhos, fontes de águas cristalinas que o Nordeste também possui para se descobrir que a história parece brotar da terra em cada árvore, em cada riacho seco, em cada caldeirão.

Ali, nesses lugares ermos e no agito das cidades, os pesquisadores eram recebidos com honrarias, com aplausos, com a melhor comida e o melhor sorriso onde chegavam. E todos, mesmo cansados se acomodavam para ouvir, pacientemente, cada orador discorrer fluentemente sobre personagens e lugares trazendo à tona detalhes que transformavam um relato, aparentemente simples, numa grande história, orgulho de várias gerações.

A volta ao hotel, depois de percorrer até centenas de quilômetros, era apenas o tempo para um banho que deixava todo mundo novo e pronto para as conferências da noite e os aplausos da população de cada um dos lugares. O humor de kydelmir, Ivanildo, de "Bin Laden", que compôs a bela música tema do I Cariri Cangaço, dentre outros exímios contadores de piadas e de causos, contribuiu para deixar todo mundo animado. (Veja o vídeo em www.tvmandacaru.com.br

"Bin Laden nordestino", gente boa, como animava o ambiente!
Foi assim em Aurora, onde o Prefeito, o vice-prefeito e todo o staff da sua gestão não mediram esforços para receber os pesquisadores e aplaudi-los na sua visita ao município. Foi assim também em Juazeiro, em Crato, em Missão Velha, em Barbalha onde sempre havia autoridades e muita gente, famílias tradicionais da cidade, descendentes de quem estava ali sendo homenageado, como pioneiro construtor dessas histórias. Universidades, teatros, auditórios acolhiam a todos.

Em Missão Velha, de tantas histórias, a Câmara de Vereadores abriu suas portas para receber os estudiosos do assunto. Ali, como em cada uma das cidades, grupos folclóricos, cantavam, dançavam, encenavam passagens sobre a vida e a morte que nesse contexto parecem ter o mesmo peso dos personagens que fizeram com que tantos pesquisadores, gente do quilate de Antônio Amaury, que se deslocou de São Paulo, de Lemuel Rodrigues, Múcio Procópio, Antonio Vilela, João de Sousa Lima, Honório Medeiros, Geraldo Ferraz, Renato Dantas, Alcino Alves Costa, Napoleão Tavares, Juliana Ischiara, Eloísa Farias, de Brasília, Bosco André, Gilmar Teixeira, Paulo Gastão, Kydelmir Dantas, Magérbio de Lucena, Wilson Seraine, Alfredo Bonessi, para citar apenas alguns dos quase cem estudiosos que ali estiveram entre os dias 17 e 22 de agosto, sempre recepcionados pelo anfitrião, o curador do evento, o incansável Manoel Severo.
Escritor Antônio Amaury recebe placa de João de Sousa Lima
O mestre Antônio Amaury Correia de Araújo, autor de vasta bibliografia sobre o cangaço, como Assim Morreu Lampião; Gente de Lampião: Dadá e Corisco; Lampião: As Mulheres e o Cangaço dentre vários outros, fez a conferência de abertura do II Cariri Cangaço, no Salão de Atos da Universidade Regional do Cariri (URCA), em Crato, falando de Zé Rufino, considerado o maior matador de cangaceiros de todos os comandantes de volantes. Antes, Amaury foi homenageado com um vídeo mostrando várias imagens da vida do escritor paulista em seus mais de 50 anos dedicados ao estudo e pesquisa da temática cangaço e uma placa que lhe foi entregue pelo escritor João de Souza Lima, de Paulo Afonso-BA.

O curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, fez a abertura oficial destacando e ao mesmo tempo agradecendo os apoios das administrações municipais que estão sendo partícipes desse trabalho. São cerca de 90 pessoas envolvidas no processo de organização, enfatizou Severo. O tema, segundo ele, é palpitante e polêmico, e o Cariri Cangaço, conforme o curador, ?dá oportunidade de se debater as nuances do processo histórico.

O Reitor da URCA (Universidade Regional do Cariri), Plácido Cidade Nuvens, na abertura, afirmou que a universidade regional não poderia desconhecer o fenômeno do cangaceirismo, porque foi uma marca dos dias da nossa história. A URCA deve debruçar-se para ver as suas causas e o reflexo para o desenvolvimento regional, com a responsabilidade acadêmica, disse.

A secretária de Cultura, Danielle Esmeraldo, ressaltou que os participantes se encontram não para estudar a história de Lampião, mas do Cariri e do mundo. Tem muita coisa que a gente precisa se indagar. Esse evento é rico e tem assunto, por ter história. Tem tudo a ver com a nossa região, frisou.

O que de viu nos dias seguintes, até a manhã do domingo, 22, foi uma seqüência de visitas técnicas e de palestras, seguidas de acalorados debates e questionamentos, sobre a temática proposta. Afinal, quem foi mesmo Lampião?, Herói ou bandido?, E quem matou Delmiro Gouveia?, Qual a influência e a relação de Padre Cícero com coronéis, beatos e cangaceiros?

Certamente, na avaliação que se fizer sobre este evento edição de 2010, os pequenos senões que forem encontrados serão amplamente superados pela grande quantidade de acertos. E os questionamentos voltarão a inquietar a muitos.
A beleza sertaneja, motivos de aplausos
Isso, associado aos belos espetáculos e demonstrações da cultura sertaneja, será munição suficiente para que os organizadores do evento já comecem os preparativos para mais um grande encontro de escritores, interessados na história, na cultura, nos ensinamentos que o 3º, o 4º... o 10º e um sem número de outros Cariris Cangaço irão proporcionar, como um resgate da história e da memória desse valoroso povo nordestino, ainda tão discriminado internamente, no próprio Nordeste e além fronteiras, especialmente pelo olhar pouco reconhecido dos estados do sudeste cuja riqueza e projeção que hoje possuem foram forjados pelos braços e pela inteligência dos trabalhadores sertanejos.






Temas do II Cariri Cangaço e seus defensores

Zé Rufino - Por Antônio Amaury (São Paulo-SP)
Religiosidade, Memórias e Movimentos Sociais - Por Lemuel Rodrigues (Mossoró-RN)
Antônio Conselheiro, Perfil  - Por Múcio Procópio (Natal-RN)
O Caldeitão do Beato José Lourenço - Por Professor Sávio Cordeiro (Crato-CE)
A construção marxista nos movimentos sociais - Por Professor Océlio Teixeira (Crato-CE)
Os coronéis e os mistérios do ataque de Lampião a Mossoró - Por Honório de Medeiros (Natal RN)
Theophanes Torres - Por Geraldo Ferraz (Recife-PE)
O Pacto dos Coronéis - Por Renato Dantas Juazeiro do Norte-CE
Lampião em Sergipe - Por Alcino Alves Costa (Poço Redondo-SE)
Delmiro Gouveia - Por Eloísa Farias (Brasília-DF)
Coronéis do Cariri - Por Bosco André (Missão Velha-CE)
80 anos da passagem de Lampião em Aurora - Por José Cícero (Auora-CE)
Lampião e a Coluna Prestes - Por Magérbio de Lucena (Crato-CE)
O Cangaço na Música - Ritmos e Estética - Por Wilson Seraine (Terezina-PI)
Lampião no Agreste Pernambucano - Por Antônio Vilela (Garanhuns PE)
As armas do cangaço - Por Alfredo Bonessi (Fortaleza-CE)

Acesse : Folha Sertaneja

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Rostand Medeiros

Um pedaço do grande Cariri Cangaço

Recentemente tive oportunidade de participar de parte do evento Cariri Cangaço 2010 que teve como tema: Cariri Cangaço - Coronéis, Beatos e Cangaceiros. Entre os dias 17 a 22 de Agosto, este encontro turístico-cultural e científico, recebeu grandes conferencistas, pesquisadores, escritores e professores, de renome nacional sobre o cangaço e assuntos ligados as tradições do Nordeste.

Os participantes tiveram o privilégio de visitarem o Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, entre outras cidades cearenses. Igualmente foram realizadas visitas técnicas aos principais Sítios Históricos ligados ao cangaço na região. Tive o privilégio de ter sido convidado, mas devido a um problema de saúde da minha filha, retonei a Natal no terceiro dia. Mas valeu.

Não posso afirmar a distância do caldeirão do Beato José Lourenço para o Crato. Mas percorremos 12 quilômetros de estrada de barro, passando por vários pontos elevados e a quase total inexistência de habitações.

 Localizada na região do Cariri cearense, o Caldeirão era uma fazenda habitada por migrantes nordestinos sob um regime de trabalho e orações. Seu líder espiritual, o Beato José Lourenço, agia num prisma religioso, que também era econômico, político e social, haja vista que o modo de vida ali perpetuado abrangia esses aspectos. Toda a produção agrícola e posteriormente de produtos artesanais variados, era dividida entre os próprios habitantes do lugar, num sistema de auxílio mútuo. O fruto do trabalho era um bem de todos, em suma. 

Assim, este trabalho está pautado em leituras bibliográficas sobre a experiência religiosa, política, econômica e por fim social que representou-se na comunidade agrícola do Caldeirão, na região do Cariri, sul do Ceará, nas primeiras décadas do século XX.
 A restaurada capela branca do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, que tem como padroeiro Santo Inácio de Loyola e o cruzeiro da antiga comunidade.

O surgimento da comunidade do Caldeirão é precedido por uma experiência similar ocorrida no sitio Baixa Danta. Contudo, ambos os casos estão imbricados na figura de seu fundador e líder espiritual e político, José Lourenço Gomes da Silva àquela altura já conhecido simplesmente como Beato José Lourenço. Isso porque desde que chegou a Juazeiro por volta de 1890 a fim de visitar seu pai que para lá migrara, como tantos outros, passou a ocupar-se do trabalho missionário, pregando a palavra da Bíblia, realizando exaustivas jornadas de oração e penitência.

Outra visão da capela do Caldeirão.

Todavia, ele não foi um beato comum, porque estes geralmente tinham parceiros sexuais e desprezando os bens materiais, não trabalhavam pela sua sobrevivência mantendo-se com esmolas. Contrariamente, o Beato José Lourenço era celibatário e casto além de que vivia do seu próprio trabalho. Essas particularidades apontavam para figura de liderança que teria no decorrer da vida.

Ao lado da capela existe uma pequena trilha que leva ao “Caldeirão”. Seguimos na companhia do Professor Lemuel Rodrigues, Presidente da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço.

De um terreno quase desértico, o trabalho coletivo e a fé fizeram brotar a vida, e dizemos isso em sentido literal. Ora, se observarmos que as condições naturais como clima e vegetação, mas principalmente sociais de desamparo pelo Estado e de exploração por parte dos proprietários de terras, reinantes nos sertões nordestinos, perceberemos facilmente que um espaço onde a simples possibilidade de cultivar a própria existência para o corpo e para a alma (leia-se alimentos e fé) surge como um verdadeiro paraíso terreal, o que certamente atraiu muitas famílias à construir aquela utopia, mas também que atraiu a ganância de outros sujeitos sociais que não compartilhavam do mesmo ideal.

Neste local encontramos várias pedras, que naturalmente formaram reservatórios que enchiam de água nos períodos de chuvas. Estes reservatórios eram conhecidos como “Caldeirão”, antes mesmo de dar nome ao sítio que abrigou a irmandade liderada pelo Beato José Lourenço.

Com a impossibilidade de continuar seus trabalhos na terra onde já haviam construído plantações de árvores frutíferas, cereais e hortaliças, o Beato José Lourenço articulou com padre Cícero a conquista de um espaço onde pudesse perpetuar sua comunidade cristã. Uma das propriedades que o padre possuía denominada Caldeirão dos Jesuítas, localizada no sopé da Chapada do Araripe, foi doada e lá o beato e os moradores conseguiram multiplicar os êxitos atingidos na outra fazenda.

 O Professor Lemuel informou que essa estrutura natural foi muito importante para o desenvolvimento da comunidade, porque a água ficava acumulada nestes reservatórios mesmo em tempos de seca. Na foto vemos uma barragem de pedras construída pelos membros da comunidade para represar uma maior quantidade de água.

No Caldeirão era dar para receber. E todos recebiam. Com o plantio de cana, arroz, feijão e a criação de animais, como bois e cabras, José Lourenço e seus companheiros resolveram o problema da fome numa região marcada pela estiagem e, consequentemente, pela falta de comida. A população do Caldeirão crescia e, com isso, vieram carpinteiros, ferreiros e artesãos que passaram a produzir cintos, roupas, ferramentas, sapatos. Tudo fomentado com matéria prima local, pois os rebanhos forneciam leite, e derivados, charque e peles. O algodão, por exemplo, era plantado na própria comunidade, sendo usado entre outras coisas para fabricação de roupas.

O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto caminhava para ser auto-suficiente. Até mesmo ferramentas de trabalho eram fabricadas no local, algumas foram desenvolvidas apropriadamente para o trabalho em condições peculiares.

 Outra vista do Caldeirão.

Mais que “fanático” desprovidos que qualquer organização racional, os habitantes do Caldeirão promoveram uma política de convívio com a natureza do sertão que sabidamente tem reconhecida aplicabilidade. Todavia, proporcionar autonomia representou também uma possibilidade de desestruturação nas relações de exploração, uma mudança no status quo social. Isso sim foi a verdadeira ideologia motivadora da perseguição e aniquilação da comunidade.


 
No centro de apoio aos visitantes vemos este estandarte relativo a um evento ocorrido em 2006. Percebi que existe um esforço das pessoas da região para que este momento singular da história nordestina não seja esquecido.

O fim do Caldeirão foi promovido pela força policial do Estado contando com o apoio da Igreja e de latifundiários, ambos com motivos próprios para isso. Para a igreja católica, o catolicismo popular incluía elementos que o distanciava das práticas impostas pela hierarquia dominante, ousando a um rompimento com as estruturas de subordinação ali imbricadas.

 
 Foto de época que mostra remanescentes, ou melhor, sobreviventes da comunidade do Caldeirão.



As autoridades no âmbito nacional temiam por sua vez, que aquela aglomeração transformasse-se em uma célula de “comunismo primitivo”. Acusação que seria usada como justificativa para a perseguição. O início da desventura se deu com a morte do padre Cícero, que em testamento doou o sítio do Caldeirão a ordem dos padres Salesianos do Crato.

 Com a dispersão e posterior destruição da Comunidade do Caldeirão, vemos um dos seguidores do Beato, com a sua tradicional roupa preta, provavelmente prisioneiro da polícia cearense.


O primeiro ataque ocorreu no dia 11 de Setembro de 1936, quando os moradores foram expulsos e tiveram suas casas de taipa queimadas, além de bens confiscados em favor do município do Crato. Os remanescentes, incluindo o próprio Beato passaram algum tempo vivendo nas matas da Chapada do Araripe.


 Trágico instantâneo do resultado da repressão brutal praticada pela polícia do Ceará.

Mas, boatos de que um grupo de ex-integrante do Caldeirão invadiriam o Crato, mobilizou novamente as forças policiais, chefiadas pelo capitão José Gonçalves Bezerra. O conflito daí resultante acabou com quatro mortes do lado do governo, incluindo o capitão e cinco do outro lado entre elas do líder, o Beato Severino. Foi o estopim para uma nova ação, dessa vez maior ainda.


 Ao centro da foto vemos o Beato José Lourenço.

 Após a divulgação daquele conflito, fortes contingentes militares partiram de Fortaleza à caça dos remanescentes do Caldeirão, determinados a vingar a morte do capitão Bezerra. O ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, colocou a força federal à disposição do governo cearense e autorizou o vôo de três aparelhos da Aviação Militar. Dos aviões, as metralhadoras dispararam, enquanto 200 patrulheiros vasculhavam a chapada do Araripe para concluir a missão. Naquele 11 de maio de 1937, cerca de 700 lavradores foram massacrados.

Nenhum soldado morreu. Mesmo depois da “grande investida” militar, policiais continuaram a perseguir, prender, torturar e matar pessoas que se vestissem de preto e portassem rosário - as características dos seguidores do beato.


 Aspecto da destruição no Caldeirão.


Após a divulgação daquele conflito, fortes contingentes militares partiram de Fortaleza à caça dos remanescentes do Caldeirão, determinados a vingar a morte do capitão Bezerra. O ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, colocou a força federal à disposição do governo cearense e autorizou o vôo de três aparelhos da Aviação Militar.
 Apesar da baixa qualidade da foto, vemos um dos membros da Comunidade, com uma cruz.

 Dos aviões, as metralhadoras dispararam, enquanto 200 patrulheiros vasculhavam a chapada do Araripe para concluir a missão. Naquele 11 de maio de 1937, cerca de 700 lavradores foram massacrados. Nenhum soldado morreu. Mesmo depois da “grande investida” militar, policiais continuaram a perseguir, prender, torturar e matar pessoas que se vestissem de preto e portassem rosário as características dos seguidores do beato.

 
 Aqui vemos o Beato José Lourenço observando um dos membros da Comunidade.

A escrita jornalística, supostamente de caráter “verdadeira” porque informativa e baseada na leitura dos ”fatos concretos” construía e disseminava uma imagem pejorativa do Beato José Lourenço e de suas comunidades. A deslegitimação do movimento assegurava a corretude da ação militar. Matava-se moralmente, para destruir-se fisicamente.

 
 Esta senhora, segundo o Prof. Lemuel, chamava-se Maria Gurgel da Silva, mais conhecida como Marina. Ele, como muitos membros da Comunidade do Caldeirão, era natural do Rio Grande do Norte.

Em outras oportunidades, José Lourenço pôde tentar reconstruir sua comunidade cristã, mas sempre sob o olhar e repressão dos aparelhos do Estado. Sua morte em 12 de Fevereiro de 1946, encerrou as movimentações desse porte, quase relegando as experiências e resultados obtidos ao silêncio, e esquecimento social.

Por tamanha magnitude da ação do Beato José Lourenço nas suas comunidades, uma pergunta se torna assaz importante: porque sua história foi por tanto tempo desprestigiada? Por que nossas crianças não tem menção alguma sobre tais vivências nos livros didáticos, por exemplo?


 
 Próximo a capela, vemos restos do antigo cemitério da Comunidade do Caldeirão.

O texto aqui apresentado foi elaborado apartir do trabalho intitulado “O CALDEIRÃO DO BEATO JOSÉ LOURENÇO: FÉ, TRABALHO E LUTA SOCIAL”, de autoria dos historiadores Paulo Henrique de Souza Martins e Gabriel Assis Araújo Vasconcelos.

Este trabalho foi apresentado no I Colóquio de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE ,Recife, Pernambuco, ocorrido entre os dias 3 a 5 de Outubro de 2007.

Quanto as imagens que ilustram foram reproduções feitas a partir das fotos de Jackson Bantim.


Alguns dos meus closes...

 Outro visual da capela.

 
 Durante o encontro no Caldeirão, tive a oportunidade de conhecer o Sr. Inácio, filho dos ex-cangaceiros Moreno e Durvinha, que teve a graça de encontrar seus pais em 2006.

 Saindo da região no final da tarde, vemos o relevo da região do Caldeirão.

 Fazia tempo que não andava por uma estrada onde se demora muito para ver alguma habitação. O isolamento na região ainda é acentuado.

 No retorno para o Crato, as pessoas que estavam na van tiveram a a oportunidade de descobrir o lado comediante do nosso grande amigo Ivanildo Silveira. Suas piadas foram fantásticas. No primeiro dia de debates, a ótima intervenção de Ivanildo fez a diferença.
Pessoalmente o grande fruto deste Cariri cangaço 2010 foi o contato com os amigos desta comunidade que lá estavam presentes.
  
 Aqui vemos os amigos Kiko Monteiro (esq.) e Narciso (dir.). Duas grandes figuras e exemplo de amizade.
Nesta ocasião o Kiko estava com uma forte faringite e sofreu muito na estrada. O pó da estrada do caldeirão é forte, pois também peguei uma forte gripe. Mas valeu.

 Aqui junto ao amigo Narciso.

A este amigo, a Múcio Procópio, ao Kiko e a Ivanildo gostaria de apresentar meus agradecimentos públicos pela preocupação em relação ao estado de saúde da minha filha e no apoio quando tentei buscar um ônibus para Natal, em plena madrugada.

A tentativa não deu certo, mas no outro dia estes amigos se empenharam na busca de uma carona para o meu retorno.

A vocês muito obrigado e que Deus sempre os acompanhe.

 


Não posso deixar de agradecer a Pereira da cidade de Cajazeiras pelo apoio. Ao amigo José Alves, de Serra Talhada, filho do mítico Luíz de Cazuza pela carona. Pela enorme torcida e força de Juliana, João de Sousa Lima,(Posando na foto acima) Dr. Amaury, Geraldo Ferraz, Ângelo Osmiro, Vilela, Kydelmir, Paulo Gastão, Lemuel, Lili e tantos outros.

Meu muito obrigado..