quarta-feira, 30 de junho de 2010

"Não façam isso comigo, sou um sacerdote católico!"

Notas sobre o sangramento do Padre Aristides Ferreira da Cruz


Por: José Romero Araújo Cardoso

Convivi e conversei muito com o brioso oficial da Polícia Militar Coronel Manuel de Assis, pois assim como eu, o valente guerreiro das caatingas nasceu na velha terra de Maringá. Arruda era um homem espetacular, ser humano formidável, possuía prosa animada, muito atencioso e dotado de memória prodigiosa.

Apesar das qualidades ímpares, Arruda era afoito demais, pois querer enfrentar a Coluna Miguel Costa - Prestes quando da passagem por Piancó (PB), em fevereiro do ano de 1926, foi um ato temeroso e intempestivo, mas que lhe rendeu honraria do governo do Presidente João Suassuna por bravura - a espada do herói! Arruda negava peremptoriamente os fatos, mas sem sombras de dúvidas foi ele quem abriu fogo contra a vanguarda dos militares insurrectos, abrindo os portais dos infernos para a cidade de Piancó e seus defensores.

Nas inúmeras conversas sobre a passagem da Coluna pelo desditado município paraibano, havia incontida emoção quando o velho combatente falava sobre o Padre Aristides Ferreira da Cruz, vigário e chefe político da cidade sertaneja literalmente arrasada em fevereiro do ano de 1926.

O Coronel Manuel Arruda de Assis informava que o Padre Aristides nasceu no então distrito pombalense de Lagoa. Quando de minha fixação no Estado do Rio Grande do Norte, efetivamente a partir do ano de 1998, fiquei sabendo por intermédio de informações fornecidas por dileto amigo de nome Raimundo Soares de Brito, verdadeiro arquivo vivo da cultura potiguar, que o Padre Aristides havia exercido o cargo de vigário em Caraúbas (RN).

Arruda narrava que o Padre Aristides era inimigo de muita gente em Piancó, mas que todos o respeitavam. O vigário andava com inseparável F. N. Brown na cintura, acompanhado de grupos de capangas, era metido em tudo que não prestava no sertão daquela época, viveu maritalmente com jovem da localidade, tiveram filhos, enfim, como dizemos no sertão, era mais desmantelado do que vôo de anum molhado ou galope de vaca amojada.

Quando os informes enviados de Pombal (PB), notificando sobre a passagem da Coluna Prestes por Malta (PB), chegaram em Piancó (PB), o Padre Aristides se animou em enfrentar, telegrafando para Júlio Lyra, o chefe de polícia de Suassuna, comprometendo-se a conseguir dois mil homens em armas em quarenta e oito horas, prontamente aceito pelo governo do Estado. Não obstante os esforços, Padre Aristides não conseguiu reunir o número de homens prometido para a defesa.

Mas o que ninguém sabia em Piancó era que esta consistia em uma tática de Prestes, a guerra de movimento, depois usada por Mao-Tsé-Tung, quando da grande marcha pela China, a fim de ludibriar o inimigo. Prestes dividia a coluna em inúmeros subgrupos que se reuniam em local previamente determinado em cartas e mapas.

Quando a Coluna entrava em Piancó, descargas certeiras alvejaram cavalos e cavaleiros. Daí por diante fechou-se o tempo, quando intenso tiroteio transformou Piancó em praça de Guerra. Vinha de ambas as partes, mas com maior intensidade, devido ao número de componentes, disparado pelos integrantes do movimento tenentista originado no sul do País.

 Coluna Miguel Costa–Prestes 
Costa é o quarto sentado (esq. para dir.) e Prestes, o terceiro.
In Ijuí Memória Virtual 


O ódio que a Coluna Miguel Costa - Prestes passou a devotar ao piquete do Padre Aristides teve seu recrudescimento quando ato considerado de alta traição inflamou os ânimos acirradíssimos dos combatentes.

Arruda contava, parece até que o estou ouvindo neste momento, que havia um preso de justiça em seu piquete. Esse detento, por bom comportamento, tinha tratamento diferenciado. Apelidaram-no de "preá", pois bastava dar-lhe uma rapadura que ele conseguia trazer do meio da caatinga qualquer cabra ou bode espavorido que por ventura se desgarasse do rebanho.

Conforme Arruda, havia visualizado sinal do Tenente Antônio Benício, delegado de Piancó, para que levasse quatro fuzis e um cunhete de balas para o piquete dele, ao que "preá" retrucou com toda razão ser impossível furar as mil modalidades de ataque dos revoltosos e chegar ao piquete do Tenente do outro lado da rua. Arruda teve a idéia de instruir "preá" para pendurar a camisa branca que vestia em um dos fuzis. Quando o defensor de Piancó saiu à rua com o fuzil hasteando a bandeira branca, imediatamente o código ético-militar da Coluna Miguel Costa - Prestes foi acionado, com os combatentes ensarilhando armas e respeitando a decisão contida no símbolo internacional.

Talvez por não saber o que acontecia na área defendida pelo então Sargento Manuel Arruda de Assis, o piquete do Padre Aristides aproveitou o momento de distração da Coluna Miguel Costa - Prestes para intensificar o tiroteio em direção ao grupo revoltoso. O resultado foi catastrófico, pois a Coluna teve muitos integrantes mortos e feridos.

Daí em diante era ponto capital para os comandados pelo General Miguel Costa e pelo Capitão Luiz Carlos Prestes chegarem ao piquete do Padre Aristides Ferreira da Cruz. A Coluna, então, lutou com gosto, botando para quebrar. Foi em direção aos defensores sediados na residência do vigário de Piancó com vontade de esbagaçar.

Arruda me contava que o Padre Aristides quando viu a coisa ficar preta mandou seu guarda-costa, de nome Rufino, subir no muro para ver o que acontecia. Rufino informou desesperado que a situação era periclitante, pois se fugissem morriam, se ficassem morriam do mesmo jeito. Nesse momento, a Coluna lançou duas bombas de efeito narcótico dentro da casa do Padre. O pessoal que lutava bravamente começou a demonstrar sonolência, ao que o Padre Aristides instruiu comerem açúcar. A luta era nos corredores, nas salas, em todo canto, quando uma ordem do comandante da investida, que calassem as baionetas de uma vez só, cessou a luta, enquanto o Padre Aristides pedia incessantemente garantias de vida para todos.

Covardemente o comando da Coluna Miguel Costa - Prestes assegurou as garantias. Todos que estavam na casa, incluindo o Padre Aristides e o prefeito de Piancó, o Sr. João Lacerda, bem como o filho deste, foram conduzidos a um barreiro e lá sangrados, um a um, e não fuzilados. A Coluna Miguel Costa - Prestes era formada majoritariamente por gaúchos, notabilizados pela selvageria das degolas, dos sangramentos, das lutas fraticidas que encharcaram os pampas em épocas passadas.

Padre Aristides, sentindo-se mortalmente ferido, implorou para que não fizessem aquilo com ele, pois era um sacerdote católico. As humilhações foram intensificadas, pois o martírio do Padre Aristides Ferreira da Cruz e sua gente foi um episódio macabro patrocinado pela ignominiosa covardia, pela efetiva traição de membros de um movimento que se autointitulava revolucionário, reformista, ou seja lá o que tenha sido ou digam ter sido, mas que não teve hombridade Enem humanismo para respeitar as vidas daqueles que já se achavam dominados e impossibilitados da mínima defesa.

Trabalho louvável, de suma importância para a compreensão de nossa história regional, intitulado "A Vida do Coronel Arruda, Cangaceirismo e Coluna Prestes", de autoria do ilustre Promotor de Justiça paraibano, Dr. Severino Coelho Viana, um dos mais cultos e inteligentes pombalenses, orgulho da terra de Maringá, constitui-se em brilhante contribuição para a literatura sobre o assunto que tanta polêmica suscitou, sobretudo quando dos embates do Padre Manoel Otaviano com o Coronel Manuel Arruda de Assis na época que ocupavam cadeiras na Assembléia Legislativa do Estado da Paraíba.


(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor do Departamento de Geografia do Campus Central da UERN. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

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Imagem pescada no site da prefeitura municipal de Piancó. Confira um outro excelente texto sobre a passagem dos revoltosos por esta cidade: Clique aqui

Museus

Serra Talhada e o colecionismo
Por: Afonso Romero (*)


Saindo de Recife em direção ao interior, e rodando 415 km pela rodovia BR-232, chega-se a Serra Talhada, localizada bem no miolo do sertão pernambucano. 

A cidade conta pouco mais de 70.000 moradores, o que a credita como uma das principais do sertão e entreposto comercial que serve a 40 municípios vizinhos. Mas a principal atração de Serra Talhada fica localizada fora dos limites urbanos: o Sítio Passagem das Pedras. Foi ali que nasceu Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Herói e bandido, habitante da fronteira entre História e Mitologia, Lampião sobreviveu por anos às volantes – patrulhas da Polícia postas à sua caça, e a de seu bando – e vem persistindo por décadas ao esquecimento da historiografia oficial. Entre os nordestinos, entretanto, é reverenciado como símbolo de resistência, persistência e perspicácia, mesmo entre os que o vêem como o bandido que, efetivamente, foi.

Pois o Capitão Virgulino parece ter deixado, em seu rastro, mais uma marca forte no caráter do povo de sua terra: o colecionismo. Não há família em Serra Talhada que não cultive o hábito de guardar objetos, fotos e reminiscências. À primeira vista, parece que este hábito iniciou-se com a fama adquirida por Lampião e a curiosidade provocada por sua vida dúbia de “Robin Hood” sertanejo. Seria natural que seus contemporâneos e conterrâneos cultivassem o material relacionado a tudo que fizesse lembrar Lampião.

Realmente, a maioria das coleções está, até hoje, e de alguma forma, ligada ao cangaço. O curioso é que o hábito do colecionismo expandiu-se e extrapolou as questões locais daquele povo. Há, em Serra Talhada, um pouco de tudo. Selos, quadros, revistas, vestes, daquela e de outras épocas. Há coleções simplórias e até aquelas organizadas com método e precisão quase acadêmica. Convivem objetos de interesse puramente pessoal e peças de valor histórico e cultural insuspeito aos olhos simples daquela gente. Mas o que há de mais significativo para se olhar em Serra Talhada é o fenômeno, como um todo.

A cidade, toda ela, é uma manifestação bruta e natural do sentimento de auto preservação cultural, de necessidade de cultivo das referências próprias e das relações com as referências externas. Assim, coisas díspares, como a coleção de objetos tocados por Lampião, em sua infância e a coleção de pôsteres, discos e fotos da Jovem Guarda (ambas existem, em Serra Talhada) representam, cada uma a sua maneira, um mesmo sentimento: a relação entre homem e o ambiente histórico-cultural que o cerca e os objetos que são marcos desta relação. Por outro lado, há famílias que conservam coleções com itens muitíssimo anteriores a Lampião. Ainda que seminal, o colecionismo já havia, pois, em Serra Talhada, antes do cangaço.


 

Alguns relatos, recolhidos por todo o sertão nordestino, dão conta de uma face (mais uma) controversa na personalidade de Virgulino: em meio à brutalidade de seus atos, o Capitão era um admirador de objetos e obras de arte. Pode ser efeito do universo mitológico criado em torno do cangaço, mas são muitas as estórias que relacionam o bando à música (inclusive erudita), pinturas, estátuas, roupas finas, adornos, cinema, fotos. Algumas destas passagens são citadas no filme “Baile Perfumado”, um belíssimo semi-documentário sobre o sertão e, ainda, uma ode ao cinema. Se há indícios fortes de que o colecionismo é uma característica presente na população de Serra Talhada anteriormente a Lampião, a trajetória do cangaço ajudou-o a se expandir. Qual destas influências terá sido maior?

O de Lampião sobre a vida de sua cidade, ou o ambiente daquela cidade sobre Lampião? E de onde vem, afinal, a origem do hábito do colecionismo em Serra Talhada? A 415 km de Recife, bem no meio do sertão, há um povo que, através de sua conversa alegre e sua hospitalidade, pode nos ajudar a desvendar estes enigmas.

*Affonso Romero é Publicitário na capital carioca.

Açude: Revista Museu

domingo, 27 de junho de 2010

Lampião e seus cangaceiros ...

No sertão de Araci/BA 
Por: Fernando Tito

Germinia Pinho da Silva Góes, foto abaixo, Nascida em 23 de Junho de 1928. Mora em Araci-Bahia. Foi visitada na infância pelo bando de Lampião. Relato feito em Dezembro de 2007 à Fernando Tito.

Sabendo dos rumores que Lampião estava nas redondezas, meu pai José Tibúrcio da Silva, ao viajar para Queimadas mandou que minha mãe, Marcionília Pinho da Silva, fosse dormir na casa do cunhado (Martinho Pereira da Silva) que ficava perto, eu Germinia Pinho da Silva tinha apenas seis meses de idade. José Tiburcio da Silva como proprietário da Fazenda Paraíba, transportava daqui peles de ovinos, bovinos e caprinos que levava para Queimadas pois lá havia um curtume que era do Coronel Vicente Ferreira da Silva, que era primo de José Tiburcio da Silva. Ao chegar lá ele deixava as peles para serem curtidas e as que já estavam curtidas ele pegava para trazer, completando a carga com sacas de café que vinham de Jacobina para Queimadas.

Meu pai era dono de uma tropa de oito burros, sendo seu tropeiro o Senhor Higino morador da Fazenda Roda, ao chegar aqui na Vila do Raso, como era conhecido na época, meu pai tinha que ir prestar contas ao Coronel Vicente Ferreira da Silva, pois era ele que dava os fretes para meu pai conduzir. Foi no período desta viagem que Lampião chegou em João Vieira arraial de Araci, no mês de Dezembro de 1928, procurou saber quem era fazendeiro e quem tinha tropas de burros, alguém que se dizia ser amigo de meu pai informou a Lampião sobre meu pai e Lampião mandou o cangaceiro Corisco ir até a Fazenda Paraíba guiado por esta pessoa, pois não sabiam onde era a Fazenda, ao chegar não encontrando ninguém colocaram fogo na casa.

Quando foram cinco horas da manhã, pois eu acordava muito cedo para comer, minha mãe chamou as meninas para ir tirar leite das cabras, pois eu só tomava leite de cabra, ela me levava nos braços, ao chegar na malhada ela avistou o fogo em cima da casa e logo viram os cangaceiros com os fuzis, os burros amarrados e etc.

Ela respeitando os cangaceiros não seguiu, pediu que uma das meninas que ela criava que voltasse na casa do meu tio Martinho para chama-lo para poder encorajá-la, pois ele ia enfrentar eles, ao chegar trazendo consigo nos braços o garoto José Brígido da Silva (Zeles) que tinha apenas dois anos e dois meses de idade, ele se reuniu com minha mãe que estava comigo nos braços, ao se aproximar da fazenda ela avista a fumaça em cima do telhado, pois eles já tinham arrombado a porta e entrado, pegado dinheiro, peças de tecido de seda, saquearam a casa e depois pegaram querosene, que na época meu pai comprava querosene em lata, destelharam a cumeeira da casa ensoparam com o querosene e puseram fogo.
Então minha mãe disse:
- Bom dia meus senhores! Com que autoridade vocês fizeram isso?
Eles responderam:
-A ordem que nós temos é quando chegarmos a uma fazenda e encontrar fechada colocar fogo na casa.
Ela respondendo disse:
- Fez muito errado.
Eles perguntaram:
- Cadê seu marido? Por que ele correu?
Ela disse:
- Ele não correu, está viajando, está em Queimadas.
Eles disseram:
- Nós soubemos em João Vieira que ele tem uma tropa de burros.
Ela respondeu:
- Ele está viajando com essa tropa de burros, pois ele é cargueiro.
Eles retrucaram dizendo:
- Por que a senhora correu?
Respondeu ela:
- Eu não corri apenas fui dormir na casa do meu cunhado, se eu estivesse corrido não estava aqui com um curral apartado com as cabras e o outro com o gado. Estou vindo agora porque a minha filha que carrego nos braços chorou para comer, então vir tirar leite das cabras para fazer mingau para dar a ela.
O cangaceiro disse:
- Pois, então rodei e apague o fogo, que lá nos potes tem água.
Ela falou:
- Tem mesmo, porque quem botou não foram vocês, fomos nós que botamos água nos potes.
Minha mãe entrou e apagaram o fogo.
Corisco disse:
-Viemos porque o meu chefe mandou e se encontrasse seu marido era para arrancar o caco da cabeça dele e levarmos como prova que ele estivesse morto.
Ela disse:
- Pois não vai arrancar porque ele não correu e nem está aqui, está viajando.
Então eles se despediram e voltaram para o arraial João Vieira.


 A casa que o Bando de Lampião colocou fogo na Fazenda Paraíba 

 Foto em família: José Tiburcio, Marcionília Pinho, Germinia Pinho e José Brígido (Zeles) .

Recordação 





Açude: Site da cidade de Araci/ BA

sábado, 26 de junho de 2010

Eu, leitora "fui cangaceira do bando de Lampião"

Depoimento da ex cangaceira Sila à revista Marie Claire

Por Rosane Queiroz


A costureira aposentada Ilda Ribeiro de Souza, a "Sila", 77 anos, foi cangaceira durante dois e é a última sobrevivente do massacre que matou Lampião e Maria Bonita, em Angicos, Estado de Sergipe, em 1938. Viúva de Zé Sereno, homem de confiança de Lampião, ela lembra como era a vida no cangaço e ainda tem pesadelos com tiroteios

 
O bando de que Sila e Zé Sereno (no destaque) faziam parte.

Sou boa corredora, e por isso escapei do cerco que matou Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros que tiveram suas cabeças decepadas e exibidas pelo Nordeste. Participei do cangaço por dois anos, depois que Zé Sereno me sequestrou para ser sua mulher.

Nasci em Poço Redondo, interior de Sergipe, às margens do rio São Francisco. Na minha casa, éramos oito irmãos – seis homens e duas mulheres –, sou a sexta filha. Meu pai tinha uma pequena fazenda. Quando eu tinha 6 anos, minha mãe morreu, nem sei de quê. O povo diz que foi de nervoso. Era uma vida sacrificada. Mas tínhamos uma família unida, meu pai nos ensinou a ter respeito pelos mais velhos, a ser honestos e a ter personalidade.

Desde menina eu escutava histórias sobre Lampião, mas achava difícil ele chegar ali. Só que um dia ele passou pela cidade. Eu estava na casa de minha madrinha, e os coiteiros [sujeitos que protegiam os bandidos] foram avisar meu tio que os cangaceiros estavam chegando. Ele tinha uma venda e poderia ser assaltado. Meu tio trancou eu e minhas primas num quarto. E eu louca para ver Lampião! Deitei no chão para espiar por debaixo da porta. Eles levaram açúcar, bolachas e foram embora. Só vi os pés dos cangaceiros.

Eu tinha uns 12 anos quando papai morreu, e meu irmão mais velho, João, é quem tomou conta da gente. Eu estudava na cidade, só ia para a fazenda nas férias. Corria o boato de que os cangaceiros sequestravam as moças e, como eu era bonitinha, cheia de luxos, meu irmão tinha medo de que eu fosse à fazenda: 'Os cangaceiros podem lhe carregar'. Foi ele falar, no dia seguinte cinco deles invadiram nossa fazenda.

Mandaram a gente preparar uma galinha e era para eu levar até o riacho, onde eles estavam acampados. Eu disse que não iria, mas meu irmão achou que seria pior. Fui caindo pelo caminho, de medo. Tremia tanto quando entreguei a comida para o cangaceiro Zé Baiano que ele disse: 'Menina, nós não vamos fazer nada com você'. E me deu um anel, que não aceitei. Fui para casa e comecei a arrumar a mala para fugir quando Zé Sereno, o chefe do bando, apareceu e ameaçou: 'Volto daqui a oito dias para te carregar. Não adianta fugir. E não conte para ninguém'.

Guardei segredo os oito dias todinhos, morrendo de angústia. Tinha medo de que fizessem mal à minha família. No dia marcado chegou o bando. Fizeram uma festa na fazenda. E eu triste, pedindo a Deus que Zé Sereno não quisesse mais me levar. Dancei com Luís Pedro, que estava com Neném, sua mulher. Ao amanhecer, Neném me disse: 'Sila, se prepare que a gente vai embora'. Imaginei que, se não fosse, matariam minha família.

Fui com a roupa do corpo. Meus irmãos nem me viram sair e, mesmo que tivessem visto, quem era louco de reclamar? Fomos andando pelo mato, calados. Zé Sereno na frente, eu atrás.

Era tudo tão estranho, parecia que eu flutuava. Eu chorava quietinha, e Neném me dizia que não adiantava chorar. Se a gente pisava numa pedra e tirava do lugar, os homens colocavam de novo, para não deixar pistas para os macacos [policiais].

Zé Sereno não tinha aparência ruim: era baixo, de tipo nortista e tinha uns 20 anos. Ganhou o apelido de Sereno por causa do temperamento. Mas eu estava morrendo de medo dele.

À noite, ele estendeu um cobertor em cima de uma pedra, e tive de me deitar com ele. Foi assim minha primeira noite. Fui sabendo que a partir daquele dia seria sua mulher. Naquela época o marido era um só, não tinha esse negócio de separação. Ele nunca me maltratou, mas tinha o jeito dele, a grossura dele. No dia seguinte, paramos em uma fazenda e a volante [grupo de policiais] apareceu. Nesse tiroteio morreu Neném. Apesar de termos passado só um dia juntas, ela foi minha primeira amiga ali. Eu só chorava, desesperada.

Dali fomos encontrar Lampião, que estava acampado em Sergipe. No caminho, outro tiroteio. Comecei a pegar prática de fugir correndo. Chegando no acampamento, Lampião me olhou e deu uma bronca no Zé: 'Como, uma menina?'. Zé respondeu que eu era a mulher ideal para ele. Eu imaginava Lampião baixo, e ele era alto, magro. Simpático, mas de pouca conversa.

Maria Bonita me chamou para ir à barraca dela e trocar de roupa, porque eu ainda estava do jeito que saí da fazenda. Me deu um vestido dela de brim, enfeitado com passamanarias. Ficou enorme. Ela era mais gorda e mais baixa do que eu. Maria era divertida, inquieta, chamava a atenção, mas não era tão bonita. Tinha muita mulher bonita no mato. As que conheci melhor foram ela e Dulce, mulher do cangaceiro Criança.

No dicionário, cangaceiro é bandido. Mas o Lampião da história oficial não é o mesmo que conheci. Bandido, essa palavra a gente não pode tirar. Mas ele só era bandido para quem era para ele também. Ele se preocupava com a moral do bando, tinha amizades, considerava as pessoas, as crianças. E era muito religioso, rezava de manhã e à tarde.

Nunca presenciei um ato de selvageria. Às vezes ficava sabendo de execuções necessárias à segurança do bando, mas nunca vi tomarem nada dos pobres, ao contrário. Quando chegava nas casas, se a moça ia casar, a gente dava o enxoval todo. Se via criança passando fome, o que a gente tinha dava. Nossa riqueza era a polícia nos deixar em paz.

De noite, se não tinha perseguição, a gente tirava os bornais [bolsas de pano que usavam a tiracolo], estendia uma coberta. Senão, era só encostar em uma árvore. Dormia debaixo de chuva, de xiquexique [cacto]. Nunca mais deitei numa cama nem sentei em uma mesa para comer.

A comida principal era bode assado. De vez em quando matavam um boi roubado. Quando não tinha nada, comíamos jacuba, uma mistura de rapadura com farinha e água. Eu tinha vontade de comer arroz, mas era difícil.

Às vezes eu ficava no coito [esconderijo] com Maria Bonita. Lampião ia encontrar amigos e deixava uns cangaceiros com a gente. Ali, um respeitava a mulher do outro, não tinha bagunça. Falam que os cangaceiros eram machistas, mas isso dependia da inteligência da mulher. No nosso bando eles respeitavam muito a nossa opinião, mesmo que a gente não tivesse muita função nas lutas. Nos curtos períodos de trégua, as que sabiam costurar costuravam. Tínhamos máquinas de manivela. Apesar da vida dura do sertão, os cangaceiros eram vaidosos, gostavam de usar jóias e roupas enfeitadas.

Uns dois meses depois da partida, engravidei e fiz o enxoval do meu filho todinho no mato. Fiz camisinhas em opalina, tecido fininho, tudo cor-de-rosa, bordadinho à mão. E nasceu homem. Mas, com dois dias, tive que dar ele. Era proibido ter crianças no bando: dificultaria as caminhadas e o choro seria uma pista. Ao nascer, a criança era levada por um coiteiro para alguém criar.

Tive meu filho embaixo de uma árvore, Maria Bonita foi a parteira. No outro dia Lampião jogou uma aguinha na cabecinha dele, rezou um padre-nosso e o batizou como João do Mato. Aí o coiteiro chegou, e chorei muito. Dobrei as roupinhas dele e mandei entregar para uma pessoa de minha confiança. Meu leite demorou a secar e fiquei muito deprimida. Soube depois que com seis meses João adoeceu e morreu.

Eu não tinha muita noção do que era o cangaço. Apesar de ser considerado um movimento revolucionário, naquela época ninguém pensava assim, nem Lampião. Era o jeito de sobrevivermos sem obedecer aos coronéis. Eu achava que aquilo não era vida de gente. Mas não tinha saída.

Nos tiroteios, eu rezava muito, era tudo caindo, e eu rezando. Uma vez, tinha tanto macaco em volta que a gente não podia mais andar. Um tiro passou perto da minha cabeça e levantou um tampo de terra do chão. Vi muita gente morrer na minha frente, mas, engraçado, nunca pensei na morte.

Apesar do sofrimento, entrei no espírito do grupo. Andava com um punhal e uma pistola 'máuser' pequenininha, que dava cinco tiros, igual à de Maria Bonita. Mas só usei uma vez, para libertar o Zé. Ele entrou em uma casa e um homem o derrubou no chão. Por causa do peso do armamento, quando um cangaceiro caía, era difícil levantar. Eu cheguei na hora, peguei minha pistola e falei: 'Se não soltar ele agora, eu mato'. Depois Zé falava para todo mundo que, se não fosse eu, ele tinha morrido.

O momento bom era fim de mês, quando os macacos iam receber o ordenado na sede da polícia, na Bahia. Por 15 dias o sertão ficava livre. A gente ia para a fazenda de algum coiteiro, matava criação, fazia festa. O cangaceiro Balão tocava realejo [espécie de acordeom], a gente dançava. Éramos como uma família.

Quando Zé Sereno informou que iríamos para a gruta de Angicos, em Sergipe, onde o massacre aconteceria, achamos que seria mais uma reunião de costume. A viagem foi tranquila, mas, ao chegar, notei Lampião abatido. Talvez estivesse adivinhando as coisas. Maria me disse que há uns meses ele andava assim.

De noite, depois de comer, Maria disse a Lampião que ia sair comigo para fumar. Ela não fumava na frente dele em sinal de respeito. Ela gostava de conversar comigo. E me confidenciou que estava cansada daquela vida: 'Nem minha filha posso ver, é só fugir, correr'. Contou que tinha até proposto a Lampião irem morar no Mato Grosso, e ele não quis. Durante a conversa, percebi uma luz, ao longe, que acendia e apagava, como uma lanterna. Comentei com Maria e ela disse que devia ser um vaga-lume. Já eram os macacos posicionados para nos atacar.

Voltamos para a barraca, Zé já estava deitado, preferi não incomodá-lo. Se eu tivesse acordado ele, ele chamaria Lampião, teríamos fugido ou nos equipado. Mas a volante chegou de surpresa. Acho que estava escrito.

No dia 28 de Julho de 1938, Zé Sereno se levantou antes de amanhecer e foi rezar com Lampião. Falei que ia dormir mais um pouco e já me levantei com um tiro. Saí descalça, correndo, a fumaça das balas não me deixava enxergar nada. Era tiro de metralhadora, rifle, revólver. Segurei nas mãos de Enedina e corremos. Vi o desespero dos outros, pela última vez avistei meu irmão, Mergulhão, que tinha entrado no cangaço até por minha causa.

Subimos um morro com sangue escorrendo pelas pernas machucadas pelos espinhos dos xiquexiques. Enedina foi atingida e os miolos dela cobriram meu rosto. Eu e Criança nos arrastamos por uns 300 metros e escapamos. Ouvíamos os gritos dos soldados: 'Lampião está morto!'. De repente, Zé apareceu entre as moitas. Depois soubemos que ao todo foram 11 mortos.

Foi a coisa mais triste do mundo. Arrasados, fugimos com os outros sobreviventes e passamos uma temporada no mato. De vez em quando aparecia um coiteiro que nos contava que as cidades estavam em festa. Soubemos que as cabeças de nossos amigos foram exibidas em várias cidades. Eu nunca quis saber detalhes sobre isso, nunca quis ver as fotografias. As lembranças desse dia são horríveis. Com o tempo, a memória vai ficando mais sensível. Tenho pesadelos frequentes com tiroteios, em que corro, corro... Só acordo quando caio da cama.

O bando foi reorganizado às pressas por Zé Sereno, mas, sem Lampião, o movimento estava morto. Nos escondemos em uma fazenda amiga, e o capitão Aníbal, comandante da polícia, a mando do presidente Getúlio Vargas, começou a mandar cartas para o Zé, falando que a gente se entregasse, que nada iria acontecer. Um dia Zé reuniu todos os cangaceiros e falou: 'Se não der certo, a gente se revolta'.

Seguimos para Jeremoabo, cidade baiana, onde devíamos nos entregar, e, no caminho, passamos um dia em Serra Negra. Quando entramos na cidade, não ficou ninguém dentro de casa. Saíram todos para nos ver. Lá, à tarde, eu e Zé casamos na igreja. Usei um vestido estampado. Estava feliz, achando que a vida ia melhorar.

Ao nos entregarmos, não fomos presos, mas não podíamos sair da cidade. Os casados tinham até direito a uma casa. Eu estava grávida e tive um aborto aos cinco meses. Adoeci, sentia dores pelo corpo, acho que de canseira.

Após dois meses, fomos tentar a vida em Salvador. Antes, pedi que Zé desse ao capitão Aníbal os pertences do cangaço – chapéus, bornais, cantis cravejados a ouro. Queria esquecer tudo. Zé tomou conta de uma fazenda de cana até sair a anistia. Lá, tive Gilaene, minha primeira filha. Mas Zé pegou uma briga com jagunços e fugimos. Andamos a pé semanas. Meu braço ficou inchado de carregar a menina.

Fomos para Minas, onde tive Ivo, meu segundo filho. Zé trabalhava em uma fazenda e eu costurava. Tive outro parto, de gêmeos, que morreram com 14 dias. Depois de outras pequenas andanças, paramos em São Paulo, onde tive Wilson, o caçula, e aprendi a evitar filhos, com tabelinha.

Fomos morar no bairro de Vila Jaguara, onde criamos as crianças. Zé trabalhou como segurança particular, depois em uma escola da prefeitura, onde se aposentou. Mas eu é quem sempre tomei as rédeas da casa. Costurei por dia em casa de freguesa, tive sala de costura nos Jardins, costurei no Mappin, na TV Bandeirantes, fiz bicos de vendedora e enfermeira.

Por nove anos Zé viveu doente, a vida ficou ainda mais dura. Ele morreu de derrame cerebral em 1982. Durante quase 50 anos juntos, ele foi bom pai, mas toda a vida foi mulherengo.

Por muitos anos, nunca comentei nossa história com ninguém. Só me dei conta da importância do que tinha vivido quando meus filhos já eram moços. Hoje vivo de aposentadoria e ganho algum dinheiro extra dando palestras em faculdades e eventos sobre o cangaço. Daquela época, guardo apenas o chapéu do Zé e um bornal.

Eu sou feliz, graças a Deus. Pude criar meus filhos com três coisas importantes – paz, saúde e uma mãe que olhasse por eles. Acho que o cangaço era meu destino e que sobrevivi para contar a história. Me dou valor por ser o que sou e ter passado o que passei. Mulher tem que ser corajosa. Até hoje ando sozinha por esse Nordeste todo, todo mundo sabe que fui cangaceira de Lampião e me respeita."

Livros lançados por Ilda Ribeiro de Souza: "Sila – Memória de Guerra e Paz", editora da Universidade Federal de Pernambuco, 1995; e "Angicos, Eu Sobrevivi", Oficina Cultural Monica Bonfiglio, 1997.
Edição 114, Setembro de 2000 da Marie Claire

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NOTA LAMPIÃO ACESO: Sobre A legenda da imagem: O bando: entenda-se por "Subgrupo" e este era comandado pelo próprio Zé Sereno. Acrescentamos a leitura recomendada "Gente de Lampião": Sila e Zé Sereno de Antonio Amaury. E o nome verdadeiro de Sila também não era Ilda!!! ??? eis uma curiosidade que vamos revelar posteriormente.

A educação pela pedra

Memórias da infância de Celso Furtado, no sertão, entre os perigos do cangaço, da política e da natureza


Por Roberto Pompeu de Toledo

Para o menino Celso Furtado a vida era uma sucessão de perigos. O perigo dos cangaceiros que vez por outra invadiam Pombal, sua cidade natal, no sertão da Paraíba, por exemplo. "Lá vêm os cangaceiros", avisavam, e todo mundo saía correndo. Os cangaceiros avançavam pelas ruas em cavalgadas que espalhavam poeira e terror. Uns queriam bancar os bem-educados e sentavam-se no bar, pediam café, respeitavam as senhoras.

Outros agiam como brutamontes. Ameaçavam, atiravam, agrediam, intimidavam, barbarizavam. Numa dessas ocasiões o pai de Celso agarrou-o e levou-o a um esconderijo, onde ficaram até os cangaceiros irem embora. "Tantas vezes vi pessoas mortas na rua", lembraria ele, muitos e muitos anos depois. Convocado para o serviço militar no período da II Guerra, Celso integrou-se à Força Expedicionária Brasileira, na Itália – mas dizia que viu mais mortos na Paraíba, na infância, do que nas frentes de batalha.

Havia a violência política, em acréscimo à dos fazendeiros. Todo mundo estava envolvido na "política", mas não se pense que essa "política" tenha a ver com o debate dos problemas do município, do estado ou das grandes questões nacionais. A "política" se traduzia em escaramuças entre famílias rivais. Eram particularmente agudas em épocas eleitorais, e podiam degenerar em pequenas guerras civis.

Num dia de 1930 alguém chegou correndo à casa de Celso: "Mataram João Pessoa!". Não era um dia qualquer para o menino. Era o dia em que completava 10 anos, 26 de julho. Quem trazia a notícia era um empregado. Eram sempre os empregados que traziam as notícias. E não podia haver notícia mais terrível – Pessoa, o popular governador (ou presidente, como se dizia então) da Paraíba, fora emboscado por um inimigo numa confeitaria do Recife. Entre as pessoas simples do estado, João Pessoa gozava de mística que tangenciava o sobrenatural. Celso ouvia da empregada da casa histórias como a de que o governador se disfarçava de pessoa comum e saía "para fazer o bem" nos bairros pobres. Era a mesma legenda que acompanhava os "reis bons" da Idade Média. À noite, a empregada o levou a uma procissão encabeçada por um andor onde ia o retrato de João Pessoa, venerado como santo.


 Celso Furtado, 
(Pombal, 26 / 07 /1920 — Rio de Janeiro, 20/ 11 / 2004)

Seguiu-se um período em que os adversários políticos do líder assassinado, em cada cidade paraibana, eram atacados como se cada um deles fosse o assassino. Agrediam-nos nas ruas, incendiavam-lhes as casas, feriam, matavam. Na manhã seguinte, ao sair de casa, a primeira coisa com que Celso deparou foi o cadáver de um homem estendido na rua. Ali perto ficava a usina de propriedade de um notório adversário de João Pessoa. Um alvo fácil para os vingadores do governador, portanto, tanto assim que soldados do Exército foram destacados para protegê-lo. A família Furtado, pelo sim, pelo não, achou prudente afastar-se do bairro. Refugiou-se na casa da avó de Celso, até o ambiente se acalmar.

Quando não vinha dos homens, o perigo vinha da natureza. Celso tinha 4 anos na época da grande cheia de 1924. As águas, em fúria, invadiram sua casa, destruindo-lhe a parte da frente. A casa só não veio abaixo por milagre. Vários de seus compartimentos ficaram inutilizados, inclusive a cozinha. Tiveram de trazer o fogão para a sala, por causa disso. Temerária decisão. Celso, numa hora em que brincava sozinho na sala, jogou uma bola para cima e ela foi cair bem no caldeirão que ardia no fogo. O caldeirão tombou nas costas do menino. "Ah, sofri muito", recordaria. Uma marca da queimadura ficou-lhe nas costas pelo resto da vida.

E havia os perigos do fanatismo religioso. Celso Furtado cresceu num tempo em que a Guerra de Canudos ainda estava fresca na memória dos povos do sertão. Um tio-avô seu participou da guerra, do lado das forças que combatiam os beatos de Antônio Conselheiro. Muitas histórias do período se contavam na família. Depois veio o padre Cícero, ainda vivo quando Celso despertava para o mundo. Para o menino, João Pessoa e padre Cícero eram figuras da mesma extração. Pertenciam ambos ao mesmo universo popular e místico.

Celso Furtado, que morreu no sábado, dia 20, tinha um olhar triste. Ele foi ministro, embaixador, conselheiro de presidentes, membro da Academia Brasileira de Letras. Notabilizou-se como professor nos melhores centros universitários do mundo, escreveu livros e artigos traduzidos em múltiplos idiomas. Conheceu os grandes deste mundo. Era reconhecido como um dos mais destacados intelectuais brasileiros. No entanto, o olhar triste denunciava a eterna presença, lá no fundo, do menino assustado entre os cangaceiros, a violência política e a fúria da natureza. Era um nordestino educado pela pedra, para usar a expressão de outro filho da região, o poeta João Cabral de Melo Neto.

Nota: As recordações de infância aqui alinhadas foram relatadas por Celso Furtado ao autor destas linhas em duas longas séries de entrevistas, uma em 1993, outra em 1999.
Publicado originalmente na coluna Ensaio da Revista Veja, Edição 1882 . 1° de dezembro de 2004.

Link para a matéria: Revista Veja
Foto: Portal da imprensa

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Novidades na web

SBEC lança seu site
 


Já está na rede o mais novo espaço para divulgação, promoção e discussão da pesquisa cangaceira. Acesse http://www.sbec-br.org/index.html e fique por dentro da história dos eventos e da importancia desta entidade que muitos compatriotas ainda nem sabem que existe. Conheça e valorize a Sociedade Brasileira de estudos do Cangaço. 

Saindo do forno

Programação do Cariri Cangaço 2010
 

Prezados Companheiros do Cariri Cangaço;

Hoje trazemos aos nossos muitos leitores de todo o Brasil a esperada Programação do Cariri Cangaço 2010; aqui temos o rol de Conferências, as Temáticas, os Palestrantes, as Mesas de Debates e as respectivas cidades anfitriãs. Sejam bem vindos ao Cariri Cangaço 2010 - Coronéis, Beatos e Cangaceiros.

17 AGOSTO 2010
TERÇA-FEIRA


Abertura - Cine Teatro de Barbalha
19:00 H - Solenidade Oficial de Abertura
19:30 H - Conferência
JOSÉ RUFINO
Antônio Amaury Correia de Araújo - São Paulo

MESA
Lemuel Rodrigues - Mossoró RN
Honório de Medeiros - Natal RN
Aderbal Nogueira - Fortaleza CE
Ivanildo Silveira - Natal RN

18 AGOSTO 2010
QUARTA-FEIRA


Sítio Caldeirão do Deserto - Crato
9:00 H - Conferências
RELIGIOSIDADE, MEMÓRIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS
Lemuel Rodrigues Silva - Mossoró RN
ANTONIO CONSELHEIRO - PERFIL
Múcio Procópio - Natal RN

MESA
Manoel Severo - Fortaleza CE
Sávio Cordeiro - Crato CE
Sandro Leonel - Crato CE
Manoel Neto - Salvador BA

Salão de Atos da URCA - Crato
19:00 H - Conferências
OS CORONEIS E OS MISTÉRIOS DO ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ
Honório de Medeiros - Natal RN
THEOPHANES TORRES
Geraldo Ferraz - Recife PE
MESA
Raimundo Marins - Salvador BA
Océlio Teixeira - Crato CE
Paulo Britto - Recife PE
Magérbio de Lucena - Crato CE

19 AGOSTO 2010
QUINTA-FEIRA


Memorial Padre Cícero - Juazeiro do Norte
19:00 H - Conferências
O PACTO DOS CORONÉIS
Renato Cassimiro - Juazeiro do Norte CE
LAMPIÃO EM SERGIPE
Alcino Alves Costa - Poço Redondo SE

MESA
Manoel Neto - Salvador BA
Renato Dantas - Juazeiro do Norte CE
César Megale - Natal RN
Juliana Ischiara - Quixadá CE

20 AGOSTO 2010
SEXTA-FEIRA


Câmara Municipal - Missão Velha
19:00 H - Conferências
DELMIRO GOUVEIA
David Bandeira - Maceió AL
Eloísa Bandeira - Brasília DF

CORONÉIS DO CARIRI
Bosco André - Missão Velha CE

MESA
Ângelo Osmiro - Fortaleza CE
Gilmar Teixeira - Paulo Afonso BA
Carlos Rafael - Crato CE
Rostand Medeiros - Natal RN

21 AGOSTO 2010
SÁBADO


Aurora
9:00 H - Conferência
80 ANOS DA PASSAGEM DE LAMPIÃO EM AURORA
José Cícero - Aurora CE

MESA
Manoel Severo - Fortaleza CE
Bosco André - Missão Velha CE
Honório de Medeiros - Natal RN
Kydelmir Dantas - Mossoró RN

Distrito do Tipi - Aurora
14:00 H - Conferência
MARICA MACEDO DO TIPI
Vicente Landim de Macedo - Brasília DF

Teatro Municipal Salviano Arraes - Crato
19:00 H - Conferências
ANTONIO SILVINO
Magérbio de Lucena - Crato CE
O CANGAÇO NA MÚSICA - RÍTMOS E ESTÉTICA
Wilson Seraine - Teresina PI

MESA
Paulo Gastão - Mossoró RN
Cicinato Neto - Limoeiro do Norte CE
Emanuel Braz - Mossoró RN
Kydelmir Dantas- Mossoró RN

22 AGOSTO 2010
DOMINGO


Teatro Marquize Branca - Juazeiro do Norte
09:00 H - Conferências
LAMPIÃO NO AGRESTE PERNAMBUCANO
Antonio Vilela - Garanhuns PE
AS ARMAS DO CANGAÇO
Alfredo Bonessi - Fortaleza CE

MESA
Aderbal Nogueira - Fortaleza CE
João de Sousa Lima - Paulo Afonso BA
Sabino Bassetti - São Paulo SP
Fernando Pinto - Crato CE

O Cariri Cangaço é uma promoção da Cariri do Brasil, uma realização das prefeituras municipais de Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha e Aurora, URCA/PROEX e ainda o apoio da SBEC, do ICC, do Centro Pró Memória, do ICVC, da Fundação Memorial Padre Cícero, do Blog do Crato, da Associação de Cordelista de Crato, do Ponto de Cultura Lira Nordestina, do SEBRAE, do SESC e do Centro Cultural Banco do Nordeste, Grupo Empresarial Guanabara, Revista Nordeste VinteUM e agora GeoPark Araripe.

O evento tem seu início marcado para o próximo dia 17 de agosto na cidade de Barbalha, se estendendo até o dia 22 com encerramento marcado para a cidade de Juazeiro do Norte, mantendo ainda, intensa agenda de atividades nas cidades de Crato, Porteiras, Aurora e Missão Velha.

Quer participar, saber como chegar e onde ficar?
Tudo isso e muito mais, você encontra noCarirí Cangaço

Scans: Revista Veja, 19 de Novembro de 1975.

Encontraram o ex cangaceiro "Curió"




Pedimos ao leitor desconsiderar o trecho: " Preso, Curió foi obrigado pelas volantes a cortar as cabeças de seu chefe, de Maria Bonita, Angelo Roque e Vila Nova..." pois, não corresponde a verdade histórica dos fatos.
 

Créditos: Ivanildo Alves Silveira


Para saber o destino do " velho pássaro" não deixe de ler este adendo de Messier Rostand.

Procurei mais detalhes e descobri no "Diário de Pernambuco, edição de domingo, 19 de Agosto de 1990, um dia antes, as 7:40, havia falecido no Hospital da Restauração, de embolia pulmonar, Marcos Alexandre da Costa. Ele tinha 88 anos, havia sido atropelado por um ônibus no Complexo de Salgadinho, no dia 16 de agosto de 1990.
 
Depois que foi solto em 1975, o então governador de Pernambuco, Moura Cavalcante lhe arranjou um emprego de marceneiro no Juizado de Menores.
Morava na chamada Vila Popular, no bairro de Peixinhos, em Olinda. Havia residido anteriormente na Estrada da Caixa D'Água.
Do seu casamento, depois que foi solto, cuidou de três enteados, que lhe deram 26 netos e 22 bisnetos.
Segundo a reportagem, Curió havia nascido no dia 7 de maio de 1907, na cidade de Bom Conselho, Pernambuco.

Primeiramente, entre 2006 e 2007, eu estava trabalhando em Caicó-RN, onde conheci uma senhora que nasceu em Olinda e vivia (acho que vive ainda) na cidade potiguar e me falou que quando morava em Olinda conheceu "Seu Marcos". Passou-me algumas informações que foram corroboradas, em parte, pela reportagem. Ela comentou que sobre sua vida cangaceira, ele era extremamente reticente em comentar este assunto. Mas na região onde eles viviam todos sabiam quem foi Curió.
 
Em 2007 postei sobre este encontro com esta senhora na comunidade do Orkut "Lampião, Grande rei do cangaço". Mas devido ao silêncio gélido "dos gênios" que aqui comentavam sobre cangaço, achei melhor me resguardar para depois não levar o nome de mentiroso. A única pessoa que se interessou e tentou encontrar alguma coisa sobre este cangaceiro em Recife foi nosso amigo Jal Gomes. Mesmo infrutífera na sua busca, valeu pela iniciativa maravilhosa.
 
Depois achei este artigo no "Diário de Pernambuco", mas aí assunto já tinha morrido. E agora vejo, de forma muito positiva, o amigo Ivanildo trazer este artigo da Veja.

Lembrei-me de outros detalhes: Se não me engano, na época em que Curió foi atropelado, a senhora me comentou que a empresa proprietária do ónibus se chamava “Vera cruz”, mas não tenho certeza. Que a família do ex-cangaceiro ficou revoltada, cogitando até entrar na justiça.
Outra coisa que ela me falou foi que em Peixinhos ele igualmente havia morado próximo a um antigo local que foi um “matadouro”. Pessoalmente não conheço estes locais. Seria legal nossos amigos de Pernambuco comentarem se estas informações poderiam, ou não, terem sentido. È só o que recordo.

Analisando esta questão do ex-cangaceiro Curió, percebemos que num primeiro momento ele teve até sorte e sua saída chamou atenção da sociedade local. O próprio governador pernambucano da época mandou buscá-lo em “carro oficial”, lhe recebeu como “herói” no palácio, lhe deu emprego e o utilizou (mesmo sendo ele analfabeto) como “garoto-propaganda” em uma feira regional de municípios.
Interessante como estes acontecimentos apontam a mudança de percepção da sociedade pernambucana, e por tabela a brasileira em geral, em relação ao cangaço.
 
Se em 1975, a saída de um ex-cangaceiro da prisão gerava toda esta notoriedade, se ele tivesse sido solto no final da década de 1950, certamente Curió buscaria inicialmente o anonimato, pois seria muito mais fácil ele ser execrado pela população como “marginal”, “bandido”, ou levar uma bala de algum desafeto.
Aparentemente, apesar da sorte inicial, sua vida posterior deve ter sido de muitos apertos.
 
Comento isso analisando as várias fontes apresentadas neste tópico, pois mesmo com o seu emprego de marceneiro no Juizado de Menores, ele deve ter ralado muito o ex-cangaceiro. Vemos que primeiramente passou a residir na “Favela do Córrego do Euclides”, em Casa Amarela, depois aparentemente na “Estrada da Caixa D'Água”, seguindo para a “Comunidade de Peixinhos”, onde viveu próximo ao antigo “Matadouro”, ou na “Vila Popular”. Além disso, teve de cuidar da mulher, três enteados, vários netos e bisnetos.
 
Detalhe; Não sei se procede (os colegas de Recife podem me corrigir), mas pelo que sei, estes locais que Curió morou na Região Metropolitana de Recife, são (ou eram) locais de alta periculosidade, de ocorrência de tráfico de drogas, etc. Mas, pelo menos até onde se sabe o ex-cangaceiro não se envolveu com nenhum tipo de problema envolvendo a marginalidade.
 
Não sei, mas creio que Curió foi o último cangaceiro a deixar vivo (e na época totalmente lúcido) um ambiente prisional no Brasil. Será?
 
 
Perda de oportunidade
 

Fosse por que Curió não gostava de falar, ou talvez por que em 1975 os estudiosos do assunto “cangaço” tinham “material de sobra” para pesquisar (ainda haviam muitos dos velhos coronéis, ex-perseguidores, ex-coiteiros, etc). Fosse por que estes estudiosos entendiam que naquela época não valia à pena perder tempo com um cangaceiro que, talvez, não fosse considerado “importante”, ou no bando era apenas um "lavador de cavalos”.
 

Fossem por estas ou outras razões, sei de uma coisa, para aqueles que gostam do assunto, faltou naquela época alguém ir até este Senhor e “furar” a sua barreira de prevenção em relação a falar sobre o seu passado. Faltou alguém ter tido a oportunidade de ao menos tentar conseguir dele a sua memória sobre este período.
Faltou naquele tempo um “batalhador da história”, como um João de Sousa Lima, que trouxe a bela a rica saga de Moreno e Durvinha.
 

Vemos que este ex-presidiário só ganhou notoriedade pelas suas andanças no cangaço. Provavelmente a reportagem da Veja, edição de Novembro de 1975, gentilmente postada por Ivanildo, foi publicada a partir de algum “furo” conseguido por algum correspondente da revista lotado em Recife, ou através de notícias publicadas nos jornais recifenses. Se ele não tivesse sido o cangaceiro "Curió", a morte do aposentado Marcos Alexandre da Costa seria uma simples notinha de rodapé da cronica policial recifense.

Um abraço.

 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pra semear a alegria

Cabras de Lampião voltam à caatinga 

Por Paulo Gonçalves 
Publicado originalmente no Jornal A nova democracia, Ano VII, nº 48, Dezembro de 2008. 

Karl Marx faz o papel de Lampião nas apresentações do Grupo

Karl Marx nasceu no ano de 1990 e vive em Serra Talhada, município do sertão pernambucano. Ator e dançarino, é irmão de Sandino Lamarca. Os dois fazem parte do Grupo de Xaxado Cabras de Lampião, uma das muitas atividades desenvolvidas pela Fundação Cultural Cabras de Lampião, fundada em 1995 e idealizada por seu pai, Anildomá Willams de Souza — pesquisador, escritor do cangaço e "marxista por convicção" — por sua mãe, Cleonice Maria, pesquisadora da cultura regional e professora de danças populares, além do pesquisador Gilvan Santos, entre outros. Karl Marx sempre participou de atividades culturais, já que a cultura e a arte sempre estiveram presentes na sua casa. Começou logo cedo a dançar e fazer teatro. 

No grupo Cabras de Lampião aprimorou a sua técnica, já que todos os integrantes participam de oficinas de interpretação, expressão corporal e danças populares.
— Claro que o nosso espetáculo é original, de raiz, mas não podemos perder de vista a valorização técnica, estética e artística — diz Karl Marx.
O grupo Cabras de Lampião reúne pessoas nascidas em Serra Talhada, a antiga Villa Bella, onde nasceu Virgulino Ferreira da Silva, que entrou para a história com o apelido de Lampião.

— Nasci, fui criança e adolescente ouvindo histórias de antigos cangaceiros e de volantes (nome dado aos policiais que se moviam de cidade em cidade à procura de cangaceiros), me envolvi naquelas aventuras de Lampião, na sua coragem em desafiar os coronéis e fazendeiros, saqueando vilas e cidades, se autodenominando "governador do sertão", fazendo poesias, dançando xaxado, tocando sanfona e violão e, mesmo com pouco estudo e nenhuma noção ideológica, dizendo que "homem nenhum nasceu pra ser pisado" — diz e emenda.
— A região sertaneja costuma homenagear tudo quanto é coronel, os piores facínoras, que combateram nossos avós, que expulsaram os índios desta parte do Brasil, e que hoje são nomes de avenidas, estátuas em praças, nomes de escolas e até de cidades. E Lampião com sua gente, os que desafiaram a estrutura reacionária do poder, não merecem serem lembrados? Merecem! — afirma — Os descendentes dos coronéis não vão fazer isto. Eles fazem de tudo para imortalizar seus pais e avós, mas nós, descendentes dos que foram massacrados, não podemos deixar que tudo se perca nas brumas do tempo, temos que dizer ao mundo que no passado houve luta, se espelhar na coragem de Lampião, de Antonio Conselheiro, de Zumbi dos Palmares, Corisco e muitos outros, para lutarmos hoje, sem medo, com a história na mão. Foi agarrado nesse argumento que nasceu esse movimento, com um punhado de artistas, para resgatar e manter nossa história — acentua Karl Marx.

Anildomá de Souza reforça as palavras do filho, lembrando que:

— Em Serra Talhada só havia homenagens para os membros das oligarquias, os coronéis, os grandes fazendeiros, empresários e membros dessas dinastias. Então resolvemos homenagear um filho da terra e gente do povo. Além disso, apesar de Lampião ter nascido aqui, notamos que não se falava mais dele, as oligarquias faziam questão de apagar a sua história. Decidimos então recomeçar o debate sobre o cangaço e mostrar que ele não é apenas folclore, pois o que motivou o cangaço ainda está presente na vida do povo: é a seca, a exploração do latifúndio, a concentração de terra e das riquezas e os currais eleitorais que sustentam essa exploração.

Anildomá acrescenta:

— Engana-se quem pensar que os coronéis da política são coisas do passado. Uma prova está no resultado das eleições do dia 5 de outubro, quando a maioria dos prefeitos eleitos na região carrega nos sobrenomes as linhagens dos antigos coronéis, são membros das mesmas dinastias. Essas oligarquias que geraram o cangaço ainda estão presentes na vida do povo sertanejo, ainda são muito fortes e não agem de forma muito diferente do que faziam naquele período. Por isso resolvemos abrir esse debate contras as injustiças sociais à luz do cangaço, esse é o nosso principal propósito, sem perder de vista a cultura popular, as tradições, a literatura, a música, a dança e todo legado dos cangaceiros.

Acervo popular

Antes mesmo de começar a estudar a cultura do cangaço, Karl Marx diz que a sua família conheceu alguns cangaceiros e volantes, além de pessoas que testemunharam episódios da época.

— Conhecemos os cangaceiros Sila, Candeeiro, Zabelê, Cajarana, Gitirana, e pessoas que combateram como o tenente Davi Jurubeba, João Gomes de Lira e alguns outros. Temos um razoável acervo com depoimentos em vídeo e DVD de mais de trinta cangaceiros, documentários, filmes, livros, cordéis, etc.

Este acervo que resgata a memória de um período histórico que contribuiu para a construção da identidade do povo pernambucano, encontra-se no Centro de Estudos e Pesquisa do Cangaço — EPEC, também criado pela Fundação Cultural Cabras de Lampião. Boa parte do material foi colecionado por Anildomá que começou a nutrir paixão pelo tema ainda menino.

— Desde pequeno coleciono livros, documentos, tudo que pudesse encontrar sobre aquela época, quando o banditismo social era uma forma de reação à miséria e repressão dos latifundiários.

A Fundação Cultural Cabras de Lampião é responsável também pela criação e produção de eventos culturais, como as diversas mostras de Teatro; a Celebração do Cangaço — um tributo a Virgulino que desde o ano de 1994 é realizado no último domingo de julho; apresentações artísticas regionais conhecidas como No Terreiro da Fazenda; O Julgamento de Lampião — o que não aconteceu no século XX e Encontro Nordestino de Xaxado, evento anual realizado sempre no primeiro final de semana de junho; também criou e mantém a Escola de Xaxado Virgulino Ferreira; coordena o Programa de Passeio Turístico Ecológico "Nas Pegadas de Lampião"; criou, no ano de 2001, e administra o Museu do Cangaço, de Serra Talhada, no Sítio Passagem das Pedras, onde nasceu Lampião e reestruturado pelo Programa BNB de Cultura / 2006; criou, em 2007, e administra o Museu do Cangaço/Centro de Estudos e Pesquisas do Cangaço (CEPEC); foi contemplada com o "Prêmio Culturas Populares — Maestro Duda 100 Anos de Frevo", pelo MINC, em 2007; foi transformada em Ponto de Cultura Artes do Cangaço — Programa Cultura Viva / Ministério da Cultura, desde janeiro de 2008; participou da programação da 2ª Semana Nacional de Museus, pelo IPHAN/MINC, em maio/2008.


O reconhecimento pelo trabalho já resultou em mostras, documentários e especiais para TV, a exemplo dos programas Identidade Brasileira, pelo Jornal Nacional (Rede Globo); Clip Cangaceiros, produção Provídeo Natal, direção Tony Maciel; Lampião, uma história de amor e sangue. Globo News, 2006; Matéria/documentário Casa de Lampião e Xaxado, TV Asa Branca/Rede Globo; Lampião — Diário Repórter, da TV Diário; Lampião, Mort ou Vif da TV Hibou Production — TV Rennes — França em 2006; A Moda no Cangaço, produção pernambucana; Alpercata de Rabicho, produção e direção de Petrônio Lorena; I Encontro Nordestino de Xaxado. Especial no Globo Comunidade; Cangaceiros invadem cidades, especial para TV Senac (São Paulo — SP); O Rei do Cangaço, especial para TV Cultura (Rio de Janeiro); A Chegada de Lampião em Olinda, especial para TV Guararapes. O Rei do Cangaço, especial para TV Pernambuco; Diversas matérias e especiais para TV Asa Branca (Rede Globo — Caruaru) e TV Grande Rio (Rede Globo, Petrolina) e o documentário da Rede Globo de Televisão — Regional TV Asa Branca: Virgolino: do Homem ao Mito — 70 Anos da Morte de Lampião.

— Essa valorização de nossas atividades — analisa Karl Marx — é fruto do papel histórico do próprio cangaço. Nenhum outro movimento no Brasil tem a força cultural do cangaço. Temos roupa e indumentária próprias, dança e música próprias, gastronomia, linguagem, expressões, o ambiente é próprio, e por aí vai. Quando lutamos em defesa da cultura do cangaço, não é para falarmos de folclore como uma brincadeira para agosto, mês do folclore, falamos do cangaço denunciando que as feridas sociais que geraram as revoltas sociais no final do Século XIX são as mesmas que ainda hoje, em pleno Século XXI, continuam ardendo, supurando, doendo. É preciso restaurar a história de Lampião na ótica social. Debater o cangaço é discutir nossa identidade cultural, a seca, a falta de terra para quem nela trabalha.

— A situação atual do povo de Serra Talhada não é muito diferente da época de Lampião. Um exemplo são os retirantes que antes fugiam da seca e iam para o Sudeste tentar a sorte e buscar meios de sobrevivência. Hoje, na época da safra da cana-de-açúcar no Sul e Sudeste, diariamente saem ônibus lotados de pessoas que vão trabalhar no corte da cana, e todos sabemos que em situação de escravidão. Ou seja, é mão-de-obra escrava que continua sendo gerada pela concentração de terra e pelo latifúndio. Por isso fortalecemos a identidade cultural do nosso povo para chegarmos à transformação social, que é urgente — completa Anildomá.

Resistência cultural

Quanto à cultura hegemônica e do interesse das classes dominantes e do imperialismo propagada através dos meios de comunicação de massa, Karl Marx diz que sua predominância é um crime contra o povo.

— Essa cultura que aliena e que não diz coisa com coisa, que explora a mulher, a vulgaridade, as deficiências, são altamente prejudiciais ao povo brasileiro. Admiramos as outras culturas — cultura, no sentido verdadeiro — mas primamos pela nossa. É claro que os capitalistas da indústria fonográfica exploram e enganam as massas com uma música vulgar, que impede de se pensar, que afasta da realidade. Os meios de comunicação, em geral, estão a serviço da classe dominante. O pior é que não é um problema de uma determinada região do Brasil, a crise cultural é geral. Porém, não podemos esquecer dos focos de resistência, que se proliferam em cada cidade. Aqui em Serra Talhada fomos nós quem criamos o slogan "capital do Xaxado" e a população assumiu, por que vêem nisso a cara dos cangaceiros, que eram gente do povo. Provocamos um debate acirrado. A elite do sertão — descendentes dos antigos coronéis — continua a estalar o chicote, tentando esconder o nome do Comandante das Caatingas, dizendo que estamos fazendo apologia ao crime e ao banditismo, mas conseguimos derrubar mourões e eles são obrigados a engolir nosso trabalho quando anunciamos, em desafio, dizendo "Lampião é o filho mais ilustre de Serra Talhada". Eles querem que seja o deputado Inocêncio Oliveira! Ficam irados conosco! E ainda provocamos com mais um jargão que soa como um berrante no juízo deles, que diz assim: "quem acha ser loucura investir em cultura, é por que não sabe o preço da ignorância". Aqui em Pernambuco existem vários fóruns de debates acerca da cultura, e isso já é um sinal de esperança.

Mas isso não basta, diz Marx:

— É necessário agir, é urgente a criação de políticas públicas para cultura no município, no estado, é preciso começar a debater nas salas de aula, nos grupos de jovens, nos sindicatos, nas associações de amigos, nos assentamentos dos trabalhadores sem-terra, a cultura deve estar em todo lugar, o tempo todo. Costumamos dizer por aí que a cultura jamais morre porque é povo. Ela renasce a cada ação e atitude do homem — e finaliza:

— Considero fundamental o papel da cultura popular para fortalecer o conhecimento da história e a transformação da sociedade. O nosso trabalho é fazer uma análise crítica do presente tendo o passado como referência, além de trabalhar com a identidade cultural como barreira de defesa contra o imediatismo que o imperialismo utiliza para impor uma "cultura" de vulgaridades. É contra essa falsa cultura de modismos que lutamos. É também contra a apresentação do sertanejo de forma caricatural e deformada, como vemos nesses meios de comunicação que fazem o jogo do imperialismo.

Distante 412 km da capital, com uma população que tem origem entre os camponeses, Serra Talhada, além da pressão das metrópoles, sofre com a opressão das velhas oligarquias latifundiárias que se eternizam no poder e se utilizam do chicote, em todas as formas como ele se apresenta, para oprimir o povo. É nesse cenário que a Fundação Cultural Cabras de Lampião faz prevalecer um legado de muitas gerações, com raízes fortes e profundas. Através da música, das vestimentas, da dança, da linguagem, da gastronomia e dos gestos usados nas suas apresentações, a família comunista e seus companheiros prestam um inestimável papel a todo o povo brasileiro, que resiste e avança, apesar de tantas dificuldades e dos velhos e novos coronéis.

Contatos com o grupo: www.cabrasdelampiao.com.br

Pesquei emA nova Democracia

terça-feira, 22 de junho de 2010

Ausencia injustificável

Flores busca integração à Rota do Cangaço 

por Luis Campos e Luiz de Venera

Se a Rota do Cangaço e Lampião pudesse ser traduzida em um município, certamente seria Flores no Sertão do Pajeú, distante a 395 km da capital Recife.



No início do século XX, Lampião e seu bando de cangaceiros circulavam pelas cidades do Sertão despertando admiração e medo por onde passavam.

A imagem do cangaceiro ajudou a formar o imaginário popular do nordestino. Mais que isto, virou uma marca do povo sertanejo. A rota do Cangaço e Lampião conta um pouco da história dos bandoleiros nômades, a perseguição das volantes policiais e mantém viva a memória de Virgulino Ferreira da Silva, o maior ícone do cangaço, morto em 1938.

A cidade preserva a Usina de Fibra de Caroá no Povoado de São João dos Leites, local que servia de abrigo para lampião e seu bando, de propriedade do coitero, Sr. José Josino de Góes, onde Lampião costumava se abrigar juntamente com seu bando.

Hoje a Antiga Usina abriga a Sra. Inês (foto), neta do coitero, José Josino de Góes, conservando ainda a estrutura original da época. 

Dentre outros acontecimentos destacamos a morte de Zé Calú, morador do Sítio Melancia deste município, que antes de morrer teve seus pertences roubados, onde também sofreu torturas em suas partes genitais, vindo a falecer 30 dias após, no Estado da Bahia. 

Neste mesmo dia, sendo perseguido pelas volantes, tentou se abastecer de alimentos e munição no Sítio Tamburil, sem êxito foi para o povoado São João dos Leites, denominado naquela época de Usina de Caroá de propriedade do Sr. José Josino de Góes (coitero), que abasteceu lampião e seu bando de mantimentos e munição.

Logo após se dirigiram para o Sítio Baixa do Juá,quando descansavam foram surpreendidos pelas volantes unificadas de Pernambuco e Paraíba, comandadas pelo Major Vitoriano e pelo Sargento Zé Guedes, que investiram durante toda a noite em vários confrontos, tendo no último combate Lampião sua maior perda, que foi a morte de seu irmão, Livino Ferreira. Para não ser caçuado pelas volantes, Lampião cortou a cabeça do seu irmão, separando-a do corpo que foi enterrando em uma loca de pedra, na Serra da Baixa do Juá e a cabeça em outro lugar.

Em outra investida de Lampião no Município de Flores, do lado oposto do Rio Pajeú, fontes de informações chegaram ao Cel. Manoel de Souza Santana (Neco Santana), que Lampião se encontrava rodeando a cidade. De pronto ele chamou um de seus empregados onde lhe entregou um bilhete e lhe mandou em direção a São João dos Leites, onde se encontrava uma volante de prontidão.

Sendo que no trajeto entre Flores a São João dos Leites a 3 km foi surpreendido casualmente por três cangaceiros, que lhe interrogaram, pra onde ia. Amedrontado respondeu que estava levando um bilhete a volante a mando de Neco Santana; os cangaceiros tomaram-lhe o bilhete, mandaram o correr e disparam vários tiros causando a sua morte.

Vale salientar que Lampião jamais entrou na cidade de Flores, por respeito a sua madrinha Nossa Senhora da Conceição.

Mais dados relevantes pra que este município possa integrar-se a Rota do Cangaço, projeto este vinculado a vários órgãos Federais e Estaduais, é o fato de Lampião e seu bando terem sido processados nesta comarca pela morte de três homens em 23 de Julho 1926.

Mesmo diante de tantos fatos que relacionamos e dentre outros que aqui não foram relatados, Flores ainda não foi inserida no projeto denominado “Na Rota do Cangaço”.


Fonte: Arquivo da Secretaria de Turismo e Eventos
 
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Pegadas de Lampião no RN

O Grande Fogo da Caiçara e a desconhecida "Missa do soldado" 

Por Rostand Medeiros
Pesquisador


 

Homenagem ao soldado Matos, o herói do “Fogo da Caiçara”.

Segundo os principais autores que trataram do ataque de Lampião a Mossoró, Sérgio Augusto de Souza Dantas, Raul Fernandes e Raimundo Nonato, no dia 10 de junho de 1927, após o bando do cangaceiro Lampião haver cruzado a fronteira potiguar, seguiu em direção norte, visando a cidade de Mossoró.

Próximo à povoação de Vitória, atual município de Marcelino Vieira, atacaram as primeiras casas do sítio conhecido como “Caiçara, ou “Caiçara dos Tomaz”. Entre estas estavam as vivendas de Francisco Tomaz de Aquino e de Antônio Dias de Aquino, onde praticaram saques, ameaças aos proprietários e seus familiares, invasão, depredação e outros crimes. Neste local eles libertaram o agricultor Antônio Higino, que havia sido forçado a guiar o bando por terras estranhas e Antônio Dias de Aquino assume a espinhosa função.
Na Vila de Vitória, às sete da manhã do dia 10 de junho, em meio aos preparativos para a festa do padroeiro do lugar, São Francisco, foi disseminada a terrível notícia “-Corre que Lampião vem aí”.

Em meio ao temível rumor o coronel José Marcelino de Oliveira, líder político local, organiza a resistência. Piquetes são montados, sentinelas armadas são fixadas em pontos estratégicos, buscam-se armas e munições para a defesa e o telégrafo transmite um pedido de socorro à cidade de Pau dos Ferros, distante quase 30 quilômetros. Por volta das nove horas da manhã, chega à vila um automóvel trazendo o tenente Napoleão de Carvalho Agra e alguns outros policiais.

Entre as missões atribuídas a este oficial estava primeiramente organizar a defesa em Vitória, através da criação de um grupo misto de policiais militares, alguns recém-incorporados, e civis da vila. Outra missão era procurar entrar em contato e combater a coluna de cangaceiros. Diante da celeridade, Agra organiza a tropa.
Buscando ganhar tempo, ele solicita mais dois veículos na Vila de Alexandria. Enquanto aguarda a chegada dos automóveis, em meio a informações fornecidas por tropeiros, que no sítio Aroeira o bando teria sequestrado a mulher do proprietário do lugar. o tenente Agra então ordena ao cabo Porfírio que siga a pé com o grupo de combatentes, em torno de vinte homens, pelo caminho que segue em direção a esta propriedade.

 Sob as águas do açude da Caiçara, ou açude do Junco, está o local original do combate de 10 de junho de 1927. 

Em meio ao alarido e a movimentação da tropa mista, um jovem soldado recém-incorporado a Polícia Militar do Rio Grande do Norte, ainda sem uniforme padrão, negro, baixo, natural de Pernambuco, de nome José Monteiro de Matos, em meio a provocações de colegas e de outras pessoas pronunciou:
- Eu morro! Mas não corro!
O grupo de combatentes seguiu marchando pelo caminho empoeirado. Algum tempo depois, com a chegada dos dois veículos vindos de Alexandria, o tenente Agra segue em busca do adiantado grupo de policiais e civis arregimentados. Logo o oficial alcança seus comandados, onde a maioria embarcou nas três viaturas e continuam o trajeto em direção ao sítio Aroeira.

A distância entre a antiga vila de Vitória e a Aroeira é superior a vinte quilômetros. Provavelmente esta aparente e segura distância do bando, associada a uma possível falta de maiores informações da real quantidade de cangaceiros e acrescidos de excesso de confiança da tropa novata, pode ter causado uma distensão na vigilância dos policiais. Pois em pouco tempo, nas terras do sítio Caiçara, os dois grupos combatentes se encontraram de maneira inesperada e o tiroteio tem início.

Os ditos "Defensores da legalidade", levou extrema desvantagem em relação a vanguarda dos cangaceiros. O guia Antônio Dias de Aquino aproveita a confusão para fugir, mas um cangaceiro percebe sua intenção e abre fogo contra o agricultor. O tiro lhe atinge a região torácica e ele cai no chão. Mesmo ferido com gravidade ele consegue sobreviver. Pelo resto de sua vida este sertanejo vai carregar a marca, nunca totalmente cicatrizada, do balaço de fuzil que levou.

Com o desenrolar do combate, as outras frações dos cangaceiros se unem à vanguarda e a relação numérica entre os dois grupos beligerantes faz a balança pender favoravelmente a favor dos bandoleiros.

Memorial do “Fogo da Caiçara”, na Comunidade Junco, em Marcelino Vieira.
A munição começa a escassear junto à tropa de Agra. Diante da situação inevitável o oficial ordena a retirada. O soldado José Monteiro de Matos se encontrava ferido com gravidade, mas continuou atirando. Se ele não escutou a ordem de recuo, se não teve condições de se retirar, ou se não quis abandonar o seu posto de combate e assim da à cobertura necessária para a fuga dos companheiros, isso nunca ficou totalmente esclarecido. O certo é que os outros policiais nunca esqueceram a frase que ele pronunciou ainda na vila de Vitória e, querendo ou não, cumpriu o que disse.

Depois da debandada dos homens comandados pelo tenente Agra, logo os cangaceiros passam a seviciar o corpo do soldado Matos, incendeiam os três automóveis e a linha telegráfica que passava nas proximidades foi cortada. Outro resultado do tiroteio, que durou quase uma hora, foi à morte do cangaceiro Patrício de Souza, o Azulão. Outro membro do grupo de bandoleiros, o cangaceiro Cordeiro, foi ferido com certa gravidade. Azulão foi enterrado em cova rasa e Cordeiro, mesmo ferido, seguiu adiante com o bando.

Durante nossa pesquisa em Marcelino Vieira, percebemos nitidamente que para as pessoas que habitam a região, os fatos mais marcantes em termos da memória sobre a passagem do bando de Lampião, estão relacionados ao combate conhecido como “Fogo da Caiçara” e a valente postura do soldado José Monteiro de Matos. Em vários locais, tanto antes do local do combate, como após, a população local repete exaustivamente a história do “-Eu morro! Mas não corro!”.

 Capela da Comunidade Junco, onde atualmente, sempre na data de 10 de junho, se realiza a “Missa do Soldado”.

Para muitas pessoas que habitam o sertão nordestino, ainda se mantêm muito forte a percepção sobre a postura que alguém assume diante de questões de sangue, honra e valentia. Quando um cidadão é marcado por alguma violência e “lava a honra com sangue” é exaltado. Quando, por exemplo, não vinga a morte de um parente, ou foge desta "responsabilidade", é execrado. Estes pontos continuam presentes no dia a dia, mesmo diante da crescente modernização e acessibilidade a variados meios de informações.
No passado então estas características eram ainda mais fortes.

Não foi surpresa que membros da comunidade local, no dia 10 de junho de 1928, apenas um ano após o combate na região da Caiçara, decidissem realizar uma missa em honra a memória do valente militar. Segundo Francisco Assis da Silva, proprietário de um restaurante na comunidade do Junco, as margens do açude da Caiçara, foram seus avôs, junto com outras pessoas da região, que de forma espontânea e apoiadas pelas lideranças locais deram início a um singelo ato religioso pela alma do soldado.
No começo ele ocorria no mesmo ponto onde se desenrolou o combate. Segundo o nosso entrevistado, ele recorda quando criança, que o evento sempre atraiu um número considerável de pessoas, passando a ser conhecida como “A Missa do soldado”.


 Aspecto atual da cidade de Marcelino Vieira, antiga comunidade conhecida como Vitória, na Zona Oeste do Rio Grande do Norte. 

Para o Secretário de Cultura de Marcelino Vieira, o professor Romualdo Antônio Carneiro Neto, apesar da inexistência de documentação comprobatória, os variados relatos coletados no município apontam que a primeira cerimônia foi realmente realizada em 1928 e continua até hoje sem interrupções. Romualdo, árduo pesquisador da história local, comenta que entre os grandes incentivadores para a existência e a manutenção anual desta singela cerimônia, figuram os comerciantes João Medeiros e seu filho Antônio, já falecidos.
Com o passar do tempo à missa continuou crescendo e se tornou uma das mais importantes tradições religiosas de Marcelino Vieira e da Comunidade do Junco. Até mesmo a classe política, tanto a nível local, quanto estadual, diante do crescimento em número de participantes e da repercussão positiva do evento religioso e histórico, buscou angariar simpatia junto à comunidade e aproveitar a concentração de eleitores fora do período de votação.

No dia 10 de junho de 1957, quando o “Fogo da Caiçara” e a morte do soldado Matos completavam trinta anos, o Rio Grande do Norte era então governado por Dinarte de Medeiros Mariz, sendo ele o responsável pela edificação de um marco para apontar o local do combate. Neste monumento foram fixadas uma cruz e uma placa de mármore, onde está escrito; “Aqui morreu a 10-06-1927, em luta contra os cangaceiros de Lampião, o soldado José Monteiro de Matos. Homenagem do governo do Rio G. do Norte. Sr. Dinarte Mariz”. Este marco passou a ser conhecido então como “O Cruzeiro do soldado”.

Em 1981 foram iniciadas as obras para a construção do açude da Caiçara. Diante da inundação da área original do tiroteio, e como a Comunidade do Junco já possuía uma capela, foi para junto deste templo que os habitantes removeram o marco, o cruzeiro e a placa comemorativa. Desde então “A Missa do soldado” é realizada neste local.

Nos primeiros tempos, ainda na outrora Vitória, a cerimônia tinha início na igreja de Santo Antônio, na sede do município, onde uma procissão percorria os quase seis quilômetros que separam Marcelino Vieira, do local do combate. Era normal ocorrerem à apresentação de músicos locais e queima de fogos de artifício. Atualmente foi abolida a procissão, mas a missa permanece, cada vez mais atraindo um número maior de participantes. Além das questões envolvendo o heroísmo e valentia do soldado Matos, uma das razões para este evento conseguir completar em 2010 seus oitenta e três anos de realização ininterrupta, segundo as pessoas com quem tivemos oportunidade de dialogar em Marcelino Vieira, está relacionada à proximidade da "Missa do Soldado" com a principal data religiosa da cidade, a festa do padroeiro Santo Antônio.

 Da esquerda para direita: Secretário de Cultura de Marcelino Vieira, prof. Romualdo Antônio Carneiro Neto, prof da rede municipal de ensino Ênio Almeida, o comerciante Francisco Assis da Silva, descendente dos primeiros incentivadores e organizadores da “Missa do Soldado” e o autor deste artigo.