quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Matéria da revista de História da Biblioteca Nacional

Rosas do cangaço
João de Sousa Lima lança livro sobre Maria Bonita e critica o descaso com a preservação da memória deste episódio histórico.


Por Adriano Belisário


Andarilho do sertão, João de Sousa Lima já colheu inúmeras histórias sobre o cangaço em seus 15 anos de pesquisa sobre o tema. Focando nos depoimentos orais, o historiador entrevistou moradores da região que conviveram de perto com personagens míticos do banditismo nordestino, como Lampião e Maria Bonita, tema de seu último livro.

Recém-lançada, a obra ‘Maria Bonita - Diferentes contextos que envolvem a vida da Rainha do Cangaço’ reúne textos de João de Sousa e outros autores, que trazem fatos inéditos e análises sociológicas e linguísticas sobre o cangaço. Um dos objetivos é desfazer alguns dos equívocos que cercam a imagem de Virgulino Ferreira e sua esposa, como a história sobre um campo de futebol que teria sido construído por Lampião no Raso da Catarina (BA). “Foi um historiador que encontrou um campo de pouso feito pelo Petrobras nos anos 60 para exploração de petróleo e disse que Lampião jogava bola lá sem nenhum fundamento”, explica.


 
Apesar de Maria Bonita atrair os holofotes, João de Sousa também pesquisa sobre outras rosas do cangaço. Não foram poucas as mulheres que se entregaram à vida nômade no sertão e mostraram que nem só de bala, sangue e poeira foi feita esta história. É o caso de Durvinha, esposa de Virgínio, um dos mais belos cangaceiros.

“Depois que ele faleceu, ninguém sabia mais o que ela tinha feito. Saí em busca e a encontrei vivendo com Moreno em Minas Gerais. Ele era um companheiro leal de Virgínio e assumiu o bando de cangaceiros e a esposa do chefe após sua morte. Durvinha morreu apaixonada por Virgínio e Moreno não achava ruim, pois também o admirava”, relata João de Sousa.

Se Virgínio destacava-se por sua beleza entre os homens, o posto de Miss Cangaço poderia ir para Lídia Pereira de Souza, descrita como a mais bonita dentre as mulheres do sertão naquela época. Ao conhecer um irmão de Lídia, ainda vivo, João de Sousa chegou perto de revelar ao mundo o rosto da mais bela cangaceira. “Ele me deu um baú que poderia ter fotos dela, mas estava tudo carcomido por cupins. Chegamos tarde demais”, lamenta o historiador, que irá transferir todo acervo de sua pesquisa sobre o assunto para o Museu Regional do Sertão, a ser inaugurado por volta de 2012 na cidade de Paulo Afonso (BA).

Enquanto o Museu não sai, o historiador filma um curta-metragem acerca do assunto e organiza este ano o II Seminário Internacional sobre Maria Bonita, uma espécie de preparativo para a terceira edição, que ocorre em 2011, centenário do nascimento de Maria Bonita. Porém, sem um grande reconhecimento público da importância de preservar a história do cangaço, esta conservação é feita através de iniciativas isoladas e limitadas, como se vê no caso da fotografia de Lídia Pereira. “Se tivessem mais pessoas envolvidas nisto, a história do Brasil ganharia muito mais”, aposta João de Sousa.


 
Esta imagem não consta na matéria original, foi sugerida por Ivanildo Silveira para melhor ilustra-la.

Marcas da Passagem de Lampião pelo RN

A História da Capela de São Sebastião

Por Rostand Medeiros
rostandmedeiros@gmail.com

Recentemente tive a oportunidade de concluir um amplo trabalho de catalogação sobre o que ficou em termos de memória e de patrimônio histórico, relativo à passagem do bando de Lampião pelo Rio Grande do Norte, entre os dias 10 e 14 de junho de 1927, cujo principal objetivo era o ataque a cidade de Mossoró.


Apoiado pelo SEBRAE-RN, este trabalho é parte integrante do "Território Sertão Apodi - Nas Pegadas de Lampião", onde o âmago deste projeto está focado na idéia do desenvolvimento territorial de diversos municípios potiguares. Sua fonte de inspiração gravita na estética do cangaço e do sertão, onde o projeto busca criar novos produtos e oportunidades de negócios com base na idéia de "culturalização" da economia, do turismo e do artesanato, ou seja, usar a cultura para agregar valor aos negócios e às atividades econômicas. Como é normal por parte do SEBRAE-RN busca igualmente desenvolver a região por meio do estímulo ao empreendedorismo, à capacitação, à qualificação e à gestão dos negócios, sempre valorizando as vocações e atividades já existentes no território.

No meu caso especifico, a minha participação neste projeto foi buscar de todas as formas percorrer o mesmo caminho originalmente palmilhado por estes cangaceiros. Para traçar esta rota, além das obras escritas sobre a história da passagem do bando de Lampião pelo Rio Grande de Norte, fiz uso de materiais históricos existentes nos arquivos do Rio Grande do Norte Paraíba e de Pernambuco.

Outro recurso para traçar esta rota foi a utilização de mapas elaborados pelo Exército Brasileiro na década de 1960, em escala de 1:100.000, que tinham como principal valor, apontarem as velhas rotas entre as propriedades rurais. Buscamos as informações existentes neste material mais antigo, com a utilização de sistema G.P.S - Global Position Systen,. Isso tudo sem desprezar as informações das populações destas localidades, que parecem já terem nascido com um G.P.S. enbutido na cabeça, mesmo em muitos casos ainda utilizando como medida de distância a velha e boa "légua". Após esta fase, partimos para os contatos com órgãos municipais, em busca de apoio e iniciamos o trabalho de campo.

Após seis meses, foram percorridos, entre idas e vindas, mais de 4.000 quilômetros, onde visitamos 82 sítios, fazendas, comunidades e cidades. Foram entrevistadas 123 pessoas e obtidas mais de 2.185 fotografias. Em grande parte deste trajeto, a motocicleta se mostrou um aliado muito mais eficiente para se alcançar estes distantes locais.

Os resultados foram extremamente satisfatórios. Apontamos em nosso relatório para o SEBRAE-RN a existência do patrimônio histórico (casas atacadas, locais de combates, etc.), de locais utilizados em prol da memória relativa a estes fatos e os apontamentos transmitidos pelos descendentes daqueles que vivenciaram estes episódios, tentando conhecer o que ficou da passagem de Lampião.

Um dos aspectos mais interessantes não aponta apenas para os relatos de lutas, resistências, arroubos de valentia, covardias, ou sobre o alivio em relação à fuga dos cangaceiros. Foi possível encontrar em alguns locais, interessantes situações originadas pelo medo da passagem de Lampião, que geraram manifestações que se perpetuam até hoje.



Comento especificamente sobre uma ermida encontrada no alto de um promontório denominado Serra da Veneza, próximo ao sítio Garrota Morta, na fronteira entre os municípios de Antônio Martins e Pilões. Nesta elevação granítica, que segundo o mapa da SUDENE chega a atingir a altitude de 555 metros, existe uma capela edificada em razão do medo provocado pela passagem do bando.


Primeiramente havíamos recebido uma informação que este pequeno templo fora erguida pelo fazendeiro Manoel Barreto Leite, conhecido na região como "Seu Leite", proprietário de um sítio conhecido como Veneza e localizado próximo a esta serra. Esta informação dava conta que todos os anos, a família do proprietário rural mandava rezar uma missa como forma de marcar mais um aniversário da libertação de Barreto do julgo do bando. Tanto a construção da capela como a missa rezada anualmente eram parte de uma promessa que devia ser cumprida pela família Leite.


Na tarde do dia 11 de junho de 1927, um sábado, quando empreendia uma viagem, na altura do sítio Corredor, a cerca de dez quilômetros de sua propriedade, o fazendeiro Manoel Barreto Leite, foi capturado pela fração do bando comandado por Sabino. Sua libertação foi orçada em cinqüenta contos de réis. O mesmo só foi libertado em Limoeiro, atual Limoeiro do Norte, no Ceará, após a derrota do bando em Mossoró.

Manoel Leite era um homem conhecido na região, que possuía bons recursos financeiros e extremamente respeitado, por esta razão a existência da capelinha branca no alto da serra homônima de sua propriedade, ficou associada a uma promessa feita pelo fazendeiro seqüestrado.

Mas conforme seguíamos o trajeto, ao perguntarmos sobre este caso, percebemos o desconhecimento das pessoas da região em relação a esta versão. Buscamos apurar os fatos e no sítio Garrota Morta localizado nas proximidades desta serra, encontramos uma senhora chamada Maria Eugenia de Oliveira (Foto) que esclareceu a verdade sobre esta capela.

Esta senhora, pequena na estatura, mas é forte, voluntariosa, possui uma voz firma e olha direto no olho do interlocutor. Maria Eugenia na é daquelas de ficar em casa vendo novelas, já está na faixa dos cinqüenta anos, mas todo santo dia trabalha voluntariamente como animadora da congregação católica local. Participando ainda como catequista e ministra da eucaristia. Há alguns anos atrás, por sua própria iniciativa, em meio a este trabalho religioso ela iniciou uma pesquisa histórica com as pessoas mais idosas da sua região, onde apurou entre outras coisas a origem dos nomes dos logradouros, as histórias relativas as famílias da região e os fatos históricos mais representativos do lugar. Mesmo anotando estas informações em um caderno simples, através de sua louvável e comovente iniciativa foi possível conseguir as informações sobre a origem desta capela.


Segundo Maria Eugenia foram as idosas moradoras conhecidas como "Francisca do Uru" e "Francisca da Garrota Morta", que lhe narraram os fatos que a comunidade local considera um verdadeiro milagre.

Na noite de 10 de junho de 1927, quando Lampião e seu bando se aproximavam da fazenda Caricé, a cerca de oito quilômetros da Garrota Morta, em meio às terríveis notícias, três fazendeiros da região procuraram refúgio junto às rochas da base desta elevação. Essas famílias eram comandadas respectivamente por Manoel Joaquim de Queiroz, proprietário do sítio Garrota Morta, Vicente Antônio, do sítio Cardoso e Francisco Felix, que habitava na pequena zona urbana que formava a Vila de Boa Esperança, atual cidade de Antônio Martins.

Durante o período que lá permaneceram, as três famílias não se encontraram e sequer se viram em nenhum momento. Em meio a aflição, estes homens solicitaram junto ao mesmo santo, São Sebastião, que os protegessem contra a ação dos cangaceiros.

No dia posterior o bando chegou próximo a Serra da Veneza. Os cangaceiros ainda palmilharam algumas casas edificadas dentro dos limites da propriedade Garrota Morta, mas não chegaram próximo aos esconderijos no pé da serra.

Em meio ao sentimento de alivio que crescia, as três famílias que não se viam choravam de alegria e rezavam agradecendo. O mais interessante, segundo Maria Eugenia, mesmo sem existir nenhuma espécie de combinação, os três homens elegeram a mesma penitência; galgar a Serra da Veneza, erguer um oratório e ali depositar uma imagem em honra a São Sebastião.

Logo os fazendeiros e seus familiares foram a Vila de Boa Esperança a treze quilometros da serra. Como muitos moradores da região, eles foram agradecer na capela do lugarejo, edificada em honra a Santo Antônio, o fato de nada de pior haver ocorrido. Neste local os três homens se encontraram, eram amigo, e logo debatiam sobre os fatos vividos. Para surpresa de todos os presentes, compreenderam que havia ocorrido uma interseção divina com relação a eles terem tido as mesmas idéias e os mesmos pensamentos.

Em pouco tempo eles adquiriam conjuntamente uma pequena imagem de São Sebastião e logo galgavam a Serra da Veneza, para unidos edificarem um pequeno oratório. A ação dos três fazendeiros e as estranhas coincidências chamaram a atenção das pessoas na região. Outros penitentes passaram a subir a serra para pagar promessas. Mais algum tempo a comunidade da Garrota Morta já organizava uma singela procissão e não demorou muito para que o pároco local também viesse participar. Com o passar do tempo começou a ocorrer a participação de pessoas de outros municípios.

Em 1948, vinte e um anos após a passagem de Lampião e seu bando e do pretenso milagre, treze famílias da comunidade ergueram treze cruzes, formando uma via sacra entre a base da serra e o local do oratório. Cada uma destas cruzes tinha dois metros de altura e continha uma placa da família doadora. Percebendo o crescimento desta manifestação, conjuntamente estas pessoas deram início a construção da atual capela, em meio a uma intensa confraternização.

A capela foi construída em um ponto mais abaixo em relação à posição original do antigo oratório. Uma nova imagem de São Sebastião foi levada em procissão e se uniu a que ali havia sido colocada primeiramente.


Atualmente a participação popular só cresce. A cada dia 20 de janeiro, inúmeros ex-votos são colocados como pagamento de promessas, velas são acesas e fiéis de vários municípios vêm participar subindo a serra. Em meio a um intenso foguetório, sempre as primeiras horas da manhã, um público que atualmente gira entre 400 e 500 pessoas, comparece ao sítio Garrota Morta e com a tradicional fé característica do nordestino, sobrem a serra.

O sítio Garrota Morta esta localizado na área territorial do município de Antônio Martins, as margens da estrada que liga as cidades de Pilões e Serrinha dos Pintos. O dia da nossa visita a região estava particularmente quente, em meio a uma região já bem quente. Além do mais eram uma hora da tarde e nosso tempo era curto. Mas sei que vou voltar e subir esta serra.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Convite

Aos sócios e amigos da SBEC 
O Centro Cultural do Banco do Nordeste promove hoje (23/2/2010) dentro do Projeto Ouvi Dizer, leituras dramatizadas do ator Odilon Camargo em torno dos cordéis de Arievaldo Viana, escritor, poeta sócio da SBEC. O evento terá início as 15:30hs no Espaço Cultural do Banco do Nordeste (Rua Floriano Peixoto, 941, Centro. Fortaleza-CE)
Maiores detalhes, inclusive com entrevista de Arievaldo Viana nesta matéria abaixo colhida no Caderno 3 do jornal Diário do Nordeste.

Cordéis encantados

Todo cordel é encantado, mas na tarde de hoje as poesias de Arievaldo Viana estarão ainda mais, em leituras dramáticas de Odilon Camargo.

 
Odilon camargo promove o reencantamento dos cordéis de Arievaldo Viana em leituras dramatizadas que acontecem hoje à tarde, no Centro Cultural Banco do Nordeste. Linguagem tradicional da literatura oral, o cordel continua tendo sua expressividade atualizada.

Apesar da atualidade que o cordel ganhou graças a uma única banda que o levou ao universo da música pop, a pernambucana Cordel do Fogo Encantado, ainda é muito difícil entender como a linguagem sobrevive aos tempos. Perdido na imensidão de apelos das mídias digitais, o folheto que melhor traduz a oralidade da identidade nordestina, assim como a cantoria de viola, parece estar sempre produzido para os turistas, pouco valorizado, de fato, pelos leitores locais, tanto os de mais idade como os que só ouvem falar dele através da banda de Lirinha. No entanto, a atividade segue seu caminho. E busca novas formas de manifestar-se. O que não é bem o caso da aproximação com a dramatização, que, embora pouco difundida em nosso Estado, é uma destas alternativas mais tradicionais. Então, as leituras dramáticas que o ator Odilon Camargo promove hoje à tarde, no Centro Cultural Banco do Nordeste, dentro do projeto Ouvi Dizer, em torno dos cordéis de Arievaldo Viana Lima, podem ser uma forma "nova" para o público cearense reativar este contato.


Dedicado à revitalização da palavra verbal, o projeto Ouvi Dizer também busca incentivar a leitura das obras interpretadas. O que pode representar uma prática bastante recomendável, não apenas para a disseminação da literatura de cordel, mas para a apropriação da linguagem por outras como a música, o teatro e até o cinema. As leituras dramatizadas, inclusive, irão fazer parte de um acervo sonoro a ser disponibilizado pelo Centro Cultural Banco do Nordeste. Já passaram pela dramatização de Odilon textos de José de Alencar, Quintino Cunha, Leonardo Mota e José Albano.


Trajetória bonita


Poeta popular, radialista, ilustrador e publicitário, o quixeramobiense Arievaldo Viana é, aos 43 anos, ao lado de seu irmão Klévisson Viana e de nomes como Rouxinol do Rinaré, Zé Maria de Fortaleza e Anchieta Dantas, um dos mais importantes difusores, no Estado, dos encantamentos em forma de cordel. Folhetos de que ele se aproximou ainda na infância, quando sua avó, Alzira de Sousa Lima, escolhia as rimas e métricas da linguagem para promover sua alfabetização. A verve poética foi exercitada desde então, mas os primeiros cordéis só foram publicados na década de 90. Desde então, foram mais de cem, o mais famoso, talvez: "A Peleja de Zé Limeira com Zé Ramalho da Paraíba", com apresentação do próprio cantor e compositor.


Com Klévisson, e depois Rouxinol, Zé Maria, Geraldo Amâncio e Evaristo Geraldo, Arievaldo criou o Acorda Cordel na Sala de Aula, projeto hoje apoiado pelo Ministério da Educação, que utiliza a poesia popular na alfabetização de jovens e adultos. Com edições em livro, obras como "A ambição de McBeth e a maldade feminina" e "A Raposa e o Cancão" foram indicadas pelo Ministério para o Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE). Em 2005, "Acorda Cordel..." virou um livro-CD, com participações de Mestre Azulão, Geraldo Amâncio, Zé Maria de Fortaleza, Judivan Macedo e Gonzaga da Viola. "São 10 poemas musicados. Cinco são de minha autoria. Os outros são de Rogaciano Leite, Alberto Porfírio, Zé da Luz e outros poetas. Além do CD, saiu também uma caixa com 12 folhetos de diversos autores. Hoje o cordel está gozando de excelente aceitação", considera.


Membro da Academia Brasileira de Cordel desde 2000, Arievaldo já difundiu o cordel em vários estados e tem inédito "A verdadeira história do navegador João de Calais" (FTD), "Mala da Cobra - Almanaque Matuto" e ainda uma obra sobre o maior dos cordelistas, o paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Ele também estará, no próximo dia 8, em Salvador, falando sobre a presença de Maria Bonita no cordel, nas comemorações pelo centenário da cangaceira, a convite de Vera Ferreira, neta de Maria e Lampião. Por enquanto, é conferir o palavreado de Arievaldo ganhando outros sons encantados pela boca do Odilon.


Entrevista - Arievaldo Viana*
"Mudam os formatos, mas a arte de contar histórias não morre jamais"
Você já lançou mais de 100 cordéis. Como o cordel sobrevive nos dias de hoje, no seu caso e de modo geral?
- A literatura de cordel, ao longo de sua existência, enfrentou várias crises. No tempo de Sílvio Romero, há mais de 100 anos atrás, já se falava na morte do cordel e, no entanto, aí está ele, firme e forte. A arte de contar histórias não morre jamais. Mudam os formatos. E o cordel está buscando novas formas. Além do folheto tradicional, estamos apostando também no Cordelivro, um cordel ilustrado, no formato de livro infanto-juvenil. A aceitação está sendo muito boa. Os locais de se vender cordel também estão mudando. Antigamente ele era comercializado nas feiras, mercados, ou no interior de trens. Agora é comum encontrá-los nas livrarias e também nas bancas de revista.


Por que as dramatizações dos cordéis são mais comuns em outros estados?
- Agora mesmo, um folheto da dupla Klévisson-Rouxinol ganhou uma bela dramatização, que foi premiada no Festvale (Festival de Teatro do Vale do Jaguaribe). É uma biografia em versos de Lampião e Maria Bonita. Em 2006, o Grupontapé de Teatro, de Uberlandia-MG, recebeu um prêmio da Funarte com a adaptação de um folheto meu, "O Batizado do Gato". Essas adaptações para o teatro estão se tornando cada vez mais frequentes, sendo uma ótima maneira de popularizar os nossos textos.


O que o público poderá esperar desta experiência?
- O Odilon Camargo é um ator fabuloso. Ele consegue enxergar coisas nas entrelinhas que um leitor comum geralmente não vê. Ele irá fazer a interpretação de alguns textos selecionados, no meio de 10 livros e mais de 100 folhetos. Em dado momento, ele interage com o público, e a coisa pega fogo. Vou levando também alguns folhetos para distribuir gratuitamente com a plateia, a fim de estimular uma leitura coletiva em voz alta. Com certeza será um espetáculo muito bonito.


Cordelista e escritor


Mais informações
Ouvi Dizer - Leitura dramatizada de Odilon Camargo em torno da obra do cordelista Arievaldo Viana Lima. Hoje, de 15h30 às 16h30, no Centro Cultural Banco do Nordeste (Rua Floriano Peixoto, 941, Centro). Grátis. Inscrições para a programação do centenário de Maria Bonita, em Salvador, podem ser feitas até 4 de março. Esclarecimentos: Acorda Cordel e Miolo de Pote 
Links para a matéria 

Por Henrique Nunes / REPÓRTER


Abraços
Angelo Osmiro
Escritor e presidente da SBEC

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Urgente

SBEC - Nota de Solidariedade
 

Com intenção de nos somar e solidarizar, sem devida licença ripamos a imagem da Sra. Maristela do blog do Cariri Cangaço, assim como nota vinculada neste para também prestar nossos votos de plena saúde à companheira do confrade Aderbal Nogueira. Severo nos perdoe qualquer aparente incoveniencia.

Att Kiko Monteiro

"A SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, representada por seu Presidente Ângelo Barreto Osmiro, traz sua solidariedade à família de seu Diretor, Aderbal Simões Nogueira, neste momento de reestabelecimento da saúde de sua esposa e grande companheira Maristela Mafuz. Em nome da SBEC e de todos os sócios renovamos os nossos votos de estima e consideração, desejando que possam receber as Bençãos dos Céus e que no mais breve espaço de tempo possível possamos ter Maristela à frente de suas atividades profissionais e familiares".
Ângelo Osmiro
Presidente da SBEC

Terror em Serrita

O combate da Fazenda Ipueiras 
Por Ivanildo Silveira
No dia 3 de Fevereiro de 1927, na fazenda Ipueiras, naquela época município de Leopoldina, (hoje Parnamirim) hoje é território município de Serrita/PE, no Alto Sertão, ocorreu uma grande batalha. De um lado a família do Cel. Pedro Xavier e do outro Lampião com seus meninos.
Ipueiras, de certo modo, possuía uma situação privilegiada, de solo fértil, água; lá se produzia cana-de-açúcar, para fazer moagens, arroz, batata e demais produtos da terra destinados á alimentação da população, a pescaria nos açudes e a atividade agropecuária. O excedente era comercializado na feira semanal localizada na Vila de Ipueiras, encravada na Fazenda de mesmo nome.
O Coronel, homem flexível, hospitaleiro e generoso, exerceu também o cargo de juiz interino de direito na vacância do titular da comarca de Leopoldina. Morava no casarão da Fazenda Ipueiras e teve numerosa prole. Os descendentes, os familiares dos Xavier, uns moravam na Fazenda e outros na Vila de Ipueiras – uma incipiente urbanização com um pequeno mercado semanal, uma escola, uma agência de correio, farmácia, mercearia, padaria, loja, que na sua maioria, pertenciam aos próprios membros da família, uma espécie de feudo.

Cel. Pedro Xavier

Na década de vinte, do século passado, eram comuns as andanças de bandos de cangaceiros, por todo o nordeste. Lampião perambulava pelas caatingas, assaltando, matando, extorquindo, pequenos, médios e grandes proprietários de terra.

De início, Lampião e o seu bando passaram em “paz” pela Ipueiras, em 26 de maio de 1925, quando o Cel. Pedro Xavier não fugindo da costumeira hospitalidade mandou fornecer-lhe comida, roupas e lenços tirados da loja de um de seus filhos Gumercindo.

Naquela oportunidade, as filhas e as noras do Cel. Pedro Xavier foram proibidas de se apresentarem para conhecer Lampião e seu bando, para evitar que os cabras cometessem algum atrevimento.

O Cel. Pedro Xavier, um tanto constrangido de ter dado guarida a Lampião, pois soube de algumas bobagens que seu bando andou fazendo com outras pessoas dali, firmou o propósito diante da família, de que, na próxima vez que ele passasse, o "receberia na bala". Para isso, mandou um recado para Lampião:
“Não volte mais à Ipueiras, do contrário, será recebido à bala”.
Ao tomar conhecimento do fato, Lampião mandou a seguinte resposta:
“Quando passei por Ipueiras, respeitei você e sua gente, agora com seu recado atrevido a coisa vai mudar, prepare-se que vai haver choro".
O momento fatídico estava para acontecer a qualquer instante. Até que no dia 03 de Fevereiro de 1927, alguns membros da família do Coronel Pedro Xavier estavam reunidos na casa da fazenda para almoçar, esperando os demais que se encontravam na Vila de Ipueiras. Encontravam-se na casa sede da fazenda apenas: a matriarca Josefa Xavier (esposa do coronel); José Saraiva Xavier (Dezinho), um dos baluartes do combate; Aparício Xavier que na época era seminarista em Petrolina-PE, e estava de férias na Fazenda; Mário Saraiva Xavier, o mais novo dos filhos e ainda menino; Francisca Xavier (nora do Coronel); Pedro; e amigos da família como Napoleão Pereira e Naninha (esposa); e Tosinha ( de Jardim-Ce); Manoel Preto (afilhado de d. Josefa) e Pedro Dama, este, por sinal, cego de um olho, homens de confiança da família.

Estavam na Vila (povoado de Ipueiras) na hora do cerco e foram subindo para a casa da fazenda, atirando: o Coronel Pedro Xavier, o patriarca da família, Gumercindo, Antonio, Aristides e Amélia (filhos do coronel), João Sampaio Xavier (genro e sobrinho), Luiz Teixeira (genro), Pedro Saraiva (genro). Dos filhos só faltou Francisco Xavier Sobrinho, filho mais velho do coronel Xavier, que estava em um fazenda distante, e não chegou a tempo.

Dezinho Xavier "herói do combate de Ipueiras".

De repente, se ouviu um tiro. Dezinho Xavier teve a impressão de ser tropa do governo, e indagou: " Quem Vem ai, é da polícia?" . A resposta foi um tiro disparado pelo cangaceiro ‘Tempero” que vinha á frente do grupo. Por um triz não alvejou Dezinho, que, sem perda de tempo, respondeu ao tiro, atingindo o aludido bandoleiro á altura de uma das orelhas, que caiu ali, sem vida.

Lampião e seus cabras iniciaram o grande tiroteio, com mais rancor, diante da morte de um dos integrantes do grupo. Verdadeira batalha estava sendo travada, entre os Xavier e os Cabras de Lampião, cujos tiros quebraram jarras d´agua, derrubaram paiol e jirau de queijo. Dezinho Xavier, Manoel Reto e Pedro Dama seguraram o fogo de frente evitando que Lampião chegasse ao terreiro da casa, enquanto esperavam pelo pessoal que estava na Vila de Ipueiras, mas que já vinham ás carreiras para sustentar o fogo.

Os heróis filhos do Cel. Pedro Xavier.

Enquanto o combate prosseguia, com tiros de ambos os lados, as mulheres rezavam e os homens, não tinham tempo nem de urinar. Napoleão Pereira, em alto e bom desafiava Lampião, dizendo: “ Cabra safado, um bandido como tu, eu te dou de peia no umbigo, você está falando com Napoleão Pereira do Jardim do Ceará. No meio da aflição, Manoel Preto acalmava Dona Zefinha;
“ Madrinha Zefinha, enquanto a senhora ver este negro aqui, só tenha medo dos castigos de Deus “.
Lampião trazia como refém, um camponês, amigo dos Xavier, Sr. Vicente Venâncio, além de Pedro Vieira Cavalcante da cidade de Jardim-CE, tendo exigido da família desse último, 5 contos de réis para soltá-lo.

Aspecto atual da fazenda:
A hora crucial se aproxima, o quadro torna-se dramático e nunca se sabia como iria terminar tudo aquilo, apesar da resistência dos Xavier se fazer forte, com poucos homens lutando e uma coragem inusitada.
Com a chegada, na casa da Fazenda, dos que se encontravam na Vila de Ipueiras, entre eles, destacou-se Gumercindo Xavier, homem de caráter admirável e coragem a toda prova, a reação aumentou.

Outro ângulo da Ipueiras de Hoje.

Só que os recursos se exauriam, a cada minuto. O Cel. Pedro Xavier temendo a munição se acabar e Lampião ir ganhando terreno em direção á casa da fazenda, e ai seria o fim da epopeia, mandou seus serviçais selar cavalos e avisar aos parentes e amigos, a exemplo do Coronel Chico Romão.

Segundo depoimento de um dos reféns de Lampião, Sr. Vicente Vitorino, no momento do tiroteio, “Havia se quebrado o rosário de Lampião”, e, como os cangaceiros eram por demais supersticiosos, o rei do cangaço manifestou-se receoso com o fato: era mal sinal num combate, quebrar-se um rosário. Por sua vez a bala certeira dos Xavier havia matado o cangaceiro “Tempero”.

Lampião ficou cabreiro com o episódio, e, disse:
"Os homens estão fortes, o rosário quebrou e já perdemos nosso melhor fuzil, referindo-se á perda do cangaceiro “Tempero” ( que era um dos melhores atiradores do grupo), vamos dar o fora “.
A localização da Fazenda Ipueiras, dista cerca de 20 kms da cidade de Serrita/PE. Naquele dia Lampião estava endiabrado. Como a esposa do refém Pedro Vieira Cavalcante *(de Jardim-CE) não pagou o resgate exigido pelo facínora, ali mesmo, na Faz. Ipueiras, ele foi morto. O tenebroso bandido, também, matou um popular, um rapaz jovem chamado Lino, que ia cavalgando num jumento, nas proximidades.

Na foto, consta na cruz, a data de 02/02/1927, 
porém a literatura cangaceirista informa que o combate ocorreu no dia 03. (????)

O refém Vicente Vitorino teve melhor sorte. Lampião se dirigiu ao mesmo e disse-lhe:
“ Velho, se você nos desviar de um Piquete dos Xavier, eu lhe solto, se não você morre “.  
E, então, o camponês sabiamente, os conduziu por percursos estranho aos percorridos normalmente pelos Xavier, e, lá longe, na Macambira, Lampião soltou o velho que voltou á casa dos Xavier e narrou todo o acontecido.

Logo após o combate, chegaram á Fazenda Ipueiras, o Coronel Chico Romão, de Serrita, com 50 homens, armas e munições, Aparício e Alfredo Romão com 30 homens; Luiz Pereira de Jardim-CE (genro do Cel. Pedro Xavier) com 30 homens. Em face do acontecido, as filhas do coronel Pedro Xavier, a idéia foi de Adalgisa ergueram uma Capela na fazenda, cujo patrono é São José.

Aspecto (escombros) de uma Capela existente, atualmente, na Fazenda

OBS: Agradeço a gentileza do amigo pernambucano Gil, o qual, em viagem á cidade de Serrita/PE, nos brindou a todos, com as Fotos, acima expostas. A esse confrade, meus sinceros agradecimentos.

Um abraço a todos
IVANILDO ALVES SILVEIRA
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Gêneros

Cangaço em quadrinhos
 

A canga é uma peça de madeira que prende o boi à carroça ou à moenda facilitando o uso de sua força para trabalhos variados. Dito isto, fica fácil pensar nos cangaceiros como homens revoltados com a "canga" imposta por uma vida de dores e sofrimentos, ou em homens aptos a impor por meio da força bruta a "canga" sobre outros. A entrega dos homens ao banditismo no sertão brasileiro deu-se inicialmente em meados do século 18, num contexto social onde imperavam a falta de perspectiva, a miséria e a fome física aliada à de justiça. Esse cenário cheio de contradições e possibilidades inspirou (e inspira até hoje) inúmeros romances, filmes e histórias em quadrinhos.

É interesante ver o fascínio que o cangaço (como tema e gênero notadamente brasileiro) exerce sobre artistas de diferentes origens e culturas, desde o alemão Hermman aos italianos Sérgio Bonelli e Hugo Pratt. Seja pela crueldade, seja pelos ares de revanchismo que assumem, as ações dos bandoleiros do sertão nordestino adquirem tons e formas distintas em cada versão artística proposta. Gedeone Malagola, por exemplo, quadrinizou as aventuras de um cangaceiro inspirado pelo ator Milton Ribeiro, do filme "O Cangaceiro" de 1954 que teve roteiro de Raquel de Queiroz. O paraibano Emir Ribeiro, em 1979, criou Severino, um agricultor que entra para o cangaço no intuito vingar sua falecida esposa morta nas mãos de cruéis fazendeiros.

O Lampião tradicional ganha uma versão ímpar nos desenhos vigorosos e estilizados de Flávio Colin na obra "Mulher-Diaba no rastro do Lampião", definitivamente um clássico das HQs brazucas. Jô Oliveira no álbum "A guerra do Reino Divino" não ignora a importância dos cangaceiros para se pensar a história e a narrativa nordestina e é a hisória verídica de Virgulino Ferreira que aparece em "Lampião, era o cavalo do tempo atrás da besta da vida" de Klévison Viana.



Nem todos os autores tratam o tema com o mesmo tom. Henfil transferia para seu cangaceiro, Zeferino, sob a égide do humor, pesadas críticas à sociedade brasileira e suas relações de poder. Ainda no humor, entretanto num tom mais ameno, o Xaxado de Cedraz também apresenta seus momentos de crítica e mostra-se um personagem versátil em HQs, tiras e material institucional. O Capitão Rapadura do cartunista Mino, este também de maneira humorada, mistura um visual inspirado pelos cangaceiros nordestinos com o gênero super-herói.
O mineiro Mozart Couto e o pernambucano Watson Portela foram responsáveis por uma releitura interesante do visual e cenários do gênero cangaço fazendo uso do tipo inserido em contextos de fantasia ou de ficção científica.

Em leituras recentes o genero aparece em "Cangaceiros, homens de couro" que tem roteiro de Wilson Vieira, desenhos de Eugênio Colonnese e capa de Mozart Couto. A trama retoma a trajetória da vida de Virgulino.

O Cabeleira adaptado do romance homônimo de Franklin Távora ganha vida nos quadrinhos pelo trabalho da equipe formada por Leandro Assis, Hiroshi Maeda e Allan Alex, os dois primeiros, roteiristas e este desenhista. Fora a qualidade intrínseca do texto há que se observar o ótimo uso dos recursos da narrativa do quadrinho. E é na narrativa criativa e na inovadora união entre cordel e quadrinhos que o cangaceiro Bravo Jan acerta em cheio materializado pela arte de Anilton Freires e texto de Alex Magnus.


Se houvesse uma cadência constante na publicação de títulos nacionais o gênero cangaço muito provavelmente integraria uma boa porcentagem dessas publicações já que dentro do cenário geral do que historicamente tem sido publicado de quadrinhos no Brasil o cangaço ocupa um espaço nobre.

Os títulos e autores aqui citados são apenas um apanhado geral, uma iniciativa de listar por amostragem alguns cangaceiros criados para os quadrinhos, provavelmente muita coisa ficou de fora. Se você conhece outros autores e personagens que gostaria de acrescentar à lista citada deixe a dica nos comentários que ficaremos muito gratos e com isso podemos preparar um material complementar a este.

Açude: Armagem Herética

Scans

O Plebiscito da estátua! 
Reportagem da Revista Veja - 28 Graus, de julho 1991. (Clique nas imagens para ampliar e obter condição para leitura)

  

 

   

  

  

  

 

Algumas considerações sobre o pleito em 1991:

1º) Seguiu as regras traçadas pela Justiça Eleitoral de Serra Talhada/PE, sendo fiscalizado pelo Juiz de Direito e pelo Promotor de Justiça;

2º) No encerramento da apuração ( 07/set/1991), a contagem mostrou o seguinte resultado:
De um total de 2.289 votantes, 76 % acolheram o "SIM", 22 % disseram "NÃO" e 0,8 % anularam a escolha. A opção "SIM" obteve maioria em todas as secções apuradas.
3º) Por questões políticas/financeiras a polêmica Estátua de Lampião nunca foi construída.

OBS: Fonte de consulta - " Gota de sangue num mar de Lama " de Gutemberg Costa.

Panfleto oficial.

Fotos: Roberto (comunidade do Orkut: Lampião, Grande Rei do Cangaço).
Texto: Ivanildo Silveira 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Cultura popular

O Cangaço na Literatura de Cordel 

Por Kydelmir Dantas*

A necessidade de se deixar registrados fatos, ‘causos’ e ocorrências, em tempos passados, foi a responsável pela criação de uma literatura de massas, que abrangia todos os temas da região, do país e, até, do mundo. A Literatura de Cordel, com a sua maneira simples de ser compreendida, veio substituir os antigos menestréis na divulgação desses fatos. Era como se fosse um jornal itinerante, escrito em forma de poesia, de aquisição fácil e barata. Segundo o Mestre Câmara Cascudo: “É o romanceiro popular nordestino, em grande parte contido em folhetos impressos e expostos à venda nas feiras e mercados.”

Dos mais variados temas abordados, como as estórias de reis e princesas; dos amores ; dos caçadores; dos desbravadores dos Sertões; das pelejas dos violeiros, os famosos desafios; do misticismo, na figura de Pe. Cícero e Frei Damião, das estórias de animais, como ‘O Pavão Misterioso’, dentre outros, o Mestre Cascudo disse no seu livro “VAQUEIROS E CANTADORES”: “A poesia tradicional sertaneja tem os seus melhores e maiores motivos no ciclo do gado e no ciclo heróico dos cangaceiros.”

O ciclo do gado, também conhecido como a Civilização do Couro no Nordeste brasileiro, compreende as gestas dos bois que se perderam anos e anos nas serras e capoeirões, escapando das buscas dos vaqueiros. Há um exemplo bem próximo daqui, em Caraúbas, quando o poeta Luiz Gonzaga Brasil colocou no papel “A História da Vaca Calçadinha”, na década de 1920, e que a coleção mossoroense fez o seu resgate no nº 02 da sua “Série D” – Cordel.

O ciclo heróico dos cangaceiros, que vem após o ciclo do gado, foi e é, ainda hoje, um dos que têm sido mais divulgados através da Literatura de Cordel. Ainda segundo Cascudo: “os grandes criminosos estão com suas biografias romanceada. Eram todas cantadas como foram os antigos Vilela, João (ou José) do Vale, o Cabeleira, os Guabirabas, ... Jesuíno brilhante, Antônio Silvino, Virgulino Ferreira, o Lampeão. As guerras das velhas famílias inimizadas e ferozes, os Mourões e Feitosas, do Ceará de ontem e os Pereiras e Carvalhos de Vila bela de hoje. Todos esses nomes, Dantas do Teixeira, Melos, passam em seu halo sangrento, na poesia bárbara e evocativa dos saques terríveis e dos corpo-a-corpo heróicos.”

A Literatura de Cordel também veio, segundo pesquisa feita recentemente, transformar os cangaceiros em heróis. O mais antigo documentário conhecido na poesia tradicional brasileira, data do século IX, constante nos trabalhos de Franklin Távora (O Cabeleira), 1876; Sílvio Romero (Cantos Populares), 1897; Pereira da Costa (Folk-lore Pernambucano), adaptado para o teatro em 1965 pelo prof. Silvio Rabelo, é a “Cantiga do Cabeleira”. Grandes nomes da poesia popular colocaram seus trabalhos do papel, citando os inúmeros personagens do Ciclo do Cangaço, como foram:

• Leandro Gomes de Barros, com “A Vida dos Guabirabas”;
• Hugolino Nunes da Costa (do Teixeira-PB), com “Liberato”;
• Francisco das Chagas Baptista e João Martins de Athayde, fizeram “A Canção de Antônio Silvino”;
• João Martins de Athayde, publicou “Vida de Nascimento Grande”;
• O Alferes Francisco Justino de Oliveira Cascudo lembrava de um verso que saiu, por volta de 1895, com o título de “O ABC de Moita Brava”;
• Gustavo Barroso, em seu livro “Ao Som da Viola”, cita “A História do Valente Vilela”;
• Câmara Cascudo, no livro Flor de Romances Trágicos, publicou o “ABC de Jesuíno Brilhante”;

Para marcar a passagem dos 70 anos da Resistência, com o incentivo de dr. Vingt-um Rosado, o escritor Vicente Serejo publicou, em março de 1997, pela Coleção Mossoroense a “Pequena Cantoria de Mário de Andrade e Câmara Cascudo para Lampião e Jararaca”, registrando os estudos dos romanceiros populares.
Inúmeros são os trabalhos apresentados sobre o Cangaço, a história de Lampião, seu tempo, suas lutas, seu reinado têm sido bastante divulgadas na Literatura de Cordel.

A Resistência de Mossoró, contra o ataque de Lampião motivou a publicação de vários folhetos na literatura popular. José Octávio Pereira de Lima, “A Derrota de Lampião em Mossoró”, publicado ainda em 1927, imagina os preparativos para a arrancada sobre Mossoró:

Lambe os beiços José Leite
De Santana, o Jararaca,
E ronca como um suíno;
Patrão, na voz de atraca,
Eu mato por brincadeira,
Cantando “Mulher Rendeira”,
Encho de ouro a bruaca.


Os versos contam a morte de Colchete e o ferimento que inutilizou Jararaca:

Jararaca não recua,
Bastante afoito e atrevido,
Tenta arrastar seu colega
Mas este já tem morrido!
E enquanto vai desarreá-lo
Um balaço vem prostá-lo
Ficando logo caído.


E termina com um hino de exaltação a Mossoró:

A data 13 de junho
em ouro ficou gravada.
Junto ao 30 de setembro
será uma nova alvorada.
Despontando alvissareira,
sobre a cidade altaneira
nobre, santa, imaculada.


João Martins de Athayde, in Entrada de Lampião em Mossoró, (Recife, 26/08/1927), fixa também Jararaca:

Nisto deram-lhe outro tiro
Pôs Jararaca no chão,
Bandido de confiança,
Do grupo de Lampião;
Quando ele foi encontrado
Estava assim recostado
Bem perto da Estação.

Colchete levou um tiro
Porém não ficou mortal.
Caiu assim na calçada,
Junto ao muro do quintal,
Chegou um rapaz ligeiro,
Arrastou o cangaceiro,
Matando com um punhal.


Mariano Ranchinho, n’O Assalto de Lampião a Mossoró onde foi Derrotado, conta que:

No dia 13 de junho
Quando a chuva no sertão
Caia forte alagando
As grutas do sovacão.
Em busca de mossoró,
Caminhava Lampião.


Raimundo Alves de Oliveiras, mossoroense radicado no Acre-RO, desde 1943, escreveu A Entrada de Lampião em Mossoró em 1927, trabalho publicado em 1972, dando ênfase na defesa, dizendo:

Surgiu uma bala da torre
da Igreja de São Vicente.
Abrindo na nuca de Colchete
um buraco excelente.
Deixando ali estirado
o cangaceiro valente.

Jararaca fez careta
dizendo: - Parece mentira.
Aqui nesta cidade
até os santos atira.
São Vicente quer ser santo
mas pra matar é bom na mira.


Luiz Campos, pelo Projeto Chico Traíra, nº 08, FJA, em 1995 publicou “A Cidade de Quatro Torres”, no qual cita a resposta do cel. Rodolfo Fernandes:

Seu Virgulino Ferreira,
se está a precisar,
desses 400 contos
posso até arranjar.
mas não mande portador,
que só entrego ao senhor,
se acaso vier buscar



Lampião esse correu
na noite do mesmo dia.
Em busca do Ceará
e aos companheiros dizia:
- Viram que povo valente?
Só não atirou São Vicente,
mas ainda fez pontaria.


Concriz, em “Jararaca arrependido porque matou um menino”, (Mossoró, 1982), conclui o seu trabalho da seguinte forma:

Dizem que o cangaceiro,
valentão e corajoso,
se arrependeu e foi salvo
por Jesus, pai generoso.
Mossoró guarda um mistério,
porque no seu Cemitério
Jararaca é milagroso.


Veríssimo de Melo, publicou o ensaio “O Ataque de Lampião a Mossoró Através do Romanceiro Popular”, Natal, 1953; reeditado pela Coleção Mossoroense, sob a série “B”, nº 397, 4ª edição, Mossoró, 1983.

Zé Saldanha, também pelo Projeto Chico Traíra, publicou “O Sertão e seus Cangaceiros”, (Natal, 1995). Falando de Lampião ele cita a Resistência e a coragem de Rodolfo Fernandes e seus amigos:

Porém o Cel. Rodolfo
botou terra no seu plano.
Reforçou o Mossoró,
como um herói veterano.
Se Lampião não corresse,
tinha entrado pelo cano.


E termina louvando a cidade nos seguintes termos:

Parabéns a Mossoró,
a capital do Oeste.
Que enfrentou Lampião,
com os seus cabras da peste.
E foi a maior derrota
que ele sofreu no Nordeste.


CORDEL – Corda muito delgada, cordão, barbante.
LITERATURA DE CORDEL – Arte de compor ou escrever trabalhos artísticos, em prosa e verso, e colocá-los à venda pendurado num cordão ou barbante.
Mossoró, 10 de junho de 1997.


(*) Kydelmir Dantas - Pesquisador, sócio da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço - SBEC, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte - IHGRN e do Instituto Cultural do Oeste Potiguar – ICOP. Agrônomo e Técnico da PETROBRAS é de Nova Floresta – PB.


Açude: Educando em cordel

Novo livro na praça

 Vem da Bahia


Confira, o Índice desta obra :

Introdução
Lampião em Tucano
Ainda em Tucano
Perseguição de Lampião à Profª Mariana Borges Cabral
O Primeiro combate com a polícia baiana
Assalto trágico - A chacina de Queimadas
O episódio triunfo (Quijingue)
A chacina do Mandacaru
Características físicas de Lampião e o prêmio de 50:000$000!! pela sua cabeça
Volta Seca
A batalha sangrenta de Canindé
Demóstenes Martins pega em armas
Lampião e Marconi
Como o país armou Lampião
O domínio do medo
Homenagem merecida
As mulheres no cangaço
Trégua no cangaço
Combate em Mirandela no dia de Natal (25 de Dezembro de 1929)
Lampião de férias
Soldadesca / Lampiônica
Raso da Catarina
A dificuldade da polícia em capturar Lampião
A atuação do Major Dutra
A outra face de Lampião
Lampião, o Homem que amava as Mulheres - 0 imaginário do cangaço
Medicina no cangaço
Triste noite
71 anos da morte de Lampião
Cristino Gomes da Silva Cleto -CORISCO
De Virgulino a Lampião
E o que Mudou?
Alguns nomes dos 240 cangaceiros que faziam parte do bando de Lampião

 

  

Colaboração de Ivanildo Siveira

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Baixas

A terrível morte do cangaceiro "Mariano"  

O cangaceiro Mariano (vide foto abaixo) nasceu no município de Afogados da Ingazeira,PE, no ano de 1898. Seu nome completo era Mariano Laurindo Granja, sendo filho de fazendeiro, de algum conceito.
Entrou para o cangaço, no ano de 1924. Era negro, muito forte, andando sempre com uma palmatória de baraúna dependurada na cintura, com a qual surrava suas vítimas. Acompanhou Lampião por muito tempo, sendo uns dos poucos que cruzaram o Rio São Francisco, em agosto de 1928 com destino á Bahia.

Ele esteve com Lampião na visita a Juazeiro do Norte; participou do massacre na cidade de Queimadas, onde foram mortos 07 soldados. Participou do massacre a Mirandela, distrito de Pombal/BA. Participou do do ataque a Aquidabã, SE, em outubro de 1930. Depois, passou a chefiar o seu próprio grupo.

O tenente José Rufino arranca do Raso da Catarina, numa das batidas mais célebres de que se tem lembrança na campanha de repressão ao banditismo, e após cobrir centenas de quilômetros, ao longo do sertão baiano, chega às cidades de Porto da Folha e Gararu, no Estado de Sergipe.

É aí que se encontra com o árabe Abraão Benjamim, cineasta amador, possuído da mania de filmar um combate real e autêntico, entre as volantes e o grupo de Lampião.

Não movia ao árabe o desejo louvável de realizar um documentário histórico, mas a ambição comercial de ganhar dinheiro coma exibição do filme nos cinemas de todas as cidades.

No seu linguajar estropiado e difícil, pede ao tenente José Rufino que lhe facilite a filmagem, admitindo-o, na sua tropa.

A resposta do comandante da volante foi ríspida e dura:
Dentro de pouco tempo vou brigar com os cangaceiros, mas não sei o lugar e nem a hora e, para ser melhor entendido, nem o senhor e nem ninguém me acompanhará.

Voltou-lhe as costas, bruscamente e, à frente dos seus homens, atirou-se no aberto das caatingas à procura do rastro dos bandidos na terra de ninguém.

Nos meandros da vereda a tropa move-se no passo silencioso dos felinos.
A noite aninha-se devagar no seio da caatinga e pousa sobre a areia, ainda quente, dos despovoados.
O tenente José Rufino encurva em anel a sua tropa e cerca a casa do afamado coiteiro, Mané Véio.

Aqui abro uns parênteses na narrativa de Joaquim Góis (escritor) para um esclarecimento ao leitor.
Como se vê não eram somente cangaceiros, contratados ou soldados que tinham apelidos ou nomes de guerra. Havia na força de Alagoas, nesse tempo, um soldado natural da região de Santa Brígida, aparentado até com Maria Bonita, o nosso amigo Euclydes Marques da Silva, também chamado por Antônio Jacó, e no seio dos seus camaradas conhecido como "Mané Véio".

Foi esse soldado um dos participantes da tropa que o tenente João Bezerra utilizou no combate em que Lampião morreu e foi minuciosamente descrito no livro "Assim Morreu Lampião". Pois esse Mané Véio de que trata Joaquim Góis nada tem a ver com o outro, a não ser a coincidência do apelido.

Prossigamos com a narrativa:
"O oficial sabia de cor e salteado, a história inteira do perigoso delator, a crônica do coiteiro mais astuto e manhoso de Lampião.

Ninguém melhor do que ele possuía a arte da simulação, no modo como guiava os volantes para os lugares e esconderijos de que seu terrível patrão estava sempre ausente.
E o fazia com a simplicidade convincente de quem dizia a verdade, de quem conhecia o roteiro transitado pela horda de malfeitores, cuja pista ele disfarçava na informação errada, na indicação, propositadamente, contrária, rumando para os pontos opostos aqueles em que se ocultavam os bandoleiros.

Os homens do tenente José Rufino vigiam, pacientemente, a casa do esperto coiteiro Mané Véio.
Ninguém entra e ninguém sai. Gritam pelo coiteiro e os seus gritos envolvem tudo. Mané Véio estava ausente, despistando mais uma vítima da sua manobra traiçoeira. Sargento da polícia sergipana, Odon Matias, para a fazenda Barriguda, local apontado por ele e em que Lampião estaria no descanso das longas jornadas.

José Rufino acampa num velho curral, sem perder dos olhos a casa do coiteiro, já agora, ocupada por dois dos seus soldados. Escuta os rumores que correm dentro da noite escura e misteriosa do sertão.

Escuta e espera.Os galos cantavam quando Mané Véio volta à casa. Preso e apresentado a José Rufino, este o interroga a seu modo. Não ameaça, não amedronta e nem espanca. Conversa, argumenta, convence.
Mané Véio já o conhecia pelos pedaços de informações que os outros coiteiros lhe transmitiram. Mentir era inútil e tentar enganá-lo era perder tempo.

Volante de Zé Rufino, sendo ele, na fila da frente, o primeiro da esq. para a direita
Defrontaram-se, dentro daquele velho curral dois sertanejos formados na ciência dos subterfúgios, na arte das vinganças, no jogo psicológico dos truques entre a verdade e a mentira.

José Rufino bate em cheio no que quer saber e o que diz ao coiteiro é mais uma afirmativa do que uma pergunta:

— Por que você guiou o sargento Odon Matias para a Barriguda, sabendo que os cangaceiros não estavam lá?
— Pra num sê morto pru eles, seu tenente.
— E onde estão os bandidos?
— Tão no Cangalêcho. O sinhô quê eu vô li bota in riba dêles.


Na resposta ao oferecimento do coiteiro é que se reflete e se revela a prudência do tenente Zé Rufino; o cuidado que ele tinha pela vida dos desgraçados, colocados entre as balas dos cangaceiros se os delatassem e o fuzil da polícia se lhe mentissem.

— Não, Mané Véio, você não vai. Preciso de você vivo. Se os bandidos souberem que você fez isso, eles o matarão. Basta que você me diga se existe casa aqui por perto.

— Inziste inhô sim, a coisa dum quarto de légua, vosmicê vai incontrá uma. E pode preguntá qui o dono sabe adonde é o Cangalêcho.

A manhã se retirava das caatingas quando José Rufino encobria-se com a sua tropa, na mataria falha de um chão eriçado de pedras miúdas, contorcido em curvas e aberto em ralos vazios e rentes. Seguir os rastros dos bandidos foi sempre uma tarefa árdua, um quebra-cabeça intrincado, pois, esses filhos do sertão conheciam todos os disfarces do terreno e todos os passes de mágica com que iludiam os menos avisados.

Marginavam caminhos andando sobre as pedras, sobre a face dura do chão, arrastando feixes de matos que lhes apagavam as pegadas. Veredas, entradas, saídas, desvios, cruzamentos, rodeios, curvas, atalhos, todo um emaranhado de acidentes que eles gravavam na memória, mapas vivos desenhados pela experiência de todos os dias.

O sol estava naquelas alturas quando José Rufino dá entrada na fazenda Cangalêcho.

Em torno de uns dos tanques (buracos nas pedras que acumulam água), para espanto seu, a rastaria dos bandidos bate nos olhos de todos, às claras de mais, como feitas de propósito. Mas só na terra que circundava o tanque, pois além poucos metros, o chão estava limpo, sem o menor vestígio de pés humanos na sua superfície. Era tão absurdo o que os olhos de todos viam que deu lugar a que a ignorância do contratado "Capão", alvitrasse esta explicação ridícula:
— Seu tenente! Num será qui os homes tão dentro do tanque!
Os rastros existentes ali, ficavam ali mesmo, nem saíam nem entravam. O tenente José Rufino, homem afeito a todas as surpresas nas coisas e nos acontecimentos do sertão, não atinou com uma explicação para aquilo.

Ele mesmo foi rastejar, procurando ler e adivinhar na página naquele pedaço de terra o significado do que via sem poder compreender. Mandou que dois dos seus homens ficassem de sentinela nas duas entradas dos caminhos, que se dirigiam para o tanque. Um sol de asfixia parava no meio do céu, quando o rastejados Gervásio indica à tropa os sinais da pista por ele descoberta.

Ao mesmo tempo, dois contratados trazem para o tenente um menino de doze anos, conduzindo entre as mãos um embrulho enrolado num lenço vermelho, cheirando a perfume de feira. O conteúdo do embrulho: um quilo de café moído. Os bandidos estavam perto e ninguém duvidava mais que em pouco tempo haveria tiroteio. Interrogado o garoto, nada se pode saber diante da barreira do seu silêncio obstinado.

Nem agrados, nem promessas, nem insinuações, nem presentes, nada conseguiu romper a teimosia daquela criança fechada numa resistência de espantar. José Rufino recorre à medida extrema, advertindo ameaçador ao menino:
— Já que você não quer dizer onde estão os bandidos, vai ser sangrado.
E voltando-se para o contratado "Capão", ordena seca e fingidamente enfurecido:
— Sangre este corninho na goela.
A lâmina do punhal de "Capão" escorrega da bainha, suja de nódoas de ferrugem, mortal como uma serpente, já mordendo a carne tenra da garganta da criança, pára, numa pausa cheia de expectativa."Capão" grita, rouco de raiva:
— Diga aonde tão os bandido seu pestinha ou eu li arranco a muéla pulas costa.
O garoto parece talhado no miolo da aroeira ou da baraúna, rijo, impenetrável, rebelde.
Era bem um símbolo do meio saturado de descrença, indiferente ao medo, fatalista e resignado.

Mudo, inacessível diante das investidas selvagens do contratado "Capão", para tudo e para todos só oferecia uma resposta:
— Num sei de nada, quê matá, mate.
Devia existir um motivo poderoso para a atitude corajosa daquela criança. E havia.

No coito em que se refugiavam os bandidos estava também o coiteiro João do Pão, pai do garoto. Comove a resistência desse pirralho e a gente sente vontade de tê-lo apertado ao peito para beijá-lo pela coragem do seu gesto.

O tenente José Rufino, sertanejo para quem a alma de sua gente é clara e aberta como o sol que incendeia a terra bravia, sabe que aquele rebento novo de uma raça de mártires, resume no seu comportamento toda a história amarga da região oprimida, da parte agreste do Nordeste, onde a vida é uma adivinhação sem esperança de ser explicada. Desiludido de que do mutismo daquele menino não lograria nenhum indício revelador do coito dos criminosos, José Rufino segue o rastejador que a pouco descobrira a pista dos perseguidos.

De súbito, José Rufino sente nas costas a pancada de uma pequena pedra, certeiramente jogada pelo contratado Genésio. Olha para trás, por sobre o ombro e recebe em gestos o sinal do seu comandado, apontando para o lado esquerdo. À sua vista, surgiam, armadas, grotescamente, as barracas dos bandidos, todos absorvidos no jogo, seu vício e passatempo nas horas de folga, passadas na segurança dos coitos".

Vamos reviver a luta e seu desideratum, baseados no que nos contaram o soldado "Bem-te-vi" e o cangaceiro "Criança" que estavam presentes, como já dissemos:
— Nóis tava jogando, no coito, que a gente quando tava discansano u que mais fazia era jogá. Era o Vinti-um, Trinta i-um, Suéca i si passava o tempo jogano. Tinha um na imboscada (de sentinela) i de repente foi tiro. 
— Demorou muito o combate? — perguntei a Criança.
— Olha, num sei, mais num passô di meia hora. E, não foi mais di meia hora. A volante chegô di surpresa, atirando i logo acertaro cumpadre Mariano, i Pavão ou Zepelim não sei bem, vi ferido Pae Véio. Nóis ainda tentamo tira eli, qui tava baliado, mais tornaro acerta eli i mataro, i nóis deixamo nu chão prá podê corre.
Perguntei ao cangaceiro "Criança" (baseado no que Joaquim Góis escreveu e nas conversas que mantivemos por várias vezes na sua casa, em Aracaju):
— Mas dizem que Pae Véio estava vivo quando a polícia entrou no coito e Mariano também.
— Não sinhó, nóis num dexava nunca um baliado, prá num dá o gosto da polícia matá. Quando nóis vimo qui tava morto mesmo foi qui nóis deixamo. Agora, di cumpadri Mariano num sei, nóis tava brigando assim um pouco longe. Quando nóis vimo qui num dava mais prá briga, qui nóis só ia até tê prejuizu maiô, aí nóis corremo.
Novamente ocorreu-me perguntar a "Criança" sobre os que estavam presentes. Pois o livro "Lampião, o último cangaceiro" afirmava a presença de "Deus-Te-Guie" nesse grupo, e no mês de janeiro de 1970, em Paripe, fomos recebidos em sua casa. Levados pela mão amiga de Dadá, estabelecemos conversa e perguntamos se o mesmo estivera presente no fogo do Cangalêcho.
— Não, nunca estive ali. Prá falar a verdade nem mesmo cheguei a conhecer Mariano. Quando entrei pro cangaço foi no grupo de Ângelo Roque, o Labareda, e que já tinha acontecido a morte de Mariano tempos atrás.

Soldado "Bem-Te-Vi" e  Cel. Zé Rufino
"Criança" respondeu-nos:
— Dali nóis saímos, eu, Santa Cruz, num sei se Pavão ou Zepilim, um dos dois morreu i outro saiu com nóis, Rosinha a mulher de Mariano, i parece que tinha mais um, num sei.
Baseados nas informações de Joaquim, dissemos:
— Não seria o cangaceiro "Diferente"?
— Num sei. Mais acho qui não, "Diferente" era aparentado cum "Zé Sereno" i costumava a andá mais eli. Não mi lembro.
Deixemos os cangaceiros e vamos ouvir o policial, "Bem-te-vi":
"Quando o tenente tirou a pista dos cabras, eli feiz sinal cum a mão prá gente i avançanu cum cuidado, sem fazê baruio. Mais elis tinha um cangaceiro emboscado, qui deu u alarma. 
O tiroteio cerrou-se pur poco tempo, nóis peguemo elis de surpresa i cum coisa di u'a meia hora já tava acabado. Aí fomo terá arguma pista dus qui fugiro, prá vê si tinha argum baliado. Argum sangue qui deixasse, nu chão, nas fofa di mato. Num tinha. Vortemos pru coito onde tava as barraca qui elis; tinha armado. Tinha trêis pessoa caída. U coiteiro qui tava jogano cum elis i foi baliado i tava morto, dois cangacero ferido quase morreno i otro qui elis quizero arrastá cum elis quandu fugiro tinha caído mais longe um poco i nóis cortemo a cabeça i trotemo prá li.
O tenente Zé Rufino discubriu qui um dos baliado era o chefe delis, Mariano". 
Aqui vamos abrir novamente um parênteses e voltar ao nosso escritor Joaquim Góis, que nos conta a cena do fim de Mariano.

"Aproximando-se novamente de Mariano, José Rufino chama 'Bem-Te-Vi' e, mostrando-o ao inferior, explica-lhe:
— Este é o assassino do seu pai. Você pode saciar a sua vingança. Ele ainda está vivo.
" Bem-Te-Vi "', como um louco, saca do punhal escanchase no quase cadáver de Mariano e sua mão sobe e desce em golpes. brutais. Apunhala com tanta fúria o corpo do bandoleiro, que se ouve aquele ranger estridente e áspero da ponta da arma branca atravessando as carnes e os nervos da vítima, furando e mordendo a terra seca ". Jamais um homem matou com tanta alegria, com tanta volúpia, com tanto sadismo.

Era a vingança do filho estraçalhando o corpo daquele que abatera, friamente, o autor da sua vida. Era a lei, a terrível e inflexível lei das caatingas." Voltemos à conversa com o soldado, "Bem-te-vi", cujo nome real é Severiano:
Nóis peguemos as armas dos cangacero, us anéis, u dinheiro, us borná, punha, cartuchera, u qui tinha ali se pegô. Já tinham cortado a cabeça de Pae Véio i do otro cangacero i nóis vortemos prá dondi tinha ficado Mariano ...

Recorremos novamente à pena vibrante do escritor Joaquim Góis. "O que vê estarrece e assombra.

O cangaceiro a quem o punhal vingativo de ' Bem-te-vi ' e balas de José Rufino haviam prostrado como morto, vivia ainda e num esforço que se poderia chamar de o milagre do desespero, ensaiava levantar-se.

Os dedos enorme e crispados tentavam afastar dos olhos enevoados a pasta dos cabelos empapados de sangue, a cabeleira escorrendo uma espécie de mingau feito de suor e sangue. Ele todo era uma sangria, um corpo todo aberto em talhos profundos de punhal, de pedaços de aço incandescentes que as descargas da polícia despejaram sobre ele.

Uma visão para não se esquecer.

`Bem-te-vi' ao ver Mariano vivo contra todas as probabilidades do possível, face ao número absurdo de punhaladas que ele sofreu das suas próprias mãos e dos balaços recebidos, desembainha a Colt e encostando-a no peito do assassino de seu pai, prepara-se para o tiro de misericórdia.

Corta o ar a advertência de José Rufino:
— Tenha cuidado com a cabeça que eu preciso dela.
Detonações ensurdecedoras, à queima-roupa, perfuram o corpo já todo esburacado de Mariano e a resistência física do bandido pára na imobilidade da morte". Bem, esse foi o fim desse chefe de grupo, do qual todos os companheiros, com quem tenho conversado, gostavam. Aliás, até mesmo alguns paisanos falam favoravelmente a Mariano.

Dizem que era um dos que tinha mais humanidade e benevolência. Afirmam até que era incapaz de uma crueldade. Teria sido mesmo ele o autor da morte do pai de "Bem-te-vi"? Segundo os companheiros, é impossível!


No último Seminário Cariri Cangaço a maioria dos pesquisadores presentes, analisando fatos posteriores concordaram que esse último seria o cangaceiro "Pavão" e não Zepellim como identificado na legenda. Atualizada em 07 de Outubro de 2010

Bem, esse foi o fim desse chefe de grupo, do qual todos os companheiros, com quem tenho conversado, gostavam. Aliás, até mesmo alguns paisanos falam favoravelmente a Mariano.

Dizem que era um dos que tinha mais humanidade e benevolência. Afirmam até que era incapaz de uma crueldade. Teria sido mesmo ele o autor da morte do pai de "Bem-te-vi"?
Segundo os companheiros, é impossível!

Mas vejamos o fim de sua companheira Rosinha. Ela e sua irmã Adelaide (que também estava em adiantado estado de gravidez, como já o dissemos), escaparam com vida e acompanharam os sobreviventes.
Estabeleceram um coito num pé de serra e aguardaram a hora do nascimento das crianças.
Chegou por fim o dia e mais uma desgraça abateu-se sobre o grupelho. Adelaide morreu do parto e o bebê também. A criança de Rosinha foi enviada a um padre.

Pouco depois encontraram-se com outros grupos. Murmúrios. Confabulam os chefes de grupo, os maiorais do cangaço opinam. Uns acham que a "viúva" pode e deve continuar no grupo de qualquer maneira. Outros são de opinião que deve ser mandada para casa de parentes e calar a boca.

Luiz Pedro se faz porta-voz de um grupo que conseguira convencer com sua argumentação. Achava, esse grupo, que toda mulher cujo companheiro morresse, e a mesma não achasse um substituto nos bandos, deveria ser eliminada para que o segredo dos "pontos", dos coiteiros não fossem revelados, colocando em perigo a segurança dos fornecedores e protetores.

Corisco foi contra essa tese. Dizia que encontraria outros "pontos", outros abastecedores de armas e munição. Foi voto vencido.

Rosinha teve o azar de não despertar o desejo do concubinato em nenhum dos companheiros. Luis Pedro fez valer seu parecer, sua sentença. As últimas frágeis resistências foram facilmente vencidas.

Enviaram Santa Cruz, Criança e outros elementos que tinham pertencido ao grupo de Mariano buscar munição em um "ponto" distante Removido esse primeiro obstáculo, disseram à Rosinha que ela seria mandada para a casa dos pais. Apronta-se para viajar.

Seu companheiro de jornada seria Pó Corante, o segundo, pois o primeiro com esse apelido foi morto juntamente com Nevoeiro e Jurema lá para os lados de Macururé, já levando ordens precisas dos chefes de como deveria agir.

Pó Corante ao retornar prestou contas a quem lhe incumbira de executar tão traiçoeira missão.

Rosinha fora morta a punhal e enterrada em cova rasa no meio de uma caatinga brava. Outra versão diz que Pó Corante eliminou-a durante a travessia do Rio São Francisco, quando a canoa em que viajavam estava próxima da margem alagoana, e o cadáver atirado às águas.


FONTES BIBLIOGRÁFICAS :

1º) Lampião as mulheres e o Cangaço - Antonio Amaury Correia de Araújo;

2º) Lampião - O último Cangaceiro - Autor: Joaquim Góis

3º) Lampião e o Estado Maior do Cangaço - Hilário Lucetti

4º) O cangaceirismo no Nordeste. Bismarck Martins de Oliveira.

5º) Lampião na Bahia - Autor: Oleone Coelho Fontes.


Um abraço a todos.
IVANILDO ALVES SILVEIRA
Colecionador do cangaço.