sábado, 31 de outubro de 2009

Opinião

Do cangaceiro ao traficante
Por Braulio Tavares

Vi na TV uma entrevista com MV Bill, “rapper” que realizou documentários em vídeo como Falcão: Meninos do Tráfico, o qual foi exibido no “Fantástico” e provocou grande polêmica. A certa altura, Bill tocou no problema do que ele chama de “invisibilidade” do adolescente negro e pobre.

Numa época em que os garotos começam a tornar-se homens, a definir sua personalidade, eles percebem que não existem. Ninguém olha para eles, ninguém se dá conta de sua presença – porque eles são negros e pobres. Só perdem essa invisibilidade (segundo Bill) quando pegam numa arma Um sujeito com um arma na mão todo mundo enxerga, todo mundo respeita.

Isto me lembrou um trecho do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, no Folheto LXXIX, “O Emissário do Cordão Encarnado”, no qual Quaderna presencia o debate político-ideológico entre Adalberto Coura, o esquerdista romântico, e Arésio Garcia-Barretto, o individualista cínico e violento. Diz Adalberto que os rapazes sertanejos entram para o Cangaço sabendo que irão morrer muito cedo, mas achando que é preferível uma vida intensa com uma morte prematura do que uma vida longa mas cheia de humilhações, e sem sentido.

Diz Adalberto: “Por isso, não se importa de viver perseguido como um cachorro mordido. Sabe que esse é o preço que terá que pagar para poder possuir mulheres com as quais, antes, não poderia nem sonhar, as filhas de gente poderosa, lindas e orgulhosas, que passeavam os olhos por ele sem nem ao menos o avistarem, como se ele não existisse, e que agora o vêem, com espanto, terror e perturbação, vestido com sua Armadura de couro e com as insígnias de prata de sua realeza, aparecendo diante delas não mais como um ser ignorado e desprezado, mas como o temeroso Senhor de sua honra e de seu destino, o Emissário de uma vida cruel, selvagem, errante e guerreira, fascinadora e terrificante”.

Não pode haver descrição melhor para o que acontece com esses garotos de Morro que aos dezesseis anos já estão cobertos de colares de ouro e roupas importadas, com duas pistolas enfiadas no cinto e um AR-15 a tiracolo, desfilando no interior da favela como se fossem Reis. Sabem que vão viver pouco, mas não ligam. Estão vivendo muito.

Aqui no Nordeste celebramos e endeusamos os Cangaceiros porque eles são para nós os símbolos de uma vida livre e guerreira, de uma ruptura e de um inconformismo que, mesmo não tendo pretensões revolucionárias de mudar a sociedade (que algumas obras de arte lhes atribuem, projetando neles uma ideologia que é só do autor), romperam com a vida de servilismo e exploração, revoltaram-se contra um destino que lhes era imposto.  

O que admiramos neles não são os atos que praticam, é a coragem de terem deixado de praticar o que praticavam antes, e que, apesar de humilhante, era mais seguro. Como podemos, então, estranhar que algumas pessoas das favelas (não todas, nem muitas) façam desses novos cangaceiros os seus ídolos?

Artigo de Braulio Tavares publicado originalmente em 3 de Abril de 2007 na sua coluna diária no "Jornal da Paraíba" (Campina Grande-PB)

Acesse: Mundo Fantasmo

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Curta

A morte de Lampião 

Dramatização gravada exclusivamente para o espetáculo "O Julgamento de Lampião" encenada pela Cia. Brincante de Teatro em maio de 2009 na Candangolândia - Distrito Federal. O filme mostra de forma representacional como foi a morte do rei do cangaço, Virgulino Ferreira, vulgo: Lampião. Interpretado pelo ator Denis Pinho com Direção de Eliésio Alves.

Fonte: Site da Cia Brincante

A pergunta que não quer calar

Por quê Lampião não entrou em Lagarto

Por Joel Silveira

Era fim de tarde, eu conversava com Rubem Braga na cobertura (que era também granja) do seu apartamento em Ipanema e, enquanto me servia do sempre generoso uísque do anfitrião, ia matraqueando sem parar sobre os mais diversos assuntos. Braga limitava-se a ouvir, quietamente mergulhado na espaçosa rede baiana que o pintor Carybé lhe mandara de presente. Eu falava, falava, ele balouçava.

Foi quando a conversa passou a ser Lagarto, a cidade da minha infância, lá em Sergipe. Inflado de incontrolável orgulho, lá para as tantas informei ao sabiá da crônica que Lampião, apesar de toda a sua proclamada valentia, jamais tivera coragem de entrar em Lagarto.
Mansamente, num demorado esforço, Braga emergiu da rede e falou:
- Quer dizer que Lampião nunca entrou em Lagarto?
- Nunca!

Braga silenciou por alguns segundos, disse em seguida:
- Pois eis aí o que se chama de um homem sensato. Afinal, que diabo Lampião ia fazer em Lagarto?
E conclusivo, antes de mergulhar na rede:
- Lagarto não é lugar para entrar, mas para sair.

FONTE: Revista Continente - Diário de uma víbora - Edição Nº 08 - Agosto/2001.

Procurando ocorrencias para diversos temas relacionados no site revista Continente encontrei esta pergunta que me chamou a atenção de cara evidente que eu também queria saber, Mas no fim só há mesmo a genial irreverencia do nosso Joel. Lagarto é uma das maiores e mais antigas cidades de Sergipe. Só de amancipação política lá se vão 129 anos. Vejamos um pequeno resumo histórico e nosso comentário posteriormente
 "A ocupação do território lagartense ocorre por volta da segunda metade do século XVII, enquadrando-se no movimento de expansão para oeste da Capitania de Sergipe D’El Rei (território pertencente à Capitania da Bahia de Todos os Santos), promovido pela doação de sesmarias pelos Capitães Donatários de então. A nova zona da terra sergipana seria utilizada para a criação de gado, daí nossa vocação para a pecuária. Esta penetração deu-se via rio Vaza-Barris, que corta o nosso município.
Em 1658, o novo território passou a ter a presença de um distrito militar, a fim de salvaguardá-lo de possíveis invasores, especialmente holandeses. Anos mais tarde, a 11 de novembro de 1679, torna-se Freguesia, sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade, com um pároco para fazer às vezes espirituais à população circunvizinha.
 Com uma economia, inicialmente sustentada na criação de gado, a nova Freguesia já se destacava como uma das maiores produtoras de fumo da região. Atendendo exigência de Vossa Majestade, o Rei de Portugal, diante da necessidade de povoar o interior sergipano, o Governador Geral do Brasil, Dom João de Lancastro determinou, por Portaria ao Ouvidor Geral da Capitania de Sergipe D’El Rei, Diogo Pacheco Pereira, no dia 20 de Outubro de 1697, a criação das Vilas de Itabaiana e Nossa Senhora da Piedade do Lagarto."

* O Texto aqui ligeiramente editado foi publicado originalmente em 2001, por ocasião do Sesquicentenário de Nascimento de Sílvio Romero (folheto) e no mesmo ano, no Jornal Folha de Lagarto, Por Claudefranklin Monteiro Santos e Patrícia dos Santos Silva Monteiro.


ADENDO:
Claro que aquela guarnição militar foi desativada ao longo dos anos em que não mais se fez necessária a proteção contra os invasores estrangeiros. Mas em outro texto impresso que não localizei para compartilhar, tomamos conhecimento que desde a década de 20, a cidade além de um razoável contingente policial, já possuia um batalhão de TG (Tiro de guerra). Enfim a cidade tinha armas suficiente pra intimidar qualquer grande grupo. Alguns leitores devem lembrar de um relato em um livro da saudosa Sila, de Zé Sereno: aquele em que a ex cangaceira no ano de 1984 vem à Lagarto ao ancontro de um famoso pecuarista José Almeida ou "Martins Almeida" (já falecido). Na época em que o cangaço atormentava os sergipanos ele era amigo pessoal do Tenente João Maria e do Cel Liberato. E mais um dos fãs assumidos do rei do cangaço. Este lhe confessa a tristeza de não ter conhecido nem ao menos Zé Sereno. Quando Zé Sereno e seu subgrupo se encontravam na fazenda do Sr Dorinha, outro Cel. lagartense, mas que possuia uma grande propriedade em Simão Dias - SE, o velho desejava presentear o cabra de Lampião com uma pistola, dinheiro etc. Enfim, Lampião tinha conhecimento de uma provável resistencia ou de possuir estes tietes na região, deve ter tirado algum proveito por meio de recados, quem sabe? capítulos desconhecidos por nós.


Sei que o velho Joel tem toda razão quando afirma "Lagarto é lugar pra sair" principalmente no campo da cultura, não há valorização necessária, aliás ai está um mal que afeta todo o estado. 


Abraçando
Kiko Monteiro
Lagartense teimoso 

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Célebres Vaqueiros da História

"O medo da prisão transforma o indivíduo numa fera "


Um ilustre conterrâneo do amigo Kiko Monteiro, grande jornalista "Joel Silveira", (Foto) no ano de 1944, realizou uma entrevista com os cangaceiros ( Volta Seca; Angêlo Roque, Saracura, Cacheado, Deus Te Guie e Caracol ), quando todos eles se encontravam presos, na Penitenciária de Salvador/BA, cumprindo pena. Vejamos, abaixo, o texto na íntegra dessa famosa conversa.

Penitenciária de Salvador, Março de 1944.

Em meio á conversa, fiz a pergunta inesperada: os antigos companheiros e comandados de Lampião se entreolharam, silenciosos. Angêlo Roque (Labareda) baixou a cabeça e Saracura, a fisionomia carregada, pôs-e a olhar pela janela aberta. Segundos depois, Cacheado me encara com seu rosto de criança, ilumina-se num sorriso cândido e me diz:
- A gente matava como uns danados. - E acrescenta: - Mas a culpa não era da gente.
Ângelo Roque, o "velho Ângelo", aprovou com a cabeça. e, Cacheado continuou:
- Se os homens educados não auxiliassem a gente com munição, a história seria outra. Não teria se dado nada do que se deu. Pensando bem, os criminosos são eles. Uma pessoa de bem não ajuda bandido.
É uma tarde de quinta-feira, e estamos aqui, num dos mais amplos salões da Penitenciária da cidade de Salvador, diante dos seis famosos ex-cangaceiros: Volta Seca, Ângelo Roque (Labareda), Saracura, Cacheado, Deus Te Guie e Caracol.

Deus Te Guie é quase um menino, mas Ângelo Roque já vai se aproximando dos cinquenta anos: tem um rosto grave, de uma tristeza séria. O sertão deixou nele profundas marcas - as faces cortadas por rugas como talhos e nos olhos um brilho de sol inclemente. Antes de começar a tomar os meus apontamentos, o diretor da penitenciária fizera um pequeno discurso aos seis antigos bandoleiros. Aquilo seria, disse ele, uma espécie de mesa-redonda, na qual o jornalista e os prisioneiros debateriam assuntos ligados ao cangaço.

Que cada um contasse a sua história, as razões que o haviam levado a deixar a Lei, suas roças e seus empregos para a tremenda aventura do banditismo sertanejo. E que falassem, com toda a sinceridade.

Ângelo Roque fez um aparte, numa voz rouca:
-Eu sempre falei com sinceridade.
E me conta, dando início á conversa que entrou para o cangaço para desafrontar a sua honra.  
“Sempre fui um homem de ordem. Sempre vivi honestamente do meu trabalho ".
Sua história é simples, e escuto do próprio "velho Ângelo", na sua linguagem seca e típica. Ângelo Roque da Costa nasceu em Jatobá, Tacaratu, em Pernambuco. Entrou para o banditismo em 1928, quando conheceu Lampião. Seu primeiro encontro com Virgulino foi na Fazenda Arrasta-Pé, na margem baiana do São Francisco.
-Não me esqueço da primeira impressão que Lampião me deu: a de um homem tão sujo que dava nojo.
Pouco antes de 1928, em Jatobá, um soldado da força local deflorou uma irmã de Ângelo, é o que me diz. O caso foi para a Justiça, mas o soldado era protegido da política "de cima" - as queixas de Ângelo de nada valeram.
- "Então resolvi fazer justiça com as minhas próprias mãos. Fui na casa do soldado, mas só estava lá a mulher dele. Esperei na porta até que ele chegasse. De noitinha ele apareceu, e então eu lhe disse que ia morrer. Atirei duas vezes. O "praça" caiu de bruços, mas não morreu. Me disseram depois que andou muito tempo á beira da morte, mas não morreu".

O medo da prisão jogou Ângelo Roque na caatinga: durante vários meses, andou como um sem pouso pelos áridos caminhos do sertão. Pouco aparecia nas cidades. Trabalhou em roças, dormia no mato. Conheceu, depois, os cangaceiros Corisco e Arvoredo, e os dois lhe explicaram que a única maneira de viver tranquilo, longe da polícia, era entrar para o cangaço. Em 1928, quando conheceu Lampião, se decidiu. Mas demorou pouco tempo ao lado de Virgulino.
- Lampião não podia ficar parado num canto, e eu nunca fui homem viajeiro. Além disso, de vez em quando, a gente se encrencava. Um dia tive uma briga mais séria com ele, por causa de uma coisa sem importância. A gente estava de emboscada, na caatinga, á espera de um caminhão. Mas depois aconteceu a disgraceira.
O culpado da "disgraceira", me explica Ângelo Roque, foi o promotor de Coité que, em 1941, requereu na Justiça estadual a prisão do velho e dos seus companheiros.
- Este homem sempre me quis o mal, não sei por quê. Nunca fiz nada com ele.
A Justiça foi implacável para com os antigos reis do cangaço: Ângelo e seus amigos foram condenados, cada um, a trinta anos de prisão. Há meses atrás, o antigo bandoleiro trabalhou numa Horta da Vitória da Legião Brasileira de Assistência e, diariamente, sem qualquer vigilância, tomava o bonde e ia para o bairro de Brotas, como um passageiro comum.

De todos os seis cangaceiros presentes, o único que tentou fugir da cadeia foi "Volta-Seca". Pergunto ao famoso cabra de Lampião, seu lugar-tenente, o que pretende fazer ao recuperar a liberdade. Volta Seca - é o mais vivo, o mais alegre e o mais inteligente de todos - me responde num sorriso:
- "Vou cuidar da minha vida".
- E depois ?
- "Me meto num lugar bem longe, tão longe que ninguém vai ouvir falar de mim. Mudo o nome, e vou viver tranquilo. O que passou, passou".
Sua fuga, há pouco mais de um ano, foi um prodígio de habilidade e sangue-frio: com uma lima rústica, Volta Seca conseguiu serrar uma das grades da prisão, e seu corpo fino e elástico, corpo de menino, deslizou pela pequena abertura e, em seguida, por um reduzido espaço entre fios elétricos do muro da penitenciária.
- " Em pouco mais de vinte dias, fui a pé daqui da Bahia até Santa Luzia, em Sergipe. Não fui em menor tempo, porque um companheiro meu, que também havia conseguido escapar, adoeceu no caminho ".
Converso com esse rapaz de 26 anos de idade (parece ter apenas vinte), e ás vezes me esqueço que foi ele próprio, há uns dez anos, quem comandou uma série de horrores numa fazenda de uns parentes meus, no Sul de Sergipe. Seu bom humor é contagiante, e é impossível deixar de rir quando Volta Seca nos revela, na sua maneira dialogada, ecos de sua fuga recente:
-"Uma tarde cheguei numa roça e pedi emprego. A dona da roça me olhou, perguntou depois: "você não é o Volta Seca ?". Dei um pulo para trás, gritei: "Deus me livre, minha senhora ! isso é coisa que se diga ! ".
Então a moça continuou: "Pois ja vi o retrato de Volta Seca e o senhor se parece muito com ele. " Respondi: "Pois então, dona, me pareço com o diabo ! ".
Peço a Volta Seca sua opinião sobre Lampião, e ele me responde:
-Lampião sempre foi um homem difícil de explicar.
- Mas era valente ? Perguntei-lhe .
- " Homem, não sei. Rodeado de amigos e bem armados e dispostos, todo mundo é valente....Nunca vi ele brigar sozinho. Lampião só andava rodeado, e assim qualquer trabalho fica fácil "
Aponta para Ângelo Roque, afogado na sua gravidade:
- Valente era aquele ali. Isto sim. Já vi várias vezes o velho Ângelo enfrentar sozinho vários "macacos" (soldados das volantes).
Também Volta Seca brigou, certa vez, com Lampião. Foi uma briga muito séria, me diz ele, e Deus Te Guie conforma.
-Naquele dia, eu tinha certeza que um dos dois ia deixar de viver: ou Volta Seca ou Lampião.
O mal-entendido entre o Chefe do bando e o seu cabra mais famoso teve lugar em 1931, após um duro combate com a força policial. Um dos bandoleiros, "Bananeira", havia sido ferido pelos soldados, e, ficara estendido na estrada. Volta Seca procurou Lampião e pediu-lhe autorização para ir buscar o amigo ferido. Virgulino achou que a empresa era perigosa e que a ida de Volta poderia facilitar aos soldados a pista do bando.

Mas Volta Seca não podia deixar o companheiro morrer, explica Deus Te Guie. Então, surgiu o primeiro atrito entre os dois. Em companhia de Caracol (também presente á entrevista, com seu rosto parado), Volta Seca conseguiu arrastar Bananeira até um lugar seguro. Mas Bananeira estava muito ferido e teve que ser transportado numa rede.
-Bananeira pesava como o diabo - me diz Volta Seca.
Quando os dois chegaram com o companheiro ferido, Lampião e o resto do bando já haviam ido embora. Voltaram depois, e Virgulino procurou Volta Seca:
- "Menino, a gente tem que andar depressa. Os "macacos" estão por perto. Solte o ferido ai, e monte no seu cavalo."
Volta Seca respondeu que não podia fazer aquilo. Bananeira iria com ele - e montou o ferido no seu próprio cavalo. Virgulino, enfurecido, ordenou a Volta Seca que desmontasse Bananeira.
- " Então, o sangue me subiu á cabeça. Disse que não desmontava. Lampião pegou a carabina, mas fui mais ligeiro do que ele. Apontei bem no peito dele e lhe disse: " Se o senhor bulir com as pestanas, atiro. "Lampião estava verde de raiva. Ficamos assim um tempo grande, um olhando para o outro. Depois os companheiros serenaram a coisa. De noite no meu rancho, fui avisado por Quixabeira e Gavião que Lampião ia me matar no dia seguinte. Então dei o fora "
Volta Seca tinha apenas 14 anos quando entrou para o bando de Virgulino. Nascera em Itabaiana, no centro de Sergipe, fugiu de casa menino e andou sozinho pelo sertão. Encontrou-se com Lampião, em Goroso, no município de Bom Conselho, na Bahia. Ele me diz agora que no princípio apanhava quase que diariamente de Lampião. De Virgulino e dos outros:
- "Todo mundo gostava de enxugar a mão em mim. Até o velho Angelo Roque. Mas depois endureci o cangote, e o primeiro que me apareceu com ares de pai, recebi com a mão no rifle ".
Volta Seca me garante que quase todas as histórias que contam a seu respeito não são verdadeiras.
- "Gostavam de contar, por exemplo, que eu só matava á traição. Uma calúnia. Eu posso ser tudo, meu senhor, posso ser ruim de doer, uma coisa , no entanto, não sou: covarde e traidor. Nunca matei ninguém pelas costas, mas sempre em defesa própria. E sempre fui amigo dos meus amigos. Eu podia ter matado Lampião, naquele dia da briga, matar pelas costas, friamente. Mas não matei, porque era feio ".
Pergunto a Volta Seca os nomes de alguns dos coiteiros mais importantes e mais chegados ao bando. Ele sorri e responde:
“- O que passou, passou ".
Mas, o cangaceiro Cacheado toma a palavra:
- " Quase todo dono de fazenda era coiteiro. Os coiteiros sempre foram a nossa perdição. Eles nos davam dinheiro, comida e munição. E eram sempre eles que nos entregavam aos macacos (policiais). "
Volta Seca tenta inocentar os coiteiros:
- " Eles tinham que ajudar a gente. Senão a gente queimava as fazendas deles e matava o gado".
O cangaceiro "Saracura", de pele esverdeada pelo impaludismo, tem o olhar distante, perdido no mundo lá fora que a janela aberta deixa ver: o telhado comprido da estação de Calçada, as casas equilibradas no morro ao lado, a chaminé comprida da fábrica. É um rapaz calado que de vez em quando morde os lábios. Suas respostas são quase monossilábicas. Pergunto:

-Como você Saracura começou essa vida de bandoleiro ? Ele responde:
- A gente nunca sabe.
Ângelo Roque é da mesma opinião.
 - " Nunca se sabe. Uma coisa digo ao senhor: "Ninguém nasce bandido". Vamos dizer que aquele soldado casado não tivesse feito mal á minha irmã: tudo seria diferente. Eu continuaria na minha rocinha, talvez tivesse hoje umas economias, talvez até fosse dono do sítio. Nunca fui um homem da maldade. Depois que a gente vai pelo caminho, é que é o diabo.
O medo da prisão transforma o indivíduo numa fera ". O cangaceiro Caracol, tão calado, parece despertar, e começa a falar numa espécie de explosão:
- Por ai só se fala nas crueldades dos bandidos. Mas o senhor ande pelo sertão, converse com o povo pobre de lá: todo mundo dirá ao senhor que muito mais barbaridades do que nós, praticavam os soldados da força volante. E os coronéis, também. Eu poderia citar casos e mais casos de coisas horrorosas que eles fizeram por estes sertões. Bandidos como a gente. Por isto é que, em muitas cidades e povoados, nós, os "cabras", éramos recebidos como salvadores. Em certos lugares, meu senhor, o povo tinha mais confiança na gente do que nos "macacos" das volantes.
Volta Seca aparteia:
- " É isso mesmo: os crimes dos "macacos" foram iguais aos nossos. Mas nada aconteceu com eles. E com os coiteiros ? Os homens importantes e ricos do sertão, que nos ajudavam, nos davam armas, dinheiro e comida, continuam ricos e importantes. "
Cacheado volta com seu riso de menino:
-" A gente matava muito, a gente matava como uns danados. Mas a policia e os coronéis, matavam muito mais. "
Ângelo Roque faz um gesto com a mão, e o silêncio volta á sala. Agora só se ouve a voz grossa do " velho Ângelo", que diz, o rosto fechado:
-"Mas não vamos falar mais nisso. O que passou, passou, já disse. O que adianta agora é que nos dêem a liberdade prometida. Sou ainda um homem moço, quero ficar livre, trabalhar e cuidar de minha vida."
Volta Seca se volta para mim:
-"Veja o que o senhor pode fazer por nós. Até agora ninguém nos ajudou. Chegam aqui os doutores, pedem para ver a gente e saem prometendo mundos e fundos. Mas a verdade é que continuamos aqui. Já passei um tempo medonho na prisão, mais de dez anos, quero a liberdade. Fugi, há pouco tempo, porque não aguentava mais. Se eu não fugisse ficava maluco "
O cangaceiro " Deus Te Guie " acrescenta:
-" Seu Ângelo não gosta que a gente fale, mas é preciso que se diga que houve muita injustiça por esses sertões. Por que foi que "Arvoredo" ficou criminoso ? Por causa das barbaridades que os "macacos" fizeram com a sua familia. "
E é Volta Seca quem me conta a história:
- "O pai de Arvoredo vivia em Santo Antônio da Glória. Numas eleições, o velho deixou de votar no chefe político do lugar. O chefe mandou uma volante no seu sítio e eles fizeram horrores: estupraram as duas filhas e mataram os quatro filhos do velho, inclusive duas criancinhas de berço. Só escapou Arvoredo. Acabou bandido. E o velho se tornou coiteiro. Foi preso, morrendo aqui nesta penitenciária, há dois anos atrás, quase com oitenta anos. "
O próprio Saracura parece, agora, sair do seu sono triste. Pede a palavra e conta:
-"Posso falar do meu caso. Peguei na espingarda quase obrigado, para mim vingar das misérias que fizeram com meu pai. Um dia, no Coité, uma volante invadiu o nosso sítio. Queriam á força que meu pai desse notícia dos cangaceiros, como se ele fosse um coiteiro. O velho não sabia de nada, e então os "macacos" começaram a supliciar o pobre: arrancaram as barbas dele, fio a fio, arrancaram suas unhas com alicate; se o senhor pensar que estou mentindo, vá lá no Coité e procure André Paulo Nascimento, que mora nas redondezas. É o meu pai. Ele dirá ao senhor se estou ou não falando a verdade. Ele mostrará ao senhor o estado em que ficaram seus dedos. E eu próprio, antes de pegar na espingarda, fui um dia violentamente espancado na Fazenda Curral, perto do Coité. Os "macacos" haviam dito que eu era coiteiro, mas na verdade é que, até então, eu nunca vira um bandido na minha vida ".
Saracura me revela mais que é casado e tem três filhos, que de vez em quando o visitam. A conversa chega ao fim, e peço aos antigos companheiros de Lampião que permitam ao meu fotógrafo uma série de instantâneos, coletivos e individuais. Instintivamente, "Deus Te Guie" abotoa a blusa e passa a mão nos cabelos lisos. "Volta Seca" diz, num sorriso:
- "Só deixo tirar meu retrato se o senhor mandar uma cópia para mim".
E quando o violento magnésio da câmera fotográfica do meu amigo Brito rebenta na sala, como um tiro de canhão, o ex lugar-tenente do Capitão Virgulino dá um pulo da cadeira:
-"Um tiro desgraçado ! Parece pólvora seca".
E ao lhe pedir uma pose especial, "Volta Seca" chega até a janela aberta e diz:
- "Quero tirar um retrato olhando para fora, com a cara triste. Para mostrar aos doutores que estou doidinho para sair daqui."
Há uma larga distribuição de charutos e, ao se despedir, o velho "Ângelo", aperta minha mão com força:
-" Disponha aqui de um criado ás ordens. Desminta as calúnias que dizem a nosso respeito e veja o que o senhor pode fazer por nós.."

A entrevista integra o livro "Tempo de Contar" (Editora Record, 1986).

Estimados colegas: Leiam esse importante texto, e tire as suas próprias conclusões.
Um abraço!
Ivanildo Silveira


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Chico Pereira" - O CANGACEIRO

Vingança no Sertão – Código de honra

O sertão nordestino sempre teve seus códigos de honra. Quando alguém ousava quebrar tais códigos, estaria assinando uma sentença de morte.

Sabemos que o sertanejo é homem forte e destemido, enfrentando as intempéries da seca, além de outras adversidades, mas capaz de superá-las, com coragem e altivez. O sertão é misterioso, implacável e não perdoa os erros ou quebra da palavra empenhada, que significa dizer: código principal da honra sertaneja.

O que aconteceu com Chico Pereira não poderia jamais ter sido diferente, mesmo tendo prometido ao pai moribundo, não participar ou promover qualquer tipo de vingança. Vingança aconteceu. E a história já fez o seu julgamento.

Vejamos, através da narração dos fatos, como tudo aconteceu.

O coronel João Pereira, morava na cidade de Nazarezinho, outrora distrito de Souza/PB, era casado com Dona Maria Egilda, proprietário da fazenda Jacu, possuía um barracão em Nazarezinho e tinha sete filhos, sendo quatro homens e três mulheres.

Uma noite, João Pereira, já prestes a fechar seu estabelecimento, viu entrarem três homens
armados. Ao atendê-los, o coronel chamou a atenção deles sobre o uso de armas, quando na época havia uma proibição municipal que não permitia pessoas andarem armadas. Isso foi o suficiente para início de uma discussão seguida de tiroteio e facadas, pancadarias e gritaria, resultando em alguns mortos e outros feridos, inclusive o coronel João Pereira, o qual foi levado para sua casa na fazenda Jacu, distante cerca de cinco quilômetros.

Em consequência dos ferimentos graves, o coronel veio a falecer diante de sua família, suplicando aos filhos para que não se vingassem. "Vingança, NÃO." foram suas últimas palavras.

Há revolta do povo que não se conformava com a morte do coronel e pedia justiça, uma vez que a polícia apresentava nenhum interesse em prender o foragido Zé Dias, envolvido na chacina e protegido pelas autoridades locais.

Chico Pereira, o filho mais velho do coronel, com apenas vinte e dois anos de idade, se viu impelido pela comunidade a fazer justiça. Pressionado, sai à procura de Zé Dias que se refugiara nas serras da região. Chico Pereira encontra-o, prende-o e o leva à delegacia, sendo ovacionado pelo povo que queria ver Zé Dias preso.

Após alguns dias, o criminoso já se encontrava solto. A população revolta-se e passa a exigir vingança por parte do filho mais velho do coronel. Este, sem outra opção, se vê obrigado a não cumprir o pedido do pai moribundo e parte para a Vingança, como era costume na época, exigência da lei de honra, familiar do sertão. Depois de alguns dias, o criminoso é encontrado morto. Maria Egilda, finalmente ouve do filho a declaração que mais temia: "Mamãe, fizeram-me criminoso':

E foge, passando a viver clandestinamente nas matas da região. Para enfrentar a polícia e não ser preso cria um bando de cangaceiros.

Chico Pereira começa então sua saga que dura mais de seis anos, ora fugindo da polícia, ora comandando o bando. Mesmo diante de tantos problemas e da vida tumultuada, sua noiva, Jardelina, jovem adolescente de doze anos de idade, quando noivara, não hesitou em se casar com ele, aos quatorze, em cerimônia realizada por procuração. Foi esta a única saída possível e que lhe possibilitou ser pai de três filhos, os quais não chegaram a conhecê-lo, pois Jarda, como era conhecida, já estava viúva com apenas dezessete anos de idade.

Absolvido em júri popular, na Paraíba, Chico Pereira foi acusado de um crime que não cometeu no Rio Grande do Norte, onde nunca estivera. Apesar de contar com a proteção do Presidente do Estado da Paraíba, através de um irmão deste, foi levado para aquele estado e entregue à justiça potiguar.

Tempos depois, foi Chico Pereira transferido do presídio de Natal/RN para o interior do estado. Os policiais potiguares, devidamente instruídos, forjaram um capotamento do carro, massacraram-no e o matam sem a menor chance de defesa. Estava Chico Pereira com vinte e oito anos de idade. Sua mãe, dona Maria Egilda, nem sequer teve a sorte de enterrar o seu filho, pois preferiu seguir a orientação do advogado da família, Doutor João Café Filho ( futuro presidente do Brasil), que recomendou para ninguém da família pisar em terras do Estado vizinho sob pena de ser morta.

A tragédia continua com o assassinato inesperado e brutal de Aproniano, e a prematura morte de Abdon, que estuda medicina no Rio de Janeiro. Este, acometido de tuberculose, veio a falecer nos braços de sua mãe, na fazenda Jacu.

Vida longa teve o único sobrevivente, Abdias, que veio a falecer recentemente, no dia 28 de julho de 2004, com cento e três anos de idade. Dos três filhos de Chico Pereira, Raimundo formou-se engenheiro, no Recife; Francisco ordenou-se padre em Roma e o terceiro, Dagmar, é frade franciscano com nome de Frei Albano.

Chico Pereira foi um dos homens mais destemido do sertão paraibano, que levado pelas circunstâncias da época, fez "justiça" com as próprias mãos e tornou-se cangaceiro.

FONTES DE PESQUISA:
01- Vingança, Não - Autor: F. Pereira Nobrega (Filho de Chico Pereira);
02- A Vingança de Chico Pereira - Autor: João Dantas

Um abraço, obrigado pela leitura, e poste seus comentários, logo abaixo.
Ivanildo Silveira
Natal RN 

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cel. João Bezerra


Resumo biográfico 


Outro panfleto que circulou entre os participantes foi este, produzido pelo amigo Dr. Paulo Britto (Foto abaixo) filho do comandante da tropa que liquidou Lampião autor do livro "O cangaço e as volantes "Lampião e Tenente Bezerra".

Neste folder apresenta-se na contra-capa o jovem João Bezerra numa foto rara quando esteve lutando na revolução de 30. Os contatos com o autor também estão impressos neste material.

Entrevista para o Documentário Cariri Cangaço.

Luis Pedro

Resumo biográfico
 


Este panfleto foi distribuído aos participantes do 1º Cariri Cangaço pela amiga Professora Diana Lopes coordenadora e coreógrafa do Grupo de Xaxado Luiz Pedro da cidade de Triunfo/PE. Cliquem para ampliar e conhecerem os históricos do grupo e de seu homenageado, confiram os contatos para apresentações.

sábado, 24 de outubro de 2009

Carta aos rastejadores

O Lampião está encandeando?

As opiniões expressas em todos os documentos publicados aqui neste site são de responsabilidade exclusiva dos autores. Cabe a nós reunir e difundir o conhecimento para todos os interessados. E é de responsabilidade de cada leitor o eventual uso que venha a fazer desta informação. As publicações que não foram autorizadas estão na medida do possível creditadas aos seus responsáveis.

Não inventamos e ninguém é obrigado a concordar ou discordar com todas as repostas de uma Entrevista. Os citados nos autorizam a vinculação e sabem, ou não, da repercussão que estas podem alcançar e causar.

Uma delas "causou" e por isto esta notinha.

A mensagem seria dispensada pela maioria. Antes que outros leitores nos interpretem mal devido a publicações que os incomodaram, deixo claro que a politica do Lampião Aceso ainda é a mesma de qualquer blog compromissado com a verdade. Textos são corrigidos na medida em que eu e nossos colaboradores conseguimos detectar e outros seguidores que nos alertam através dos comentários.


Quando a real importância de um conteúdo para  a pesquisa cai no conceito de "especialistas" é porque de nossa parte coube a intenção primordial de respeitar estas opiniões, notícias, fotografia evento etc etc etc e divulga-las sem qualquer filtragem.

O blog é parceiro e está a serviço das boas novas e velhas novidades. Não queremos provocar ninguém, muito pelo contrário, abomino e procuro sempre manter distancia de tal ideia.

Att Kiko Monteiro.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Perguntar não ofende

Ainda vale a pena escrever sobre o cangaço? 

O pesquisador e escritor Rostand Medeiros (FOTO) co autor do recém lançando livro “Os cavaleiros dos céus, a saga do vôo de Ferrarin e Del Pretti” nos apresenta aqui sua opinião e uma dúvida que permeia entre muitos que desejam  escrever e investir alto em um trabalho sobre o referido tema. Só quero entender uma coisa,  mas antes de tudo vejamos esta nota saiu no Diário de Pernambuco, no dia 11 de Março 2009. Vejam que interessante;;;

Estética do cangaço em "livro de luxo"

Por um quarto de século, o historiador Frederico Pernambucano de Mello tem investigado o fenômeno do cangaço. O exaustivo trabalho pode ser encontrado em vários artigos acadêmicos e nos livros Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil (1985) e Quem foi Lampião (1993).

Desde 1997, no entanto, o pesquisador deixou de lado o aspecto estritamente jurídico-sociológico para se dedicar com esmero às implicações estéticas geradas por esse universo. Este pioneiro estudo em breve estará acessível ao público leitor através do livro de arte Estrelas de couro: a estética do cangaço, que será lançado sob o selo da editora Escrituras.

A parceria entre autor e editora será sacramentada com assinatura de contrato nesta quinta-feira, 19h, em evento aberto ao público no auditório do Museu do Estado de Pernambuco (Av. Rui Barbosa, 960 - Graças). Por telefone, o editor Raimundo Gadelha explica ao Diario de Pernambuco que a formalidade é consequência daimportância do projeto. "Esta será a mais importante obra sobre o tema", diz Gadelha, que adianta alguns detalhes técnicos: 5 mil cópias; sobrecapa e miolo com 240 páginas em papel couché; e capa dura com aplicações de verniz que imitam a textura do couro. Gadelha diz que o preço final depende das oscilações da economia. "A idéia é não ultrapassar os R$ 100, mas para isso precisamos de apoio de instituições que façam aquisição prévia de exemplares".

Na mesma ocasião, Frederico Pernambucano concederá a palestra Uma estética brasileira relevante: cangaço. Nela, o historiador defende a ideia de que os cangaceiros tinham preocupação estética ainda maior do que o homem urbano contemporâneo. "Certa vez, Lampião passou duas semanas costurando um bornal em uma máquina Singer. Ele mesmo desenhava no papel o modelo para as flores e estrelas", conta.

Uma vez pronto, o livro materializará uma pesquisa que procurou nos detalhes as pistas para decifrar o comportamento do que Frederico Pernambucano avalia como a última expressão do irredentismo brasileiro. "Trata-se do mito primordial de que aqui é possível viver sem lei nem rei, traduzido pragmaticamente pelos índios, depois pelos negros dos quilombos, e depois pelo cangaço, sendo este último não restrito a grupos étnicos".

O pesquisador, que se considera um "sociólogo atropelado pelo esteta", afirma que o portentoso volume poderá ser objeto de cabeceira para dramaturgos, estilistas, designers e demais profissionais da imagem. "A meia-lua e a estrela que formam o chapéu de couro até hoje é a marca que representa o Nordeste. E isso, gostemos ou não, quem nos deu foram os cangaceiros", afirma Mello.

As inúmeras e detalhadas referências, informações e reflexões de Mello certamente são um forte atrativo para qualquer interessado nesta rica e fascinante iconografia. No entanto, o carro-chefe da publicação serão as ilustrações, retiradas de múltiplas fontes, entre elas, de seu acervo particular, que acumula cerca de 160 itens entre roupas, armas, bornais (bolsas) e diferentes objetos que compunham a indumentária típica do cangaceiro. "O traje do cangaceiro não se confunde com o de qualquer grupo social da história brasileira. No meio internacional, é algo que só se compara com os cavaleiros medievais e os samurais japoneses", garante o autor.

Desde 1984, quando começou a se debruçar sobre o cangaço, o componente estético havia lhe chamado a atenção. "Me deparei com objetos com apelo estético requintado demais para pertencer a um grupo de bandidos. Então verifiquei que esse lado criminal, que era o único conhecido, precisava ser combinado com o lado estético, então oculto. Entendi então que o cangaço é muito mais profundo do que uma mera expressão da criminalidade", conta Mello, que agora sonha com seu próximo projeto: a criação do Museu do Cangaço do Nordeste. Bom encerrou ali mesmo,,,

Mas alguém sabe comentar se este livro foi lançado? Se não foi, ô parto difícil.

Bem, como é possível explicar que uma figura como esta, consagrada, com ligações, contatos, etc, já a algum tempo não consegue, ou por alguma outra razão, ainda não lançou, o seu livro sobre a questão da estética no cangaço. Sobre o poder de como as roupas dos cangaceiros influenciaram na formação da sua identidade de grupos errantes de bandoleiros. Segundo informações, este livro está pronto, mas nada de chegar as livrarias.

Será que o livro é grande e caro e até para FPM é complicado de lançar?
Será que as editoras perderam o interesse pelo assunto?
Será que o tema cangaço perde força?

Atenciosamente
Rostand Medeiros
Pesquisadore e escritor, Natal/RN

Volta Seca

A Prisão

Por Gilfrancisco

O medo da prisão transforma o homem numa fera, é isto mesmo: os crimes dos “macacos” foram iguais aos nossos. Mas nada aconteceu com eles, nem com os homens importantes e ricos do sertão, que nos ajudaram, nos davam armas, dinheiro e comida, continuam ricos e importantes.

Volta Seca hospitalizado
Lampião não foi o primeiro dos cangaceiros, mas sua presença marcou o rompimento entre o cangaço e as outras formas de violência e autoridade. Seus antecessores estavam ainda fortemente vinculados aos coronéis, ou às formas tradicionais de controle. Em julho de 1938, Lampião, Maria Bonita e nove cangaceiros são mortos em emboscada preparada pela polícia, na Fazenda Angico, em Sergipe. Um dos mais importantes cabras do bando de Lampião, Volta Seca (Antônio Santos), fugitivo da Penitenciária do Estado da Bahia, foi preso em Indiaroba, pela força Policial do Estado de Sergipe, comandada pelo oficial do Exercito, capitão Bernardino Dantas.

Volta Seca, por duas vezes fugiu da cadeia. A primeira foi concedida um “passeio experimental”, saiu e não retornou, ficou perambulando pelas ruas da capital. A segunda vez fugiu em companhia de outro sentenciado e saiu pela porta principal sem ser percebido. Apesar de não ter sido capturado em combate, a polícia baiana ganharia notável publicidade com a prisão de Volta Seca, que ocorreu em virtude do cansaço (longa caminhada a pé pela mata durante vários dias), do companheiro de cárcere que ficou muito doente, ao ponto de querer desistir da jornada. Volta Seca não o abandonou, levou-o nos ombros até o primeiro povoado mais próximo, onde foi reconhecido pela população e denunciado a força pública, em seguida preso e recambiado a Salvador

A notícia de sua fuga do famigerado bandoleiro deixou a população sergipana preocupada, porque ainda não havia desaparecido do espírito nordestino, a época de terrorismo em que o banditismo de Lampião criou nos sertões de Pernambuco, Sergipe, Bahia e Alagoas, e de tão graves consequências para o homem do campo. Segundo o Departamento de Segurança, “Volta Seca fugiu da Bahia pelo litoral, penetrando neste Estado pelo município de Estância, e sendo preso em companhia de outro bandoleiro, entre os municípios de Indiaroba e
Cristinápolis.” (Diário Oficial. 5 de março, 1944)

Após tomar conhecimento da fuga, as autoridades sergipanas, determinaram rápidas e enérgicas providências, estabelecendo imediatamente contato, com os destacamentos policiais de todo o interior e foi determinada severa vigilância. A Força Policial do Estado, que relevantes serviços prestou no combate ao banditismo, quando este esteve em plena campanha, traz de público, uma vez mais, a sua disposição de combatê-lo, sempre com mais energia, defendendo, com a sua coragem e a sua técnica militar:

“Transportado de Indiaroba para esta capital, desde a sexta-feira última, que aqueles foragidos estão recolhidos à Penitenciária do Estado, à disposição das autoridades policiais do vizinho Estado da Bahia, de onde se evadiram.” (Diário Oficial, 8 de março, 1944) 

Quando foi preso pela primeira vez, no final de fevereiro de 1932, Volta Seca submeteu-se a exame psicológico realizado pelo Dr. Artur Ramos:

“Atitude de humanidade. Fala arrastado, responde com precisão a questões que lhe propõem. A este exame preliminar, parece haver um certo grau de mitomania. Aumenta um pouco os relatos de crimes dos seus companheiros. Admiração incondicional pelo compadre Lampião, o que denota um certo grau de erostratismo criminal. Olhar móvel, desconfiado, intimidado com a presença de várias pessoas – oficiais da Força Pública – que o inquirem.

“Esta vaidade criminal leva-o até a descrer no fracasso de Lampião, que julga invulnerável...”
Segundo Zé Sereno, depois da prisão de Volta Seca, ninguém nunca mais acampou no Raso da Catarina, ou na serra do Chico. Quando o cangaceiro foi preso, Lampião ordenou a divisão dos grupos, entregando o comando aos seus mais experimentados homens: Luís Pedro, Zé Baiano, *Velho Cirilo, Jararaca, Manuel Moreno. Cada um com seu grupo formado saiu do Raso, para penetrar nas caatingas. Ao tomar conhecimento da prisão de Volta Seca, Lampião soube que os irmãos Roxo, o haviam entregue à polícia e decidiu vingar. Passou na casa dos irmãos e assassinou todos eles, exceto a mãe e um irmão que encontrava-se viajando. Incendiou a fazenda e destruiu plantações.

Um fato curioso é que “desde que fora internado naquele estabelecimento penitenciário, Volta Seca, com o interesse de captar a confiança de seus vigias, dedicara-se a fazer flores de cera e se exercitava na ginástica, trazendo em si a ideia fixa de uma evasão. Foi o que veio acontecer.” (Diário Oficial, 5 de março, 1944).

Sergipano de Itabaiana, filho de Manuel Antônio dos Santos e Arminda Maria dos Santos, era o 6º dos 13 filhos do casal, nascera em 18 de março de 1918. Volta Seca havia se juntado ao bando de Lampião em 1929, aos 11 anos, e não era a primeira criança a ser aceita no bando: Beija-Flor, Deus-te-Guie, José Roque e Rouxinho. Essas crianças eram utilizadas na lavagem dos cavalos, no carregamento de água, na arrumação e assepsia de pousos e acampamentos, e foram muitas vezes usadas nos serviços de espionagem. Portanto, a sua passagem pelo cangaço foi rápida, não mais de 4 anos.

Volta Seca saiu pelo mundo devido aos maus tratos da madrasta, pessoa violenta que espancava constantemente os enteados. Percorreu sozinho, os sertões de Sergipe e Bahia, até encontrar Lampião em Goroso, no município de Bom Conselho. Em entrevista concedida ao jornalista Joel Silveira, em março de 1944, na Penitenciária da Feira do Cortume, situado na Baixa do Fiscal, Volta Seca diz que no princípio apanhava quase que diariamente de Lampião e outros cabras do grupo. Mas depois endureceu o cangote e o “primeiro que me apareceu com ares de pai, recebi com a mão no rifle.”

Por ser menor, Volta Seca teve que aguardar a maioridade, 21 anos para ir a julgamento. Transferido para Queimadas (BA), a fim de responder por crimes do banco naquele local. Condenado a 145 anos de cadeia, no primeiro julgamento, Volta Seca teve a pena reduzida para 30 anos de reclusão. Mais tarde, o processo foi revisto e a pena reduzida para 20 anos. Em 1954, Volta Seca foi perdoado pelo presidente Getúlio Vargas. Em liberdade, analfabeto e um homem marcado pela sociedade, viu-se diante de um grande desafio.

Casou-se e foi morar no Nordeste, quando recebe um convite para morar em São Paulo, do cineasta e diretor Lima Barreto, para assistir e criticar o filme, O Cangaceiro (1953), mediante uma gratificação. O ex-cangaceiro condenou a cena em que Lampião chicoteia um cabra na cara. Diz que nos sertões, não se faz isso com homem, se mata, pois cara de homem no Nordeste é sagrada. Graças às novas amizades conseguiu emprego na Estrada de ferro Leopoldina, onde trabalhou por vários anos.

Cantor e compositor em 1957, Volta Seca gravou pela Continental um LP, com apenas 8 faixas, ‘As Cantigas de Lampião’, com instrumentação do maestro Guio de Moraes: ‘Acorda Maria Bonita’, ‘Escuta Donzela’, ‘Eu não pensei tão criança’, ‘Lá prá Mina’, ‘A Laranjeira’, ‘Mulher Rendeira’, ‘Lampião e Sabino’, ‘Se eu Soubesse’. Em 1959, teve o baião ‘A Laranjeira’ gravado por Zé do Baião, e no ano seguinte, por José Tobias, a toada ‘Se eu Soubesse’.

*Jornalista, professor da Faculdade São Luís de França e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe)

Fonte: Jornal da Cidade

*Onde se lê Velho Cirilo talvez o autor esteja se referindo a "Pai Véio" e "Cirilo de Engrácia" 

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Prazer em conhecer: Lampião Aceso entrevistou o pesquisador e escritor Antonio Amaury

O Mestre 

Lampião Aceso completa hoje 1 ano de atividades. Há tempos que alguns leitores me cobravam ocorrências para o referido assunto. Pra comemorar a data, pela estima e admiração que tenho pelo entrevistado reservei esta pauta proporcionada pelo nosso terceiro encontro, espero que gostem. 

Amigos e especialmente o pessoal que está chegando agora conheçam um pouco mais da história e de algumas preferências do maior pesquisador brasileiro, no estudo do cangaço.

Antonio Amaury Corrêa de Araújo é o sulista mais nordestino de todos os tempos, É hoje, sem duvida, o maior e mais profundo conhecedor do ciclo épico do cangaço e do Padre Cícero também, enfim, Amaury tem nordestinidade em seu DNA, é natural de Boa Esperança do Sul interior de São Paulo, hoje reside na capital. Frequentador da web inclusive páginas de relacionamento, participa de algumas comunidades do Orkut sempre com disposição para contatos e dirimir dúvidas.

Ele entrevistou (está gravado) mais de 40 ex-cangaceiros, com membros das forças policiais com pessoas da sociedade da época e familiares remanescentes sendo que a maioria dos depoimentos foram gravados em K7, na cidade de São Paulo e outros Estados. Teve cangaceiro, que passou mais de 03 meses na casa do Dr. Amaury, pelos mais diversos motivos: além da colaboração com depoimentos alguns aproveitaram a hospitalidade do mestre para tratamento de saúde.

É consultado, com frequência por jornalistas, cineastas, professores universitários, alunos e estudiosos do cangaço de uma forma geral.

Que Deus lhe dê muitos anos de vida, energia para os próximos seminários e que sua pena (força de expressão) "seu computador" venha, ainda a produzir, muitas obras de interesse dos brasileiros e, sobretudo dos nordestinos no tocante aos sertões.

Incansável em busca de informações sobre o assunto, realizou mais de 6.000 entrevistas. Suas pesquisas minuciosas, diretas, imparciais, fazem-no um autêntico mestre, criterioso e honesto.
Nos anos 70, tornou-se conhecido em todo o Brasil ao participar do "Programa 8 ou 800", da TV Globo, respondendo sobre Lampião.

Tem vários livros publicados sobre o assunto, entre eles:
Lampião: Segredos e Confidências do Tempo do Cangaço; Assim Morreu Lampião; Lampião: As Mulheres e o Cangaço; Gente de Lampião: Dada e Corisco; Gente de Lampião: Sila e Zé Sereno; O Espinho do Quipá e De Virgolino a Lampião, Ambos em co-autoria com Vera Ferreira, neta de Lampião, Lampião e a Maria
Fumaça e mais recente cabeças cortadas co-autoria com Luiz Ruben e A Medicina e o Cangaço em co-autoria com Leandro Cardoso Fernandes. E outros títulos saindo do forno os quais vamos revelar na entrevista a seguir.


Antonio Amaury, que em novembro estará completando 75 anos de idade, sendo 61 dedicados à pesquisa foi um dos ilustres convidados para abrilhantar o 1º Cariri Cangaço, aproveitamos a oportunidade para solicitar uma audiência com ele, vamos conferir.

Qual é o filho preferido do acervo?
Assim morreu Lampião.

E de outro autor?
"Lampião" de Ranulfo Prata.

Qual é literatura recomendada para um calouro?
Vai soar com autopromoção, mas entre os mais de 200 títulos existentes eu indico que comecem pelo meu acervo que foi fruto de uma pesquisa séria além de muita intuição para repassar depoimentos e narrativas de quem viveu o cangaço.

Atualizando em números: Com o aparecimento de Durvinha, Moreno e Aristéia quantos personagens desta história foram entrevistados por Antonio Amaury?
Moreno e Durvinha não acrescentaram nada, entenda, para o que já sabíamos. Aristéia tem menor importância ainda, pois só viveu seis meses num subgrupo, nunca participou de um combate e nem sequer conheceu Lampião, Maria Bonita etc. Possuo precisamente sete mil entrevistas a maioria em arquivo de áudio. As mais importantes seriam: Sinhô Pereira, João Ferreira e Mané Veio foram peças de grande valia para a construção da história.

Quem foi o primeiro?
Foi uma figura apagada, filho de um coiteiro que tinha 15 anos quando conheceu Lampião na ocasião de uma visita a fazenda do pai. Mas no ano de 67 eu tive um contato coletivo... um acúmulo de conhecimentos com vários envolvidos conheci: Dadá, João Bezerra, Mocinha (irmã de Lampião ainda viva).

Quais destes contatos foram os mais difíceis?
Quase sempre com soldados houve certa resistência para dar depoimentos.

Amaury teve que pagar para obter entrevista?
Sim, várias vezes.

Qual o contato que não foi possível e lhe deixou de certo modo frustrado?
Aconteceu mais de uma vez, mas lamento mesmo não ter tido um encontro com o jornalista Melchiades da Rocha ele era do jornal "A noite ilustrada" do Rio de Janeiro e estava em Angico três dias após o Massacre, ele viveu aquele momento conversamos por telefone eu insisti para um encontro, mas ele não cedeu, não quis aproximação.

Um cangaceiro?
Balão.

Um volante?
Manoel Neto.

Um coadjuvante?
Tenente João Maria, de Serra Negra. (Hoje Pedro Alexandre-BA)

Uma personagem secundária?
Jogo para esta posição na pirâmide o cabo Antonio Honorato, dá impressão que teve grande importância, ele se rogava "o homem que atingiu Lampião", mas nunca foi provada a sua ação.

O que pretende fazer com as centenas de horas em entrevistas colhidas em vídeo?
Estamos com a proposta de um estúdio e possivelmente vamos criar uma coletânea de vídeos afinal são mais de 250 horas de imagens.

E quanto às peças e relíquias é real o desejo de montar um museu particular? 
Sim, mas já existe uma exposição itinerante com parte de meu acervo que atualmente circula pelo nordeste sob os cuidados de Ricardo Albuquerque neto de Adhemar Albuquerque da ABA films.

Nós que gostaríamos de ver um filme que retratasse um cangaço autêntico, fiel aos fatos, sem licença poética, sem erro primário enfim sem exagero da ficção lamentamos a eterna necessidade de se ter finalmente uma produção digna da saga, de preferência um épico ou uma trilogia, enquanto isto não foi possível qual a película mais lhe agradou?
O mais próximo com a verdade "Corisco o diabo loiro", com Leila Diniz e Maurício do Vale.

Eleja a pérola mais absurda que já leu sobre Lampião?
Ultimamente tenho ouvido cada balela que é difícil destacar a pior, mas "Alguém" disse... pessoas descompromissadas afirmaram para um jornal: Lampião tinha pretensões de ser governador.

Além da nova edição ampliada da obra Assim morreu Lampião qual a próxima novidade que teremos em nossas estantes?
"Assim morreu Lampião" ainda está encaminhada, "Cidades invadidas ou visitadas" também, estou preparando um livro sobre "Maria Bonita", mas meu próximo livro mesmo, o qual esperava ter lançado aqui no Cariri Cangaço é "Lampião, herói ou bandido?" a editora não me entregou a tempo de viajar.

Qual é o capitulo preferido do mestre Amaury?
A história do cangaço é um tema tão controverso tem capítulos extraordinários e chocantes. Elejo três: Lampião em Juazeiro, Mossoró, e a batalha de Serra Grande.

Diante de tantas polêmicas surgidas posteriormente a tragédia em Angico alguma chegou a fazer sentido, levando-o a dar atenção especial ex.: Ezequiel reaparece anos mais tarde, João Peitudo filho de Lampião, O Lampião de Buritis e esta, mais recente sobre a paternidade de Ananias?
Sim, o caso "Ananias", pois acompanhei de perto. Foi interessante até determinado ponto, depois achei por bem recuar.

Qual foi o melhor momento deste Cariri Cangaço?
Gostei de todas as palestras, mas as mais interessantes foram a do Promotor Ivanildo Silveira e a de Honório de Medeiros.



Texto: Compilado nas comunidades do Orkut Cangaço Discussão técnica e Lampião grande rei do cangaço,  
Entrevista: Kiko Monteiro  
Foto: Rubervanio "Rubinho" Lima. 

Atenção professores, que tal um Jogral?

A última peleja do Diabo Loiro 
Há sessenta anos morria Corisco, o derradeiro chefe do cangaço, mas a batalha dos sertanejos contra a fome e a violência continua


Imagine-se no dia 25 de maio de 1940. Corisco havia cortado o longo cabelo loiro e não andava mais em bando desde a morte de Lampião, dois anos antes. Vivia escondido com sua mulher, Dadá, na casa de um sertanejo na cidade baiana de Barra do Mendes. O casal havia acabado de almoçar quando foi surpreendido por uma volante patrulha policial que seguia os cangaceiros. Corisco não quis se entregar e morreu no tiroteio. Dadá, ferida na perna por uma bala, ficou para contar a história.

Cristino Gomes da Silva Cleto nasceu na cidade de Matinha de Água Branca, Alagoas. Aos 17 anos, matou um protegido do coronel da cidade e fugiu. Sem rumo certo, optou de vez pela criminalidade e entrou para o bando de Lampião, o lendário cangaceiro. Forte, corajoso e ligeiro, logo passou a ser chamado de Corisco. Conquistou poder e, com a divisão do grupo (parte da estratégia para fugir à perseguição policial), ganhou seu próprio bando.

Com a morte de Lampião, Corisco tornou-se o único chefe cangaceiro. Antes de encontrar seu fim, ainda tentou vingar a morte do amigo. Matou a família do fazendeiro acusado de delatar o bando à polícia. Acabou cometendo uma de suas maiores atrocidades: assassinou as pessoas erradas.

Nessa época, Corisco já era conhecido como Diabo Loiro, pela cabeleira e, claro, pelo espírito. Ninguém sabe dizer ao certo quando ele nasceu. Sabe-se que em 1928, já no início da vida adulta, apaixonou-se por Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, e não teve dúvidas: raptou e estuprou a menina de 13 anos. Corisco ensinou Dadá a ler e escrever e teve paciência para esperar que ela aceitasse o destino imposto por ele. Dadá virou a costureira do grupo e passou a fazer os "modelitos" que aparecem em todas as fotos dos cangaceiros.

Em maio de 1968, a revista Realidade colocou frente a frente Dadá e o coronel José Rufino, responsável pela morte de Corisco. Ele, velho e doente, chorou ao vê-la. Dadá, forte e altiva, o perdoou, mas desmentiu o algoz. Ele não matara seu marido em combate, afirmou. "Foi emboscada." Do cangaço, Dadá levou lembranças, três filhos com Corisco e nenhum dinheiro. Morreu em fevereiro de 1994, aos 78 anos, na periferia de Salvador.

O bando de Lampião aterrorizou o sertão nordestino por quase vinte anos. Especula-se que a origem do cangaço remonte ao século XVIII, quando fazendeiros recrutavam sertanejos para exterminar índios. Mais tarde, os colonos teriam sido obrigados a participar das lutas entre famílias ricas que disputavam terras com políticos. Por fim, esses bandos tornaram-se independentes, criando leis próprias e subornando fazendeiros e comandantes da polícia em troca de proteção. Seus métodos bárbaros incluíam tortura, estupro e morte.

De acordo com essa tese, o surgimento desses andarilhos coincide com o declínio das culturas de cana-de-açúcar e algodão. O café, no Sudeste, passou a ser o motor da economia brasileira gerando fome, desemprego e falta de perspectivas no agreste. Assim, o cangaço era uma opção de vida atraente para sertanejos jovens que não tinham trabalho e rendiam-se à promessa de fama e dinheiro fácil. Qualquer semelhança com a história dos "soldados do tráfico de drogas" nos dias atuais não é mera coincidência.

Essa era a situação social e política da primeira fase da República. Aproveite a oportunidade para fazer seus alunos descobrirem quem eram os donos das grandes fatias de terra e o que mudou na vida da população pobre, principalmente a nordestina.

Língua Portuguesa 7ª e 8ª séries 

Sabor regional 

Os cangaceiros despertavam o medo e a admiração da maioria da população pobre do Nordeste. A professora Maria José Nóbrega sugere que os alunos pesquisem essas duas visões representadas na arte e nos fatos históricos.

1. Em literatura, ela propõe a leitura de três livros: Fogo Morto, de José Lins do Rêgo; Capitães de Areia, de Jorge Amado; e Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. A seguir, inicie um debate: por que os sertanejos são vilões e heróis ao mesmo tempo? 

2. Utilize a literatura de cordel e textos de Patativa do Assaré para quebrar preconceitos da língua portuguesa. "Mostre a seus alunos que a língua popular muitas vezes é ridicularizada porque o povo é discriminado", afirma a professora. Peça a eles que descubram a regra gramatical desses versos, que fogem do padrão institucionalizado.

3. Músicas de Luiz Gonzaga, fã confesso de Lampião, também podem ser bons materiais para ilustrar a vida do povo nordestino. Coloque as músicas do rei do baião para seus alunos ouvirem e dançarem. "É um exercício de reconhecimento da diversidade cultural e lingüística do país", avalia Maria José.


Os bandos de Lampião e Corisco espalharam pânico por sete Estados brasileiros durante duas décadas. Circulavam pela área rural do sertão nordestino, deixando um rastro de mortes pelo caminho. Veja no mapa as principais cidades por onde Corisco passou.

Geografia 7ª e 8ª séries 

Coronelismo e religião 

1. Proponha que os alunos tracem uma rota do cangaço (use o mapa disponibilizado no link original como inspiração). Eles devem estudar a vegetação, o clima e a hidrografia dos Estados percorridos. Em seguida, o professor de Geografia Marcos de Franco, de Curitiba, sugere que os alunos pesquisem as condições sociais da população na época do cangaço e hoje. "O objetivo é fazê-los perceber que em muitos lugares a situação permanece a mesma", explica.

2. O cinema também pode ajudar nas aulas de Geografia. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Gláuber Rocha (1964), Corisco e Dadá, de Rosemberg Cariry (1996), O Cangaceiro, de Lima Barreto (1965), e Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas (1997), permitem que os alunos visualizem as condições naturais do Nordeste, as relações sociais da época, o poder dos coronéis, a religiosidade


7ª e 8ª séries 

Heróis ou bandidos? 
E a influência das festas populares. Peça aos alunos que anotem e apresentem essas informações. Mas atenção: as fitas contêm cenas de violência e não são indicadas para menores de 14 anos.


História 7ª e 8ª séries 

Heróis ou bandidos? 

1. O historiador Flávio Trovão sugere a simulação de um tribunal para julgar os cangaceiros. Esse exercício pode ser realizado junto com a disciplina de Língua Portuguesa. Divida a classe em dois grupos. Uma turma fará o papel da promotoria, para acusar os cangaceiros por seus crimes. A outra será a defesa, que deve destacar as muitas vezes em que os cangaceiros distribuíram o produto de seus saques entre a população carente. "Os alunos devem concluir que eles eram invejados porque ofereciam uma forma de resistência à ordem estabelecida", afirma o professor.



*Matéria da Revista NOVA ESCOLA sobre reportagem publicada na revista Realidade em 1968, sobre o reencontro de Dadá com o coronel Zé Rufino: A história passada a limpo

Açude: Revista Escola

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Antonio Linard

E o torno de Lampião 

Texto de Ivanildo Silveira
Fotos: Acervo Lampião Aceso

Antonio Linard
Quando na Serra do Mato; famosa fazenda do grande Cel. Santana, de Missão Velha/CE, o Capitão Lampião precisou de um ferreiro para limpar/lubrificar seu armamento, foi logo que trouxeram a sua presença o jovem Antonio Linard.

Ao final do trabalho realizado, o mesmo não cobrou nada ao Capitão Lampião. Esse último perguntou-lhe, qual seria o seu maior desejo ? O jovem ferreiro respondeu: seria adquirir um "Torno mecânico", que á época era muito caro.

O líder cangaceiro fez passar por entre seus cabras, o chapéu da aba virada e ali cada um colocou a justa paga; desse episódio nasceu a história do primeiro torno das Indústrias Linard, um dos mais tradicionais grupos empresariais de Missão Velha/CE , o Portal de Entrada do Cariri cearense.


O torno mecânico adquirido com dinheiro doado por Lampião, e que encontra-se em funcionamento, até os dias de hoje

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Frederico Pernambucano

Sob a luz de “Lampião”
Por Margarete Azevedo




“Mestre de mestres em assuntos do cangaço”, segundo o antropólogo e sociólogo Gilberto Freyre, o historiador Frederico Pernambucano analisa nesta entrevista as diferentes características dos bandos de cangaceiros. Oriundo do litoral, o movimento foi enxotado para o sertão muito antes de Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião, o mais famoso deles, dar seus primeiros passos em Serra Talhada (PE). Lampião e Antônio Silvino, por exemplo, fizeram do cangaço um meio de vida; alguns se valeram dele como um instrumento de vingança, geralmente num contexto de luta entre famílias; enquanto outros o transformaram em um asilo nômade para criminosos jurados de morte.

“Os primeiros mostrando-se mais longevos e de abrangência geográfica mais espalhada, chegando a atingir quatro Estados, como aconteceu com o bando de Lampião, e varando os 20 anos de sobrevivência”, indica o historiador.

Há similaridades do cangaço com fenômenos criminais de outros países?
Em essência, o fenômeno do cangaço é universal. Corresponde àquele período cinzento da transição público-privado na história dos países, de modo particular em países de colonização tardia, onde se mostrou mais renitente. Mas ocorreu em todos os continentes, no instante em que o braço da administração da justiça criminal pública, começou timidamente a chamar a si os conflitos sociais, e foi lançando na marginalidade as práticas e os agentes da violência privada, no afã de monopolizar a coerção. 
Saindo do abstrato, diríamos estar tratando, com referência ao nordeste do Brasil, daquele momento dramático em que a figura histórica do valentão, instância privada de resolução de conflitos na ausência da justiça estatal, vai cedendo passo lentamente ao capitão-mor e ao juiz de paz, depois ao delegado, ao subdelegado, ao inspetor de quarteirão. E se transformando, sem o sentir, de justiceiro em criminoso. De figura socialmente exemplar em figura desvaliosa, perseguida da justiça pública em ascensão. 
Não devemos deixar de assinalar que o caráter universal do cangaço, em sua essência, foi proclamado por Luiz Câmara Cascudo há muito anos. Quanto à amplitude de espaço, de tempo, de engajamento de massa e de visibilidade pública alcançada por Lampião e seu bando, não há rival nos tempos modernos, sobretudo no Ocidente.

Qual o contexto histórico do Nordeste no período pré-surgimento do cangaço?
Diferentemente do que pensam muitos autores ilustres, que costumam datar do meado do século 19 o início da existência do cangaço no sertão – como se fosse um cometa surgido do infinito –, o fenômeno é velho, de cinco séculos. E não tem no sertão o seu berço. Há até quem crave um ano, tirado não se sabe de onde, 1870, como sendo o do surgimento do cangaço no Nordeste. O que o meado do Novecentos fez despontar, a partir do aumento da população do interior, foi a percepção daquela vida de aventuras pela opinião pública do litoral, na ocasião em que esta começava a cogitar sobre a presença de um lugar longínquo a que se dava o nome de sertão. Lá, além da violência, havia a seca como fenômeno natural recorrente, e uma poesia popular, cantada e escrita, que aliava à arte o sentido precioso da documentação dos fatos.

Como o cangaço pode ser definido?
Em seu sentido profundo, ele é a expressão de irredentismo que falta agregar à historiografia brasileira dos cinco séculos de colonização. Uma historiografia de longa data, sensível às recorrências irmãs desse irredentismo de chapéu de couro, representadas pela intermitência plural do levante indígena, de que é exemplo maior a chamada “Guerra dos Bárbaros”; do quilombo predominantemente negro, à frente Palmares, e da revolta social branca ou mestiça, encabeçada por Canudos. Não é o cangaço, na visão moderna que temos proposto, fenômeno surgido do nada, solto no tempo e no espaço, como se pensou até ontem, mas parte – e parte tão ilustre quanto as demais – do desvio de fogo que correu parelha com o leito central de nossa história, o de expressão majoritária, a impor, este último, os valores reinóis, no instante em que o índio e o negro baixaram finalmente a cabeça à subjugação pelo branco europeu. Não todos.

O que os movimentos de resistência popular têm em comum?
Os que reagiram, agremiados na corrente minoritária, deram vida a um irredentismo militante, que é a raiz comum de todas as insurgências vistas acima, sublimado, com o passar do tempo, numa tradição brasileira. Uma tradição guerreira de resistência popular. Deve ser notado que, enquanto o levante indígena, o quilombo e a revolta social possuíam caráter intermitente e uma identidade étnica definida pela predominância do contingente racial que recheava suas fileiras, o cangaço mostrou-se contínuo no tempo e absolutamente metarracial. Você podia ter sucesso no bando, ascendendo à chefia, fosse branco alourado, como Corisco; negro, como Zé Baiano; índio, como Gato; ou mestiço de diferentes matizes, como o caboclo Lampião, o mulato Sabino, o sarará Luiz Pedro, o cafuzo Jararaca, o cabo-verdiano Zé Sereno.

Quais as características mais marcantes de cada um dos tipos de cangaço?
Houve grupos que fizeram do cangaço predominantemente um meio de vida, como no caso de Lampião ou de Antônio Silvino. E outros, que dele se valeram como instrumento de vingança, geralmente num contexto de luta entre famílias, como se deu com Sinhô Pereira e Luiz Padre, de um lado, e Sindário, do outro, na guerra privada entre Pereiras e Carvalhos. Ou com Jesuíno Brilhante, na guerra contra a família Limão, encabeçada por um cangaceiro não menos valente: Honorato Limão. Outros, ainda, o transformaram em asilo nômade de criminosos jurados de morte, como Ângelo Roque, o Labareda. A cada propósito correspondendo um estilo de vida, uma contenção de gestos e até uma dimensão de espaço e de tempo.

Como foi trabalhar com Gilberto Freyre?
Integrei sua equipe de trabalho por 15 anos, cumprindo aquilo que o professor Nelson Aguilar, de São Paulo, caracterizou um dia como o mais longo doutorado já feito por um cristão. Trabalhar com Gilberto era aprender a cada minuto uma lição. Graças a ele, me dei conta de que a história deve ir muito além do fato saliente na política e do registro de fatos objetivos. Que deve alongar-se num romance verdadeiro, incorporando o dia a dia, o ordinário, o cotidiano, o aparentemente banal, o universo íntimo. Nisso, ele se antecipou a Braudel, a Lefèbvre, a Barthes, a Bastide, a Abelès, a Ginzburg. A Escola dos Anais, consagrada na França de 1930, proclamou o pioneirismo desse ilustre brasileiro do Nordeste. Ele antecipou o ganho que a história recebeu modernamente ao incorporar, com humildade digna de louvor, umas tantas lições da antropologia. Boas lições.

Qual a influência dele em sua obra?
O exemplo está no perfil que traçei de Lampião, revelador de que o guerreiro insuperável, o homem de violência indiscutível, qualidades conhecidas no passado, era, ao mesmo tempo, um costureiro exímio, em pano e em couro, além de bordador caprichoso. Um sujeito surpreendentemente preocupado com questões de representação simbólica no traje e no equipamento de seu grupo, e com a alimentação das mídias sobre os passos de seu bando. Que apreciava, incorporando o requinte de coronéis fidalgos com os quais privou, à frente Hercílio de Brito, de Propriá, Sergipe, o perfume francês e o uísque da Escócia. Que possuía cartões de visita e postal com a própria foto no anverso, já em 1936, confeccionados na Aba-Film, de Fortaleza, para evitar falsificações em sua correspondência surpreendentemente ativa. 
 Quando mostrei isso em livro, nos anos 80, o mundo quase desabou sobre minha cabeça. A menor acusação era de que estava efeminando o Rei do Cangaço. Hoje, não há quem ignore ou conteste que Lampião possuía dotes artísticos. Ao contrário; há livros recentes, escritos aqui e lá fora, para desenvolver essas revelações. É o salário moral de quem pesquisa. De quem come poeira e arranha os cotovelos sobre as fontes de primeira mão. O espaço de rebeldia do assistente ficou por conta da escolha do sertão como tema de estudos. Gilberto Freyre não gostava do Sertão. Algumas vezes nos abordou com a ciumeira: “Você anda conversando muito com Ariano Suassuna!”  
Mas não se privou de reconhecer a seriedade dos estudos que empreendia, prefaciando o livro de estreia e cravando na imprensa estar diante de um “mestre de mestres em assuntos de cangaço”. Está lá, no Diário de Pernambuco, de 28 de fevereiro de 1985. É muito bom para o aluno constatar que não decepcionou o professor.

Link para a reportagem: Revista Kalunga

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Prazer em conhecer: Lampião Aceso entrevistou o pesquisador e escritor Ângelo Osmiro Barreto

Um Coroné de bem 

Ângelo Osmiro Barreto além de Funcionário público federal é desde abril deste ano o atual presidente da SBEC - SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS DO CANGAÇO. Autor de "As curiosidades do cangaço" Fortaleza: Realce Editora e Indústria Gráfica Ltda, 2002.

Cearense da capital não podia deixar de ter sido um dos principais entusiastas para a realização do 1º Seminário Cariri Cangaço ocorrido em setembro passado.

Naquela oportunidade ele nos concedeu esta breve entrevista que é na verdade um bate bola que compartilhamos agora com os leitores.

Ângelo Osmiro, Idade?
46.

E de pesquisa?
15 anos.

Aquela pergunta bem clichê: O que despertou o interesse pelo assunto?
Na adolescência, explorando a biblioteca de meu pai, tive acesso aos 42 livros sobre cangaço e um me conquistou em definitivo que foi o livro de Aglae Lima de Oliveira "Lampião, cangaço e Nordeste".

Então não farei a próxima pergunta pois a resposta desta obtive na questão anterior, supondo que este seria seu trabalho preferido?
Também, mas gosto muito de "Guerreiros do Sol" de Frederico Pernambucano de Mello.

Dos contatos que lhe foram possíveis com sobreviventes e demais envolvidos qual foi o mais gratificante?
Adília de Canário. Pela simplicidade e alegria que nos tocou bastante.

Qual o personagem desta história Ângelo gostaria de ter conhecido?
O padre Cícero.

Um cangaceiro?
Luís Pedro.

Um volante?
Manoel Neto.

Um coadjuvante?
Cel. Veremundo Soares.

Sabemos e lamentamos a eterna necessidade de se ter finalmente uma produção cinematográfica digna da saga, de preferência um épico ou uma trilogia, enquanto isto não foi possível qual a película mais lhe agradou?
Baile Perfumado.

Eleja a pérola mais absurda que já leu ou ouviu sobre Lampião?
Aquela clássica da criança jogada pro alto e aparada no punhal.

Qual a próxima novidade do escritor Ângelo que teremos em nossas estantes?
A segunda edição de Curiosidades do cangaço e Curiosidades do cangaço 2.

Por falar em livro, desta história qual é o capitulo preferido de Ângelo Osmiro?
Seriam dois: Lampião em Juazeiro e Lampião em Limoeiro do Norte. (também aqui no Ceará).

Entre vários, qual foi o melhor momento deste Cariri Cangaço?
A homenagem ao meu amigo Hilário Lucetti ocorrida na noite do dia 25 no teatro da Urca. Vocês perceberam que eu não pude nem concluir meu discurso tomado pela emoção, Hilário foi um grande amigo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Poesia

Cancioneiro do destemor
"O cangaço na poesia brasileira" reúne poemas sobre os anti-heróis do Nordeste, do começo do século passado às produções recentes.

Por Dellano Rios

Bandido famélico, sujo de poeira da terra seca, a ameaçar a paz de propriedades rurais e pequenas cidades ganhou novas. Um dia, assim foram descritos os cangaceiros. O fenômeno social, que teve o sertão nordestino por palco, logo chamou a atenção de ficcionistas, e terminou sendo transformado por eles. Na literatura, o banditismo foi tomado por uma "questão de classe", como na letra de Chico Science. Virou o herói do regionalismo de estética naturalista, dos homens bestializados lutando para sobreviver num mundo hostil.


O cinema o transformou em herói moderno, da saga nordestina - e, em alguns casos, fez dele uma versão brasileira dos bravos e heróicos caubóis de Hollywood. Na poesia, a aventura do cangaço seguiu ininterrupta, mesmo após o declínio e o desaparecimento dessa figura, convertido em personagem arquetípico da literatura de folhetos (cordel).


Nessa outra aventura, a da recriação do cangaceiro, ficam lacunas, e o objetivo de "O cangaceiro na poesia brasileira" é ajudar a suprimir uma delas. Organizado pelo poeta e ensaísta Carlos Newton Júnior, professor da Universidade Federal de Pernambuco, o livro traz uma mostra da presença do cangaço na poesia "erudita", que não poucas vezes dialogou com a tradição popular para recriar o universo do cangaço. "Eu sou um curioso sobre essa questão de cangaço. Leio sobre o tema desde os 14 anos. Não sou um pesquisador no cangaço, mas sou um leitor de pesquisadores", se apresenta o organizador. Também poeta, Carlos Newton Júnior escreveu sobre o tema, em seu livro "Canudos: poema dos quinhentos" (1999). Seu poema "Os cangaceiros" integra a coletânea.


Foi quando deu seus primeiros passos como poeta, na década de 80, que Carlos Newton Júnior atentou para essa tradição esquecida, dos poetas eruditos que escreveram sobre o cangaço. "Quando se falava nisso, o normal era pensar logo romance de 30, e na literatura de cordel. Como acompanhava a poesia brasileira, encontrava esses poemas. Percebi que o tema também tinha apaixonado vários poetas eruditos. O livro nasceu daí, de uma ´pesquisa´ que fiz ao longo de muito tempo, como um leitor curioso. De repente, percebi que tinha um material razoável, e organizei em menos de um ano. Costumo trabalhar assim: vivo encaminhado projetos que vão sendo construídos com o tempo, em minhas visitas a sebos", conta.


Desregionalizar


Em "O cangaço da poesia brasileira", encontram-se autores heterogêneos. O primeiro contraste é o que separa escritores que romperam as barreiras locais e regionais, que conseguiram entrar para o cânone nacional, e outros que tornaram-se célebre em territórios restritos. De um lado, os pernambucanos Ariano Suassuna ("A cantiga de Jesuíno"), João Cabral de Melo Neto ("Por que perderam o ´Cabeleira´" e "Antonio Silvino no Engenho Poço") e Bráulio Tavares ("Virgolino não morreu"); de outro, os cearenses Sânzio de Azevedo ("Vida, proezas e morte de Jesuíno Brilhante") e Jáder de Carvalho ("Nordeste de Lampião"), o capixaba Dorian Gray Caldas ("O Cabeleira") etc.


Não que haja uma hierarquia, baseada na fama. E são exatamente esses poetas de expressão local que fazem o livro valer. Afinal, é importante que Suassuna e João Cabral estejam lá, mas seus poemas são mais facilmente localizáveis. "É um prazer resgatar certos poetas ´desconhecidos´. Gosto muito do Paulo Bandeira da Cruz (1940 - 1993). Você só encontra seus livros em sebos. E olha que ele teve edições nacionais, pela José Olympio, mas depois que morreu quase não se fala nele", lamenta Carlos Newton Júnior. Para o organizador, o cangaço é a grande "epopeia do Nordeste", referindo-se ao gênero da poesia épica, protagonizada pelos heróis de um povo. "O cangaceiro representou para o Nordeste mais ou menos o que o samurai representa para o Japão", compara.


Epopeia que se constrói com muitas vozes e, dentro delas, de ecos. Carlos Newton explica que é comum ver nos versos de poetas erudito sobre o cangaço vestígios da imagem do personagem no cinema e, sobretudo, da literatura popular. "Não à toa, poetas como o Sânzio e Jáder usa a forma popular, mesmo sem fazem parte dessa tradição", explica.


Fique por dentro 
Confira trechos de poemas que se encontram no livro:
Num canto da sala,/
já meio fatigados, talvez procurando disfarçar a impaciência/
os noivos esperavam o fim da festa sem fim./
Bem dizer de manhãzinha, e aquela festa sem acabar! E,/
na casa dos noivos a rede armada a chamar por eles!/
Súbito, cavalos param sob a latada, resfolegantes./
Gritos bárbaros, gritos selvagens, pulos da sela ao chão,/
alguns tiros a esmo./
Era o bando de Sabino que ninguém esperava!/
Os pares, suados, imobilizaram os gestos, olhos gritantes de pavor./
Os noivos se aconchegaram, lívidos, tremendo. A harmônica/
emudeceu como que assassinada./
"Nordeste de Lampião", de Jáder de Carvalho (1901 - 1985)
"Na faca e no bacamarte estava a lei dos Feitosas gente violenta e orgulhosa pioneira do Ceará gente de capitães-mores senhores de escravaria sangue índio e português em suas veias corria o capitão Virgulino de tal gente descendia."
"Romance de Lampião", de Maria José de Carvalho (1919 - 1995)
Antologia
"O cangaço na poesia brasileira"
Carlos Newton Júnior (org.)
R$ 34,00
254 páginas
Editora: Escrituras


Ilustração: Maria Bonita, companheira de Lampião, em xilogravuras do artista João Pedro, de Juazeiro do Norte.


Fonte: Diário do Nordeste