quarta-feira, 29 de julho de 2009

No Cariri cangaço tem...

CALDEIRÃO DA SANTA CRUZ DO DESERTO
 


Dentre todos os personagens desta encantadora história do nordeste; um em especial nos chama a atenção: Beato José Lourenço. Paraibano de nascimento e chegado ao Juazeiro do Padre Cícero ainda em 1890, Zé Lourenço viria a se tornar um dos mais destacados líderes religiosos do nordeste. A partir de orientações de Padre Cícero, Zé Lourenço conseguiu arrendar um lote de terra no sitio Baixa Dantas, no município do Crato, ali com ajuda dos inúmeros romeiros enviados pelo sacerdote, transformaria o lugar em um importante produtor e fornecedor de alimentos aos mais desvalidos que acorriam à Meca nordestina. 

Delmiro Gouveia presentearia Padre Cícero com um boi, chamado Mansinho, o sacerdote encaminhou o animal para o sítio Baixa Dantas, para os cuidados de José Lourenço e para melhorar o rebanho do lugar. A partir dali começaram a surgir boatos de que as pessoas estariam adorando o boi como a um Deus. Floro Bartolomeu ordenou a morte do referido animal e a prisão do beato José Lourenço, sob acusação de fanatismo. 

O beato ficaria preso por 18 dias, sendo solto por intercessão do próprio Padre Cícero. Em 1926 após a venda do Sítio Baixa Dantas o beato e seus seguidores partem para o Sítio Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, também em Crato. Começava a se construir uma das mais destacadas e polêmicas experiências comunitárias da história do Brasil, assim como em Canudos de Antônio Conselheiro, ali o trabalho sob a liderança do beato Zé Lourenço e ainda de dois de seus mais fiéis seguidores: Isaías e Severino Tavares; acabou trazendo para o Caldeirão nos seus quase 500 hectares, cerca de mil e quinhentas pessoas.

Era o ano de 1934 e após a morte de Padre Cícero o suplício dos seguidores de Zé Lourenço iria chegar ao clímax. Já em 1935 o movimento da Intentona Comunista acabaria indiretamente contribuindo para que o poder central declarasse guerra ao Caldeirão. Depois de intensa campanha e luta, o Caldeirão viria a ser atacado pelas forças do governo, à frente estavam o tenente José Góis de Campos Barros e o Chefe de Polícia, Capitão Cordeiro Neto, era o ano de 1937.


No massacre perderiam a vida perto de mil pessoas, entre homens, mulheres, velhos e crianças, fala-se até de um polêmico e “desmentido bombardeio” por parte do Brigadeiro Macedo. O beato consegue se retirar para terras do Exu no vizinho Estado de Pernambuco e viria a morrer no dia 12 de fevereiro de 1946. Seu corpo é conduzido de volta a Juazeiro do Norte por seguidores a pé, ali seria sepultado no Cemitério do Socorro onde jaz o corpo de seu mentor, Padre Cícero Romão Batista.

O Caldeirão Hoje 

O grande desafio atual da Prefeitura Municipal de Crato é a revitalização do sitio histórico do Caldeirão o que está sendo iniciado em parceria com o Governo do Estado do Ceará. O projeto inicial era para construção do Parque Histórico do Caldeirão; de autoria do cineasta Rosemberg Cariry. A partir da reestruturação do projeto pelos técnicos da secretaria de cultura de Crato e o apoio do cineasta Wilton Dedê, está sendo restaurada a Capela, a construção de um Museu com Auditório e Biblioteca e Espaço par acolher o turista e o romeiro que visitam o lugar. 

O Cariri Cangaço promoverá durante o evento, visita técnica e Mesa de Conversa no Sítio Caldeirão do Deserto, cenário da obra e vida do Beato José Lourenço; tudo isso em setembro em Crato no cariri do Ceará.



 

I SEMINÁRIO CARIRI CANGAÇO
De 22 a 27 de Setembro de 2009
Crato, Juazeiro, Barbalha e Missão
Velha.

Opinião

Cangaço - A eterna resistencia
Hoje na comunidade Grande Rei do Cangaço tivemos o prazer de contar com a participação da jovem Carla Alberto, (Foto) que no tópico sobre os 71 anos da morte de Virgulino nos brindou com seu ponto de vista.


Quero começar minha pequena dissertação, afirmando que detesto radicalismo, principalmente no que tange a minha cultura, isto é nordestina.

Estive em Salamanca em 2006 e conversando com um professor Doutor da universidade de Salamanca formado em ciências sociais, presenciei o interesse dele na nossa cultura mais precisamente na questão do cangaço.

Dizia ele, que na visão o Cangaço é um movimento social onde retrata fielmente a dicotomia econômica, social e política entre sul e nordeste do Brasil, jamais (palavras dele) estaria o cangaço inserido no banditismo. Mais infelizmente não é o que presencio aqui na minha terra.

Entender o cangaço e voltar ao tempo, e se aprofundar no projeto colonial português de escravidão e desigualdade, é entender o latifúndio e as grandes navegações que viam no novo continente a exploração e o genocídio.

Dizer que Lampião era cruel, parece piada no pais que na guerra do Paraguai dizimou 99% da população masculina de bala e de degola. Temos ai o surgimento do “nordeste” como traço cultural a valentia do sertanejo, a coragem, a boa hospitalidade, etc.. Gilberto Freire orienta dessa forma na historiografia.

Presenciamos em todos os cangaceiros, não somente Lampião, uma religiosidade ainda envolta no projeto colonial português, a católica, plena de santos e milagres. Entender o cangaço e todos os movimentos daquele recorte temporal e estudar a política na esfera nacional dos primeiros momentos da Republica Velha e inicio da Nova Republica a patente de coronel dada a Lampião foi um regalo de Vargas. Coronel significava a um comando municipal ou regional, uma condecoração na verdade, herança cruel da guarda nacional ainda no Império.

Antes da era Vargas, o coronel era o senhor da vida e da morte, após a era Vargas temos o coronel de prestigio e assistencialista conduzindo seu reduto, através do respeito e poder. Esses mesmos coronéis com o apoio sempre da esfera federal, era que movidos por interesse protegiam o cangaço através de troca de favores e proteção. O Cangaço vingança nada mais é que um grito, um socorro de uma população relegada ao sofrimento de uma pobreza que até hoje serve de curral eleitoral para muitos políticos.

Olho para a História nunca com os olhos da justiça (que desde o período colonial é equivocadamente cega), olho como historiadora, como nordestina, tendo muito orgulho dos ciclos e lutas que acompanharam o povo sertanejo, a historia invisível é o que decididamente me interessa.

Não conto uma história branca e elitizada (aquela ainda dos cronistas portugueses a época do “achamento” do Brasil), conto a historia do povo, aquele povo sofrido, que por medo e falta absoluta de educação vive a margem da historia oficial.

São 71 anos e a realidade do sertão nordestino Nada mudou. O cangaço se foi e no lugar surgem os jagunços (pistoleiros de aluguel), os coronéis hoje são os “neo coronel” e espalhados estão infiltrados nos três poderes, gozando de todos os privilégios.

A seca? Ainda serve de curral eleitoral para a maioria dos políticos, matando milhares de sertanejos e os colocando numa situação de subserviência perante o poder publico. A corrupção? A mesma. Mudaram partidos que estão no poder, os personagens e a moeda...

O bolsa esmola é o maior projeto de compra de voto legalizado do mundo ( seria então uma forma de coronelismo, talvez uma mutação?). Eu? Estou do lado da história, não da história acadêmica que por vezes lega a cultura popular um segundo plano.

Estou do lado dos perdedores, dos excluídos socialmente, da cultura popular e do sofrimento do meu povo.
Ideologias a parte: O cangaço é sim um movimento de cunho social, que antecede mesmo o período republicano, há registros de situações que perdura ai mais ou menos 200 anos de recorte temporal.

Hasta siempre !
Carla Alberto.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Opinião

Lampião, 71 anos de morte

Segundo a literatura cangaceira, Virgulino tinha uma crueldade verdadeiramente tigrina. Assassinou perto de 1000 pessoas; incendiou umas 500 fazendas; matou mais de 5.000 reses; realizou centenas de roubos; estupros; sequestros e tomou parte em mais de 200 combates. Castigou 07 estados nordestinos, e, em determinada época do ciclo do cangaço, tinha a sua procura cerca de 5.000 policiais.

Mas fez acordo, com os principais Coronéis nordestinos, para que não tivessem suas propriedades incendiadas, e, em troca, recebeu abrigo, armas, munições, dinheiro, além de uma troca mútua de favores.

Do cangaço-vingança, inicialmente, Lampião passou ao cangaço-meio de vida ( na linguagem do especialista Frederico Pernambucano de Melo ), ou seja, fez do cangaço uma profissão rentável.

Aos olhos da Justiça, foi um bandido, pois infringiu as Leis do país. Mas, foi um bandido genial, pois com sua inteligência, astúcia , estratégia e conhecimento da geografia da caatinga, sobreviveu por quase vinte anos, as perseguições policiais dos Estados nordestinos em que atuou.

Tinha Lampião uma personalidade inexplicável. Ao mesmo tempo em que matava friamente, também, algumas vezes, quando era invocado os nomes de Padre Cícero, Nossa Senhora, perdoava seus inimigos. Em outros casos, também dava valor ao cabra macho (Corajoso, na expressão nordestina), que em muitos casos foram poupados, pois na concepção do Rei Vesgo, deveriam ficar vivo, para "tirar raça".

É esse personagem controvertido, bem como, os demais coadjuvantes do ciclo do cangaço ( policiais volantes/coronéis/coiteiros...etc.). a que se propõe estudar via este este blog. Mas, esse estudo, deve ser feito de forma séria, sem radicalismo ou ideologias.

Peço aos seguidores de nosso blog que contribuam para esse estudo, dando suas opiniões, devidamente fundamentadas.

Um abraço a todos.
Ivanildo Silveira 
Natal / RN

sexta-feira, 24 de julho de 2009

COMUNICADO

12ª Missa do Cangaço

Comunicamos aos sócios e amigos da SBEC que no próximo dia 28 de julho será realizada a 12° Missa do Cangaço na grota do Angico (Local da Morte de Lampião). Uma promoção da nossa sócia Vera Ferreira (neta de Lampião). Ainda existe disponibilidade de transporte saindo de Aracaju-SE.  

Maiores informações através dos fones: (79) 9191 4088 / 8838 1701

Att Ângelo Osmiro Barreto
Presidente em exercício da SBEC - Sociedade Brasileira do Cangaço

quinta-feira, 23 de julho de 2009

FOTOS

Nova sede do museu do cangaço de Serra Talhada





Créditos: Ivanildo Silveira

Corre que o homi vem aí!

 E Itiúba repeliu Lampião

Levo ao conhecimento dos seguidores, um fato interessante que aconteceu com o cangaceiro Lampião, quando de suas andanças pelo Estado da Bahia. A pequenina cidade de Itiúba (vide fotos, com sua gente brava, impediu a entrada de Rei do cangaço e seu bando.


Itiúba, qual uma ilha, está cercada de serras por todos os lados, Já é uma defesa natural, e no seio da caatinga, está bem situada; 0 certo é que Lampião temia, o Cel. Aristides Simões de Freitas, Influente chefe político, que mantinha uma resistência bem armada, Primo do Ministro Ernesto Simões, fundador do jornal "A Tarde"; Lampião, enfim, tinha receio de atacar o coronel nestas fronteiras.

Um fato ocorreu na fazenda Desterro em Monte Santo, Quando o Cel. Simões, mandou um tal de José Ferreira Martins, Apelido de Zezinho do Licuri Torto, ferrar seu gado ali existente; 0 serviço seria feito com mais 4 vaqueiros de inteira confiança, Estavam reunidos, quando um deles gritou, "olhem lá, é Lampião!" Zezinho do Licuri ficou petrificado, os 4 fugiram covardemente.

Lampião perguntou: "quem são os covardes que vão correndo?" Quis saber quem era eu, de quem era empregado, que estava fazendo, "Sou empregado do Coronel Aristides". Ele indagou: É homem rico?" É um homem desapertado, capitão". Lampião não pensou para dizer:"Admirei de sua coragem, cabra, Observo quem me olha sem tremer, Você está convidado para me acompanhar, se não quiser, não insisto".
Em seguida, Cap. Virgulino retirou do bornal lápis e papel e redigiu Um bilhete ao Coronel em termos humilhantes, através do qual pedia:"Três contos de réis, pois não podia trabalhar, espero o Sr. não faltar, Pois nunca bati em suas fazendas nem feri pessoas, aguardo urgente, Capitão Virgulino Ferreira, vulgo Lampião, sem mais, neste momento".Entregou o bilhete a Zezinho dizendo, "na Maravilha, fico a esperar".

A noite, quando Zezinho do Licuri entregou o bilhete ao Coronel, Toda a vila tomou conhecimento e começou uma debandada muito cruel; Simplesmente o Coronel Aristides, distribuiu armas e afirmou decidido:
"Diga a Virgulino se ele quiser dinheiro, que venha buscar em pessoa..."
Como o dinheiro não foi, Zezinho na estrada da Maravilha não foi atoa, Também nunca o Rei do Cangaço, a Itiúba voltou, após o fato acontecido.


Por Ivanildo Silveira
Natal/RN

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Falando nisso

LANÇADO O CARIRI CANGAÇO 2009


Um público de cerca de 150 pessoas; entre prefeitos, vereadores, intelectuais, professores universitários, escritores, pesquisadores e estudantes, estiveram presentes ao lançamento oficial do Cariri Cangaço 2009, que aconteceu na noite do último dia 10, no Teatro do Centro Cultural da Reffsa em Crato, sul do Ceará.

Na oportunidade o Curador e Coordenador Geral do evento, Senhor Severo Barbosa, apresentou Vídeo Institucional de apresentação do Cariri Cangaço e mostrou a todos os presentes a estrutura de trabalho de construção deste grande seminário, como também apresentou a todos o rol de palestrantes e convidados especiais que já confirmaram presenças ao grande evento.

Falaram por ocasião do lançamento, os senhores secretários de cultura de Barbalha, Dorivan Amaro, senhora Danielle Esmeraldo de Crato e senhora Glória Tavares, de Juazeiro do Norte, todos ressaltando a importância da iniciativa de resgate da historiografia do cangaço no cariri cearense.

Em sua fala, o prefeito de Crato Samuel Araripe ressaltou a iniciativa de termos quatro municípios; Crato, Juazeiro, Barbalha e Missão Velha; trabalhando juntos num grande projeto que sem dúvidas será uma grande honra para o cariri. Por fim foi servido um coquetel aos presentes no Complexo Cultural do Araripe.

Estiveram presentes dentre outros; o vice-prefeito de Crato, Dr. Raimundo Filho, o ex-presidente da Aprece, Dr. Carlos Macedo, o secretário de cultura de Aurora, Professor José Cícero, professores da Universidade Regional do Cariri - URCA, escritores locais e regionais, representantes do Instituto Cultural do Cariri - ICC, da Fundação Pró-Memória, do Instituto Cultural Vale do Cariri - ICVC, do Sebrae, do Sesc, do BNB Cultural, jornalistas, radialistas, além de grande número de admiradores da temática.

Representando a SBEC estavam presentes os pesquisadores: Dr. Napoleão Tavares Neves, Dr. Leandro Cardoso Fernandes, Escritor Margébio de Lucena, Escritora Vilma Maciel, Professor Francisco Pereira, Dra. Francisca Gomes, além do documentarista Aderbal Nogueira, que falou representando a Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço -  SBEC.



Texto: Assessoria de imprensa do Cariri Cangaço

Esquentando o caldeirão do Cariri cangaço

Tem Maria? Tem sim sinhô 

Maria Déa, A Bonita Maria de Lampião, ou Maria Gomes de Oliveira, nasceu no dia 8 de março de 1911, no Sítio Malhada do Caiçara, em Curral dos Bois, atual Paulo Afonso, filha de José Gomes de Oliveira, conhecido como Zé Felipe e Dona Maria Joaquina, conhecida como Dona Déa. 

Manoel Severo e João de Sousa Lima
Era a segunda numa família de dez irmãos. Casou ainda muito cedo, aos 15 anos de idade com o primo, José Miguel da Silva, o Zé de Neném, sapateiro e reconhecido boêmio da região. Naquela época já era notório o forte gênio da morena filha de Zé Felipe, costumeiramente o casal estava envolvido em brigas fundamentalmente em função do ciúme de Maria. 

Sempre que brigavam a jovem se abrigava na casa dos pais; foi justamente em uma dessas oportunidades que em 1929 teria havido o primeiro contato de Maria Déa com o Rei dos Cangaceiros, Virgulino Ferreira. Naquele dia Virgulino passaria pelas terras do Sítio Tara do conhecido coiteiro Odilon Martins de Sá, vulgo Odilon Café, e depois se dirigiria para as terras da Malhada do Caiçara, ali por longos meses havia construído uma sólida base de sustentação em terras baianas, estava entre amigos. 

Ao se despedir da família de Zé Felipe se dirige à morena Maria e pergunta se sabe bordar, ato contínuo deixa alguns lenços de seda para o ofício da sertaneja, prometendo voltar em breve para buscá-los. Parece-nos que já naquele momento o destino começava a traçar suas linhas na direção da maior mudança da história do cangaço: a entrada das mulheres nos bandos cangaceiros. 

E assim; Maria, Durvinha, Aristéia, Moça, Adília, Dadá, Enedina, Cristina, Lídia, Eleonora, Quitéria, Adelaide, Nenem, Sila, Rosinha... mudariam para sempre a feição do cangaço nordestino de Virgulino Lampião.

Essa e muitas outras histórias sobre as Mulheres no Cangaço será o Tema da Palestra do grande pesquisador e escritor de Paulo Afonso; João de Sousa Lima, (FOTO) tudo isso em setembro, no I Seminário Cariri Cangaço, aqui, na região mais bonita de nosso querido Ceará.


I SEMINÁRIO CARIRI CANGAÇO
De 22 a 26 de Setembro de 2009
Crato, Juazeiro, Missão Velha e Barbalha.

Opinião

 Lampião, cangaço, temática que cada dia se renova!

A temática Cangaço, Lampião, é ainda hoje fonte de inspiração em vários segmentos culturais do povo nordestino e brasileiro, a cada dia que passa novos trabalhos literários são lançados, alguns ainda hoje trás elementos novos que incrivelmente vem enriquecer e instigar a leitura,além de livros os cordéis se multiplicam e sustentam vários e vários profissionais deste ofício. No âmbito da película, temos conhecimento de mais de 40 filmes com a essa temática, e temos conhecimento de que alguns diretores ainda tem o ideal de produzir novos filmes!

Além destes centenas de companhias de dança e teatro desenvolvem projetos e peças que levam essa temática a milhares de telespectadores por todo Brasil e mundo. Na música, temos obras elaboradas por vultos como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Zé Ramalho e até por ex-cangaceiros, além de sempre estarem presentes em festivais, a pouco tempo o segundo colocado no "Forráço", (festival de forró do Rio Grande do Norte), obteve essa classificação interpretando música que fala dos feitos de Lampião.

Além dessas ações, seminários, encontros e congressos sobre o tema estão sempre sendo promovidos.

Portanto a temática aqui tão bem discutida e pesquisada pelos membros da comuna, é algo que incrivelmente se mostra sempre em evidência, e a qual devemos continuar divulgando e promovendo ações que a mantenha nesse patamar!. Aqui elaboro a seguinte pergunta aos membros da comuna:O que faz com que você tenha interesse pela Temática, e ou, Lampião?, será a problemática social?

A história,coragem e violência dos personagens desta época?, As armações e subterfúgios políticos utilizados pelos antigos coronéis? A bela apresentação da temática e material exibidos nesta comunidade?. Amigos participantes comentem aqui o que desperta teu interesse!.

Por Jomar Henrique, Comunidades do Orkut

terça-feira, 14 de julho de 2009

"Parêia"

Lampião, Cangaço e Cordel 
 Por: Manoel Severo

O cordel, no decorrer dos tempos, desde seu surgimento no Brasil, contribuiu para a autenticidade e reconhecimento da cultura nordestina, centrando-se mais na oralidade e trazendo consigo elementos eruditos agregados ao popular, tendo como aspecto marcante a reivindicação social e política, onde o poeta não é só o repórter da realidade, mas interfere nela, tentando modificá-la com o seu discurso lírico e avançando diante das temáticas de cangaceiros, de bichos que falavam de princesas e cavaleiros andantes.

A sua origem remete-nos à Espanha e Portugal, de modo que no Nordeste, obteve grande desenvolvimento, por diversas maneiras, principalmente através da oralidade.

O nome Literatura de Cordel, oriundo da maneira como os folhetos eram encontrados à venda nos mercados e feiras, passou por diversas etapas, em seu desenvolvimento, até chegar atualmente ao mundo virtual e computadorizado, dando mais visibilidade à essa expressão cultural.A Literatura de Cordel e também a Xilogravura aparecem como elementos que têm, em seu bojo, uma ligação com a temática do Cangaço, já que, tanto os cangaceiros, quanto os poetas populares, utilizavam e ainda utilizam o fenômeno do cangaço como mote para composição de suas quadras, poesias e cantorias.

Nos momentos escassos de paz, os cangaceiros achavam tempo para compor poemas, quadras, músicas e cantorias, versejando romances, vitórias, glórias, e muito mais. Havia bons poetas e cantadores entre os grupos, a exemplo de Gitirana, considerado o maior improvisador do cangaço, Zabelê e o próprio Lampião.

Além dos próprios cangaceiros em suas criações poéticas, incontáveis cantadores, poetas e repentistas, vendedores de cordel nas feiras sertanejas também cumpriam com sua parte, na propagação do mito lampiônico, relatando em seus versos os acontecimentos e fantasias a respeito do Rei do Cangaço, o que foi um dos fatores marcantes para a circulação das “notícias” do cangaço.

Hoje temos grandes nomes na arte de criar os livretos e xilogravuras, concentrados, na grande maioria por todo o Nordeste e o que vemos é que Lampião e o Cangaço são temas que, até hoje, servem de inspiração para suas artes.

Essa e muitas outras histórias sobre as ligações entre CANGAÇO E CORDEL estarão sendo expostas pelo jovem pesquisador e escritor de Paulo Afonso; Rubervânio Lima, tudo isso em setembro, no I Seminário Cariri Cangaço, aqui, na região mais bonita de nosso querido Ceará.

Abraços!

Cangaço no Cariri cearense

PASSAGEM DE LAMPIÃO POR VÁRZEA-ALEGRE 
Por Antonio Alves de Morais 

Este texto conta a origem desta Cidade além de uma "suposta" passagem de Lampião por aquela região.

Os irmãos portugueses Capitão Agostinho Duarte Pinheiro e o Alferes Bernardo Duarte Pinheiro, associados ao cearense Vasco da Cunha Pereira, solicitaram umas datas de sesmarias as margens do riacho do Machado.

Por despacho de 23 de fevereiro de 1718 foi-lhes concedido a data citada numa extensão de nove léguas, com uma légua para cada lado do riacho. Dois anos depois acompanhados de familiares resolveram fazer uma excursão a propriedade.

Quando chegaram no local onde existia uma lagoa, toda circundada por floresta virgem, ficaram a contemplar aquela paisagem maravilhosa escutando o cantar de pássaros que voavam nos galhos de arvores frondosas.

Admirado com aquele magnífico panorama um dos componentes proferiu essa concisa e significativa frase: Mas que Várzea-Alegre! Sendo sugerida a escolha do nome da fazenda. O Capitão Agostinho retornou para Portugal e o Alferes Bernardo permaneceu na localidade que nunca mudou de nome até hoje. De Raimundo Duarte Bezerra, papai Raimundo, neto do português descende grande parte da população de Várzea-Alegre.

Os seus filhos Major Joaquim Alves Bezerra e o Major Ildefonso Correia Lima tiveram grande participação e influencia na historia de Várzea-Alegre e Lavras da mangabeira. O Major Joaquim Alves Bezerra nunca se afastou do município de Várzea-Alegre, ele e seus descendentes eram pessoas pacatas, calmas e não há registro de contendas ou desavenças em suas trajetórias de vida. Os seus descendentes ocuparam o executivo municipal desde a criação do município em 10.10.1870 até o ano de 1962, quase cem anos.

O Major Ildefonso Correia Lima matrimoniou-se com Dona Fideralina de Lavras da Mangabeira. Deste casamento originou-se uma das famílias mais tradicionais e importantes do Ceara. Conhecida nos segmentos do direito, política, cultura, economia e valentia.

Conta-se que por obra do diabo é que Lampião foi parar por aquelas bandas. Em Várzea-Alegre foi recebido com honras e festas. Foram três dias e três noites de dança. Um fiota das bandas do sitio Cristo Rei, dançava solto que parecia uma carrapeta, quando Lampião perguntou:

- Quem é você? Se identifique cabra?
Ele se engasgou e respondeu:
- Êeeeu sou o finado Zezin!

Já um sujeito desassombrado das bandas do Sanharol, fumava seu cigarro de fumo brabo, parecendo mais um tirador de abelha, ao ser perguntado por Lampião:

- Você fuma cabra?
Respondeu: - fumo, mas se seu Lampião quiser eu largo agora mesmo!
- Não, rapaz eu quero é um cigarro!

O medo foi tamanho que não conseguiu fechar o fumo na palha de milho. De passagem por Lavras da Mangabeira a conversinha foi outra. Quando a bala cantou, Lampião meteu a cara no mato como era costume fazer sempre que o perigo o ameaçava. E já um pouco distante os seus capangas cantavam:

Nós íamos relando o chão,
Temendo a bala ferina.
Mas quando Lampião viu
Que lá havia ruína
Correu com medo dos cabras,
De Dona Fideralina.

E já no Barro,
mais distante ainda, cantavam:

Bem que Lampião dizia,
Que deixasse de asneira.
Que passasse bem longe
De Lavras da Mangabeira.

Pescado no Blog do José Valdir 

domingo, 12 de julho de 2009

A mulata da terra do condor

POSSÍVEIS CONTORNOS DA BELEZA DE "MARIA BONITA" 

Por Márcio de Lima Dantas

"Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l’labîme,O Beauté? ton regard, infernal e devin,....."Charles Baudelaire.

Segundo o depoimento de um contemporâneo do Rei do Cangaço, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e de sua companheira, Maria Bonita, referindo-se a esta, disse: “nenhum retrato dela dava conta da opulenta e graciosa beleza possuída por aquela mulher de temperamento silenciosamente afoito”. Bem vemos que a companheira de um dos principais mitos nacionais não era o que chamamos de pessoa fotogênica.

Creio que o relato desse cangaceiro foi o que conseguiu apreender com racional propriedade e intuitiva perspicácia um fenômeno que tinge desde sempre a história do cangaço, a saber: o da polêmica de se considerar como detentora de uma beleza fora do comum, que se sobrepunha às demais mulheres integrantes de grupos de errantes bandoleiros das caatingas, incluindo-se no rol a tão decantada formosura de Lídia (Lídia Pereira de Souza), companheira de Zé Baiano e de Dada (Sérgia Ribeiro da Silva), companheira de Corisco .

Considerar Maria Gomes de Oliveira, nascida no distrito de Malhada da Caiçara, município de Paulo Afonso (*08.09.1911), Bahia, como detentora de assombrosa beleza, é, no mínimo, resultado de exarcebada admiração. O que parece fazer sentido é que se torna muito difícil uma caracterização, a partir de dados concretos, ou seja, de elementos concernentes à compleição física (dentro do que se convencionou como o belo feminino).

Inútil repisar a fala fluida das narrativas relacionadas àquela que se incorporou ao cangaço em 1930, com apenas 19 anos, pouco se importando com o que iam dizer, ao abandonar marido e casa, tendo sido pioneira, pois até então não se tinha conhecimento de mulheres nos agrupamentos de bandoleiros. E não esquecer um dado muito importante: quem entrava no Cangaço não podia sair. Era um caminho sem volta, labirinto com apenas entrada. Haja coragem para se viver em risco constante e submetido a um código de leis e moral diferentes da Doxa.

Se usarmos a técnica de nos determos nas partes em detrimento do todo, fica meio complicado de se achegar ao nosso objeto de estudo. Então façamos o contrário. A verdade, menino, parece ser o inverso: apenas uma visão que comporte a totalidade, tendo em vista uma visão do conjunto, sendo este resultado de um amálgama no qual encontram-se fundidos o temperamento e o modus vivendi que, por se turno, se somará a alguns traços físicos tidos em terras do sertão como atributos da boniteza de uma mulher. Não raro sucede esse fenômeno a alguns indivíduos.

Com efeito, mesmo não se enquadrando nos padrões de beleza estabelecidos pelas classes dominantes e pelo bombardeamento constante das mídias, alguns conseguem possuir algo indefinível – ou não passível de ser submetido aos nossos esquemas mentais apreendedores do “belo”, desde sempre repassados de geração a geração .

Destarte, tomo a liberdade de usar a noção de “it” como categoria analítica. It é uma espécie de “aquilo”; um quê acometido pela presença de alguém ou de algo, refutador de categorias consideradas como as “normais” e que fundam nossas expectativas mentais, socialmente produzidas, quase que impostas de goela abaixo. Como sinônimo de it posso arrolar “encanto”, “donaire”, condão”.

Se quiserem, posso dizer só um exemplo. Vejamos o caso da atriz Fernanda Montenegro. Alguém poderia considerá-la bonita? Dificilmente, porém não há como não admitir que uma beleza de outra ordem ali se instalou, fulgurando por meio de ângulos retos no rosto, do tom de voz categórico, dos olhos quebrantados pela presença de um passado pleno de vivências e rastros de sóbria melancolia, enfim, um planeta sem vida arrodeado por inúmeros satélites de envergadura, texturas, cores e brilhos de muitas qualidades.

Falo de uma coisa que irrompe de dentro para fora, que sai das vísceras e contamina a epiderme, engendrando uma aura de mágica e indefinível porque indecifrável atmosfera, banhando o corpo e a alma, fundindo, estes, num só e absoluto monólito capaz de elevar o indivíduo a um patamar de destaque face à média dos seus semelhantes. Assim, mais ou menos: aquele tipo de gente que quando chega em qualquer ambiente não precisa nem abrir a boca, proclamando seu timbre de voz, para se fazer notar e espalhar curiosidade nas cabeças presentes.

Usando livremente as idéias da antropologia do imaginário do francês Gilbert Durand, esse tipo de gente inscreveria-se no entorno semântico da louca da casa (“la fole du logis”). Isso mesmo, como a história do velho tio vindo de longe dizendo: “esse menino é diferente dos outros”. Por que é mais bonito? Não, porque detém algo de mágico no donaire da postura física e sobretudo no olhar.

Au dèla de uma tentativa de explicação que leve em conta aspectos não racionais, não podemos esquecer dos traços físicos propriamente ditos da inolvidável Maria Déa. Segundo relatos de contemporâneos, tinha cerca de 1,58m, altura suficiente para integrá-la num padrão de normalidade de altura das mulheres, bem diferente de Inacinha, companheira do cangaceiro Gato, mulher pequena. Outra referência para se comparar é Cristina, companheira do cangaceiro chamado Português, considerada como alta diante da estatura média das mulheres do Nordeste. Contudo, a força expressiva maior parecia advir do fato de ter pernas grossas e bem torneadas, coisa muito valorizada na estética sertaneja; é logo no que se fala quando se começa a discorrer acerca do físico de uma mulher .

O segundo elemento era o contorno da boca: lábios carnudos e corados, em permanente expectativa de luxúria numa mulher morena, acaboclada, atributo também reputado como valor numa região em que se despreza a pessoa de pele negra ou “cabra (os que têm traços de negros, porém são claros, com “cabelos ruins”, também conhecidos pejorativamente como “amarelos”). Sim, não podemos esquecer os olhos oblíquos que, juntando-se a um queixo “insolente” (de quem não se intimida com nada: nem com gente, nem com situações), delineiam uma composição bandeando-se para áreas semânticas que remetem a temperamento forte, passional, o que chamam de pessoas “positivas” (pouco dadas a representar socialmente, não afeitas à hipocrisia). E ainda: tinha uma dentadura perfeita, coisa também valorizada em terras sertanejas e alhures.

Os poucos minutos de filmes que a retratam, feitos por Benjamin Abraão, deixa transparecer uma mulher elegante no pisar firme o solo agreste da caatinga, de postura reta ao caminhar, seguida por um cão. A maneira como retirava, elegantemente, com graciosas mãos, o chapéu de massa, demonstra um domínio do corpo que poucos são capazes de possuir, o mesmo ocorria nas cenas que penteava os longos cabelos de Lampião, ao mesmo tempo em que ataviava-se pondo trancelins, perfume ou anéis nos dedos.

Outrora havia nas cidades do interior o costume de algumas mulheres cortarem a parte inferior de uma fotografia, recusando o fato de terem pernas finas. Duas coisas odiadas pelas mulheres de antigamente: perna fina e peito grande; tanto é que se especulava, na família, a quem ‘puxou” tão graves defeitos.

A graça das suas maneiras permitia entrever uma mulher cujos sentidos estavam sempre em estado de alerta, prontos e prestos a compreender ou decifrar signos que se lhe apareciam à vista, não é a toa a sua tão decantada intuição, capaz de extrair das forças físicas da natureza oráculos e deduções lógicas, capazes de contribuir para livrá-la de perigos ou se apoderar de uma situação em proveito próprio, com enorme senso de oportunidade (o que os gregos chamavam Kairós).

O certo é que toda uma série de significados achegam-se para reforçar o núcleo central do mito, que como todo mundo sabe, detém uma poderosa força centrípeta, atraindo para si todo e qualquer signo que possa vir a reforçar o eixo semântico principal. Nesse sentido, o mito de Maria, como a Bonita teria “chupado” muito da constelação de signos que orbitavam em torno de Lampião. Mesmo que dispusesse de atributos próprios que a tornavam autônoma enquanto mulher, sobretudo no que diz respeito à bravura e a coragem de abandonar seu marido Zé de Nenén para levar uma vida nômade e perigosa ao lado de um bando de homens que circunscreveram suas próprias leis, paralelas ao status quo de então.

Vejam bem, embora fotografada quase sempre ladeada por homens, em nenhum momento parece perder uma espécie de senso de autoridade que lhe era inerente. Ora, uma mulher saída das brenhas do interior, bem que poderia deter uma atitude mais retraída quando do encontro com pessoas mais urbanas e cosmopolitas, o que quero dizer é que não era beradeira.

Era justo o contrário: firma-se de cabeça erguida e queixo empinado, como a desafiar de maneira insolente o expectador. Mais também podemos conjecturar uma outra coisa, é que, no fundo, a companheira de Lampião não ligava mesmo para nada nem para ninguém. Erguia-se face a si com uma elevada auto-estima que a fazia esplender no meio de qualquer grupo de gente que se encontrasse. Acreditava em suas potencialidades e em seus tinos e palpites.

Tinha a exata consciência do limite de tempo, de quem vive a desdenhar do modo de vida instituído, que desde sempre todos seguem, cumprindo como se fosse parte de uma ordem natural, e não como simples instituição humana.

Quanto às fotografias feitas sentadas, permanece com uma aura de solenidade e hieratismo, porejando um misto de ingenuidade e digno estar-se à vontade no seu corpo. É assim como se tivesse plena consciência do seu lugar histórico e da importância que a posteridade lhe outorgaria, como um dos principais signos da emancipação feminina, mesmo que nunca tenha articulado um discurso acerca da condição da mulher.

O certo é que pulsa como um signo de forte poder de sugestão no imaginário do país, mormente da região Nordeste. Com efeito, nos retratos atestamos um indefectível sorriso feminino, composto mais pelos olhos do que pelos lábios e dentes, pleno de graça e autoconfiança, puxado a uma certa timidez, aureolado de um suave encantamento que os seres de bom sangue passam.

Há quem fale da existência de uma coisa chamada “inconsciente ótico”, sendo bem mais perceptível nas fotografias em preto e branco, fazendo evocar no observador certos símbolos do imaginário que funcionam como estruturas antropológicas, remetendo a áreas partilhadas por toda uma coletividade, aqui, no nosso caso, discorremos acerca de alguns elementos capazes de configurar uma unidade: o aparente recato, o magnetismo, o hieratismo que circunscreveram a beleza de uma mulher que não se enquadrava nos padrões tidos como belos pela maioria.

Esse comedido refinamento de que aludi a pouco, não impediu que vez ou outra, consoante a ocasião, o comportamento tenha sido tisnado, explodindo num aluvião de impropérios e mesmo até partindo para a agressão física, como sucedeu muitas vezes com Maria Bonita, expressas em cenas de ciúme ou vingança contra inimigos.

Enfim, o mito com sua lógica própria parece querer demonstrar sua despótica autonomia face aos eventos históricos; embora ainda não se passaram nem 70 anos da morte de Maria Déa, e tudo já parece muito longínquo, tudo já integra um tempo que tem mais a ver com fatos cujos contornos são indecisos e povoados de lacunas e hipérboles.

Não devemos esquecer o fato extremamente elucidatório de que ainda lhe sobrevive uma filha: Expedita . A fornalha do mito requer combustível de outra espécie para queimar seus arquétipos e metáforas, tendo em vista a necessidade humana de fábulas e espelhos. É como se fosse uma espécie de lenha servindo para alimentar as chispas simbólicas configuradoras das estruturas da alma espírito e do conseqüente funcionamento do espírito humano que ardem nas trempes do cotidiano.

Por não dispormos de documentos ou relatos da época, seguimos um percurso através de lacunas que muitas vezes nem começam nem terminam, contentando-nos em inferir possíveis significados a signos que orbitam em torno do mito da primeira mulher a fazer parte de um bando de cangaceiros. Com efeito, podemos nos apropriar daquilo detectado por Max Weber em certos fenômenos sociais centrados em indivíduos, e que chamou com propriedade “autoridade carismática”.

Quando tentamos explicar os possíveis contornos de uma beleza que não se prova muito por si, mas que demanda elementos extra-estéticos ou sócio-antropológicos para sua consecução, a categoria de Weber parece lançar luz sobre o fato de se gabar a beleza de uma mulher que não era nem tão bonita assim. Agora é bom lembrar de uma versão que fala dessa fama, a de “bonita”, como difundida pela mídia da época, ou seja, não surgiu no ceio do próprio cangaço. Bem, parece que o carisma de Lampião respingava sobre sua companheira.

O Rei do Cangaço como personificação de um arquétipo presente desde sempre no inconsciente coletivo, sugeria a presença do sumo-sacerdote, pleno de magnetismo, do guerreiro não temeroso da morte ou do patriarca de um clã. Maria Bonita foi a banda feminina desse arquétipo.

*Professor do Deptº de Letras da UFRN, ensaísta e tradutor

Sugestão da matéria: Ivanildo Silveira

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Expectativa total para o Cariri Cangaço

Programação definida 



Dia 22 de Setembro de 2009 – Terça-Feira
Abertura – Teatro Municipal de Crato
17 h – Sessão Solene – ICC - Instituto Cultural do Cariri
19 h - Palestras
AS MULHERES E O CANGAÇO - João de Sousa Lima
CANGAÇO E RELIGIOSIDADE - Lemuel Rodrigues

Dia 23 de Setembro de 2009 – Quarta-Feira
Memorial Padre Cícero – Juazeiro do Norte
18 h - Sessão Solene do ICVC - Instituto Cultural Vale do Cariri
19 h - Palestras
LAMPIÃO NEM HERÓI NEM BANDIDO - Anildomá Willans
LAMPIÃO EM JUAZEIRO DO NORTE - Napoleão Tavares Neves

Dia 24 de Setembro de 2009 – Quinta-Feira
Cine Teatro de Barbalha
19 h - Sessão Solene da SBEC
19 h - Palestras
OS MARCELINOS - José Peixoto Junior
A EPOPÉIA DE MOSSORÓ - Magérbio de Lucena
CANGAÇO ESTÉTICA E ARTE - Paulo Moura

DIA 25 de Setembro de 2009 – Sexta-Feira
Sítio Caldeirão de Santa Cruz do Deserto – Crato
14 h - Apresentação de Vídeo Documentário
Mesa de Conversa sobre o Beato Zé Lourenço
Pesquisadores Presentes
Salão de Atos da URCA - Crato
18 h - Homenagens a Personalidades
19 h - Palestras
O REI DO CANGAÇO E O REI DO BAIÃO - Kydelmir Dantas
MASSILON-Honório de Medeiros
LAMPIÃO NO AGRESTE PERNAMBUCANO - Antônio Vilela

DIA 26 de Setembro de 2009 - Sábado
Teatro Municipal de Crato
9 h - Palestras
O TURISMO E O CANGAÇO - Jairo Luiz
LAMPIÃO, CANGAÇO E O CORDEL -Rubinho Lima
POÇO REDONDO E O CANGAÇO DE LAMPIÃO - Alcino Costa
Salão de Atos da URCA - Crato
15 h - Apresentação de Trabalhos Acadêmicos
Comissão Acadêmica URCA
Comissão Técnica SBEC
17 h – Discussão Técnica
O CANGAÇO SOB O OLHAR DA LEI
Pesquisadores Presentes
Encerramento
Memorial Padre Cícero - Juazeiro do Norte
18 h - Lançamento Vídeo Documentário - Angico – Aderbal Nogueira
19h30 min - Palestras
ANGICO - Antonio Amaury Corrêa de Araújo e Leandro Cardoso Fernandes


CARIRI CANGAÇO
UMA INICIATIVA DA SBEC – SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS DO CANGAÇO.
REALIZAÇÃO: PREFEITURAS DE CRATO, JUAZEIRO DO NORTE, BARBALHA e MISSÃO VELHA.

APOIO: UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI – URCA - ICC - ICVC.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Vem aí um mega evento

 I SEMINÁRIO CARIRI CANGAÇO

De 22 a 26 de Setembro de 2009 
Crato, Juazeiro e Barbalha 
Ceará - Brasil.

O Cariri cearense, a partir das cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha; irá receber no mês de setembro de 2009, o I Seminário Cariri Cangaço. Pesquisadores, historiadores, escritores, documentaristas e cineastas, estarão no triângulo do Crajubar, discutindo um dos fenômenos mais controversos da história do nordeste brasileiro e suas implicações e ligações com a história de nossa gente.

O encontro se realizará nas três principais cidades do Cariri cearense, com palestras, discussões, estudo do tema, oficinas, apresentações artístico-culturais e visitas técnicas aos principais cenários da história cangaceira no Cariri e no estado no Ceará, se configurando como uma das maiores mesas de debates itinerante do país sobre o fenômeno Cangaço.

O evento, capitaneado pela SBEC e os três principais municípios do Cariri está sendo construído por equipes de trabalho, formadas pelas três prefeituras e em conjunto com a Universidade Regional do Cariri – URCA, Instituto Cultural do Cariri – ICC, grupo técnico da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC e do Instituto Cultural Lusófono - ICL; trabalham firme na realização do maior evento do gênero, já realizado no país, e contam com o apoio do ICVC – Instituto Cultural do Vale do Cariri e do Instituto Pró-Memória.

Duas noites em Crato, duas noites em Juazeiro do Norte e uma noite em Barbalha marcarão as discussões; durante o dia a organização do evento programa visitas técnicas a vários sítios históricos do cangaço na região: a exemplo da fazenda Serra do Mato, Fazenda Piçarra, a Fonte da Pendência, a Fazenda Guaribas, além de todos os locais, palcos da famosa e polemica visita de Virgulino Ferreira, o Lampião; a Juazeiro do Norte, Barbalha, Jardim, Jati, Porteiras e Missão Velha.

Teremos ainda uma intensa agenda de visitas aos principais pontos turísticos do Cariri, como o Memorial de Patativa do Assaré, o Memorial do Homem Cariri – Casa Grande em Nova Olinda; o Memorial, o Horto e a casa de Padre Cícero; o Sítio Histórico do Caldeirão do Deserto do Beato Zé Lourenço, além de visitas ao Centro de Artesanato Mestre Noza, à Lira Nordestina, ao Museu de Fósseis de Santana e à Oficina de Expedito Celeiro, um dos maiores artesãos em couro de todo o Nordeste.

Será realizado o maior concurso de redação da região, inédito por reunir alunos dos três municípios, sob o tema: Lampião no Ceará – Verdades e Mentiras; os vencedores além de terem suas redações apresentadas durante o evento terão as mesmas, incluídas na publicação de um livro contendo os anais do evento.Durante o Cariri Cangaço estão programadas oficinas de Cordel, Xilogravura, Xaxado e ainda oficina de criação e produção de curta-metragem.

A Universidade Regional do Cariri – URCA através do IMAGO, promoverá uma grande mostra de documentários, curtas e longas-metragens sobre o tema cangaço, além de coordenar o recebimento e análise de trabalhos acadêmicos que estarão sendo propostos para um grande painel sobre o assunto; e o Instituto Cultural do Cariri – ICC promoverá uma grande exposição de livros e revistas, como também uma exposição do acervo do grande escritor, radicado em Crato, Hilário Lucetti, já o Instituo Cultural Lusófono promoverá uma exposição sobre a manifestação cultural portuguesa dos "Caretos", berço dos conhecidos "Caretas" nordestinos, além de um Tributo a Zé do Telhado (famoso bandoleiro português).

O evento terá também a LATADA DE LIVROS, espaço para lançamentos, exposição e comercialização de obras relacionadas à temática.

Já são presenças confirmadas no I Seminário Cariri Cangaço: Pesquisador e Escritor Antônio Amaury Correa de Araújo, Professor Lemuel Rodrigues Silva, Escritor Alcino Costa, Dr. Honório de Medeiros, Poeta Kydelmir Dantas, Escritor Paulo Gastão, Escritor e Poeta José Peixoto Junior, Escritor Ângelo Osmiro, Documentarista Aderbal Nogueira, Dr. Carlos Elydio Araujo, Escritor Iaperi Araújo, Dr. Napoleão Tavares Neves, Dr. Magérbio de Lucena, Dr. Leandro Cardoso Fernandes, Historiador Daniel Walker, Escritor João de Sousa Lima, Escritor Antônio Vilela, Dr. Assis Timóteo, Comendador Francisco Mariano, Escritor Anildomá Willians, Professor Francisco Pereira, Escritora Vilma Maciel, Cineasta Wolney Oliveira, Dr. Carlos Eduardo Gomes, Professor Jairo Luis, Escritora Célia Magalhães, Rubervânio Lima, Historiador Armando Rafael, Dr. Ivanildo Silveira, Escritor e Poeta Paulo Moura, Cineastra Wilton Dedê, Pesquisadores Manuel e Assis Nascimento, Escritor Cicinato Ferreira Neto, Dra. Francisca Gomes, Historiadora Diana Lopes, Cineasta Jackson Bantim, Dr. Múcio Procópio, Dr. Inácio de Loyola, Pesquisador Francisco da Chagas Nascimento, Professor José Carlos Cacau; dentre outros.

Ainda no ano de 2009, no mês de Dezembro o CARIRI CANGAÇO estará promovendo o lançamento do DVD CARIRI CANGAÇO, documentário produzido pela Laser Vídeo, contendo o desenvolvimento de todo o evento, com as palestras, depoimentos, visitas técnicas e as apresentações artístico-culturais, como também apresentando os municípios parceiros, teremos também o lançamento do Livro CARIRI CANGAÇO, contendo os anais do evento. O CARIRI CANGAÇO também contará com o vital apoio do SEBRAE, SESC E BNB CULTURAL.

Curadoria e Coordenação Geral:
Manoel Severo Gurgel Barbosa
(85) 3224 - 1647 / 8837-1965
Rua José Vilar, 1187 Bloco "C" Ap 901
Meireles
Fortaleza / CE
Cep. 60125.000
manoelsevero@bol.com.b

*A imagem no topo é o convite nos enviado pelo amigo Manoel Severo para o lançamento oficial do evento.

Tributo à Virgolino

A CELEBRAÇÃO DO CANGAÇO 

Nos dias 25 e 26 de julho será comemorado 71 anos que Lampião, Maria Bonita e mais nove companheiros foram massacrados pela polícia, na grota de Angicos, Estado de Sergipe. Serra Talhada, sua terra natal, preparou uma programação recheada do que há de mais forte e autêntico nas raízes sertanejas, ao mesmo tempo em que aponta sua influência nos mais variados aspectos da cultura popular, e ainda atiça a imaginação sobre os “mistérios” que ainda povoam os ares do sertão, quando se fala da morte do Comandante das Caatingas.


No altar: os versos do poeta!
No ofertório: os arreios dos cangaceiros!
No coração da caatinga: A Celebração do Cangaço!
No Sítio Passagem das Pedras – Onde nasceu Lampião




PROGRAMAÇÃO

Dia 25.07.2009 (Sábado)

09h: - Salva de tiros com os Bacamarteiros do Vale do Pajeú.
- Banda de Pífanos Santo Antônio, de Carnaíba/PE.
- Abertura da Exposição de MATÉRIAS DE JORNAIS ANTIGOS NOTICIANDO AS AÇÕES DE LAMPIÃO.

10h: - Mesa Redonda: “Os Mistérios que Envolvem a Morte de Lampião” e “O Cangaço e a Cultura Popular”, com Alcino Costa, Adriano Marcena, Paulo Moura, José Alves Sobrinho, Anildomá Willans, Luís Rubem, Margébio Lucena e Antonio Vicelmo.

12h: - Grupo de Danças Populares Mangueirarte, de Mirandiba/PE.
- Grupo Arte e Dança, de Serra Talhada/PE.
- Grupo de Xaxado Bandoleiros do Sertão, de Triunfo/PB.
- Os Matingueiros, de Petrolina/PE.

Dia 26.07.2009 (Domingo)

09h: Celebração do Cangaço, pelo Padre Jorge Adjan e Pastor Júnior, com a participação:
- Violeiros repentistas: Zé Pereira e Assis Mourato.
- Recital com o poeta Caio Meneses.
- Grupo de Xaxado Maria Bonita, de Serra Talhada/PE.
- Grupo de Danças Manoel Messias, de Serra Talhada/PE.
- Grupo de Xaxado Cabras de Lampião, de Serra Talhada/PE.
- Coral Aboios de Serrita.

No decorrer da programação poderão ser visitadas:
- A casa de dona Jacosa - onde nasceu Lampião.
- As pedras onde aconteceu o primeiro confronto armado entre os homens de Saturnino e os irmãos Ferreira.
- As ruínas da antiga casa grande da Fazenda Pedreira.
- Riacho de São Domingos.

Não faltará comidas regionais, artesanatos, cordéis, livros do cangaço, bebidas e etc.

O Sitio Passagem das Pedras, fica situada a 35 quilômetros do centro de Serra Talhada, com acesso pela estrada do aeroporto e Rodovia Estadual Virgolino Ferreira da Silva (antiga estrada de Floresta).

Mais informações:
FUNDAÇÃO CULTURAL CABRAS DE LAMPIÃO
PONTO DE CULTURA ARTES DO CANGAÇO

Fone: (87) 3831 2041 e  9938 6035

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Lampião em Aurora / CE

Texto extraído, na íntegra, do livro AURORA - História e Folclore" de Amarílio Gonçalves Tavares. pág. de 138 a 146.

Em virtude da amizade com o Coronel Isaías Arruda, na verdade um dos grandes coiteiros de Lampião no Ceará, o rei do cangaço, como era chamado, esteve, mais de uma vez, no município de Aurora. Em suas incursões pelo município Sul-cearense, o bandoleiro se acoitava na fazenda Ipueiras, de José Cardoso, cunhado de Isaías.

Estação Ferroviária de Aurora, inaugurada em 07/09/1920
 Uma dessas vezes foi nos primeiros dias de junho de 1927.

Na fazenda Ipueiras, onde já se encontrava Massilon Leite, que chefiava pequeno grupo de cangaceiros, Lampião foi incentivado a atacar a cidade norte-rio grandense de Mossoró – Um plano que o bandoleiro poria em prática no dia 13 do citado mês. Em razão do incentivo, Lampião adquiriu do coronel um alentado lote de munição de fuzil que, de mão beijada, Isaías havia recebido do governo Federal (Artur Bernardes, quando este promoveu farta distribuição de armas a coronéis para alimentar o combate dos batalhões patrióticos ‘a coluna Prestes (54)

Presente aquela negociação, que rendeu ao coronel Isaías a considerável quantia de trinta e cinco contos de réis, esteve o cangaceiro Massilon, que teve valiosa influência junto a lampião, no sentido de atacar Mossoró, cujos preparativos tiveram lugar na fazenda Ipueiras.Consta que Massilon Leite – associado a Lampião no sinistro empreendimento – tinha em mente assaltar a agência local do Banco do Brasil e sequestrar uma filha do coronel Rodolfo Fernandes.

O Bando de Lampião que chegou a Aurora era composto de uns cinquenta cangaceiros, dentre os quais Rouxinol, Jararaca e Severiano, os quais já se encontravam, há dias, na aludida fazenda acoitados por José Cardoso. De Aurora, Lampião levou José de Lúcio, José de Roque e José Cocô ( José dos Santos Chumbim), todos naturais da região de Antas, tendo sido incluídos no subgrupo de Massilon.

No dia 13 de junho de 1927, Lampião ataca a cidade de Mossoró, a mais importante do interior do Estado potiguar. “ Após quarenta minutos de fogo, já tendo tomado duas ruas, Lampião ordena a retirada. Fracassara o seu maior plano (55). Após o frustrado ataque ‘a cidade norte –riograndese, Lampião bate em retirada, entrando no Ceará pela cidade de Limoeiro, onde não é importunado. Ali fez dois reféns a resgate – pessoas idosas e de destaque social- e teve a petulância de , com seu grupo, posar para uma foto, no dia 16 daquele mês.

Ante a ameaça de invasão das cidades da zona Juaguaribana e já havendo um plano de combate ao famigerado bando, juntaram-se contingentes policiais de três estados – Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba – numa quixotesca campanha contra Lampião, tendo sido nomeado “ comandante geral das forças em operações “ o oficial cearense, Moisés Leite de Figueiredo ( Major ).

No dia 16 de junho, a força paraibana havia seguido para Limoeiro, mas ao chegar ali, Lampião já tinha levantado acampamento. Prosseguindo em sua retirada pelo território cearense, com um grupo reduzido a trinta e poucos homens, em virtude da morte de dois dos mais temíveis cangaceiros – Jararaca e colchete – e das deserções que se seguiram ao malogrado ataque, inclusive a de Massilon Leite e seu subgrupo, Lampião é perseguido por volantes, com as quais trava combates. Dentre estes, o mais intenso foi o travado no dia 25 de junho, na Serra da Macambira,, município de Riacho do Sangue, no qual Lampião, mais um vez, provou a sua invencibilidade.

Enfrentando uma força de mais de trezentas praças, sob o comando exclusivo do tenente Manoel Firmo, este sendo auxiliado por nove tenentes – José Bezerra, Ózimo de Alencar, Luiz David, Veríssimo Alves, Antonio Pereira, Germano Sólon, Gomes de Matos, João Costa e Joaquim Moura, Lampião pôs-se em fuga incólume, deixando quatro soldados mortos. Seguiram-se combates menores em Cacimbas (Icó), Ribeiro, no vale do Bordão de Velho, e Ipueiras os dois últimos no município de Aurora, com o Rei do cangaço levando a melhor.

No dia 28 de junho, Lampião contorna a serra do Pereiro, passando pelas serras vermelhas, Michaela e Bastiões- o Grupo marchava a pé, por veredas e nunca por estradas – tendo a tropa em seu encalço. É ai que Lampião resolve derivar para o lado do Cariri e continuar a retirada em direção ao município de Aurora, onde esperava encontrar refúgio no valha Couto do seu “amigo” Isaías Arruda.

Em seu livro “ Lampião no Ceará, narra o major Moisés Leite Figueiredo que, no dia 1º de julho de 1927, Lampião cm seu grupo estacionava no alto da serra de Várzea Grande no lugar olho d’água das éguas. E Que ali perto, no lugar ribeiro, já se encontrava as forças do tenente Agripino Lima, José Guedes e Manoel Arruda – o primeiro, da polícia do rio grande do norte, e os dois últimos, da polícia paraibana -, valendo salientar que tais contingentes totalizavam “ cerca de duzentos homens, bem aparelhados, no dizer do major Moisés.

A tropa que teve encontro com os bandoleiros foi a do tenente Arruda, empiquetada no sítio Ribeiro, onde aconteceu um fato tão misterioso, quanto engraçado. Não obstante o lugar se achar “ bem guarnecido “, ao clarear a barra , “ O Grupo de Bandoleiros, sem sofrer o menor revés, passou entre as trincheiras, nas quais os soldados dormiam, para só despertarem depois, com cerrada fuzilaria, quando os bandidos não estavam mais ao alcance da pontaria da polícia” O Grupo ocultou-se no vale do Bordão de velho.

Do local onde estava, Lampião enviou dois cabras ‘a casa de João Cabral, morador ali perto, convidando-o a vir a sua presença. João Cabral a tendeu e Lampião disse-lhe estar com fome e sede, pedindo alimento e água para o grupo, no qual foi atendido.

Marchando pelo pé da Serra da várzea grande, Lampião chega a fazenda Malhada funda, onde faz alto, sendo recebido por Gregório Gonçalves, que, após saber com quem estava falando, perguntou a Lampião em eu podia servi-lo. Este respondeu “só quero comida para minha rapaziada”. Gregório Mandou matar o boi que estava no curral, e duas ou três ovelhas. Os cangaceiros estavam com tanta fome, que não esperaram. Comendo as carnes sapecadas. Os quartos de Ovelha, eles colocaram nos bornais sobressalentes, junto com farinha e rapadura.

Ao retirar-se, Lampião levou João Teófilo como guia. Este saiu montado num burro que o bandoleiro havia tomado de um cidadão que estava comprando rapaduras. O Bando saiu na direção sudeste do município. Lá muito adiante, o guia foi substituído por outro de nome David Silva, tendo lampião recomendado a João Teófilo pra só voltar quando escurecesse, e que não fosse pelo mesmo caminho.

Continuamos a narrativa, baseada no livro do major.

Em sua marcha, Lampião procurou a Serra do Coxá, na divisa do município de Aurora com o de Milagres, burlando a vigilância dos policiais, de tal modo que estes se afastavam do ponto em que estavam os bandidos, tomando o rumo de Boa Esperança, serrote do cachimbo, Riacho dos Cavalos, Ingazeiras e Milagres. Como se Vê, Lampião era um perito em estratégia Militar. Uma de suas táticas consistia em ludibriar a polícia que andava no seu encalço, como fez, quando procurou a Serra do Coxá.

Deste modo, tornou-se inócua a providência do Major Moisés, designando o tenente caminha para colocar piquetes nas estradas, uma vez que, por estas, não passarias o grupo de bandidos. Enquanto Lampião ficava escondido na Serra do Coxá, O tenente Manoel Firmo seguia para o lado oposto, isto é com a sua tropa, passava de trem por Aurora, em demanda ao Cariri, sem dar satisfações ao seu chefe, major Moisés, que naqueles dias se encontrava em nossa cidade, em tratamento de saúde.

Com o tenente Manoel Firmo, viajavam os tenentes Luís Leite, Laurentino, Moura Germano, em passeio a Juazeiro e Crato, totalmente despreocupados com os bandidos.
Para piorar a situação do “ comandante das tropas “ em operações”, chegavam em Aurora o contingente comandado pelo tenente Agripino de Lima, que conduzia trinta e quatro animais de montaria, tomados a fazendeiros de Icó, Peneiro e Jaguaribe.

Quando o Major pensava que o oficial vinha em seu auxilio, o tenente Agripino comunicava-lhe que resolvera abandonar a campanha e voltar pra o Rio Grande do Norte. Diante disso, o Major Moisés apreendeu os referidos animais, entregando ao Sr. Vicente Leite de Macedo, com a recomendação de devolvê-los aos respectivos donos. Além dos animais tomados a sertanejos, o Major Moisés constatou irregularidades na tropa do tenente Agripino, como a venda de munição feita por praças e muitas destas se entregando ‘a embriaguez.

A atitude do tenente Manoel Firmo, viajando para Juazeiro e Crato, arrastando o grosso da tropa e quatro tenentes, deixou o comandante Moisés “ num mato sem cachorro “ . O Major viu-se na contingência de pedir ajuda – imagine o leitor a quem - Ao coronel Isaías Arruda, o mesmo que, tempos atrás, havia acoitado lampião,mas que, agora, dava uma de perseguidor do bandoleiro, pondo oitenta e sete cabras à disposição do major Moisés.

Se no combate travado com os bandidos, na Serra da macambira, havia cerca de 400 praças, como se explica ter o major Moisés levado para Ipueiras apenas 15 soldados. Descoberto o paradeiro de Lampião no alto da Serra do coxá, destacaram-se elementos de confiança para, aproximando-se do grupo, conhecerem melhor a sua posição, dentre eles Miguel Saraiva, tio de um dos bandoleiros e morador nas proximidades.

Foi então que o Major Moisés e Isaías Arruda conceberam um estratagema, que consistia em preparar um almoço para Lampião e seus cabras, na casa de José Cardoso, em Ipueiras, e juntos, abaterem o bandido, e juntos, abaterem o bandido nas horas conveniente. Miguel Saraiva se faz acompanhar de oito homens que se apresentam a Lampião, fingirem que são perseguidos pela polícia, e para melhor comover o chefe dos bandoleiros, lamentam e choram a sua desgraça, tentando com isso, infiltrar-se no bando.

“Alguns bandoleiros aceitaram a presença de novos companheiros, ma Lampião logo faz sentir que não acolhia em seu grupo pessoas que lhe fossem estranhas” os oito homens de Miguel Saraiva tinham recebido instruções para atacar os bandido na hora em que o grupo “ descansasse” a armas para almoçar.
Simultâneamente, os soldados e jagunços puseram-se discretamente em volta de casa, prontos para fechar o cerco aos bandidos, no momento oportuno. Mas o ardil fracassou, porque Lampião, sagaz,, arisco e desconfiado, chegou a rejeitou o almoço oferecido por Miguel Saraiva. E colocou sua gente em pontos diversos e estratégicos.

Eis como o major Moisés descreveu o tiroteio, “Conhecido o fracasso do estratagema, fomos impelidos a atacar os bandidos, com ímpeto, de sorte que, em pouco tempo, estavam debaixo de cerrada fuzilaria. A luta teve início pouco mais ou menos ‘as 12 horas do dia 7 de julho, tendo uma duração de mais de três horas, terminou infelizmente, porque os bandido caíram em fuga, e no campo deixaram dois mortos, um queimado, que recebeu vários ferimentos, e outro também morto na ocasião em que fugia”.

Essa foi a história narrada pelo major Moisés no citado livro. Entretanto, existe outra versão para o episódio segundo nos contaram Róseo Ferreira e Vicente Ricante que , na época, moravam nas proximidades da fazenda Ipueiras, a coisa aconteceu assim.

O Major Moisés Leite e o Coronel Isaías Arruda combinaram um plano de acabar com Lampião, assim que este chegasse em Ipueiras, pois sabiam que o grupo vinha desmuniciado e bastante desfalcado, em consequência da derrota sofrida em Mossoró em Mossoró e das deserções que se seguiram ao frustrado ataque aquela cidade norte rio grandense.

Lampião ficara na manga com a cabroeira. Convidado pra almoçar na casa de José Cardoso, na citada fazenda Ipueiras, o Rei do Cangaço compareceu com alguns dos seus rapazes.

Quando Miguel Saraiva chegou e pôs sobre a mesa o alguidar contendo o almoço envenenado, Lampião tirou do bornal um colher de latão e meteu-a na comida. Quando puxou a colher, o bandido notou mudança de cor e deu alarme. “ ninguém come desta comida. Esta comida está envenenada!

Nisto, Lampião se os seus cabras conseguem romper o cerco de um cordão de jagunços e soldados a paisana que se formara em volta da casa, e oco em volta da casa, e correm pra a manga onde ficara a maior parte da cabroeira, sendo atacados pelo cabras de Isaías e soldados do major Moisés. Ao mesmo tempo em que estrugiu a fuzilaria, os atacantes lançaram fogo na manga, por todos os lados do local em que estavam os cangaceiros.

Lampião investiu várias vezes contra os atacantes, conseguindo, por fim, escapar por um corredor. Lampião perdeu dois cangaceiros, um queimado e ferido por ocasião do ataque. O Outro, com ferimento no ouvido, ficou em Ipueiras, em tratamento, mas os coiteiros acabaram de mata-lo, tocando fogo no cadáver...

Ao escapar do cerco de Ipueiras, lampião tomou o rumo da Serra do Góes, perto de São Pedro do Cariri, atual Caririaçu. Veja o leitor o Zig- zag feito por Lampião para confundir a polícia.

No dia 7 de julho, Lampião saiu de Ipueiras, desceu pelo riacho do pau branco, atravessou o rio Salgado no lugar barro vermelho, passou pelos sítios Jatobá e Brandão, fazendo “ alto “ em vazantes. Na serra dos quintos, fez um refém – o Sitiante Joaquim de Lira – para ensinar o caminho para a serra do Góes, aonde chegou, no início da noite.

Na manhã do dia 9, Lampião deixou a serra do Góes e rumou para o município de Milagres, atravessando a via - férrea no lugar Morro Dourado. O Major Moisés havia mandado tomar as ladeiras da Serra do Mãozinha e São Felipe, por onde poderia passar o bandoleiro. Mas lampião, mas uma vez, conseguiu burlar a forca policial e penetrou no estado da Paraíba, pela serra de Santa Inês, no rumo de Conceição do Piancó, de onde prosseguiu em fuga para Pernambuco.

*54 Frederico Pernambucano de Mello, op. Cit. P 32*55 ibidem, p. 116.

Transcrição de Ivanildo Silveira
Natal, RN