quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Marcolino Diniz

Matéria do jornalista Sebastião Lucena, publicada no jornal "A União" de 11 de agosto de 1978.

Marcolino Diniz nasceu em 10 de agosto de 1894 e faleceu em Irerê -PB (antiga Patos de Princesa) , em 21 de dezembro de 1980, aos 86 anos, nessa idade sabe como é ... por qualquer coisinha se morre.


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A história dele tem passagens interessantes: inclusive a relação de amizade que tinha com Lampião, e a sua libertação exigida pelo mesmo em 1923, a carreira que ele deu em Quelé quando foi resgatar a amada Xanduzinha durante o combate citado na reportagem acima.

Créditos das informações adicionais: confrade Fábio da comunidade "Lampião, Discussão Técnica".


segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Romance

Os Desvalidos,
de Dantas, Francisco J. C.
221 p., Companhia das Letras.
São Paulo, 1996.









Falar de literatura é sempre prazeroso; ler Francisco Dantas é mais que isso - é viajar pela nossa história tomando parte dela. Assim, o mundo se rendeu ao trabalho desse ilustre escritor Sergipano, hoje citado até por Alfredo Bosi.
Os Desvalidos, romance regionalista, apresenta uma oralidade rara que resgata as tradições dos notáveis escritores sergipanos no âmbito nacional.

Trajetória de um povo renegado
Por Rusel Barroso

Aclamado pela crítica e lançado em nova edição pela Companhia das Letras, Os Desvalidos, de Francisco Dantas, escritor brasileiro premiado na Europa, revela a sina dos sertanejos que perambulam em meio à caatinga e carregam poucas expectativas em relação ao futuro. Neste livro, a condição de trabalho, a falta de instrução e a seca estorricante fazem do homem um mero sobrevivente, impotente diante da vontade de realizar seus sonhos e de guiar o seu próprio destino.

A intranqüilidade vaga por todo o romance na pessoa de Lampião – símbolo máximo do cangaço em nosso país. Trata-se de uma época em que o medo dos cangaceiros e da volante ronda os pensamentos de uma gente desafortunada e indefesa ante o poder destas duas forças. Felipe, Zerramo e Coriolano representam a face de um povo marcado pelos seus fracassos, medos e desesperanças.

A figura de Lampião se apresenta entre o bem e o mal – ora lembrado como justiceiro que tomava dinheiro dos mais ricos e soberbos, ora visto como bandido perverso e sanguinário. Capítulos inteiros são destinados a descrever a trajetória do rei do cangaço que narra suas próprias inquietudes e o seu zelo em relação à família, ao mesmo tempo em que aparece, mais adiante, com atitudes cruéis, a ponto de matar friamente, a punhaladas, Zerramo, compadre de Coriolano.

A personagem Coriolano faz menção à realidade de muitos dos infelizes que vagam pelo sertão em busca de sobrevivência. Sua vida se preenche de insucessos que o levam a altos e baixos, desde o mais fino trato como boticário, até a miséria como seleiro a vagar pelo mundo.

Além de fracasso, outra palavra que compete à descrição do nosso Coriolano é remorso. Ele fica ressentido pelo pai, cuja lembrança da morte, abandonado aos abutres, o atormentava e, também, pela separação e infelicidade de seu tio Felipe e da casta esposa Maria Melona, causadas pela calúnia do sobrinho inconseqüente ao ser influenciado pelos inimigos de seu tio.

O título do livro sintetiza o infortúnio, a pobreza e a apatia de seus personagens. Os desvalidos são aqueles marginalizados pela sociedade que os desdenha e se distancia
de qualquer responsabilidade pela situação de penúria no Brasil. A forma enigmática da apresentação gráfica do livro, que chama a atenção no primeiro contato, revela o lado negro de uma região sofrida num país cercado de riquezas. Trata-se de um trabalho em que forma e conteúdo se casam muito bem.

Ao se falar dessa obra é imprescindível citar a presença marcante de um regionalismo impregnado de termos intrínsecos à região Nordeste. Os adjetivos e as expressões típicas dão verossimilhança às reações das personagens naquele mundo hostil, e às descrições do ambiente traçadas pelo narrador. A textualização é o aspecto primordial da obra, vez que a linguagem é o seu ponto máximo.

Os lugarejos de Aribé e de Rio-das-paridas são os cenários principais deste romance fascinante. No entanto, não podemos nos esquecer do pano de fundo que permeia toda a trama e determina o próprio destino das personagens: a caatinga.

O tempo histórico do romance corresponde mais especificamente à década de 30, quando o país atravessava uma profunda crise econômica e política que favorecia o crescimento do cangaço e de outros movimentos de revolta por todo o país. Quanto ao tempo da narrativa, há uma interligação de memórias passadas pelo velho Coriolano e sua presente realidade. O tempo às vezes é psicológico, às vezes cronológico.

A narrativa é tipicamente regional e ocorre com a penetração do pensamento da personagem em seu desenrolar. O narrador, dessa forma, se utiliza do discurso indireto livre, com um fluxo de consciência entre narrador e personagem, como se vê no trecho abaixo:
(...). Toda parição é perigosa, e nela se ajuntam as forças inimigas, no bom entender do parteiro Virgulino, calejado de penar pela mulher algumas vezes mais morta do que viva. No ano trespassado mesmo – é outra vez a memória puxando pelo coitado – Santinha achou de perder água e ter a dor de parir no coice de um tiroteio vermelho como o diabo! Dividido num repente entre o posto de chefe-de-guerra e a obrigação de marido-parteiro, esse Virgulino, embora por um só momento, desmareou-se apavorado... (p. 188).

Neste excerto foram destacados dois pensamentos: o de Lampião, grafado em itálico, e o do narrador, em grafia normal. Este narrador viaja pelo tempo e pelo espaço,
enfocando as personagens, de maneira particular, em diversos momentos de suas trajetórias, mas tomando sempre como referência Coriolano.

Em suma, o trabalho desenvolvido pelo escritor Francisco Dantas vem mostrar a rudeza da vida no sertão nordestino, numa época em que os homens eram atormentados pelos fantasmas da fome, do cangaço e da ignorância, ao passo que lutavam para se manterem vivos à beira da loucura e da morte que os espreitavam.

Somente através de uma leitura cuidadosa é possível compreender a magnitude da obra Os Desvalidos, de Francisco José da Costa Dantas. Os elogios rasgados pela crítica endossam o valor irrefutável do conteúdo do seu texto, firmado pelo estilo envolvente da linguagem nele empregada.

Faço minhas as palavras de Antônio Medina, de O Estado de São Paulo, ao afirmar que “O vocabulário de Dantas, sem ser pedante, chega a ser prodigioso. Sua verbalidade mimetiza a poética do artesanato.”


Vale ressaltar que o título do filme CANTA MARIA seria "Os Desvalidos", o mesmo do livro o qual sua história é baseada. "Canta Maria", é uma referência à letra de uma canção composta por Daniela Mercury e Gabriel Povoas para o filme.

Fonte: Lagartonet

sábado, 15 de novembro de 2008

Especiais para TV

A Aperipê exibe neste sábado o Especial “Filhos do Cangaço”

A cidade de Poço Redondo realizou, em julho deste ano, a 1ª Mostra Cultural Raízes de um Povo – 70 anos da Morte do Cangaço, em alusão ao assassinato de Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros na gruta do Angico. A equipe da Aperipê TV esteve na cidade na época do evento e produziu um documentário como homenagem ao movimento que revolucionou o sertão nordestino na época dos coronéis. O Especial Aperipê vai ao ar neste sábado, 15, a partir das 15h.

Como todas as lendas que tendem a se tornar maiores que os fatos, a saga de Lampião pelo Nordeste brasileiro contém todos os elementos de aventura, romance, violência, amor e ódio das grandes histórias da humanidade. A proposta do documentário é abordar toda a herança cultural simbólica e palpável do cangaço, movimento tão significativo para o povo nordestino.

O encontro cultural de Poço Redondo promoveu várias discussões acerca do cangaço, mediadas por pesquisadores e estudiosos no assunto. Segundo a diretora do Especial, Gabriela Caldas, esses debates e os depoimentos de populares formam o conteúdo do documentário: “Para o Especial, além de gravarmos os debates, colhemos das pessoas da região histórias do imaginário popular sobre Lampião, sua companheira Maria Bonita, e todos os rapazes que formaram o grupo de cangaceiros mais famoso da história do cangaço”, afirma a diretora.

A equipe visitou, também, a grOta do Angico no 70º aniversário da morte do maior ícone do cangaço, o Virgulino Ferreira da Silva, ou simplesmente Lampião.

Não perca todo o vigor do cangaço no Especial Aperipê deste sábado.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Matéria na revista "Brasileiros"



Lampião, 70 anos da morte de uma lenda
As histórias e as lembranças de quem conheceu e conviveu com o cangaceiro mais famoso e temido do sertão. Por Heitor e Silvia Reali.

Confira: Clicando aqui

Cordel na rede!


Transcrição em slides do folheto "Grande debate que teve Lampião com São Pedro", escrito na década de 50 pelo cordelista José Pachêco. Clique aqui

Imagem pescada no blog da Fatita Vieira

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Cangaço ditou moda


O Estilo do Cangaço

Por Bia Lemos

Certa vez em uma entrevista, a empresária e consultora de moda Costanza Pascolato disse que a imagem construída com inteligência e charme ajuda na comunicação com o outro. Incorpora confiança e não é uma questão de simples vaidade, mas de sobrevivência. Pode-se utilizar a afirmação de Costanza para explicar a força da identidade visual na história de Lampião e sua companheira Maria Bonita.

Ambos se tornaram mitos em todo o nordeste brasileiro ao misturar riqueza, extravagância e barbárie, lançando no país o banditismo de ostentação, em que o enfeite e o ornamento dão destaque particular aos crimes.

Para Lampião vestir-se bem era essencial para triunfar. Ele foi o primeiro cangaceiro a cuidar da sua imagem, aí reside sua originalidade, estava sempre vestido de maneira extravagante, com roupas de cores berrantes, chapéus imensos, enfeitados com medalhas e muitos anéis, colares e broches. Lampião e seus cangaceiros lançaram sua própria moda, criando um dos visuais brasileiros de maior expressão e autenticidade. A partir do estilo adotado eram reconhecíveis
entre todos.

Lampião sempre demonstrou preocupação com a aparência - bem antes de sua entrada no cangaço, ele costurava suas roupas e sabia bordar a maquina com perfeição – e soube elaborar um personagem singular para ele, utilizando efeitos visuais para valorizar a vida que levava com seu grupo e transmitir a imagem de bandido rico e poderoso que exercia fascínio e respeito sobre o povo do sertão.

Dadá, mulher de Corisco, companheiro de Lampião, teve papel importante na história do cangaço, não só por participar ativamente das lutas, mas sobretudo por ter sido a estilista dos cangaçeiros. Ela mudou radicalmente os motivos e a confeccção das roupas e acessórios usados pelo bando. A partir de 1932, lançou a moda dos motivos bordados em couro branco sobre os chapéus - foi a criadora da famosa estrela de oito pontas -, das flores em tecido colorido bordadas sobre as bolsas, dos peitorais e dos cinturões largos e de couro. Foto:


Do livro "Estrelas de couro – A estética do cangaço"

A nova indumentária criada por Dadá era também utilizada para diferenciar status e poder. Os motivos e as estrelas dos chapéus variavam de um cangaceiro para outro e permitiam reconhecer a sua importância dentro do grupo.


Do livro "Estrelas de couro – A estética do cangaço"

Geralmente, o lenço dos cangaceiros era feito em seda inglesa ou em tafetá francês e traziam sempre monogramas. O lenço de Lampião era em seda vermelha, bordada nos quatro cantos, fixado por diversos anéis – geralmente de ouro – em volta do pescoço. As bolsas bandoleiras eram feitas em tecidos resistentes e tinham vários bolsos fechados por diversos botões, com a parte externa ricamente bordada com motivos florais.






Do livro "Estrelas de couro – A estética do cangaço"

Enquanto os cangaceiros usualmente vestiam uma camisa cáqui ou azul, Lampião, como chefe, às vezes se diferenciava, usando camisas listradas ou estampadas, com botões de ouro. As calças de cintura alta eram geralmente curtas, obrigando os cangaceiros a usar tornozeleiras em couro e ornamentadas com botões e bordados para proteger da vegetação espinhenta. Por causa também da vegetação, os cangaceiros usavam luvas; as de Lampião eram bordadas.

Mesmo os objetos mais simples eram enfeitados, por exemplo, o cantil de alumínio de Lampião era recoberto por tecido bordado. As bainhas dos punhais, as cartucheiras, as alças dos fuzis completavam a riqueza dos trajes. Até os cães dos cangaceiros não escapavam a essa moda de ostentação: Dourado, o cão de Lampião, usava uma coleira feita de ouro e prata.


Do livro "Estrelas de couro – A estética do cangaço"

As companheiras dos cangaceiros adaptaram-se a esse novo estilo de vestimenta. Havia dois tipos de indumentária feminina: A roupa típica das mulheres dos cangaceiros, usada durante as longas caminhadas na caatinga; e um vestido à moda da cidade, que as mulheres usavam geralmente nos refúgios, quando sabiam que estavam protegidas das forças policiais e podiam desfrutar de algum descanso.


Do livro "Estrelas de couro – A estética do cangaço"



A estética da extravagância de Lampião e seus cangaceiros já influenciou muitos estilistas. Zuzu Angel apresentou em seu primeiro desfile em Nova York, em 1970, uma coleção inspirada em Maria Bonita.

Em 2002, o universo do cangaço inspirou Tufi Duek e as roupas e acessórios da "Forum" foram enfeitados por pespontos ou tachas que recriavam os desenhos dos artesãos da caatinga. Amir Slama, da Rosa Chá, e Ronaldo Fraga também já se deixaram seduzir pelo estilo do cangaço brasileiro.

Pescado em: Pé no chão

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Quem sou eu?


A sugestão foi do confrade Fábio, os participantes das comunidades gostaram da nova modalidade de enigmas e estamos aprendendo muito com a identificação de fotos de personagens.

Este era o cabra "Passarinho" cujo nome correto João José Ribeiro, sua companheira chamava-se Sabina.

Esta foto já foi legendada erroneamente por diversos autores como sendo de "Volta Seca".

Créditos: Ivanildo Silveira

Atuações dos grupos em Sergipe - 1

Feira Nova
Comerciante fundou feirinha no povoado para evitar que moradores fossem atacados por um dos subgrupos de Lampião.


A cidade de Feira Nova, distante 104 quilômetros da capital, nasceu de uma feira de trocas de animais criada por comerciantes na década de 30. O objetivo era evitar que os habitantes saíssem para fazer suas compras em cidades vizinhas e fossem atacados por um dos subgrupos de Lampião. A denominação marcou tanto que foi mantida após a emancipação do município, ocorrida em 1963.

Em amarelo: a capital Aracaju
O povoado surgiu de uma fazenda chamada Logrador (Logradouro). Parte das terras, a maioria pertencente a Domingos Dias de Souza (Domingo Bolachão), foi adquirida por José Alves de Queiroz (Fifio), que passou a habitar no pequeno povoado onde já residia José Lino de Souza, um comerciante de peles de animais. Fifio teve a idéia, junto com José Lino de Souza, de montar uma bodega e transformar parte daquele ambiente em um pequeno centro de troca e venda de gado e couro.

Na época, os moradores da redondeza faziam as compras nas feiras das cidades vizinhas, Nossa Senhora da Glória e Nossa Senhora das Dores. Eles viviam aterrorizados com as histórias de atrocidades praticadas pelo bando do cangaceiro Lampião, que rondava a região e tomava as mercadorias dos feirantes. Por causa disso, com a colaboração de comerciantes destemidos de Glória e Dores, a feira livre foi implantada no próprio povoado.

Fonte: Gentílico: Feira-Novense

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Opiniões

A colômbia e a cabeça de Lampião
Por Ricardo Soares

Quando a mídia colombiana exibiu com visível satisfação o corpo ensanguentado de Raul Reyes fazendo-o perder toda a dignidade ( se é que a morte empresta alguma dignidade a alguém) imediatamente me lembrei da cena das cabeças cortadas de Lampião e seus cangaceiros exibidas pelo governo de Getúlio Vargas logo após a chacina do bando em 1938. O mesmo pensamento teve a jornalista e blogueira paranaense Juliana Cavassin que frequenta esse blog e me honrou com um texto ( enviado por e-mail) onde menciona as multiplas possibilidades que permitem os blogs nessa nova era da comunicação. 

Juliana é a titular do blog Aujourd' hui, que está na minha lista de links.Tanto Juliana como outros colegas como Marcelo Tas ao falar de mim em seu blog (Clique aqui) me fazem não desanimar com a aparente má vontade que alguns demonstram com alguns textos onde tento elucidar sem distorções o que se passa na Colômbia. 

A morte de Reyes é um ato terrorista igual aos que Uribe condena pois violou a soberania de um país vizinho , desrespeitou qualquer preceito humanitário ou possibilidade de diálogo que parecia estar em curso. Informes dão conta que Reyes estava empenhado em viabilizar um encontro com Sarkozy com vistas à libertação de INGRID BETANCOURT. 

Posso até imaginar agora a cara de desespero de sua mãe, Yolanda Pulecio, que entrevistei em junho de 2007 na zona norte de Bogotá. Yolanda não tem a menor simpatia por Uribe e sua politica belicosa, guiada por Washington. Pedia naquela ocasião a interferência do governo Lula pra mediar a questão e temia que uma ação violenta de Uribe tirasse as chances de libertação de sua filha. 

Dona Yolanda estava certa. Uribe tem as mãos sujas de sangue. As Farc tem as mãos sujas de sangue. Os paramilitares tem as mãos encharcadas de sangue. Agora, por que militares, politicos e congressistas à direita na Colômbia aplaudem ato tão selvagem e bárbaro ? desde quando assassinatos vis devem ser comemorados ? e desde quando achamos isso normal?? 

Desde quando é natural que o limitrofe George Bush venha a publico parabenizar seu colega colombiano por uma violação de soberania ? Oportunismo de Chavez ou não fato é que deveriam sim reverberar mundo afora protestos contra o ato insano perpetrado pelo governo colombiano com a ajuda de satélites americanos , segundo me revelaram minhas fontes...afinal quem esteve tanto tempo mergulhado na Colômbia também tem fontes quentes lá né não?? 

Oportunismo de Rafael Correa ou não o presidente do Equador está no direito em espernear pela violação do seu território e em chamar de "canalha" o governo de Uribe. Agora, polêmicas a parte, reflexo de um mundo doente é comemorar com sorrisos e festas , é exibir como troféu de hipica o corpo sujo, lacerado e maltrapilho de Reyes. 

A morte perde sua dignidade e os homens não se dão ao respeito. Sintoma de que a Colômbia pode ter entrado numa guerra sem fim. E isso, prezados leitores, não é ( repito mais uma vez) sinal de simpatia pelas Farc mas sim sinal de que fica dificil crer na humanidade quando a barbárie vira artigo para ser consumido durante as refeições. Acho que uma guerra entre os países envolvidos é improvável. Mas as fissuras provocadas por esse ato insano podem ser incontornáveis. A síndrome da cabeça de Lampião se materializou na Colômbia.


Extraído do blog do Ricardo Soares (Foto) TODOPROSA

domingo, 9 de novembro de 2008

Charge


Brasa no Sertão


O cão de fogo
Fez a faísca
Acendeu o pavio
Alumiou o Lampião
Virgulino tocou brasa no sertão
O grande dragão alevantou-se
Sob o inclemente sol da caatinga
Espinho do mandacaru
Mandioca brava
Cabra da peste
Espingarda, sua espada
Gibão de couro, armadura
No chapéu a estrela da justiça sem lei
Samurai do Nordeste
Facínora sanguinário ?
Herói dos desvalidos ?
Robin Hood dos fracos e oprimidos ?
Lampião tocou brasa no sertão
Fez brotar o medo e a admiração
Até que cercado pelos macacos da volante
Caiu sem vida ao chão
Deixou de ser Virgulino
Virou lenda, assombração...


(Gustavo Adonias)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pérolas do cangaço!

Encontro Histórico

Vamos dar inicio a uma série de postagens sobre os absurdos cometidos pela imprensa, livros, sites que "tanto se preocupam" com a verdade dos fatos.

Este veio do site da sociedade de assitência aos cegos.
O trocadilho foi inevitável.

Eis o suposto encontro. 

Em 15 de fevereiro de 1924... (xiiiiiiiii já entraram lascando) ...aconteceu em Juazeiro um encontro memorável reunindo algumas figuras marcantes do Nordeste: Padre Cícero Romão Batista, Doutor Floro Bartolomeu, Virgulino Ferreira, o Lampião, e Cego Aderaldo (Foto). Lampião quis ouvir a cantoria do célebre violeiro e Aderaldo não se fez de rogado. Puxou a rabeca, tirou a nota mais apropriada e soltou o verbo:

“Existem três coisas que se admira no sertão:
O cantar de Aderaldo,
A coragem de Lampião
E as causas prodigiosas do Padre Cícero Romão”.
O temível cangaceiro envaideceu-se, abraçou Cego Aderaldo ofertando-lhe, na ocasião, umas moedas de vintém e uma pistola de estimação que carregava na cintura. Consta que Lampião, tirando as vezes de cantador, improvisou uns versos para Aderaldo:

“Aderaldo seu pedido pra mim foi muito belo
Se você não fosse cego lhe dava um “papo-amarelo”
Tome esta pistola velha
Que matou Antonio Castelo”.
A pistola e uma das moedas são entesouradas pelo pesquisador João Eudes, de Quixadá, que as recebeu de Aderaldo alguns anos antes de sua morte.


Pistola para um cego?: A história apócrifa é mais resistente que o Palácio de Mossoró.
Confiram, mas não bebam desta fonte: SAC

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Cantigas de Lampião


O cangaceiro do bando de Lampeão, Antônio dos Santos, apelidado de Volta Sêca, canta nas oito faixas deste CD, originalmente editado num LP de dez polegadas da gravadora Todamérica, em 1957, com arranjos do maestro Guio de Moraes e narração do apresentador da Rádio Nacional Paulo Roberto.

Cada faixa é prefaciada por um texto curto (meio romanceado, como convinha na época), lido pelo locutor. Em seguida, Volta Sêca entoa as melodias quase à capela e a orquestração irrompe geralmente no compasso do baião, com acordeon e zabumba.

Os épicos da saga de Lampeão Mulher Rendeira (com os versos originais, utilizados no ataque do bando à cidade de Mossoró), Acorda Maria Bonita (a cantiga de despertar do grupo) e mais a lírica - Se Eu Soubesse ("que chorando/ empatava sua viagem/ meus olhos eram dois rios/ que não te davam passagem") entram no precioso registro, onde todas as composições são atribuídas exclusivamente a Volta Sêca.

Não falta o desafio Sabino e Lampeão, no qual o bando, que chegou a somar 240 integrantes, xiiiiiiiiiii cutuca o chefe com vara curta, e lamentos quase parnasianos como Escuta Donzela (encordoado por um violão na linha de Dorival Caymmi).

Cangaceiro a partir dos 11 anos, prisioneiro da polícia por outros 20, Volta Sêca mostra seu talento de voz trêmula nas queixas de Eu Não Pensei Tão Criança ("na flor da infância/ padecesse assim").

O baião Ia Pra Missa decifra o código dos embarcados para a guerra contra os "macacos" da força repressora.

E A Laranjeira transborda de requinte poético, ao comparar o amor não correspondido ao bacutinho, a flor que fenece e morre sem dar frutos. Uma pequena jóia histórica de curta duração.

(Tárik de Souza)

Ficha técnica:
Produtor fonografico: INTERCD Gravações e edições musicais ltdaLicença: TODAAMERICA Musica Ltda RJPRÉ-MASTERING: Digital Midia Mastering SP
PRODUÇÃO ARTISTICA: Paulo de Almeida Rodrigues
capa: FOTOS (ORIGINAIS GRÁFICOS) TODA AMÉRICA Musica Ltda RJDESIGN : LeArt
NARRAÇAO: Paulo Roberto

PARA DOWNLOAD: Clique aqui

FAIXAS:1. Acorda Maria Bonita
2. A Laranjeira
3. Ia pra Missa
4. Mulher Rendeira
5. Se Eu Soubesse
6. Sabino e Lampeão
7. Escuta Donzela
8. Eu Não Pensei Tão Criança

Bom proveito!

História dos Volantes

Mané Véio, O carrasco de Angico 
Por: Alcino Alves da Costa


Todos foram endeusados, ganharam fama, glórias e troféus especialmente o comandante da Força responsável pelo grande feito, o Tenente João Bezerra e seus imediatos Aniceto Rodrigues e Francisco Ferreira de Melo. No entanto o que não se pode esconder é a bravura de alguns dos participantes daquela memorável batalha, homens como o Cabo Bertoldo, Cabo Juvêncio irmão do afamado rastejador Gervásio da volante de Zé Rufino, Panta de Godoy (possível matador de Maria Bonita), Zé Gomes, Noratinho e Abdom. Homens que faziam parte de um contingente de verdadeiros heróis.

Todavia não tem como esquecer a bravura e a coragem daquele que foi sem nenhuma dúvida o grande baluarte, o gigante de Angico, o verdadeiro comandante daquela inigualável batalha o extraordinário Manoel Marques da Silva famosamente conhecido pelas alcunhas de Mané Veio e Antonio Jacó. Mané Veio era baiano de Santa Brígida, ele e o Cabo Juvêncio deixaram as forças de seu estado e foram trabalhar sob as ordens de João Bezerra.

Vale a pena enfatizarmos a História desse titã de Santa Brígida. Manoel Marques da Silva é o seu nome de batismo. Era filho de Jacó Marques da Silva e Jovina Maria da Silva, sendo sobrinho de outro valentão, o lendário Elias Marques, morto no fogo da Maranduba e primo do filho deste o não menos famoso Procidônio. Pai e filho formam a dupla infernal que costumava brigar unida em memoráveis batalhas, contra os grupos cangaceiros. Na Maranduba Elias é baleado em um dos braços.

A principio o ferimento não parecia grave, no entanto sobreveio uma hemorragia e, se esvaindo em sangue, é amparado pelo sobrinho e pelo filho. Era tarde.Nada se podia fazer. Elias morria nos braços do filho e do sobrinho. Mané foi criado nas modestas ruas de Santa Brígida. Os moradores daquele pequenino arruado eram aparentados e o filho de seu Jacó viveu a sua meninice e infância ao lado de Zé de Neném, de Maria Bonita e de seus numerosos irmãos.

Como sabe, anos depois, já em 1930, a filha de seu Zé Felipe e Dona Maria Déa, após um casamento mal sucedido com o sapateiro Zé de Neném, bandeia-se para a companhia de Virgulino Ferreira. O baianinho desde criançinha era chamado pelo carinhoso apelido de Mané Veio. Era magricela, esguio, alto, de boa presença e com uma conversa fluente, porém genioso e mal criado ao extremo. Ao completar 17 anos em 1929, uma vez que veio ao mundo em abril de 1912, ingressou nas fileiras da volante de Francisco Moutinho Dourado, o terrível Douradinho, passando depois pela volante do Sargento Adolfo, até ingressar na Força comandada pelo irmão de João Maria de Serra Negra, o Tenente Liberato de Carvalho.

Mané Veio foi um dos participantes do extraordinário combate da Maranduba, ocasião em que atirou tanto que seu mosquetão ficou com o cano em brasa estourando a culatra da arma, deixando-o surdo de um dos ouvidos pelo resto de seus dias. Acontece uma terrível inesperada desgraça na vida do valentão de Santa Brígida. Essa provocação veio da esteira de seu casamento com uma mocinha dali mesmo. Uma bela menina chama Cidália. Os primeiros anos foram de felicidade. Nasceu um filho. Foi batizado com o nome de Abílio. O casal vivia num mar de rosas. Os dois se amavam profundamente. Mas entre eles existia uma quase que intransponível barreira. O gênio fortíssimo de ambos.

Apesar de se amarem, Mané Veio e Cidália possuíam uma incompatibilidade de gênio muito forte. Encruzilhada que fez com que aquele casamento se tornasse uma tragédia sem precedentes na história da povoação do sertão da Bahia. O principal motivo para os dissabores eram os pendores irreversíveis do filho de seu Jacó para as aventuras amorosas. Alem de outros romances extraconjugais mantinha forte e ardoroso caso com uma mocinha do lugarejo Curituba, daquele mesmo estado. A cabocla se chama Pureza e é ela a causa maior dos desacertos do casal que se arrasta até chegar na separação definitiva.

Apesar de separado da esposa e do filho o militar não deixa de cumprir com suas ocupações de dono de casa, procurando assim manter as despesas da família. Recomenda ao parente João Silva que não deixe a sua mulher e seu filho passarem fome durante os dias em que estivesse viajando, durante a sua ausência o parente e amigo suprisse as necessidades da casa que quando ele retornasse das viagens quitaria as dividas. Em um desses retornos inicia-se a grande provocação e desventura do moço de Santa Brígida. Depois de mais uma caçada, perseguindo cangaceiro, retorna para o merecido descanso.

Mais que depressa procura o parente. Precisa acertar contas. A conversa entre os dois foi a de sempre. Tudo acertado vão tomar banho na fonte das Caraíbas. O rapaz de Santa Brígida conta peripécias de sua viagem pelos cafundós dos sertões à caça de bandidos. O banho é demorado. Lá pelas tantas resolvem sair da fonte e vão vestir as suas roupas. É nesse instante que a desgraça se apresenta na vida do moço da volante. Do bolso da calça do João cai um papel.

Mané Veio vê, imagina que é um bilhete e de sua cabeça brota uma inconcebível injustiça, julga que a letra que está naqueles rabiscos é a de sua esposa. Apesar de violento o caçador de cangaceiro consegue dominar seu doentio ciúme. Nada diz ao amigo. Continua a conversa calmamente. Não demonstra que está enlouquecido pela suspeita de infidelidade de sua esposa. Ao se ver sozinho o militar quer saber onde Cidália está. É informado que ela se encontrava na Fazenda Cajueiro lavando roupas, acompanhadas de amigas e da irmã Zafira. Ensandecido pega o mosquetão e vai procurá-la. A mulher, inocentemente lava suas roupas e a de seu filhinho. Não imagina a tragédia que dela se avizinha.

Conversa alegremente com as companheiras. De repente o marido desponta. Apesar de com ele não mais morar, ainda o ama e o respeita por demais, alegra-se com a presença do pai de seu filho. As lavadeiras olham, curiosas, o homem que vem chegando. Nada temem. Não esperam que ele seja capaz de cometer alguma ação criminosa contra a sua esposa. O soldado chega se aproxima de Cidália e manobra sua arma. A infeliz mulher percebe a desgraça que se abate sobre ela e corre, procurando amparo no corpo da irmã. O enlouquecido marido não lhe dá tempo e nem oportunidades de se livrar da morte.

Um certeiro balaço destroça o seu rosto, deixando-a estendida no chão morta. O verdugo ainda dá mais dois tiros na infeliz e deixa o local. Acabava de praticar um monstruoso e hediondo crime. O crime que abalou Santa Brígida e todo o sertão baiano. O povo se revolta. Tudo aquilo era uma descomunal injustiça. Ficou comprovado que Cidália era inocente. Jamais mantivera romance com quem quer que fosse. A atitude extremada do soldado foi abominável. Severas providências teriam que ser tomadas. O assassino não quer pagar pelo bárbaro crime que cometeu. Homizia-se.

Embrenha-se na mataria e fica um ano escondido no Serrote do Galeão, enfurnado numa gruta que hoje é conhecida como A Toca de Mané Veio. Protegido pelos militares consegue se transferir para Alagoas, onde fica sob a proteção do Tenente Lucena e sob o comando de João Bezerra da Silva.

Em Alagoas troca de nome. Deixa de ser Mané Veio para se tornar Antonio Jacó e, como não poderia deixar de ser, confirma a fama de valentão. Em pouco tempo é um dos principais homens da volante. Em todos os combates é um dos vanguardeiros. Um feroz guerreiro. O verdadeiro comandante da tropa que atua. Eis que chega o dia de Angico. É nesse épico que sua valentia e desassombro o torna ainda mais grandioso. A sua destacada atuação foi especial, fazendo-o grande timoneiro que dirigiu a lendária batalha desde os momentos iniciais do cerco até o seu retumbante desfecho.

Vejamos: Foi Mané Veio, ou Antonio Jacó, se quiserem, quem arrancou as unhas de Pedro de Cândido, fazendo-o revelar onde Lampião estava acoitado. Foi através de suas ameaças que Pedro acabou delatando o seu irmão Durval que ao se ver com um punhal apontado para sua garganta pelo aspirante Francisco Ferreira de Melo, que Bêbado e violento poderia muito bem consumar o seu intento homicida, além de já ter dado alguns safanões no então rapazinho de Dona Guilhermina, o moço se viu obrigado a dizer onde Lampião e seu bando estavam acoitados.

Foi Mané quem repudiou a tentativa covarde de João Bezerra de não atacar Lampião em seu reduto de Angico, com a justificativa de que dispunha de poucos homens para enfrentar tão numeroso grupo de bandidos, comandados pelo Rei cego. Foi Mané Véio o matador do cangaceiro Mergulhão, um daqueles de Poço Redondo, quando este, no meio da fumaceira, tentava salvar-se do inferno de Angico e murmurava: - Sou do Poço, sou do Poço. Foi Mané Véio ainda o matador de uma das maiores estrelas do cangaço, um dos poucos que restavam dos afamados veteranos que com Lampião lutara desde os tempos de Pernambuco, o famoso valentão do retiro, um dos maiorais da história cangaceira, Luis Pedro.

Conta o bravo homem de Santa Brígida, avalizado pelo respeito de sua própria história, que durante a batalha, já no final do tiroteio, começa a descer o riacho e, de repente, vê um cangaceiro caminhando, em sua direção. O bandido parece dominado pelo cansaço. Caminha lentamente. Sobe com dificuldade a ribanceira do riacho. Aquele dia é um dia de sorte para a força que cercou e atacou Lampião.

Uma grande e providencial pedra protege e ampara o valentão da Bahia que expectante observa o caminhar do cangaceiro e tranquilamente espera-o com o dedo no gatilho de seu mosquetão. Conforme o bandido se aproxima, o soldado vai trazendo-o sob o ponto da mira de sua arma. Está abismado. As vestes daquele cangaceiro são especiais, muito luxo, muita riqueza. Parece mais um tesouro ambulante. O chapéu é coberto de estrelas, os dedos estão repletos de anéis e alianças. Percebe, no entanto, que o bandido não é Lampião. Sabia que o rei era amorenado, cabo verde, e aquele que se aproximava era branco, meio sarará, pensou que era Corisco. O assecla cada vez mais se aproxima. Vem chegando. Vem chegando. Está muito cansado. Sua respiração é ofegante.

A pedra impede que o sequaz veja o soldado apontando-lhe o fuzil. Chegou a hora. O dedo aciona o gatilho. O estampido da arma estronda. A bala atinge o coração do cangaceiro. Algo inesperado está acontecendo. Contra toda expectativa o bandido continua caminhando. Dando a impressão de que não foi atingido e, ainda mais assustador, o facínora faz menção de puxar uma arma do coldre.

Neste instante os dois valentões estão frente a frente. Mané Véio é rápido. Dá o segundo tiro. Dessa vez bem em cima do umbigo. O assecla cai de lado. Não faz movimento algum. Parece até que caiu morto. Sem perder tempo o matador corre e inicia o saque. O morto era Luís Pedro, seguramente o principal companheiro de Lampião, talvez o último remanescente das grandes estrelas dos tempos de Pernambuco. Ali está, no meio do famoso riacho, o corpo do célebre caititu, apelido que lhe dera Maria Bonita.

O homem de Santa Brígida está abismado com o luxo e a riqueza do bandido. Além dos anéis e alianças que abarrotam e enfeitam seus dedos, carrega em seu corpo um número vultoso de lenços e jabiracas, tudo da mais refinada qualidade. Apressado e sem querer que os companheiros cheguem, o baiano corta as munhecas do facinoroso, arranca os lenços e as jabiracas, colocando tudo dentro do seu bornal. Revira os bolsos e os bornais do assecla e encontra uma quantidade muito grande de dinheiro e uma lata cheia de ouro. Ao ver tanta fartura, tanto dinheiro, tanto ouro, dá gritos de alegria e felicidade.

O cabo Juvêncio e o soldado Zé Gomes chegam. Mané Véio já havia saqueado quase tudo. Conseguira tanta coisa que estimula os companheiros a procurar o que restou dos pertences do afamado bandoleiro. A procura dos militares não foi em vão. Num dos bolsos do sequaz, Juvêncio ainda encontrou a quantia de quatro contos de réis.

Após o saque os três militares descem o riacho. Estão indo para o coito. Não sabiam que o cangaceiro apagara de vez a sua luminosa estrela. De repente um cabra passa em desabalada carreira. Dá para se notar que o cangaceiro carrega em uma das mãos uma lata. O bandido já está apavorado. Quer se salvar daquele inferno. Mané atira e erra. O assecla joga a lata no chão. Foi sua salvação. Soldado não caçava cangaceiro para proteger a sociedade, a caçada tinha um único objetivo: os pertences dos bandoleiros. Foi o que aconteceu. O bandido foi deixado de lado. Foram procurar a lata.

Zé Gomes foi o felizardo encontrando-a e dentro dela existia uma quantidade tão grande de dinheiro que chegava a ultrapassar cento e vinte contos de réis. Pensa-se que esta lata pertencia a Lampião ou a Maria Bonita. O nunca esperado havia acontecido. Lampião está morto. As cabeças são decepadas. João Bezerra ordena que os despojos sejam colocados em um monte para que sejam repartidos entre todos os que participaram da extraordinária contenda. Zé Gomes, simplório e ingênuo, bestamente entrega a lata com todo o dinheiro que ela continha.

Mané Véio fica enfurecido com a atitude do companheiro. Sabia que nunca mais nenhum soldado iria ver aquela enorme quantidade de dinheiro. E foi o que aconteceu. Nunca mais ninguém soube o paradeiro daquela fortuna. Aborrecido com a loucura de Zé Gomes, o baiano aguardou sua vez. Espera que seu comandante proceda com ele da mesma forma que procedeu com seu companheiro. É o que acontece. João Bezerra o intima a também entregar os bens arrecadados nos saques.

Antonio Jacó já estava prevenido. Respondeu com desassombro que não tinha nada pra dá a ninguém e que tudo que havia conseguido era dele e não adiantava pedido, era dele e de mais ninguém e se alguém não quisesse que fosse assim que o enfrentasse. João Bezerra não era de enfrentar situações perigosas. Conhecia a valentia de seu comandado. Não insistiu no sei intento e o matador de Luís Pedro e Mergulhão ficou com tudo o que achava ter direito. Ainda tinha algo fazer. Em um de seus bornais estavam as munhecas das mãos de Luis Pedro. O que fazer com elas?

Ao chegar em Piranhas, nas Alagoas, encontra solução para seu problema. Enterra as mesmas no oitão da igreja da cidade Ribeirinha. Conhecendo, como conhecia João Bezerra, o baiano sabia que o mesmo não o perdoaria pela desobediência e por não ter lhe entregue os pertences dos cangaceiros. Tudo o que aconteceu é motivo de preocupação. Precavido, esconde num lugar bem seguro, o ouro e o dinheiro. Toma uma decisão. Deixa a policia e foge para as longes terras do Estado de Goiás.

Após alguns anos muda-se para São Paulo. O seu meio de vida ainda é a herança da grota de Angico, negocia com ouro, esse precioso metal tem sido a sua única fonte de renda. No entanto a sua vida continuou cheia de enormes provações, com fatos e acontecimentos que lhe trouxeram sérias desventuras e grandes tristezas. Naquelas estranhas terras, mais uma vez, volta a mudar de nome.

Agora se chama Euclides Jacó. Todavia o destino não queria saber dessas mudanças, vivia sempre em seu encalço e, para tal, tinha um poderoso instrumento: as mulheres. Cidália, a esposa de Santa Brígida, foi sua primeira desventura. Uma tragédia sem limites. Nas terras grandes, como diziam os antigos, os fatos se repetiram. Corre solta? A fantástica história de que o matador de Mergulhão e Luis Pedro, em sua nova vida, se casara com uma bela mulher e os dois tiveram uma linda menininha.

Tudo era felicidade naquele lar. Até que a desgraça volta a se apresentar na vida do antigo combatente de Lampião. Sua esposa está amando outro homem. É avisado. Sua filha já tem quase quinze anos. Morre de amores por ela. A noticia da infidelidade da mulher destroça sua alma se seu sentimento. Reage. A sua dignidade de homem e de macho não será afrontada.

Ainda é o mesmo homem dos tempos do norte. E a filha? Como reagir para não machuca-la tanto? De imediato passa a viver sozinho. O freio de sua vingança é a filha que tanto ama. Eis que a desgraça se apresenta. Um dia ao passar em um ponto de ônibus, se depara com a esposa e a filha esperando o coletivo. Não se controla. É dominado por uma fúria sem igual e se vê dominado por uma medonha e brutal vontade de assassinar a mãe de sua querida filha. A tragédia foi total. Sua amada filhinha foi também mortalmente ferida. Ali, no meio da rua, mãe e filha foram ceifadas desse mundo pelo desesperado esposo e pai.Mané Véio foi preso. Passou muitos anos na cadeia. Pagou sua irreparável dívida com a costumeira dignidade.

Muito tempo depois um judeu o conheceu e resolveu ajudá-lo. O antigo militar conseguiu angariar a confiança de seu protetor e com ele viajou para muitos países e lugares do mundo. Naqueles mundos distantes o antigo caçador de bandido pôde ver as diferenças absurdas naquelas terras com o sertão do norte, o sertão de sua vida aventureira, os sertões distantes da Bahia. O sertão em que perseguiu Virgulino Ferreira da Silva. Portanto, foi este homem, um dos grandes titãs da guerra cangaceira. O verdadeiro carrasco de Angico. Mané Véio é verdadeiramente uma lenda viva perambulando por este Brasil.

* Agradecimento aos confrades Ivanildo Silveira e Clenaldo Santos pelas páginas transcritas.

O bode enterrado

Iguaria da culinária sertaneja pode ser experimentada em Serra Talhada


Uma peculiaridade da culinária sertaneja chama a atenção em Serra Talhada. Trata-se do “Bode Enterrado no Chão”. O preparo do bode dura aproximadamente doze horas e é feito de forma até certo ponto ritualística. Enquanto o bode é preparado para ser enterrado, vaqueiros entoam os aboios, cantos característicos dos sertanejos que, normalmente, falam sobre o modo de vida sertanejo.

O local onde esse preparo pode ser acompanhado é a fazenda Barreiros. O responsável pelo preparo, Álvaro Severo, explica que a razão pela qual a carne é enterrada para ser cozida é para resgatar o modo de preparo feito pelo povo antigo, que muitas vezes não possuía sequer uma panela para utilizar no preparo. “Nós envolvemos toda a carne com o bucho e em seguida colocamos uma bolsa térmica em volta. Depois disso, utilizamos a pele do animal para cobrir tudo e colocamos dentro de um buraco, enchendo o resto com brasas para cozinhar o bode”, contou Álvaro. “Depois de doze horas, os vaqueiros cantam novamente os aboios enquanto a carne é retirada e servida”, finalizou.

Além da carne do bode enterrada, a Fazenda Barreiros disponibiliza também uma série de trilhas e oficinas, que propõem a descoberta do modo de vida dos cangaceiros. As oficinas dão aulas de sobrevivência na caatinga e culinária sertaneja.

Para os interessados em experimentar alguma dessas atrações, os telefones para contato com Álvaro Severo são: (87) 9922 - 6627 e (81) 9604 - 3444.

Foto: Rafael Medeiros

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Neco de Pautilia


A vida após o cangaço


Visitando Floresta - PE em Julho de 2008 na companhia dos confrades NetinhoNogueira e Marcelo Rocha tivemos a grata oportunidade de conhecer e conversar com um dos últimos Nazarenos vivos, o ex comandante de Polícia Manoel Cavalcanti de Souza, Neco de Pautilia. A satisfação era notadamente mútua, o velho guerreiro se realiza com cada visita que recebe.

O tempo lhe cobra tributos, perdeu parte da visão de um dos olhos, apesar da bengala ainda caminha sem muito esforço, A memória então... é a mesma de grande parte das testemunhas desta história, até parece que foi ontem, rica em detalhes. No final do encontro ele lamentou a nossa pressa e nos entregou um texto contendo o resumo de sua vida e uma homenagem a sua saudosa e inesquecível Nazaré do Pico.


SERRA DO PICO “BALIZA DA NOSSA TERRA”
Muitos jovens de Nazaré foram para a Bahia perseguir Lampião e só voltaram depois de dois ou três anos para visitar as famílias, eu estava entre estes.

Chegando em cima do velho Alto grande do Jatobá, avistamos a Serra do Pico. Apesar de estarmos voltando desinteirados foi festa com direito a fogos, ou melhor, com os estampidos dos tiros de fuzil. A Serra do Pico pode ser vista de muito longe, não sei calcular sua altitude, mas sei que quanto mais longe, mais bonita e naquele momento quando a avistamos parecia já estarmos em casa, pois ali é o marco de nossa terra. A alegria foi passageira lembramos que chegaríamos à Nazaré sem os sete companheiros que ficaram enterrados nas terras frias do estado de Sergipe, vítimas do tiroteio de Maranduba, em 09 de Janeiro de 1932. Foram estes: Sargento João Cavalcanti, Sargento Hercílio Nogueira, Adelgício Nogueira, Antonio Benedito, Elias Barbosa, Pedrinho de Paripiranga e Manoel Boaventura que não resistiu aos ferimentos e veio a falecer no hospital de Penedo – AL.

Naquela fatídica batalha nos posicionamos em cima de um banco de macambira e os cangaceiros em campo aberto, as baixas do grupo de Lampião foram: Sabonete (secretário de Maria Bonita), Catingueira e Quina-Quina e ainda foram presos Bananeira e Volta Seca. Para sepultar os nossos seis companheiros abrimos covas com ponta de facão, cavador de madeira e um machado velho, e a terra era retirada com as mãos. Eu, Manoel Cavalcanti de Souza participei de seis tiroteios com Lampião os principais foram: no Raso da Catarina com o Tenente Ozório Cordeiro, O fogo da Maranduba- mais notável – e o do Riacho da Guia com o Coronel Liberato e o Sargento Odilon Flor, e mais dois em plena caatinga após os quais pedi baixa já como comandante de um pelotão e voltei a minha terra. Casei-me com uma Alagoana de Pão de açúcar e fixei residência no mesmo estado, foi na cidade de Caboclo que travei meu sexto e último combate com Lampião.

Era costume de ele vingar-se de policiais que antes o haviam perseguido e foi o que aconteceu comigo, através de coiteiros ele tomou conhecimento de nosso paradeiro; cercou nossa barbearia em pleno meio dia de um domingo, houve tiroteio, mas sozinho consegui escapar deixando morto o cangaceiro Pó corante. Como policial dei minha contribuição com muita dignidade aos meus conterrâneos e nunca deixei de cumprir uma ordem dos meus superiores.

Fui agricultor e pecuarista, almocreve, sapateiro, barbeiro, alfaiate e finalmente funcionário público da comissão do Vale do São Francisco de onde só saí aposentado. Nesta companhia uma das atividades que desempenhava era de fazer cobranças e voltando de uma delas na Bahia novamente avistei ao longe Serra do Pico, demorei muito contemplando aquela bonita visão recebendo os raios do sol, tal demora me fez perder a lotação que ia para Floresta, mas essa hora perdida me salvou de uma emboscada fatal. Os tiros que eram pra mim findaram tirando a vida de um outro conterrâneo de Nazaré, O Sr. Tiodomiro Gomes de Sá, no dia 12 de Dezembro de 1970. Sou filho do agricultor e pecuarista Pedro Gregório Ferraz Nogueira e de Pautilia Cavalcanti de Souza, nasci no dia 21 de dezembro de 1912 na Fazenda Ipueira (4° distrito de Floresta) resido atualmente à Rua Manoel Novaes, 42 e me responsabilizo por todas as informações aqui descritas.

Floresta – PE, 20 de Maio de 2002.